20 de ago de 2013

Brasileiro detido em Londres, por ser companheiro do jornalista americano que revelou espionagem dos EUA

BRASIL – REINO UNIDO
Brasileiro detido em Londres, por ser companheiro do jornalista americano que revelou espionagem dos EUA
Para Greenwald, o jornalista, que é colunista do “The Guardian”, e o companheiro do brasileiro David Miranda, o ato de deter o jovem, foi um tentativa de intimidação uma vez que se ele não respondesse as perguntas poderia ser preso. O jornalista disse que está com muita raiva diante do ocorrido e que tal situação somente mostra o caráter verdadeiro dos Estados Unidos. Um porta-voz da Casa Branca, no entanto, negou nesta segunda-feira ter pedido a detenção de Miranda.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

No aeroporto internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, David Miranda, conta a imprensa a história de sua detenção em Londres

Postado por Toinho de Passira
Fontes: BBC Brasil , The Guardian, The Telegraph, Mirror, Terra, Tribuna Hoje, Reuters

O brasileiro David Miranda, 28 anos, foi detido no aeroporto de Heathrow, em Londres pela Scotland Yard e mantido incomunicável, sem assistência de um advogado, por nove horas. As autoridades inglesas disseram-se apoiadas numa lei, antiterror inglesa, apesar de não apresentarem nenhuma prova ou mesmo indício de que o jovem tivesse qualquer ligação com qualquer atividade terrorista.

A explicação por trás dessa truculência é o fato do carioca ser companheiro do jornalista e advogado americano Glenn Greenwald, 46 anos, colunista jornal inglês The Guardian. Greenwald revelou em reportagens no The Guardian e no O Globo como funciona um gigantesco aparato de espionagem virtual da Agência de Segurança Nacional Americana (NSA), que tem o Brasil como um dos países mais vigiados na última década, com base em documentos vazadas pelo espião americano ex-técnico da CIA, Edward Snowden, atualmente exilado na Rússia.

O brasileiro voltava de Berlim, onde esteve com a cineasta americana Laura Poitras, que trabalha com seu companheiro, Glenn Greenwald, nas investigações do material vazado por Edward Snowden.

Greenwald confirmou que seu companheiro teve a viagem para Berlim paga pelo, que trabalha para o diário britânico The Guardian. O objetivo da viagem teria sido levar informações e receber documentos a respeito do trabalho que o jornalista e a cineasta fazem sobre os documentos vazados por Snowden.

O jurista britânico David Anderson, revisor independente da legislação sobre terrorismo no Reino Unido, disse à BBC que a duração da detenção do brasileiro foi "incomum".

Além dele, políticos da oposição demonstraram insatisfação com o uso da lei antiterror para interrogar uma pessoa que não estaria ligada a atividades terroristas.

Foto: Vincent Yu/AP

Glenn Greenwald, em Hong Kong, falando a imprensa, pela primeira vez sobre a identidade de Edward Snowden, como sendo o homem que lhe forneceu os documentos sobre os programas de vigilância secreta do governo dos EUA (10 de junho de 2013)

HORAS DE TENSÃO

Glenn Greenwald, foi informado da detenção, às 6h30 da manhã, do domingo, no Rio de Janeiro, através de um telefonema feito por "um oficial de segurança” do aeroporto de Heathrow, três horas após o brasileiro ter sido impedido de continuar a viagem.

Segundo Greenwald, o funcionário que ser recusou a se identificar nominalmente, tendo fornecido apenas seu numero funcional: 203.654.

O jornalista imediatamente entrou em contato com a direção do jornal The Guardian, e com autoridades diplomáticas brasileiras em Londres, inclusive o embaixador brasileiro no Reino Unido.

Apesar dos esforços, nem os advogados britânicos, nem os diplomatas brasileiros conseguiram obter qualquer informação e muito menos se encontrar com David, no aeroporto, enquanto ele esteve sob custódia da Scotland Yard.

David Miranda só foi liberado após se esgotar o minuto final do prazo de nove horas previsto, como prerrogativa da polícia, em reter qualquer cidadão, de acordo com a lei antiterror.

Segundo a imprensa britânica, que na sua unanimidade protestou contra a prisão, num documento recente do governo do Reino Unido, sobre a execução da “Lei antiterrorismo ", diz que menos de três pessoas em cada 10 mil são analisados ao passarem pelas fronteiras britânicas." ( Ressalte-se que David não estava entrando no Reino Unido, mas apenas em trânsito para o Rio).

Além disso, "na maioria dos casos, mais de 97%, as detenções duram menos de uma hora." Um anexo a esse documento afirma que apenas 0,06% de todas as pessoas detidas são mantidos por mais de 6 horas. Quer dizer, o caso do brasileiro, estranhamente é uma exceção e um exagero, difícil de explicar.

Em artigo, Greenwald analisa que as autoridades sabiam que era zero a possibilidade de David estar associado com uma organização terrorista ou envolvido em qualquer conspiração neste sentido.

Foto: Ricardo Moraes/Reuters

David Miranda: "não houve violência física, mas psicológicas..."

VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

Nesta segunda-feira, no Jornal Nacional, da Rede Globo, Miranda disse que sofreu ameaças e "violência psicológica" durante as nove horas em que ficou detido.

No entanto, segundo ele, os policiais não fizeram perguntas relacionadas a respeito de possíveis atividades terroristas.

"Perguntaram sobre os protestos aqui no Brasil, sobre meu relacionamento com Glenn, perguntaram sobre a minha família, meus amigos. Nenhuma pergunta sobre terrorismo. Nenhuma."

Ele afirma ainda que os policiais britânicos o ameaçaram de prisão, caso ele não respondesse determinadas questões.

"Não houve nenhuma violência física contra mim, mas você pode ver que foi uma violência psicológica fantástica."

"Perguntaram qual meu papel nessa história da NSA, dos documentos. Eu expliquei que não tenho envolvimento direto com esses documentos, não trabalho com eles", afirmou Miranda.

Autoridades brasileiras e britânicas elevaram a pressão sobre o governo do Reino Unido para que apresente mais explicações sobre por que David Miranda foi detido.

Um porta-voz da Casa Branca revelou que os Estados Unidos foram avisados com antecedência por Londres sobre a decisão de deter Miranda, mas negou que o governo americano tenha pedido a ação.

Foto: Captura de Video

A repórter Sônia Bridi conversou, na tarde desta segunda-feira, com David Miranda e Glenn Greenwald, na residência do casal, no Rio de Janeiro, para o Jornal Nacional

DOCUMENTOS CODIFICADOS

Miranda teve equipamentos eletrônicos que carregava confiscados pela polícia, incluindo um laptop, telefone celular, câmera fotográfica, cartões de memória, DVDs e consoles de videogame. Mas afirma não saber se entre os arquivos que transportava, alguns deles codificados, estavam documentos secretos da NSA.

"Eu estava levando alguns arquivos para Laura e estava trazendo alguns arquivos para o Glenn. Eu não sei o que continha naqueles arquivos, porque eles são jornalistas, eles trabalham em várias histórias.

Greenwald afirmou que tem cópias de todos os documentos que foram confiscados pela polícia britânica.

Em artigo publicado nessa segunda no Guardian, o jornalista chegou a afirmar que o episódio "nos encoraja ainda mais" a "continuar relatando agressivamente o que esses documentos revelam". O mesmo tom foi adotado na entrevista dada pelo jornalista no Aeroporto Tom Jobim, na chegada de seu companheiro.

Greenwald disse que iria "fazer reportagem com muito mais agressão do que antes, (...) publicar muito mais argumentos do que antes, eu vou publicar muito mais coisas sobre a Inglaterra também".

Mas na entrevista ao JN, mais tarde, ele afirmou que não quer se vingar do governo britânico.

"Eu nunca disse nada que vou punir ninguém ou vou buscar vingança. Vou publicar só para mostrar ao mundo a informação que população do mundo deve saber."

Foto: Agência Senado/AFP

Greenwald depondo em audiência pública no Senado brasileiro: "o Brasil era um dos paéses mais espionados pelo governo americano"

PRESSÃO

Na tarde de segunda-feira, o ministro de Relações Exteriores, Antonio Patriota, conversou sobre o tema por telefone com o chanceler britânico, William Hague. Segundo o Itamaraty, na ligação, feita por volta das 13h, Patriota reiterou a "grave preocupação" do governo brasileiro com o ocorrido, classificado como "injustificável", e repetiu que espera que incidentes como esse não se repitam.

Em uma nota, o Ministério do Exterior da Grã-Bretanha disse que Hague e Patriota "concordaram que representantes do Brasil e do Reino Unido permanecerão em contato sobre o tema".

Em Washington, Josh Earnest, vice-porta-voz da Casa Branca, admitiu que os Estados Unidos foram avisados da ação por Londres antes que Miranda fosse detido, mas afirmou que a medida em si "não foi feita a pedido ou com o envolvimento do governo americano".

Por sua vez, um porta-voz do Ministério do Interior britânico disse que não responderia a perguntas sobre as declarações de Earnest ou a decisão de deter Miranda, ressaltando que o artigo da Lei Antiterrorismo que autorizou que ele fosse detido, conhecida no país como Schedule 7, "forma uma parte essencial do esquema de segurança da Grã-Bretanha" e portanto seria "prerrogativa da polícia decidir quando é necessário e sensato aplicá-lo".

O Schedule 7 pode ser usado em aeroportos, portos e áreas de fronteira, permitindo a agentes deter e interrogar indivíduos sem a necessidade de um mandado. Durante o interrogatório, o acusado também não precisa ter acesso a um advogado.

Scotland Yard se limitou a explicar os critérios de aplicação da lei, por meio de comunicados divulgados desde domingo. "(A lei) é usada de maneira apropriada e devida e sempre está submetida ao escrutínio de um revisor independente das leis antiterroristas do Reino Unido", informou a Polícia Metropolitana.

Foto: Facebook

O casal está junto há mais de dez anos, desde que se conheceram em no Rio de Janeiro, em 2002.

UNIÃO ESTÁVEL

Glenn Greenwald, o americano nascido em Lauderdale Lakes, Florida, relaciona-se com o publicitário brasileiro, David Michael Miranda, há mais de 10 anos. Quando se conheceram numa praia no Rio, onde o jornalista estava de férias, o jovem brasileiro tinha apenas 18 anos.

Em parte por causa das leis americanas que impedem parceiros homossexuais obtenham cidadania ou visto permanente, Greenwald mudou para o Rio para ficar com Miranda. O casal morava na cidade maravilhosa há oito anos, numa confortável vivenda, com 10 cães resgatados.

Glenn Greenwald, aceitou convite e compareceu a audiência pública no Senado Federal no começo do mês, onde afirmou que o modelo usado para acessar ligações e e-mails pessoais começou no Afeganistão e no Iraque, países que foram alvo de invasão de tropas dos EUA em 2001 e 2003, respectivamente.

No início de julho, reportagem do jornal “O Globo” assinada por Greenwald revelou que, na última década, pessoas residentes ou em trânsito no Brasil, assim como empresas instaladas no país, se tornaram alvos de espionagem da NSA.

David Miranda deve se considerar um cara de sorte, pois no último encontro entre um brasileiro e a Scotland Yard, aconteceu em 2005, quando o mineiro Jean Charles de Menezes, , confundido com um terrorista, levou sete tiros na cabeça e um no ombro, numa estão do metrô de Stockwell (sul de Londres).

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