18 de ago de 2012

Condenação das meninas da banda “Pussy Riot” põe em cheque a legitimidade da democracia russa

RÚSSIA - Opinião
Condenação das meninas da banda “Pussy Riot”
põe em cheque a legitimidade da democracia russa
A juíza Marina Syrova sentenciou as três integrantes da banda “Pussy Riot” a dois anos de prisão por "vandalismo" motivado por ódio religioso nesta sexta-feira (17) em Moscou na Rússia. As três foram presas, processadas e declaradas culpadas porque cantaram uma "oração punk" no altar da catedral de Cristo Salvador em fevereiro, pedindo para que a Virgem Maria "livrasse" a Rússia de Vladimir Putin, o então primeiro-ministro e hoje presidente. A decisão desproporcional tem forte conotação autoritária. O julgamento motivou reações internas e externas quanto à legitimidade da democracia na Rússia.

Foto: Associated Press

As acusadas Maria Alyokhina, 24, Yekaterina Samutsevich, 29, e Nadezhda Tolokonnikova, 22, exibem o veredicto de condenação, dentro da cela envidraçada no recinto do julgamento.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Daniel SandfordDa BBC News em Moscou
Fonte: BBC Brasil

Foi um protesto que durou menos de um minuto, um julgamento que durou apenas uma quinzena e uma sentença lida em três horas.

Mas o caso da banda de punk russa Pussy Riot está sendo visto por diplomatas ocidentais e grupos de direitos humanos como o símbolo de muitas coisas equivocadas na Rússia, bem como do perigoso rumo autoritário que o país está tomando desde a volta de Vladimir Putin à Presidência, em maio.

O grupo de três jovens artistas ousou fazer o impensável: em fevereiro, elas fizeram uma performance de protesto contra Putin dentro de um dos locais mais sagrados da principal igreja de Moscou, a Catedral de Cristo Salvador.

As três integrantes da banda foram condenadas, na última sexta-feira, a dois anos de prisão, por vandalismo, em sentença que despertou fortes críticas internacionais por sua dureza.

As artistas - Maria Alyokhina, 24, Nadezhda Tolokonnikova, 22, e Yekaterina Samutsevich, 29 - podem ser jovens, tolas e insensíveis aos sentimentos religiosos dos demais, mas grupos como a Anistia Internacional afirmam que de forma alguma isso justifica que todo o poder do aparato oficial russo seja usado contra elas.

Em vez de receber uma multa por ofender a ordem pública, elas foram detidas ao longo de cinco meses antes do julgamento, no qual foram condenadas por ofensa criminal motivada por ódio religioso. Passarão dois anos detida em uma rígida colônia penal russa.

O presidente russo, Vladimir Putin alvo de protestos em Moscou e no mundo
Estado secular
A banda Pussy Riot vinha protestando conta supostos laços entre Putin e a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, considerando essa relação constitucionalmente questionável (a Constituição russa diz que o país é secular e que nenhuma religião pode ser abraçada pelo Estado).

Agora, com a condenação das três, grupos de direitos humanos afirmam que a reação estatal ao protesto das três mostra que elas tinham razão em se queixar.

As autoridades da igreja foram alguns dos maiores entusiastas do julgamento da Pussy Riot. Por alguns momentos, as sessões judiciais pareceram quase uma corte religiosa, com as testemunhas sendo questionadas se eram reais praticantes da fé ortodoxa.

Também foram levantadas questões quanto a se o julgamento foi justo. Os advogados de defesa às vezes pareciam desesperados diante do que chamavam de mostras de parcialidade da juíza Marina Syrova.

Os advogados poucas vezes puderam questionar testemunhas da acusação, e muitas de suas próprias testemunhas foram vetadas.

Como Putin será afetado?
Por tudo isso, diplomatas ocidentais em Moscou afirmam que o caso Pussy Riot resume o atual estado das coisas na Rússia atual. O Estado russo é visto por críticos como um sistema político em que o Kremlin microgerencia muito além do esperado.

A linha entre o Estado e a Igreja é tênue, e, no sistema legal, promotores e juízes parecem não ter qualquer independência.

O governo russo tem sido alvo de fortes críticas internacionais, mas a questão é: o quanto isso afetará Putin?

Em primeiro lugar, muitos russos ficaram realmente chocados com o protesto da Pussy Riot na catedral, e Putin espera conquistar o apoio desse grupo mais conservador.

Segundo, o presidente parece acreditar que a maneira de lidar com a dissidência russa é pressionar os novos opositores, em vez de tratar com eles.

Em terceiro lugar, a condenação internacional pode ajudá-lo a ganhar a confiança de partes da sociedade russa que ainda são profundamente desconfiadas do Ocidente.

*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda ao texto original
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