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21 de dez. de 2014

Queda dos preços do petróleo no mercado mundial agrava escassez de produtos na Venezuela

VENEZUELA – Economia
Queda dos preços do petróleo no mercado mundial
agrava escassez de produtos na Venezuela
Um empresário resumiu a situação: "Não temos guerra mas é uma economia de guerra. Porque mesmo quando você tem dinheiro você não consegue encontrar o que quer”.

Foto: AFP

Produtos básicos, como fralda e leite, sumiram e pessoas fazem filas para tentar comprá-los

Postado por Toinho de Passira
Fonte: BBC Brasil

Eugenia Martinez disse ter acordado às 3h para comprar dois pacotes de fraldas para a filha.

"Em nenhum lugar em Caracas você consegue encontrar fraldas", diz a dona de casa. "Então quando alguém me avisa sobre onde encontrá-las, tenho que ir".

A falta de produtos básicos, como a fralda para a filha de Eugenia, tem se agravado na Venezuela com a forte queda no preço do petróleo nos últimos meses.

O país é altamente dependente dos recursos da exportação do produto - segundo estimativas, 96% das receitas de exportação são provenientes do produto. Petróleo mais barato significa menos dinheiro nos cofres do país para garantir acesso a moeda estrangeira e importações de produtos.

”Todos os dias, tenho que ficar na fila para encontrar o que eu preciso... Desse jeito, vamos passar fome” - Eugenia Martinez, dona de casa
Mesmo tão cedo, Eugenia conta ter enfrentado um metrô lotado, antes de se juntar a mais uma fila. Achadas as fraldas, o desafio agora é encontrar leite.

"Todos os dias eu tenho que ficar na fila para encontrar o que eu preciso. Agora, eu não consigo encontrar uma lata de leite. Não acho em nenhum lugar. Estou preocupada porque só tenho uma lata em casa".

"Não consigo imaginar como serão as coisas em janeiro. Desse jeito, vamos passar fome".

Em junho, o preço do barril do petróleo venezuelano - mais pesado para os padrões internacionais - estava ao redor de US$ 100. Na semana passada, o preço chegou a US$ 57,53.

'ECONOMIA DE GUERRA'

A queda do preço do petróleo significa menos dólares nos cofres do governo da Venezuela e para o pagamento de importações.

Para o empresário Alex Hernández, a queda do preço do petróleo tornou ainda mais difícil o acesso a moeda estrangeira necessária para comprar os produtos importados que ele vende.

"Não temos guerra mas é uma economia de guerra. Porque mesmo quando você tem dinheiro você não consegue encontrar o que quer. Empresários estão sob risco", diz ele.

Foto: Reuters

Homem mostra senha escrita en seu braço para marcar seu lugar numa fila para comprar alimentos em um mercado do governo em Caracas

Em 2003, o governo venezuelano definiu uma taxa fixa para o câmbio. A medida foi adotada para que o governo mantivesse o controle sobre os preços e garantir que alguns itens básicos, como pão e arroz, ficassem mais acessíveis aos pobres.

Diante do controle cambial, pessoas e empresas podem receber dólares na taxa oficial somente através de uma agência do governo - e somente para fins de importação de bens ou pagamento de viagens ao exterior.

Como Hernández disse, o preço de produtos na Venezuela tem subido. A taxa de inflação oficial do governo está em 63,4% e o país está beira da recessão.

”Não temos guerra mas é uma economia de guerra. Porque mesmo quando você tem dinheiro você não consegue encontrar o que quer.” - Alex Hernández, empresário
Foi a primeira vez desde maio que o Banco Central local divulgou o índice de inflação. Críticos acusam o governo de omitir dados por razões políticas.

O BC também não divulgou o índice de escassez, que revela os produtos que estão em falta. Mas é evidente que a dificuldade de se obter produtos básicos tem gerado descontentamento entre muitos.

"Todos os venezuelanos têm sentido no bolso a queda do preço do petróleo. Evidentemente está custando muito para a gente. Porque quando o preço cai há menos moeda estrangeira para os importadores", disse Hernández.

"Aqui na Venezuela 90% dos produtos são importados. Quase tudo o que se consome na Venezuela é importado. E lamentavelmente isso colabora para que a alta dos produtos seja maior".

O mecânico Enrique Moreno também se diz afetado pela escassez de produtos - no caso dele, de peças de reposição importadas.

"Nos dizem que este país tem as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas para mim isto é mentira, porque se fosse verdade, não deveríamos estar onde estamos", disse.

"Estamos num período de insatisfação. Você sente nas ruas, falando com as pessoas".

10 de nov. de 2014

Lula ameaça Dilma, através do seu cão fiel, o Ministro Gilberto Carvalho

BRASIL – Entrelinhas
Lula ameaça Dilma, através do seu cão fiel,
o Ministro Gilberto Carvalho
O Ministro Chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho surpreende com uma dúbia e enigmática entrevista a BBC Brasil, onde faz contundentes e inesperadas (auto) críticas (?) ao primeiro governo Dilma. Sabendo-se que ele está ameaçado em perder o emprego e que é o fiel cão de guarda do ex-presidente Lula, vale a pena ver o que ele anda falando por ordem do dono.


Gilberto Carvalho oficialmente cuida da ponte com movimentos sociais, mais que isso ele é o principal homem de Lula, no Planalto

Postado por Toinho de Passira
Fontes: BBC Brasil

Sem ter nem porquê o Chefe da Secretaria-Geral da Presidência, responsável pela ponte entre o Palácio do Planalto e os movimentos sociais, o ministro Gilberto Carvalho afirmou que a presidente Dilma Rousseff se afastou dos "principais atores na economia e na política" nos últimos quatro anos.

As palavras de Gilberto intempestivas e inconvenientes, são uma ameaça velada de que se ela, Dilma, continuar rebelde e não rezar pela cartilha do ex-presidente Lula, poderá ser atingida por fogo amigo, com alto poder de destruição, sem dó nem piedade. Isso é tudo que ele não está querendo no momento.

"O governo da presidenta Dilma deixou de fazer da maneira tão intensa, como era feito no tempo do (ex-presidente) Lula, esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisões. De ouvir com cuidado e ouvir muitos diferentes, para produzir sínteses que contemplassem os interesses diversos", afirma o crítico Gilberto Carvalho, num dos momentos da entrevista.

No seu balanço denuncia, dos quatro anos de governo Dilma, diz que a atual gestão "avançou pouco" em demandas de movimentos sociais, sobretudo nas reformas agrária e urbana e na demarcação de terras indígenas.

Parece a oposição falando: “...faltou competência e clareza" ao governo para avançar na questão indígena, e em alguns episódios a gestão deu "tiros no pé".

Lula mandou o primeiro aviso, ou Dilma faz o que ele está querendo ou depois não reclame. Será que ela vai pagar para ver?

Veja os principais pontos da entrevista, lendo nas entrelinhas:
ENTREVISTA DE GILBERTO CARVALHO
Os principais trechos da entrevista, concedida na quinta-feira no Palácio do Planalto, em Brasília


Dilma e Gilberto, no dia da posse, em 2010.

BBC Brasil - Em seu primeiro discurso após ser reeleita, a presidente prometeu ampliar o diálogo com a sociedade. Foi um reconhecimento de que o governo falhou nessa área?

Gilberto –
A fala da presidenta estava voltada para a necessidade de reunificação do país, porque uma campanha eleitoral deixa sequelas. Mas houve deficiências, é verdade. O governo praticou o diálogo nesses anos, mas, para o padrão da sociedade brasileira hoje, há muito que fazer.

BBC Brasil - Em que pontos?

Gilberto –
Sobretudo no diálogo com os principais atores na economia e na política. O governo da presidenta Dilma deixou de fazer da maneira tão intensa, como era feito no tempo do Lula, esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisão – de ouvir com cuidado, e ouvir muitos diferentes, para produzir sínteses que contemplassem os interesses diversos. Há uma disposição explícita da presidenta em alterar essa prática.

BBC Brasil – Movimentos sociais também se queixam da falta de diálogo.

Gilberto –
Não faltou diálogo, o que faltou no caso dos movimentos sociais foi o atendimento das demandas. A reforma agrária e a questão indígena avançaram pouco. A reforma urbana – as estruturas de funcionamento das cidades, a mobilidade urbana – também não foi o que os movimentos esperavam.

BBC Brasil - Como avançar nesses temas?

Gilberto –
Uma parte compete à presidenta. É ela que deve receber no gabinete as forças dos diversos setores da sociedade. Se o presidente pratica mais diálogo, induz o conjunto do governo a praticar.

Para o atendimento das demandas, tem de fortalecer alguns órgãos de governo. No caso da reforma agrária, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). No caso da política indigenista, a Funai (Fundação Nacional do Índio). Isso implica aumentar o orçamento, fazer concurso, comprar terrenos, indenizar quem está em terra indígena.

BBC Brasil - A Funai está sem presidente efetivo desde junho de 2013, e o governo paralisou todas as demarcações de terras indígenas. Por que crer que nos próximos quatro anos a política indigenista mudará?

Gilberto –
No final do governo, fizemos uma avaliação com a presidenta e ela própria expressou que temos que avançar. Para ela são duas preocupações: a reformulação da saúde indígena e a demarcação, mudando a lei e colocando no orçamento recursos para indenizar famílias que estão em terras indígenas.

Nosso foco é sobretudo os guarani kaiowá e os terenas no Mato Grosso do Sul, onde a stuação é de miséria absoluta, morte, suicídio.

Agora não se pode deixar de reconhecer que cresceu muito, e infelizmente só tende a crescer mais, uma resistência ideológica e econômica fortíssima à questão indígena, que se representa fortemente no Congresso.

BBC Brasil - O governo não colaborou para fortalecer essa resistência quando a Advocacia Geral da União (AGU) publicou a portaria 303, ampliando as restrições ao reconhecimento de áreas indígenas, ou quando a Casa Civil anunciou que outros órgãos, como a Embrapa, passariam a atuar nas demarcações? Foram tiros no pé?

Gilberto –
Foram tiros no pé, sim. A 303, particularmente. No caso da Casa Civil, na gestão da ministra Gleisi (Hoffmann), temos que reconhecer que houve sinais trocados que não favoreceram.


Carvalho defende que o Brasil reduza sua dependência do uso de agrotóxicos

BBC Brasil - O governo também não alimentou essa resistência ao se aliar a políticos tidos como adversários dos índios, como a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO)?

Gilberto –
Atribuir essa culpa ao governo é um absurdo. A direita cresce porque cresce. O partido da Kátia Abreu está na nossa base. Se eu restringir minha base àqueles que pensam como nós, não aprovamos nenhuma lei. Fazer aliança significa trabalhar com o adversário, digo, com o diverso.

Em nenhum momento foi por conta da Kátia Abreu que deixamos de avançar. Não avançamos porque faltou competência e clareza. Mas não dá para dizer que não foi feito nada.

BBC Brasil - O que foi feito?

Gilberto –
Foram demarcadas algumas terras e foram feitas duas desintrusões históricas (a expulsão de não índios das terras indígenas Marãiwatsédé, em Mato Grosso, e Awá Guajá, no Maranhão). Enfrentamos inclusive forças do Congresso. Fui chamado duas vezes na Comissão de Agricultura para levar pancada.

Além disso, iniciou-se uma discussão sobre como resolver conflitos. Uma coisa é você homologar a terra munduruku, uma das maiores do país, no sul do Pará, onde não tinha conflito nenhum. Outra coisa é no Mato Grosso do Sul, onde o próprio governo levou gente lá e titulou essas pessoas.

Isso gera um problema enorme, porque a lei não permite indenizar desapropriações em terra indígena. Teremos que alterar a lei.

BBC Brasil - O governo tem usado a Força Nacional para reprimir protestos contra grandes obras, como em Belo Monte. Não há outra forma de lidar com essas resistências?

Gilberto –
Acho que houve erros em Belo Monte no processo de implantação da obra, no ritmo das compensações e tal. Agora, quando você mantém um diálogo permanente – e instalamos lá uma casa de governo para dialogar – e se apela para ocupação de uma obra que tem interesse nacional, é dever do Estado enviar todos os esforços para que a obra retome o ritmo. Estamos com uma crise energética no país que não é pequena e temos de realizar Belo Monte.

BBC Brasil – A mesma postura valerá para as usinas que o governo quer erguer no rio Tapajós, no Pará? Há queixas de que o governo não está cumprindo a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (que exige que índios sejam consultados sobre obras que os afetem).

Gilberto –
Estamos com uma equipe lá tentando fazer a implementação da 169, mas há uma sabotagem sobretudo da parte de entidades.

BBC Brasil - Que entidades?

Gilberto –
Não vou dizer. Ontem nosso companheiro ligou dizendo que os índios ficam constrangidos, porque querem dialogoar, mas têm medo das entidades, que determinam um comportamento para eles. Estamos numa situação difícil.

É uma intervenção numa área onde o Estado está muito ausente. Um dos erros de Belo Monte foi o Estado não chegar antes da construção e suas consequências. Mas não abriremos mão de construir Tapajós.

A consulta não é deliberativa. Ela deve ser feita para atender demandas, dimunir impactos, mas não é impeditiva.

BBC Brasil - O que acha do pedido do Ministério Público para que ribeirinhos também sejam consultados sobre a obra? Eles serão ouvidos?

Gilberto –
Serão. Não vejo nenhum problema.

BBC Brasil - A oposição cresceu no Congresso e há hoje ali um clima hostil ao governo. Como farão para aprovar as reformas prometidas?

Gilberto –
Há uma repercussão ainda do processo eleitoral. Quando janeiro chegar, as coisas não serão iguais. A composição ministerial vai levar em conta a necessidade de contemplar essas forças no Congresso.

Outro aspecto é a governabilidade social. A eleição mostrou o quanto a militância social está disposta a ir para a luta. É um fator que teremos de trabalhar para fazer avançar processos, sobretudo a reforma política. Se não tiver rua, se não tiver mobilização, não tem nenhuma esperança de passar nesse Congresso.

BBC Brasil - O novo governo começará em meio a um novo escândalo de corrupção, agora na Petrobrás. Teme os desdobramentos do caso?

Gilberto –
Quem já conviveu nesses últimos nove anos com esse clima não tem o que temer. Teria que temer se tivesse algum envolvimento da Dilma ou do Lula na história. Como não tem, vamos administrar isso como fizemos outras vezes.

POLÍTICA PARA DROGAS

BBC Brasil - A população carcerária no Brasil explodiu nos últimos anos por causa da repressão ao tráfico de drogas, mas a violência não diminuiu. Por que o governo não considera rever essa política?

Gilberto –
O tema das drogas é de muito difícil abordagem. Estamos acompanhando a experiência do Uruguai. Ninguém ainda tem muita segurança. Enquanto a população não amadurece uma posição, o governo não tem condição de tomar essa ou aquela decisão de cima para baixo.

Sei do absurdo que é prender um moleque carregando um pouco de erva e jogá-lo na Papuda (presídio no Distrito Federal), mas não sinto no governo nenhuma iniciativa de enfrentar isso nos próximos quatro anos.


Carvalho nega falta de diálogo com movimentos sociais, mas diz que houve poucos avanços

VIOLÊNCIA POLICIAL

BBC Brasil – O que acha da proposta de desmilitarizar a polícia?

Gilberto –
Tenho enorme simpatia, mas é questão pessoal minha. Nos marcos de uma reforma política, de uma reforma do Estado mais ampla, acho que teremos de enfrentar o tema. Mas não acho que desmilitarizando tudo estaria resolvido. A tortura nos cárceres não é feita pela PM, mas pela polícia civil.

BBC Brasil - Por que o governo nunca se posicionou contra a violência policial da mesma forma com que condenou o vandalismo em protestos?

Gilberto –
Em nenhum momento, nas minhas falas ou nas da presidenta, eu vi omissão. Tanto que pessoalmente tive um problema ao fazer uma crítica aberta à PM de Brasília, quando houve aqui uma manifestação dos sem-terra. Fui alvo de tentativa de chamada no Congresso e de recados muito duros da PM.

Nós criticamos a violência das manifestações porque entendíamos que ela conspirava contra as próprias manifestações.

CRISE DA ÁGUA E AGENDA AMBIENTAL

BBC Brasil - Pesquisadores dizem que a crise hídrica que enfrentamos é também uma crise ambiental. O governo, porém, manteve fortes incentivos à indústria automobilística e tem estimulado grandes investimentos em combustíveis fósseis, na exploração do pré-sal. O governo não precisa atualizar sua agenda ambiental?

Gilberto –
Precisa. No caso da água em São Paulo, há um problema ambiental, mas também a ausência de obras. Mas a agenda ambiental que a meu juízo temos de atualizar diz respeito à questão urbana. Ao fortalecimento do transporte coletivo e à diminuição do estímulo ao transporte individual.

Do ponto de vista da matriz energética, temos de investir na diversificação. Na questão do desmatamento, na conversão para o orgânico e o agrobiológico. Temos um programa para que se universalizem essas práticas, inclusive no latifúndios. Precisamos tornar essas fórmulas economicamente rentáveis. Temos que romper a barreira de que o Brasil é o maior consumidor de defensivos (agrotóxicos) do mundo.

BBC Brasil - Isso não contradiz a estratégia atual do governo de conceder empréstimos cada vez maiores a grandes produtores de matérias-primas agrícolas, que fazem amplo uso de transgênicos e agrotóxicos?

Gilberto –
Pelo contrário, você pode usar o financimento como forma de reduzir os juros de quem empregar técnicas menos ofensivas à natureza.

BBC Brasil - Já conversou com a presidente sobre onde estará nos próximos quatro anos?

Gilberto –
Não. Ela não está falando com ninguém sobre isso.

BBC Brasil - Continua no governo?

Gilberto –
Preciso trabalhar, eu acumulei experiência. Se ela me convidar a ficar no governo, eu vou ficar.

BBC Brasil - Há quem diga que o senhor pode ir para Funai ou para alguma embaixada no exterior.

Gilberto –
Só se for no Afeganistão (risos). Falando sério: qualquer ministro aqui na Esplanada que falar qualquer coisa, estará falando bobagem.


9 de out. de 2014

Eleitores brasileiros no exterior: Dilma vence em Cuba, Aécio na Venezuela e Marina na África

BRASIL – Eleição 2014
Eleitores brasileiros no exterior: Dilma vence em Cuba, Aécio na Venezuela e Marina na África
Um levantamento da BBC Brasil a partir dos resultados do primeiro turno das eleições revela que Aécio foi o mais votado em 58 nações, a presidente Dilma Rousseff (PT), em 14, e Marina Silva (PSB), em 13

Foto: Marcelo Heuer/Facebook

LONDRES - O eleitor Marcelo Heuer registra a movimentação de eleitores diante da embaixada brasileira na capital do Reino Unido

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Luís Guilherme Barrucho, para BBC Brasil
Fonte: BBC Brasil

No mapa-múndi da votação dos brasileiros no exterior, o candidato do PSDB à presidência, Aécio Neves, conquistou a maior proporção dos votos em quatro continentes (Américas, Europa, Ásia e Oceania).

Os resultados do primeiro turno das eleições revela que Aécio foi o mais votado em 58 nações, a presidente Dilma Rousseff (PT), em 14, e Marina Silva (PSB), em 13.

Se Aécio dominou a votação em quatro continentes, Marina Silva dominou o eleitorado na África. Já Dilma Rousseff não obteve maioria em nenhuma macrorregião do globo.

Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 141.501 dos eleitores brasileiros (40% do total de 353.504 cadastrados) que vivem no exterior foram às urnas no último domingo passado em 132 cidades de 88 países. Os votos depositados no exterior representam apenas 0,12% do total de 115 milhões de votos computados no primeiro turno.

Em vários países, o número de eleitores foi bem pequeno, o que permitiu uma série de resultados curiosos. O tucano e a petista tiveram o mesmo número de votos na República Democrática do Congo (7 para cada), enquanto a candidata à reeleição e a ex-senadora empataram em Angola (32 para cada).

Todos os três principais candidatos à presidência tiveram o mesmo número de votos em apenas um país do mundo: Jamaica, onde apenas nove pessoas foram às urnas.

Outro resultado curioso é que, se dependesse apenas dos votos dos brasileiros na Venezuela - país de governo socialista e próximo ao PT - , Aécio teria sido eleito já no primeiro turno. Ele obteve 52,2% dos 728 votos de brasileiros no país; Dilma obteve 30,2% e Marina 15,7%.

Já em Cuba, Aécio recebeu apenas 8% dos votos, contra 84% dados a Dilma e 6% a Marina.

Foto: BBC

A votação no Japão foi marcada por longas filas e pela forte chuva, consequência de um tufão que se aproxima da ilha principal.

QUEDA DE DILMA

Do total dos votos de brasileiros no exterior, Aécio ficou com 49,51%, seguido de Marina, 26,01%, e Dilma, com 18,35%.

O que mais chama a atenção na comparação com o resultado em 2010 é a queda acentuada na proporção dos votos em Dilma no exterior. Em 2010, ela obteve no primeiro turno 36,81% dos votos, o dobro do que obteve no domingo.

Marina foi melhor dessa vez - teve 20,43% em 2010 - e Aécio também superou o desempenho de José Serra, candidato de seu partido na corrida anterior, que obteve 40,25% no primeiro turno.

No domingo, Luciana Genro, Eduardo Jorge, Pastor Everaldo, Zé Maria, Levy Fidelix, Eymael, Mauro Iasi e Rui Costa Pimenta completaram, nessa ordem, a lista de preferência dos eleitores no exterior.

Nos países com os maiores colégios eleitorais no exterior, também deu Aécio. Ele levou 58,72% dos votos nos Estados Unidos (de total de 37.111 votos) e 58,41 no Japão. Marina levou 26,71% e 23,49% respectivamente. Dilma ficou com 10,69% e 10,61%.


Mapa mostra países em que Dilma Rousseff (vermelho), Aécio Neves (azul) e Marina Silva (amarelo) tiveram maioria dos votos

CURIOSIDADES

Marina foi a candidata que liderou a preferência dos eleitores na África. A ex-senadora venceu em seis países, contra quatro de Dilma e apenas dois de Aécio. Marina e Dilma tiveram o mesmo número de votos em Angola. Já Aécio e Dilma empataram na República Democrática do Congo.

Na Europa, Ásia, Américas e Oceania, o tucano venceu em mais países. No continente europeu, Aécio foi o preferido do eleitorado brasileiro em 21 países, contra três de Marina (Romênia, Rússia e Noruega) e apenas um de Dilma (Eslovênia).

Na Ásia, o tucano venceu em 16 países, incluindo Japão e China. Já Marina conquistou três (Timor Leste, Índia e Irã) e Dilma apenas dois (Jordânia e Palestina).

Na Oceania, Aécio ganhou mais votos tanto na Austrália quanto na Nova Zelândia.

A disputa mais acirrada ocorreu nas Américas, principalmente na América Latina. Aécio venceu em 17 países, entre eles a Venezuela.

Já Dilma conquistou sete, como Argentina e Cuba.

Marina, por sua vez, foi a preferida dos eleitores em apenas um país: Suriname.

Todos os três candidatos tiveram a mesma votação na Jamaica.

Aécio teve a maior proporção de votos em Cingapura (74,56%) e a menor em Cuba (8%). O tucano também teve votação pouco expressiva em Cabo Verde (7,89%) e na Palestina (10,84%).

O cenário se inverteu com Dilma. A petista foi, proporcionalmente, a mais votada em Cuba (84%) e a menos votada em Cingapura (3,51%). A presidente teve ainda um mau desempenho em Israel (7,46%) e na Tunísia (3,70%). No país africano, votaram apenas 27 pessoas, e Dilma, com apenas um voto, ficou atrás de Luciana Genro e Eduardo Jorge, que tiveram dois.

Já Marina teve a maior proporção de votos na Romênia (61,90%) e a menor na Croácia (5%).

3 de out. de 2014

Com Dilma, Petrobras perdeu R$ 162 bi – o equivalente a todo o Produto Interno Bruto (PIB),de Cuba, em 2013

BRASIL - Desgoverno Dilma
Com Dilma, Petrobras perdeu R$ 162 bi – o equivalente a todo o Produto Interno Bruto (PIB),de Cuba, em 2013
Desvalorização das ações chega a 43% desde início do governo da presidente. Ou seja, as Petrobras vale a metade do que valia, e ganhou o título de empresa de petróleo mais endividada do mundo, desde que Dilma assumiu.

Foto: Wilton Junioe/Estadão

Petrobras: 162 bilhões pelo ralo em valor de mercado

Postado por Toinho de Passira
Fonte:  Veja

A Petrobras deixou de ser a maior empresa do Brasil em valor de mercado na última segunda-feira, depois que as ações da empresa caíram 11% na Bolsa de Valores. Com isso a Ambev, avaliada em 253 bilhões de reais, voltou a ser a maior companhia — posto que ocupava até março deste ano. Até o dia 30 de setembro, as ações da estatal acumulam, apenas no governo Dilma, queda de 162,2 bilhões de reais em valor de mercado, ou 43%. É como se a Petrobras tivesse perdido mais que "um Bradesco" em menos de quatro anos, ou seis vezes a empresa TIM, por exemplo, de acordo com dados da consultoria Economatica.

A estatal tem vivido um ano de altos e baixos na Bolsa. Investidores passaram a apostar nos papéis da empresa em março, quando as primeiras pesquisas de intenção de voto mostravam a presidente Dilma Rousseff com um baixo nível de aprovação e um alto nível de rejeição entre os eleitores. Se contabilizadas as perdas apenas até março deste ano, somam 73%. Isso significa que o brasileiro que investiu 1.000 reais em papéis da empresa em 2008, tinha em março apenas 270 reais.

Com a aproximação das eleições, tanto as ações da empresa quanto a de todas as estatais se valorizaram, com investidores apostando numa mudança de governo. Alvo de corrupção e ingerência, a Petrobras atingiu no governo Dilma o título de empresa de petróleo mais endividada do mundo, com uma dívida de 300 bilhões de reais — maior, inclusive, que seu valor de mercado.


Em 2013, Cuba registrou um Produto Interno Bruto (PIB) de 68,23 bilhões de dólares (169 bilhões de reais, aproximadamente), quase o mesmo valor que a Petrobras perdeu em valor de mercado no governo Dilma.

7 de jun. de 2014

Dueto de serpentes apaixonadas - Lucas Mendes

ESTADOS UNIDOS - Opinião
Dueto de serpentes apaixonadas
Ele chefiou a campanha que elegeu Bill Clinton em 92. Ela "subchefiava" a campanha do adversário, o presidente Bush, com a missão de demolir Bill Clinton. Uma noite saíram, gostaram e se casaram.

Foto: Norman Jean Roy/Vogue

Mary Matalin e James Carville: afeto e brigas

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes
Fonte: BBC Brasil

James Carville e Mary Matalin silvam nos debates políticos. Ele odeia conservadores republicanos, ela não engole democratas liberais. Ele chefiou a campanha que elegeu Bill Clinton em 92. Ela "subchefiava" a campanha do adversário, o presidente Bush, com a missão de demolir Bill Clinton.

Uma noite saíram, gostaram e se casaram. Em 1993, na escala de tremores políticos sociais, foi um dos maiores na história moderna de Washington. Não duraria um mandato, prognosticaram os grandes sacadores da capital.

O casal acaba de lançar o livro Love & War: Twenty Years, Three Presidents, Two Daughters and One Louisiana Home.

Vinte anos depois, pelos quais passaram três presidentes, duas filhas e uma casa nova em Nova Orleans, o casal esta casadíssimo. Nunca divorciaram nem se separaram e já casaram três vezes.

Na primeira vez, grandes inimigos políticos de Washington dançaram abraçados pelas ruas do Latin Quarter de Nova Orleans puxados pelas bandas de jazz.

A segunda foi uma surpresa armada por ele para comemorar os primeiros dez anos de casamento. Mais jazz. A terceira veio quando descobriram que os dois primeiros não eram reconhecidos pela igreja. Jazz nos amigos.

Acabam de lançar Love & War. Eu ouvi o livro, que é narrado pelos dois, como um dueto. Ela conta um episódio, ele dá a versão dele, ela acrescenta e, por aí vai, roupa suja e roupa limpa lavadas em público. Tudo menos vida sexual. Uma das perguntas mais frequentes das republicanas conservadoras para Mary era como você vai com um cara desses para a cama?

Vida sexual não é da conta de ninguém, responde James.


Vinte anos depois, três presidentes, duas filhas e uma casa nova em Nova Orleans
Como diz o título, Love & War tem afetos e brigas infernais. No começo do casamento, com a vitória de Clinton, ele ficou por cima, mas a dor da derrota política foi compensada pela felicidade no amor. Tinha 40 anos e nunca tinha casado nem sentido tanta paixão. Nos anos seguintes, as carreiras dos dois cresceram, como marqueteiros, palestrantes e debatedores políticos no rádio e televisão.

Ela foi convocada para ser a nº 2 na campanha de George W. Bush contra Al Gore, em 2000. Quando o Supremo mandou parar a contagem dos votos e declarou a vitória de Bush, o casamento estremeceu. Quartos separados.

Fizeram as pazes. Mary foi convidada para trabalhar na Casa Branca como assistente do presidente e segunda no comando do vice, Dick Cheney. Depois do ataque às torres, Mary sumiu de casa para viver ao lado do vice, sem poder se comunicar com o marido e as filhas. Período sofrido, mas a separação reforçou a conexão entre os dois. Ele não reclamou, cuidou das filhas, se comportou como um gentleman.

Invasão do Iraque. Outra vez, quartos separados. Silvavam, mas não davam o bote do divórcio. James disse que sabia que ela era uma mulher diferente e que se provavelmente se apaixonou por causa das diferenças dela. Se convenceu de que não é possível e nem vale a pena tentar mudar a mulher.

Ele quase foi modificado. Estava num aeroporto quando foi abordado por um médico que disse a ele: estive observando você nos últimos 20 minutos e tenho quase certeza que você tem alguma forma de deficiência de atenção. Por que não vê um médico?

Os dois foram juntos, o diagnóstico do aeroporto foi confirmado, ADHD - deficit de atenção e hiperatividade -, a bula preenchida, mas James disse não: "Se tomar este troço, vou ser outra pessoa". "É isto que você quer?", perguntou a mulher. Pílulas foram para o lixo.

O casal ainda briga sobre política, mas a maioria das mordidas é sobre a bicharada de Mary, dinheiro e ar condicionado. Gatos e cães circulam pela casa. Às vezes, um pelo aparece na manteiga. O serpente silva.

Mary abria todas as janelas e ligava o ar-condicionado no máximo. Já aprendeu que isto esquenta a casa. Para cada compra, há uma negociação. A mesa central para o convidado colocar drinks nas festas mereceu longo e divertido parágrafo.

Ela escreve mais do que ele e revela mais detalhes domésticos, inclusive na descarga do banheiro. James morde na política e despeja veneno nos conservadores, que acreditam que a única solução é redução de impostos e menos governo.

Alguns dos melhores momentos são visitas de James Carville aos ninhos republicanos e de Mary à Casa Branca dos Clintons.

Barbara Bush se recusava a falar o nome dele, mas depois do primeiro encontro, desmanchou. E vice-versa.

Mary se sentiu como uma serpente quando foi pela primeira vez à Casa Branca de Clinton. As pessoas se afastavam. O presidente percebeu, deu acolhida íntima e várias sugestões de como o adversário dele e cliente dela, o senador Bob Dole, poderia ganhar as eleições de 96.

Depois de mais de vinte anos de Washington e de campanhas políticas, ele é professor universitário, participa de mesas políticas nas TVs e faz palestras. Mary também circula pelos estúdios, escreve, cuida das filhas e da casa.

As serpentes são felizes em Nova Orleans, longe do veneno da capital americana.

21 de mai. de 2014

Desapropriados pela Copa ainda esperam indenização 'justa' na Cidade da Copa em Pernambuco

BRASIL - Copa 2014
Desapropriados pela Copa ainda esperam indenização 'justa' na Cidade da Copa em Pernambuco
A BBC Brasil ouviu reclamações de muitas família que que tiveram que deixar suas casas na região que circunda a Arena Pernambuco, por conta das obras da Copa. Eles dizem ter recebido do governo pernambucano uma indenização muito abaixo do valor de mercado dos seus imóveis e, com isso, estão tendo que morar de aluguel ou de favor.

Foto: Portal da Copa

Estádio foi feito para desenvolver a "Cidade da Copa" em São Lourenço da Mata, mas pouco ou nada saiu do papel. As desapropriações leoninas são uma realidade cruel

Postado por Toinho de Passira
Texto de Renata Mendonça e Júlia Dias Carneiro
Fonte: BBC Brasil

"Eu tinha construído o meu futuro, que era a minha casa, com muito esforço. E, de repente, eles vêm e fazem uma derrota dessas com a gente. Derrubaram o que era nosso sem dar nosso direito."

Jerônimo Sebastião de Oliveira, de 72 anos, é um dos afetados pelas desapropriações para a Copa do Mundo realizadas em Camaragibe, na região metropolitana de Recife. A área será usada para a construção de duas obras de mobilidade urbana do governo de Pernambuco: o Terminal Integrado de Camaragibe e o Ramal da Copa - ambos serviriam para facilitar o acesso à Arena Pernambuco, palco de cinco jogos do Mundial. Os moradores foram removidos, mas nenhuma das duas obras foi concluída.

A reclamação de seu Jerônimo é a mesma de muitas outras famílias que também tiveram que deixar suas casas na região por conta das obras da Copa. Eles dizem ter recebido do governo pernambucano uma indenização muito abaixo do valor de mercado dos seus imóveis e, com isso, estão tendo que morar de aluguel ou de favor.

"Não deu nem a metade do valor [do imóvel]. Então não dá para comprar uma casa. Estou morando de favor com uma sobrinha, e ela está cobrando 400 reais de aluguel. E mesmo assim, ela já está pedindo a casa. Não tenho para onde ir", disse Jerônimo à BBC Brasil.

A casa dele ficava no Loteamento São Francisco, uma área que teve mais de cem desapropriações para a Copa. Em nome do governo pernambucano, a Procuradoria Geral do Estado foi a responsável por cuidar da questão e, para isso, criou a Secretaria das Desapropriações. Foram representantes da Secretaria que procuraram os moradores, avaliaram os terrenos e propuseram a indenização que seria paga assim que eles deixassem o imóvel.

O valor oferecido, porém, foi o que desagradou as famílias desapropriadas e as que não concordavam com a proposta tinham a opção de recorrer à Defensoria Pública - muitas estão brigando na Justiça até agora por uma indenização que consideram mais justa.

"Somos agentes públicos, as indenizações são pagas por dinheiro público e existe uma norma técnica para fazer avaliação do imóvel, tem parâmetros de engenharia para avaliar o valor", explicou o Procurador Geral do Estado, Thiago Arraes de Alencar Norrões, à BBC Brasil.

Foto: : Eduardo Amorim, midiacapoeira.wordpress.com
"
Seu Jerônimo em frente ao terreno onde sua casa foi derrubada. Seu Jerônimo perdeu o braço em um acidente de trabalho e, com a indenização, reformou sua casa

"Tem margem para negociação, mas, se eu pagar R$ 10 mil para um imóvel que vale R$ 2 mil, eu vou preso. Quem fez acordo, já recebeu o dinheiro."

DESENTENDIMENTOS

Segundo o Procurador, as indenizações pagas às famílias desapropriadas variaram de R$ 3 mil a R$ 300 mil, dependendo da avaliação do terreno e regularização do imóvel. "Tem um relatório completo das desapropriações. A gente tinha orçado uma despesa total de R$ 100 milhões e acabou gastando cerca de R$ 90 milhões."

O grande problema para o pagamento de indenizações tão baixas - como as de R$3 mil - foi a situação irregular de alguns proprietários. O governo alega que muitos deles não tinham a documentação completa do imóvel ou ainda tinham a casa no nome de alguém da família já falecido.

"Se você tem uma casinha modesta em um terreno de que não é dono, vai receber de R$ 15 a 20 mil. E a gente procura ser o mais favorável ao desapropriado possível", disso o procurador geral Thiago Norrões.

"Em São Francisco, a gente ajudou a regularizar alguns terrenos até para que o valor fosse maior."

Do outro lado, alguns moradores de Camaragibe alegam que estavam com a documentação regularizada dos seus imóveis e, mesmo assim, dizem ter recebido um valor baixo demais de indenização. É o caso de Jerônimo, que morava há 40 anos na região.

"Eu tinha todos os documentos. Registro de imóvel, escritura, IPTU, declaração do terreno de posse, de tudo eu tinha", contou.

Foto: Portal da Copa

O projeto do terminal era para integrar ônibus e metrô em Camaragibe e facilitar o acesso ao estádio. Com ele, o fluxo de pessoas do metrô e do Corredor Leste-Oeste seria dividido. A obra não ficará pronta para a Copa.

"Quando eu comprei, a casa era pequena. Mas depois fui ampliando. Tirei pedra de dentro do rio com um braço só para melhorar a situação de minha casa. Botei laje. Investi no meu futuro. Mas o esforço foi perdido, porque todo o dinheiro foi por água abaixo", lamentou.

Jerônimo contou que recebeu pouco mais de R$ 30 mil, equivalentes a 80% da indenização a que tinha direito, e entrou na Justiça para reivindicar um pagamento maior. No total, o valor que o Estado propôs a ele não chegou a R$ 50 mil - o preço de um imóvel similar na mesma região em Camaragibe variaria de R$ 100 mil a R$ 200 mil, segundo ele.

PROBLEMAS

A Procuradoria Geral do Estado reconheceu que houve problemas nas desapropriações realizadas em Recife e na região metropolitana da capital e admitiu que "aprendeu com alguns erros".

"Algumas pessoas ficaram em situações difíceis. Nessa fase final, estamos tentando dar um atendimento psicossocial maior. A gente aprendeu e, nas próximas intervenções, vamos ter que corrigir alguns procedimentos", disse o procurador.

Para ele, a principal dificuldade nas desapropriações para a Copa foi o fato de elas terem sido feitas sem uma política habitacional adequada. "O problema é que as políticas públicas são feitas ao contrário. Você tem a Copa e tem que fazer uma série de intervenções na cidade-sede. Mas não tem uma política habitacional que resolva, que dê moradia às pessoas que vão ser removidas por essas obras", explicou.

"Antes de fazer as intervenções na parte urbanística, já tem que pensar em onde colocar as pessoas antes de tirar."

Andando pela região de Camaragibe onde os moradores foram desapropriados, é possível ver que ainda falta muito para as obras ficarem prontas. A reportagem da BBC Brasil esteve lá no início do mês e constatou que as casas já caíram por terra, mas o asfalto do Ramal da Copa ainda não chegou. O projeto do Terminal Integrado de Camaragibe também está em fase inicial e já foi adiado para ser entregue somente após o Mundial.

Segundo relatos de alguns moradores, muitos dos "removidos da Copa" na região voltam frequentemente para conferir o que foi feito no lugar de suas casas. A decepção aumenta quando veem que as obras ainda não saíram do papel.

"Lá onde era a minha casa? Só tem barro. Até o riacho que tinha, o canal que tinha, desmancharam tudo, acabaram com tudo", diz seu Jerônimo.

Foto: Portal da Copa

O Terminal Integrado Cosme e Damião facilitará o acesso ao estádio; governo promete obras prontas em maio

O problema das desapropriações para a Copa não foi exclusivo de Recife. Segundo a apuração da Associação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop), as 12 cidades-sede registraram centenas de remoções, mas em poucos casos foi dado a devida assistência aos removidos.

A relatora da ONU (Organização das Nações Unidas) para moradia adequada, Raquel Rolnik, visitou as cidades brasileiras que receberão a Copa do Mundo e também constatou irregularidades nas desapropriações.

"O direito à moradia adequada tem sido violado em praticamente todos os casos de remoção. O padrão é a completa falta de diálogo e transparência com as comunidades e pessoas afetadas", contou à BBC Brasil.

"E quando se paga indenização ou um auxílio-aluguel, os valores são totalmente insuficientes para custear uma nova moradia. De acordo com as leis internacionais sobre este direito, uma pessoa jamais pode ser colocada em situação de moradia pior que a anterior. Mas é o que tem ocorrido."

A BBC Brasil procurou o governo federal para um posicionamento a respeito das críticas da relatora e do próprio governo de Pernambuco - que citou a falta de políticas habitacionais para resolver o problema.

Segundo a Secretaria de Comunicação (Secom) do Executivo, a responsabilidade pelas desapropriações da Copa ficou com os governos municipais e estaduais e não teve interferência federal. Além disso, a Secom ressaltou que o governo federal oferece políticas habitacionais efetivas como o "Minha Casa, Minha Vida", que foram criadas antes do Mundial e permanecerão depois dele.


*Nota da redação: Após a publicação dessa reportagem, soubemos que Seu Jerônimo comprou um barraco na região por R$20 mil e está morando com sua família (mulher e filho) em uma casa bem abaixo do padrão que estava acostumado. Ele aguarda o pagamento do restante da indenização para construir mais um cômodo e ter condições dignas de moradia.

2 de fev. de 2014

Mapa nova-iorquino, de Lucas Mendes, para BBC Brasil

ESTADOS UNIDOS - Opinião
Mapa nova-iorquino
Numa cidade de oito milhões de habitantes, mais da metade nascidos fora daqui ou filhos de pais imigrantes, quem é típico? Na década de 70, quando fizeram o retrato do americano típico, encontraram uma mulher de meia idade, de origem alemã.

Foto:

LEGENDA

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes De Nova York para a BBC Brasil
Fontes: BBC Brasil

Me perguntaram quem é o mais nova-iorquino dos nova-iorquinos e o primeiro nome que pintou foi Woody Allen. Bobagem minha. Ele e as situações e os personagens dos seus filmes são nova-iorquinos, mas o nova-iorquino típico não é um cineasta neurótico genial.

Todos temos neuras. Quais tipificam Nova York?

Numa cidade de oito milhões de habitantes, mais da metade nascidos fora daqui ou filhos de pais imigrantes, quem é típico? Na década de 70, quando fizeram o retrato do americano típico, encontraram uma mulher de meia idade, de origem alemã.

Se você perguntar a dezenas de pessoas quem é o nova-iorquino típico e como aprender a conviver com ele nesta cidade, vai encontrar dezenas de respostas diferentes.
Pedro Andrade, companheiro de mesa no programa Manhattan Connection, acaba de lançar o Melhor Guia de Nova York. Confie nas sugestões dele. Foi a todos lugares, conhece donos e empregados.

Pedro viveu em várias cidades. Diz que ser nova-iorquino não tem relação com a cidade onde a pessoa nasceu, cresceu ou mora, mas é onde se sente em casa. No caso dele, Manhattan.

Ele oferece uma longa lista de sugestões práticas de como ser um nova-iorquino já na primeira viagem, para seu próprio bem e para o bem da cidade.

• Sempre dê gorjeta ao bartender e ao taxista.
• Evite Times Square, Soho e Quinta Avenida nos fins de semana.
• Não se assuste com as ratazanas do Lower East Side. Fazem parte do cenário.
• Evite pochete, chinelo de dedo e calça capri. Esta, nem em Capri.
• Não aplaudir o piloto nas aterrissagens, nem pedir autógrafo a celebridades.
• Não dependa de táxis entre 3h30 e 4h30. É hora de mudança de turno.
• A pizza de US$ 0,99 pode ser tão boa quanto a de US$ 99.
• Não peça descontos nem "choros" no bar.
• Não critique turbantes, badulaques, piercings e tatuagens. A big apple não gosta do tédio visual.
• Simpatia, paciência, cordialidade, iniciativa e bom humor funcionam em Nova York.

Foto: Arquivo

Brian Lehrer é meu mais nova-ioquino dos nova-iorquinos. 62 anos, com QI de 168. Nascido em Nova York, é um premiado radialista, escritor e documentarista.

Entre os prêmios, ganhou o Heart of New York Award, do New York Press Club, pelo documentário Immigrant New York, the last 20 years. Da Biblioteca Pública de Nova York, ganhou o "Best Books for the Teenaged" pelo The Korean Americans. Há muitos outros.

Brian faz um programa diário de duas horas na WNYC, a rádio pública de Nova York. Entrevista de Hillary Clinton a mãe de um garoto de 9 anos que vai para a escola de transporte público, mas quase sempre tem um tópico sobre a cidade, do banal ao profundo. Nenhum outro programa tem pulso mais preciso de Nova York.

Esta semana ele perguntou: "Quem ensinou você a ser um nova-iorquino?". Jorraram respostas pelo telefone, Twitter e e-mail. Aqui vão algumas.

"Foi um amigo. Aconselhou: 'Abra a porta para os outros, ajude a carregar pacotes, ceda assentos para grávidas. Sempre divida o espaço público'."

"Uma garçonete do hotel Edison. Ela me ensinou a comer uma bagel."

"Minha colega de trabalho: 'Seja fingida até chegar onde você quer'".

"Meu marido me ensinou a surfar as multidões nas estações no rush sem mudar o ritmo das passadas."

"Meu marido sugeriu viagens no metrô até o extremo sul e extremo norte da cidade. E voltar a pé. Num domingo, uma caminhada levou 9 horas. Foi o melhor dia de todos."

"Um amigo me disse quando cheguei, em 1969: 'Se você não encontrar o que procura, o que procura vai encontrar você'. E acertou."

Uma australiana, de Sydney, aprendeu com um nova-iorquino a dar um tapão no capô de carros que avançam nas faixas de pedestres. Em Sydney, se você der um tapa num capô, o motorista do carro desce e dá um murro em você. Em Nova York, eles ficam sentados, mansinhos.

Eu e meus amigos mudamos para Nova York na década de 70, certos de que nossos destinos eram os teatros da Broadway.

Aprendemos: 1 - Caminhe, caminhe, caminhe até aprender o caminho. 2 - Enquanto estiver caminhando, cante. Ninguém vai incomodar você enquanto você canta. 3 - Nunca aborde gente famosa. Os famosos merecem ficar em paz. 4 - Se alguém parece perdido, ajude. 5 - Sempre caminhe.

Dos cinco que vieram, apenas um chegou à Broadway.

Lição aprendida: não há nova-iorquino típico nem lição definitiva. Se você não achar Nova York, talvez Nova York ache você.

Foto:
IMAGEM
LEGENDA


*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

19 de nov. de 2013

Dirceu: em dez anos, do auge à prisão

BRASIL - Opinião
Dirceu: em dez anos, do auge à prisão
Ex-homem forte do PT deixou liderança do ministério de Lula para a prisão em Brasília. Alguns colegas de partido, avaliam que Dirceu está marginalizado politicamente e que, com a prisão, seu poder encolherá ainda mais.

Charge: Aroeira - Brasil Economico (SP)

Postado por Toinho de Passira
Texto de João Felletda BBC Brasil em Brasília
Fonte: BBC Brasil

Preso na última sexta-feira ao lado de outros 11 réus condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do mensalão, José Dirceu vivia, há dez anos, o auge de sua carreira na política.

Com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, em 2002, ele se tornaria ministro-chefe da Casa Civil. Exerceria o posto até ser acusado, em 2005, de chefiar um esquema de compra de apoio político no Congresso, o mensalão.

A acusação, que ele sempre negou, acabaria chancelada pelo STF em 2012.

Mesmo após sua saída do governo e longe de cargos públicos — em 2005, foi expulso também do Congresso e ficou inelegível por oito anos —, Dirceu continuou a ser um alvo prioritário da oposição e uma figura altamente polarizadora da política nacional, capaz de gerar ódio entre críticos e fascínio entre simpatizantes.

Para muitos aliados e adversários, ele jamais perdeu ascendência no PT e até no governo federal e, ainda que preso, continuará ativo politicamente.

"Com certeza ele manterá seu espaço no PT e na política nacional", diz à BBC Brasil o senador Eduardo Suplicy (PT-SP).

"Eventuais erros que possamos ter cometido e as dificuldades por que passamos não inviabilizam a possibilidade de corrigirmos os rumos e darmos a volta por cima".

Segundo um assessor de Dirceu, sua futura participação política dependerá das condições de sua pena.

Até sua prisão, o ex-ministro mantinha um blog, em que comentava temas políticos. No dia de sua detenção, ele publicou uma carta em que criticou o julgamento, se disse injustiçado e anunciou que recorreria da condenação a cortes internacionais.

O assessor diz que, caso a sentença não o prive de escrever, ele continuará a atualizar o blog.

Na tarde de segunda, Dirceu e outros quatro condenados no julgamento foram transferidos da Penitenciária da Papuda para uma prisão destinada a detentos do regime semiaberto.

Sua defesa agora trabalha para que ele possa deixar a prisão durante o dia.

Dirceu foi condenado por dois crimes, corrupção ativa e formação de quadrilha, mas somente a condenação por corrupção ativa começou a ser executada, já que não pode mais ser revertida por recursos.

Essa condenação – de sete anos e 11 meses de prisão – lhe dá o direito ao regime semiaberto, em que pode sair da cadeia durante o dia para trabalhar.

Se, posteriormente, o STF rejeitar seu recurso à condenação por formação de quadrilha, sua pena será ampliada para 10 anos e 10 meses de prisão e ele terá de cumpri-la inicialmente em regime fechado.

Poder em declínio

Outros colegas de partido, porém, avaliam que Dirceu está marginalizado politicamente e que, com a prisão, seu poder encolherá ainda mais.

Um deputado federal petista afirma que o ex-ministro continuará participando dos debates internos do PT, mas que antes da prisão ele já não tinha mais qualquer influência direta no partido.

Segundo o deputado, Dirceu exerceu posição de destaque no PT somente até deixar o governo, em 2005. Ele lembra que, ainda naquele ano, a corrente majoritária do PT o excluiu da Comissão Executiva Nacional e que, na última eleição interna da sigla, na semana passada, ele não ingressou nem sequer no diretório nacional.

"Hoje, a importância do Dirceu (no PT) é meramente simbólica", diz o professor de história contemporânea da USP Lincoln Secco, autor do livro História do PT.

Sem posição no aparelho do Estado ou do partido e sem o poder de fazer nomeações de cargos, Dirceu, segundo Secco, não exerce mais influência sobre as bases do PT.

O desprestígio do ex-ministro no partido se exprime também, afirma o professor, pela frieza com que a direção da sigla tem tratado o julgamento do mensalão.

Para Secco, nem Lula nem a corrente majoritária do PT jamais o defenderam explicitamente, ainda que segmentos de extrema-esquerda do partido tenham promovido no ano passado uma campanha em desagravo ao ex-ministro.

A postura da cúpula partidária, segundo ele, condiz com as diretrizes que passaram a ser seguidas pela sigla nos anos Lula.

"A direção do PT é dominada por uma ideologia chamada de lulismo, que acha que, para se manter no poder, o partido não pode provocar debates que levem a um radicalismo na opinião pública."

"A defesa de Dirceu atrapalha o projeto eleitoral."

O papel que Dirceu exerce hoje no PT contrasta com sua participação no partido entre 1995 a 2002, quando presidiu a sigla.

O professor afirma que naquele período, com mão de ferro, Dirceu conseguiu unificar a sigla – até então rachada entre suas várias tendências – e transformá-la numa "moderna máquina eleitoral social-democrata". E isso tudo num momento crucial: o conturbado segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

"Sem ele, o PT não teria tido a mesma chance de ganhar em 2002", diz.

"O Lula nunca teve capacidade de resolver problemas internos do partido e sempre precisou que alguém que fizesse isso. O Dirceu foi essa pessoa; o legado dele é o que o PT é hoje".

13 de set. de 2013

Vitória na cabeça: cabelo afro do filho faz candidato
de Nova Iorque “bombar” nas pesquisas eleitorais, de Lucas Mendes, de Nova York para a BBC Brasil

ESTADOS UNIDOS – Eleição Prefeito Nova Iorque
Vitória na cabeça: cabelo afro do filho faz candidato
de Nova Iorque “bombar” nas pesquisas eleitorais
Papai de Blasio estava no distante quarto lugar quando os marqueteiros decidiram que um endosso do filho poderia trazer um punhado de votos da comunidade negra, entre jovens e liberais. A primeira opção era a mulher, Chirlane McCray, uma negra jamaicana bonita, poeta, ex-lésbica declarada, mas decidiram que o apelo do filho,

Foto: Kathy Willens/AP

Bill De Blasio abraça o filho, Dante, filha, Chiara, e a esposa, Chirlane, num dos atos da campanha

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes, de Nova York para a BBC Brasil
Fontes: BBC Brasil

Um candidato pode ganhar ou perder uma eleição por dezenas de motivos, mas Bill de Blasio, candidato a prefeito de Nova York, é o primeiro a ganhar por uma cabeleira afro que nem é dele. É do filho Dante, de 15 anos, simpático e esperto.

Papai de Blasio é descendente de italianos, branco, alto e boa pinta. Ele esteve 14 pontos na frente do segundo colocado, Bill Thompson, o único negro entre os nove candidatos que disputavam as eleições primárias democratas de terça-feira, mas o italiano, com seu filho afro, ganhou até entre os eleitores negros.

Em Nova York, o candidato precisa de 40% dos votos nas primárias do partido para evitar um segundo turno entre os dois primeiros colocados, e a contagem final só vai sair na próxima semana porque as máquinas quebraram. Ele passou dos 40%, com menos de mil votos, diríamos, por um punhado de fios.

Um vexame, mas vamos ao milagre afro. Papai de Blasio estava no distante quarto lugar quando os marqueteiros decidiram que um endosso do filho poderia trazer um punhado de votos da comunidade negra, entre jovens e liberais. A primeira opção era a mulher, Chirlane McCray, uma negra jamaicana bonita, poeta, ex-lésbica declarada, mas decidiram que o apelo do filho, produto de uma família racial e sexualmente integrada, podia ter mais impacto. Acertaram na cabeça.

O comercial do filho, com seu afro monumental, bombou. Antes de entrar no ar, teve 200 mil acessos na internet e, em quatro semanas, o pai estava entre os primeiros nas pesquisas.

Bill de Blasio é o atual public advocate da cidade, cargo eletivo, uma espécie de ombusdman dos novaiorquinos. Quem está infeliz com os serviços da cidade bate na porta do advogado público.

Ele fez uma campanha pró 99% e anti 1%, liberal e populista. Uma das promessas de Blasio é aumentar os impostos dos ricos para pagar pelos cursos pré-primários.

Foto: Sunset Parkerpix/Flickr

Protesto sem Nova Iorque contra stop and frisk, "pare e apalpe".
Negros e latinos são os mais abordados

Bateu de frente com o stop and frisk, "pare e apalpe", peça-chave do combate ao crime do prefeito Michael Bloomberg que permite a polícia abordar e apalpar qualquer pessoa por qualquer motivo. Mais de 90% dos apalpados são negros e latinos. Apesar da grande redução do crime em Nova York, em parte atribuída ao "pare e apalpe", uma juíza considerou a prática racista e ilegal. O processo corre em tribunais superiores.

Desde 1989, com David Dinkins, o primeiro e único prefeito negro, um candidato democrata não se elege prefeito em Nova York. Nos últimos 20 anos, a cidade foi governada oito anos pelo conservador Rudolph Giuliani e 12 anos pelo bilionário sem partido firme Michael Bloombeg.

Nova York é politicamente tribal, esquizofrênica e imprevisível. Dos 51 vereadores, 46 são democratas, mas, para prefeito, os democratas perdem desde 1993. E a proporção de eleitores na cidade é de seis democratas para um republicano.

A cidade nunca foi tão segura, limpa e próspera, a população reconhece e agradece ao prefeito, mas Bill de Blasio conseguiu pintar Bloomberg como o homem das bicicletas, praças, dietas, das futilidades, de Manhattan, dos ricos, em resumo "o prefeito das vaidades". Bill de Blasio é do Brooklyn.

O candidato republicano é Joe Lhota, um burocrata que trabalhou com Giuliani e dirigiu o MTA, Metropolitan Transit Authority, o sistema de transportes públicos de Nova York. Lhota é zero em eloquência e dez em tédio, sem dinheiro e sem ideias novas.

Nem por isso está derrotado. O 1% acordou. A mensagem de Blasio é inspirada no presidente Woodrow Wilson, que governou o país no período de maior desigualdade econômica dos últimos cem anos, exatamente igual à atual. Dez por cento dos ricos recebem 50% da renda, 1% tem 20%. Wilson aumentou os impostos dos ricos, eliminou tarifas protecionistas, criou o Banco Central e tomou o controle da economia de J.P. Morgan e dos banqueiros.

Wilson é o presidente mais odiado pelos conservadores americanos. No dia 3 de fevereiro, Rush Limbaugh, o radialista com a maior audiência do país, toma champanha no programa para comemorar a morte do "presidente mais filho da puta da história dos Estados Unidos".

Fazer campanha contra os ricos tem seus riscos. As cidades e Estados vizinhos esperam por eles de braços abertos. Mas quantos estão dispostos a trocar Manhattan por Nova Jersey, Pensilvânia e Connecticut?

A cabeça do Lhota está pronta para o afro.

Foto: Captura de video

ANUNCIO DA CAMPANHA: "Vou falar para vocês um pouco sobre Bill de Blasio" - diz um adolescente Africano-Americano, num cenário de uma cozinha, identificado apenas com Dante, 15 anos, do Brooklyn, elogiando o candidato Democrata pela coragem de romper com a atual administração de Nova Iorque dizendo que ele será um prefeito para todos os nova iorquinos, “não importa onde eles vivam ou que aparência tenham, e encerra: “Eu diria isso, mesmo que ele não fosse meu pai."


*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

30 de ago. de 2013

Síria, quem ganha e quem perde? – de Lucas Mendes, para a BBC Brasil

BRASIL - Opinião
Síria, quem ganha e quem perde?
Uma ajuda de americanos, ingleses e franceses poderia decidir a parada a favor dos rebeldes, entre eles membros da Al Qaeda, do Hamas e Hezbollah. Se os rebeldes da Al Qaeda assumissem o poder? Bashar al-Assad ou Al Qaeda, qual dos dois é pior?

Charge : John Cole - The Times-Tribune (USA).

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes
Fonte: BBC Brasil

Na tela da televisão os números das redes de finanças e economia mostram quem lucrou com a ameaça de Barack Obama de atacar o governo sírio.

O petróleo teve a maior alta em 2 anos e as bolsas no mundo perderam mais de US$ 800 bilhões. Quem apostou na alta do petróleo e nas quedas das bolsas, ganhou. E ganhou de novo quando comprou ações na baixa quarta de manhã. Já subiram.

Minha teoria conspiratória é inspirada nos meus livros de histórias em quadrinhos do Super Homem. Um grupo da Intergang* da Metropolis, em busca de mais fortuna, compra mísseis químicos no mercado negro, contrata meia dúzia de terroristas para dispará-los contra a população civil. Depois aposta milhões na alta do petróleo e na queda das bolsas. Se apostassem só numa bolsa seria fácil identificar os ganhadores mas com o dinheiro espalhado por dezenas de bolsas pelo mundo é mais difícil.

Fiquei surpreso de não encontrar este enredo elementar na enorme lista de filmes conspiratórios. Há centenas deles. Também tinha pensado no filme Siriana, do George Clooney, mas a trama é diferente. O meu será o Siriana 2.

Dos enredos conspiratórios, o mais próximo ocorre em um episódio da série 24 onde um terrorista explode uma arma química no Oriente Médio para justificar o envio de tropas americanas. A arma foi fornecida pela CIA. Super conspiratório.

Há outras teorias na mesa. O Irã e a Rússia são os países mais interessados em ver os Estados Unidos atolados numa terceira guerra invencível que vai exigir tropas, armas e dólares durante vários anos. São suspeitos?

Fazer estas elucubrações é fácil. Difícil é explicar para os americanos o que Bashar al-Assad tinha a ganhar com um ataque de armas químicas. A situação dele na guerra civil melhorou nas últimas semanas. Muito mais lógico é um veneno vindo dos rebeldes, que não conseguem fazer progressos e precisam enfraquecer Al-Assad.

Uma ajuda de americanos, ingleses e franceses poderia decidir a parada a favor dos rebeldes, entre eles membros da Al Qaeda, do Hamas e Hezbollah. Os moderados perderam terreno.

Há outras respostas para a pergunta "por que Bashar al Assad teria lançado as armas?".

1 - Para desafiar a comunidade internacional e projetar firmeza.

2 - Para aterrorizar a população civil que ainda não fugiu e abriga os rebeldes.

3 - Aumentar a pressão nos rincões rebeldes que ainda resistem.

Há duas outras teorias: Quem lançou os mísseis errou na dose ou o irmão de Al-Assad, Maher, o terrível líder da guarda republicana, teria disparado os mísseis por conta própria.

Já morreram mais de 100 mil sírios, 2 milhões saíram do país e vivem miseravelmente em campos de refugiados. O que aconteceria com eles depois da queda de Al-Assad, seguida de uma guerra pelo poder entre os rebeldes?

Ou, mesmo sem uma guerra, se os rebeldes da Al Qaeda assumissem o poder? Bashar al-Assad ou Al Qaeda, qual dos dois é pior?

A maioria dos americanos, por grande margem, 90% numa das pesquisas, é contra uma operação militar na Síria. Os políticos estão divididos.

Há conservadores pró e contra uma intervenção. Os a favor argumentam que se for provado pelos inspetores da ONU que Al-Assad foi responsável pelo ataque e Obama não fizer nada, perderá credibilidade internacional.

Porque o Irã, a Coreia do Norte ou qualquer outro país deveria ter medo das ameaças dele?

Uma grande operação está fora dos planos. Se a comissão da ONU garantir que as armas vieram de Al-Assad, pelo rufar dos tambores, haverá uma intervenção cirúrgica, minimalista para destruir comunicações, depósitos de armas e bases aéreas.

Mas e se os inspetores da ONU disserem que os mísseis podem ter vindo dos rebeldes? O preço do petróleo vai cair, a bolsa vai subir e a Intergang vai sair no lucro.
*Intergangue é um bando intergaláctico capaz de enfrentar e por em risco, o Super-Homem e outros super-heróis dos quadrinhos. São apoiados com armas e tecnologia fornecido por vilões do planeta “Apokolips”. A Intergangue foi criado por Jack Kirby, desenhista, roteirista e editor de Histórias em quadrinhos, em 1970

10 de jul. de 2013

Caso Eike Batista põe em xeque apoio do BNDES a megagrupos brasileiros

BRASIL - Economia
Caso Eike Batista põe em xeque apoio do BNDES
a megagrupos brasileiros
Segundo informações do BNDES, o total de empréstimos contratados pelo grupo EBX nos últimos anos foi de R$ 10,4 bilhões de reais. o suficiente para pagar por todos os estádios da Copa.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

"Eike prometeu demais e entregou de menos" - diz consultor financeiro.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Ruth Costas Da BBC Brasil em Londres
Fontes:   BBC Brasil

O colapso do grupo EBX, do magnata brasileiro Eike Batista, põe em xeque as políticas de apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em relação a grandes grupos nacionais.

Essa é a avaliação tanto de Aldo Musacchio, professor da Harvard Business School, quanto de Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), que vêm estudando as práticas e escolhas do banco e seus efeitos sobre a economia brasileira.

"É impressionante ver como algumas das escolhas feitas pelo BNDES (no apoio ao que vem sendo chamado) de 'campeões nacionais' não estão obtendo os resultados esperados", diz Musacchio.

"E o grupo EBX é apenas o último exemplo disso. Com todos os protestos contra a corrupção e esse debate sobre os custos dos estádios (da Copa), parece problemático o fato de o banco ter arriscado bilhões nesse grupo."

O EBX - conglomerado que inclui a petrolífera OGX, a produtora de energia MPX, o estaleiro OSX, a mineradora MMX e outras empresas - era um cliente preferencial do BNDES.

Segundo informações do banco, o total de empréstimos contratados pelo grupo nos últimos anos foi de R$ 10,4 bilhões de reais. o suficiente para pagar por todos os estádios da Copa.

O valor inclui os recursos que o banco se comprometeu a emprestar a Eike, mas não desconta o que já foi pago e o que ainda não foi desembolsado. O BNDES se recusa a revelar quanto o grupo efetivamente lhe deve alegando sigilo bancário, mas diz que sua exposição a EBX é "pequena" e Eike teria oferecido "amplas garantias" aos empréstimos.

De acordo com um levantamento do banco Merryll Lynch feito com base nos balanços das empresas, porém, tal exposição seria da ordem de R$ 4,9 bilhões – o que faria do BNDES a instituição financeira mais exposta ao grupo.

Além disso, o BNDESPar, braço de participações acionárias do banco, tem pequenas participações na SIX (33,02%), MPX(10,34%), CCX (11,72%), MMX (0,66%) e OGX (0,26%), em um total de mais de R$ 500 milhões.

Eike era, em março de 2012, o oitavo homem mais rico do mundo segundo a agência Bloomberg, com um patrimônio estimado em US$ 34,5 bilhões (R$ 78 bilhões).

A desaceleração chinesa, a perda de vigor do PIB brasileiro e uma série de problemas do grupo EBX, porém, fizeram com que suas empresas pouco a pouco perdessem a confiança dos mercados.

Primeiro a OSX revisou suas metas de produção. A mineradora MMX teve obras paralisadas no Chile e desistiu de projetos no país. Quando a petrolífera OGX anunciou a inviabilidade comercial de seus poços da Bacia de Campos, na semana passada, as ações de algumas empresas do conglomerado caíram em queda livre e começou-se a falar em uma reestruturação total do grupo.

A fortuna de Eike encolheu para US$ 2,9 bilhões (R$ 6,5 bilhões).

"O problema do grupo EBX foi ter crescido rápido demais apostando em um cenário muito otimista", diz Wilber Colmerauer, do Emerging Markets Investments em Londres. Ou seja, Eike prometeu demais e entregou de menos.

Foto: Divulgação

Estadão: em um ano, BNDES vê investimentos no Grupo EBX diminuir em R$ 359 mi

CRITICAS

"É claro que não foi só o BNDES que se enganou com a EBX. Os bancos e investidores privados também acreditaram em suas promessas de grandes lucros", diz Almeida.

Para o especialista do IPEA, no entanto, a questão é que o BNDES faz empréstimos com recursos públicos e juros subsidiados e, portanto, deveria ser guiado por uma lógica diferente da usada pelo setor privado – o que não parece ser o caso.

"Poderíamos ter investido os recursos (emprestados ou usados para adquirir participações no grupo EBX) em setores que nos levassem a criar tecnologias novas e não vão se desenvolver se não tiverem incentivos", diz Almeida.

"É claro que também há riscos nessa opção, mas um risco justificado pelos potenciais benefícios em termos de aprendizado, de mudança estrutural no setor produtivo que ajudariam a diversificar a economia do país e lhe dar mais perspectivas no longo prazo. Não vejo o que ganharíamos apoiando um grande grupo como o EBX, que além de ser mais capaz de captar recursos no setor privado atua em áreas em que o Brasil já é 'forte', já tem vantagens comparativas."

Musacchio, de Harvard, concorda com o diagnóstico.

"As grandes apostas do BNDES nos últimos anos têm sido em (empresas que atuam na área de) commodities - petróleo, mineração, gás, carne congelada e etecetera", diz ele.

"Isso quer dizer: o banco está apostando em setores que são muito dependentes do crescimento do PIB chinês em um momento em que a China está desacelerando. Mas se você conversa com produtores de equipamentos médicos, de hard drive e outros (produtos de alto valor agregado) se dá conta que eles não estão recebendo tanto apoio."

Foto: Fábio Rossi/Agência O Globo

Porto Açu: Projeto de mega-porto do grupo X busca investidores

PESQUISA

Musacchio conta ter feito um estudo analisando os investimentos de portfólio do BNDESPar desde 2008 e a conclusão foi de que sua performance, em termos de retornos financeiros, foi muito fraca, "bem aquém da performance da Bovespa em geral".

"Você pode argumentar que o objetivo do BNDES não é maximizar seus lucros", diz o economista. "O problema é que nossos estudos têm mostrado que eles também não têm investido ou emprestado dinheiro para as empresas que mais precisam (por não terem recursos próprios para investir ou fontes de financiamento alternativa). E supostamente, isso ocorreria porque eles estariam escolhendo empresas com boas performances e resultados (Para reduzir seus riscos)."

Já Colmerauer é menos crítico. Para ele, apesar de algumas apostas erradas, nos últimos anos o BNDES também ajudou a criar grupos nacionais que seriam "estrelas do mercado, como a Brazil Foods (resultado da fusão da Perdigão com a Sadia)."

Ele diz que os problemas da empresa de Eike de fato têm gerado grande apreensão nos mercados e agora há uma corrida para entender até que ponto os bancos públicos – e em especial o BNDES – poderiam ser atingidos por suas repercussões.

"Trata-se de um ciclo vicioso: o pessimismo em relação à economia brasileira faz com que seja mais difícil para Eike conseguir novos empréstimos e reestruturar suas empresas e ao mesmo tempo, o colapso do valor de mercado de seu grupo ajuda a ampliar o pessimismo das expectativas sobre o país."

30 de mai. de 2013

Status no lixo, de Lucas Mendes, de Nova York para a BBC Brasil

USA - Nova Iorque
Status no lixo
A "Lixóloga" Robin Nagle, citando um apanhador de lixo: "Você pode passar toda a sua vida sem ter que chamar um policial, sem nunca chamar um bombeiro. Mas você precisa de um lixeiro todos os dias."

Foto: Arquivo pessoal Robin Nagle

LIXÓLOGA - Robin Nagle, a antropóloga da Universidade de Nova York, entre os caminhões de lixo, o mundo que ela gosta de estudar e louvar.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes , de Nova York para a BBC Brasil
Fontes: BBC Brasil, The New York Times, Waste Recycling, New York Daily News

Gorjeta do carteiro? Confere. Gorjeta do zelador? Confere. Gorjeta do estacionamento? 8 pessoas. Putz! Confere.

Gorjeta do entregador do jornal? Confere. Gorjeta da diarista? Confere. Do engraxate? Confere. Do garçom? Confere.

Gorjeta do lixeiro? Nem vem qui num tem.

O lixeiro é tão ou mais essencial no nosso dia a dia do que a maioria dos que nos servem, mas continua invisível e pouco apreciado. Chama atenção quando faz barulho ou bloqueia a rua com seu caminhão. Então mandamos recados para a mãe dele e fazemos coro de insulto na buzina.

Nova York viveu 200 anos sem eles. Quando os moradores começaram a morrer de doenças contagiosas e intoxicações, foi criado o Departamento de Saneamento Público. Sucesso. Até então, o lixo era entregue aos porcos que viviam soltos na cidade.

Foto: Arquivo da Biblioteca do Congresso USA

Lixeiros perfilados para desfilar pelas ruas de Nova Iorque. Curiosidade entre 1895 a 1930, os lixeiros nova-iorquinos usavam uniformes brancos.

A limpeza e o fim do mau cheiro trouxeram alívio e alegria. Os lixeiros foram homenageados num desfile pela Quinta Avenida como fazem hoje com os astronautas, times campeões e outros heróis. Com suas vassouras nos ombros, foram aplaudidos do começo ao fim e não houve arremesso de papel picado das janelas.

Quando o atual prefeito de Nova York disse que era mais perigoso ser lixeiro do que policial, levou cacetadas nos editorais e dos sindicatos, mas quando saiu o relato anual das profissões mais perigosas do país, os lixeiros apareceram em quarto lugar.

A lista varia de ano para ano, mas a coleta de lixo está sempre entre as dez profissões mais perigosas. Lixeiros são vítimas de atropelamentos e produtos tóxicos. Policiais e bombeiros nunca entram na lista das 10 mais perigosas. Estão mais perto das profissões mais seguras do país.

Quantos filhos ou mulheres batem no peito com orgulho para anunciar que o pai ou o marido é lixeiro? A maioria esconde, nos conta a ex-lixeira e antropóloga do lixo, Robin Nagle, que acaba de lançar o livro Picking Up, com um raio-X do lixo e dos lixeiros de Nova York. Ela passou nos testes, viveu o cheiro, os perigos, subiu na carreira, dirigiu os caminhões, enfim, fez de tudo no mundo do lixo durante dois anos.

Com o salário, pagou parte dos estudos e hoje é professora de antropologia e estudos urbanos da New York University, mas nas várias entrevistas informa que limpar o lixo oferece gratificações pessoais mais imediatas do que o magistério. Também tem o posto de "antropóloga residente" no DSNY, Departamento de Saneamento de Nova York.

O salário inicial da universidade é mais alto, mas empatam depois de cinco anos, na faixa de US$ 5 mil por mês (US$ 10 mil). Em ano de furacão e nevascas, com as horas extras, o salário chega a US$ 90 mil. Supervisores estão na faixa de US$ 100 mil ou pouco acima. Só 10% dos americanos ganham mais do que US$ 111 mil por ano e a maioria não têm os benefícios dos lixeiros.

Foto: Arquivo Departamento Saneamento de New York

Varredor de rua, em meio ao transito de Nova Iorque, 1920

Esta semana, depois de 5 anos, a prefeitura abriu concurso para os "san men", como preferem ser chamados. Há menos do que mil vagas e mais de 32 mil candidatos dispostos a pagar US$ 49 para fazer o teste.

A prefeitura achou que era injusto e sorteou 12 mil nomes para o concurso, entre eles um número recordista de mulheres. No momento, elas são apenas 196 numa força de 7.200 que coleta 10 mil toneladas de lixo residencial por dia e outras 2 mil toneladas de recicláveis.

Quem ficou fora do sorteio protestou. Entre os candidatos, há filhos de lixeiros que se orgulham da profissão e do padrão de vida que receberam dos pais. Ainda são poucos, mas cada vez mais numerosos.

Além das estatísticas, sempre importantes e quase sempre chatas, Robin conta boas histórias, inclusive sobre o vocabulário dos lixeiros. "Mongo", como substantivo, significa o lixo que tanto a população quanto lixeiros levam das ruas para casa. A rigor, o lixo pertence à cidade, mas ninguém foi preso pelo crime. O verbo, to mongo, é a prática de "mongar".

Para os lixeiros, a primavera é "maggot", porque os vermes enchem as lixeiras; "air mail", via aérea, é lixo arremessado do alto pelos preguiçosos que não querem descer e subir escadas. Tentam arremessar os sacos na carroceria do caminhão. Raramente acertam.

Um livro não vai transformar lixeiros em heróis, mas acelera um processo rumo ao respeito e status que merecem. Os "mongadores" não vão encontrar o livro de Robin nas latas de lixo.

Foto: Debbie Egan-Chin/New York Daily News

MISS LIXO - Mary Ellen Connolly, 36 anos, ex-técnica de raio-X, uma das recém contratadas pela prefeitura como coletora de lixo, foi notícia em várias publicações americanas. Representa um novo perfil de profissionais no ramo, atraídos pelos salários, benefícios e aposentadoria em 20 anos de serviço.


*Acrescentamos subtítulo, fotos e legendas a publicação original