16 de nov de 2011

Terra: 7 bilhões de habitantes

31/10/2011

MUNDO
Terra: 7 bilhões de habitantes
Bebê nascido em Manila, nas Filipinas, é eleito simbolicamente pela ONU o habitante de número 7 bilhões da Terra

Foto: Erik De Castro/France Presse

Danica May Camacho, o habitante 7 bilhões

Postado por Toinho de Passira
Fontes:Folha de São Paulo - France Press, Folha de São Paulo –Diário do Povo,Pequim, China, Folha de São Paulo - "Nation Media Group", Nairóbi, Quênia

A Ásia, onde vivem dois terços da população mundial, recebeu simbolicamente o ser humano número sete bilhões, uma pequena filipina de nome Danica cujo nascimento foi celebrado em Manila e ilustra os desafios planetários de crescimento demográfico.

O planeta atingiu a população de seis bilhões em 1999. Na ocasião, a ONU escolheu Adnan Nevic, um menino nascido em Sarajevo, como representante simbólico da marca. Desta vez, a ONU optou por não designar nenhuma criança com antecedência e vários países pretendiam reivindicar a efeméride.

Danica May Camacho, nascida no domingo, dois minutos antes da meia-noite, no José Fabella Memorial Hospital, um centro público da capital filipina, tem 2,5 quilos. Seus pais, Florante Camacho e Camille Dalura, foram felicitados por representantes das Nações Unidas.

"É muito bonita. Não posso acreditar que seja a habitante sete bilhões do planeta", comentou emocionada Camille Dalura na sala de partos, invadida pela imprensa.

Danica receberá uma bolsa de estudos e seus pais uma quantia em dinheiro para abrir uma loja.

"O mundo e seus sete bilhões de habitantes formam um conjunto complexo de tendências e paradoxos, mas o crescimento demográfico faz parte das verdades essenciais em escala mundial", declarou a representante do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) nas Filipinas, Ugochi Daniels.

Foto: Manish Swarup/Associated Press

Multidão caminha por rua de Mumbai,Índia

Segundo o texto de Shan Juan, para o "Diário Do Povo", de Pequim, a população mundial provavelmente teria chegado aos sete bilhões de pessoas cinco anos atrás não fosse a política chinesa de planejamento familiar.

Ao limitar a maioria dos casais da China continental a um filho, a Comissão Nacional de População e Planejamento Familiar afirma que cerca de 400 milhões de nascimentos foram evitados de 1979 em diante.

Foto: Andy Wong/Associated Press

Turistas se aglomeram na praça Tiananmen, em Pequim; controle populacional retardou chegada aos 7 bi

"Os nascimentos prevenidos na China também são significativos para a preservação dos recursos naturais e meio ambiente em todo o mundo", diz o professor Yuan Xin, do Instituto de População e Desenvolvimento, parte da Universidade Nankai.

"Mas esse mérito poderia ser desperdiçado caso a população chinesa viesse a consumir de modo incansável, como fazem os ocidentais, dado o tamanho da população do país".

Os dados oficiais demonstram que o consumo per capita chinês é 20% inferior ao dos Estados Unidos. Caso fossem iguais, o uso total de energia na China seria quatro vezes maior que o norte-americano.

De acordo com Yuan, o governo chinês reconheceu o potencial de consumo excessivo e adotou políticas que encorajam uma economia e estilo de vida "verdes".

Promoveu o fechamento de indústrias poluentes e que consomem energia intensamente, desencorajou a compra de automóveis por meio de diversas medidas, promoveu a separação do lixo reciclável e a conservação de água e energia, e proibiu a distribuição de sacolas plásticas.

À medida que cresce o número de seres humanos, crescem os desafios que a humanidade enfrenta, disse Safiye Cagar, do Fundo Populacional das Nações Unidas. "Como garantir que todos nós tenhamos um padrão de vida decente e ao mesmo tempo preservar os recursos da Terra?"

Um terço dos países do mundo, especialmente os desenvolvidos, têm taxas de fertilidade inferiores a 2,1 filhos por mulher, o nível mínimo de reposição da população existente.

"Na maioria dos países desenvolvidos, que em geral têm índices de natalidade inferiores, a expectativa é de uma queda e envelhecimento da população, enquanto nas nações em desenvolvimento teremos alta estável na população e envelhecimento menor", disse Yuan.

Foto: Stringer/Reuters

Chineses lotam piscina em dia quente em Suining, na Província de Sichuan

A população mundial deve atingir um pico de 9,3 bilhões de habitantes em 2050, e apenas 3% do crescimento deve vir dos países em desenvolvimento.

Na China, a população deve atingir um pico de 1,45 bilhão de pessoas em 2030, o equivalente a um sexto da população mundial, de acordo com as estatísticas oficiais. Isso representa queda considerável ante a porcentagem de um terço que o país detinha no final do século 17 e começo do 18.

A questão mundial do envelhecimento populacional também afetará a China, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde. O país passará por mudanças populacionais drásticas, especialmente em termos de envelhecimento e distribuição sexual.

Em 2050, 25% da população idosa mundial viverá na China, ante os 20% atuais.

A força de trabalho -pessoas dos 15 aos 59 anos- se reduzirá dos atuais 940 milhões para 750 milhões de pessoas, e os idosos subirão de 178 milhões a 480 milhões, ou de 13,3% a 34% da população.

A despeito dessa mudança, a pressão deve continuar alta no mercado de trabalho. "Continuaremos a ter uma base imensa de mão-de-obra por muito tempo, mas sua idade média será um pouco maior", acrescentou Yuan.

Charles Onyango-Obbo, editor-executivo de África e mídia digital no "Nation Media Group", comenta que no momento em que a população mundial acaba de ultrapassar os 7 bilhões de pessoas, a África também ultrapassou a marca do bilhão de habitantes, recentemente.

Ao pensar sobre isso na África, continente que registrou fomes terríveis nas últimas décadas, a primeira questão talvez seja como alimentar todas essas pessoas.

Em Uganda, por exemplo, a Autoridade Nacional do Meio Ambiente estima que, ao ritmo atual de desflorestamento, é provável que o país precise importar lenha a partir de 2020. (Em Uganda, 80% das pessoas dependem de lenha e 6% de carvão como combustíveis.)

Foto: Feisal Omar - 20.jul.2011/Reuters

Mulheres aguardam refeição em um campo de refugiados em Mogadício, na Somália, país assolado pela fome

Assim, mesmo que haja comida suficiente nos próximos anos, em muitos dos países africanos que vêm sofrendo pesada devastação ambiental a dificuldade poderia estar em obter a energia necessária a cozinhá-la.

Muita gente dirá que, se existe um desafio importante na África, é esse: o do meio ambiente devastado. Quase todos os demais problemas -corrupção, fraude eleitoral, guerra, fome, doença, as indignidades que as mulheres continuam a sofrer em muitas sociedades africanas, a expansão das favelas e o alto custo de vida nas cidades grandes e médias- estão vinculados a ele.

Conhecemos os números. A ONU projeta que pode haver até 50 milhões de "refugiados ambientais" no planeta, em 2020.

Lagos como o lago Chade estão praticamente secos. Muitas cidades africanas passam em média três dias por semana sem receber água encanada.

A situação é ainda pior nas zonas rurais, e doenças relacionadas ao saneamento são causa de 88% da diarreia infantil na África. Elas matam 600 mil crianças africanas a cada ano. E fazem com que as crianças dos países da África subsaariana percam 1,7 milhão de dias de aula ao ano!

Em um relatório publicado em 2009, o secretariado da Comunidade Leste-Africana, sediada na cidade de Arusha, Tanzânia, estimou que se a África tivesse acesso universal ao saneamento e a água de boa qualidade, o continente economizaria US$ 23,5 bilhões com doenças, mortes prematuras, baixa produtividade, dificuldades na obtenção de água e danos ao turismo.

Muitos desses problemas podem ser resolvidos por governos nacionais esclarecidos e com o apoio da comunidade internacional. É possível importar comida e energia.

O maior desafio que vejo para a África é algo que parece relativamente menor. Mas mesmo assim é letal.

Foto: Feisal Omar/Reuters

Mulheres somalis fazem fila em Mogadício para receber comida; mundo chega aos 7 bilhões e fome é desafio

Recordo uma visita que fiz a um parente doente em Tororo, uma cidade no leste de Uganda, alguns anos atrás. Naquele dia, muitas mães adoentadas haviam levado seus filhos ao hospital. As famílias formavam uma longa fila, e todas ostentavam aquele ar de fragilidade. Era um panorama perturbador, e continuo a encontrá-lo na região rural de Uganda, bem como na maioria dos hospitais que visito na África.

Perguntei a uma enfermeira que conhecia qual era o problema. Ela olhou para a fila, discretamente, e respondeu que "a maioria dessas pessoas não deveria estar aqui, porque não estão realmente doentes. Estão com fome. As crianças sofrem de subnutrição". Em outras palavras, a cura de suas doenças estava em suas hortas, e não na medicina. Mas medicina é o que lhes estava sendo ministrado, porque existe uma estrutura para isso.

Um dos meus trabalhos de reportagem mais memoráveis aconteceu na região do Nilo. O rio costumava ser muito rico em peixes. No dia de minha visita ao local de uma futura represa, a missão jornalística era descobrir como a comunidade local estava lidando com um projeto que alteraria radicalmente sua forma de vida.

Quando minha equipe passou por uma das aldeias perto da margem do rio, vimos uma criança muito frágil, cuja barriga distendida apontava para subnutrição.

Foto: Mohamed Sheikh Nor/Associated Press

Criança desnutrida da Somália vive em acampamento em Mogadício, à espera de ajuda

Perguntamos ao pai da criança, um pescador, qual era o problema do menino. Ele respondeu que o filho estava "possuído por maus espíritos". Isso irritou uma de minhas colegas, e ela rebateu:

"Não, ele não foi atacado por maus espíritos. Só precisa comer melhor. Os peixes que você apanha, se você alimentar o menino com eles por uma semana, as proteínas o ajudarão a melhorar".

O pescador parecia confuso e disse que "não posso fazer isso. Os peixes que pesco preciso vender no mercado para comprar outras coisas, o que inclui remédios para minha família".

Parte do problema estava em o pescador ser pobre demais para poder comer os peixes que apanhava. Mas como no caso de Tororo, minha sensação é de que o maior problema para a crescente população africana é de conhecimento. E especialmente saber o que fazer com ele, e conseguir fazer alguma coisa de criativo.

A África pode comprar conhecimento, mas uma coisa que não pode ser importada é a capacidade de fazer algo de grande com ele. Tudo o mais é bem fácil, em termos comparativos.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Pessoas se aglomeram na praia de Ipanema, Rio de Janeiro, Brasil


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