25 de mai de 2013

Ferraris abandonadas refletem o impasse economico de Dubai

DUBAI - Economia
Ferraris e Mercedes abandonadas refletem impasse econômico de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos
Diante da crise econômica mundial, estrangeiros endividados, temendo a severa lei local, contra caloteiros, fogem do país e deixam para trás Ferraris, BMWs, Porsches e Mercedes, que adquiriram no tempo das "vacas gordas".

Foto: Flickr

Milhares de carros esportivos e luxuosos foram abandonados no aeroporto de Dubai por expatriados endividados. Esta é uma Ferrari Enzo, avaliada em R$ 1 milhão, encontrada num estacionamento

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Le Monde , Messy Ness Chic, Flickr, The Daily Mail, Época

Em 2009, a revista Época reportou que concluído em 2006, o complexo Palm Jumeirah, no emirado de Dubai, foi alardeado por seus idealizadores como a oitava maravilha do mundo. Trata-se de um grandioso conjunto de ilhas artificiais construídas em forma de palmeira que abrigam hotéis, casas e shoppings, tudo de altíssimo luxo. O empreendimento ampliou em 15 vezes a pequena área costeira de Dubai, que, junto com outros seis territórios, forma os Emirados Árabes Unidos (EAU).

Símbolo da pujança econômica de Dubai, o Palm Jumeirah custou aproximadamente US$ 13 bilhões, apenas na construção. Circularam rumores no emirado de que a palmeira gigante estaria afundando no oceano. Não há comprovação do afundamento – mas ele fornece uma irresistível analogia para a cidade inteira. A economia de Dubai, o oásis de vidro, concreto e verde artificial erguido no meio do deserto durante as duas últimas décadas, está soçobrando, desde a primeira crise econômica global em 2008.

Foto: Divulgação

A luxuosa marina de Dubai

O emirado, basicamente a cidade de Dubai e alguns vilarejos ao redor, era considerado um dos últimos baluartes do esplendor econômico que vigorou no mundo pré-crise. Para contornar sua limitada capacidade de produção petrolífera, o território decidiu na década de 1980 se estabelecer como um entreposto capitalista no meio dos países islâmicos, um lugar seguro para grandes grupos ocidentais montarem suas bases na região.

Assim, Dubai, badalada por xeques repletos de petrodólares, gestores de megafundos de investimento e oligarcas russos, parecia um refúgio tranquilo contra a ressaca financeira global.

A economia girava em torno de turismo, serviços, mercado financeiro e, principalmente, empreendimentos imobiliários. Além das ilhas em palmeira, Dubai possui o edifício mais alto do mundo, com 818 metros, o maior shopping e um hotel em forma de vela de barco.

Foto: Flickr

Este é um Jaguar XJ220 avaliado em R$ 500 mil

Mas a crise chegou. O mercado imobiliário, inflado por empréstimos sem garantias e capital especulativo, estourou quando o crédito começou a secar. Sem garantias, os bancos cortaram os empréstimos. Com a queda do preço do petróleo, os ganhos nos emirados vizinhos minguaram – e os gastos em Dubai diminuíram. O dinheiro escasso fez com que a metade dos projetos de construção, algo equivalente a US$ 580 bilhões, fosse interrompida ou cancelada.

É impossível saber o tamanho do baque econômico na terra do xeque Mohammed bin Rashid Al Maktoum, que acumula a Vice-Presidência dos Emirados. Assim como a maioria dos países do Oriente Médio, o governo de Dubai não divulga estatísticas confiáveis. Ainda com um agravante: uma lei de 2008 considera criminoso quem “difamar” o emirado ou sua economia. A multa para o residente que pintar um retrato não favorável do emirado pode chegar a 1 milhão de dirrãs, ou US$ 272 mil.

Sem estatísticas oficiais, só dá para ter ideia da crise por aproximações. Um exemplo: na semana passada, os jornais locais informaram que o país tem cancelado 1.500 vistos de imigração por dia, em média. Nos EAU, o estrangeiro que perde o emprego tem o visto de trabalho imediatamente rescindido. O desempregado tem 30 dias para arranjar outra função ou sair do país.

Foto: Flickr

Um magnifico Honda NSX abandonado na rua

Agora o jornal francês "Le Monde" volta ao tema, que já tinha sido tratado pelo inglês "Daily Mail", o ano passado: uma forma que a imprensa local encontrou de dar a dimensão do êxodo são os carros abandonados no aeroporto internacional ou nos estacionamentos da cidade. Segundo a imprensa, já há mais de 3 mil carros.

Muitos estão com a chave na ignição e ostentam nos para-brisas bilhetes de desculpas ou de advertência: o dono não vai voltar para buscar o carro.

Em parte, a fuga maciça de Dubai pode ser explicada pelo rigor das leis no país. Dívidas atrasadas e cheques sem fundos são punidos com prisão. Diante dessa possibilidade, profissionais que levavam uma vida de ostentação e se viram pesadamente endividados não hesitaram em abandonar carros de luxo, imóveis e investimentos. Melhor fugir com os bolsos vazios que arriscar ir para a cadeia.

Assim como algumas cidades do mundo têm problema com o lixo, altos índices de criminalidade ou falta de moradia, em Dubai, o problemas são as Ferraris, os Porsches, as BMWs, as Mercedes abandonados, por tempo indeterminado, cobertos com grossas camadas de poeira, nos parques, nos estacionamentos do aeroporto, à beira das estrada e em toda a cidade.

Foto: Flickr

Outro abandonado um NIssan Skyline

No ano passado, um Ferrari Enzo, um modelo valorisadissimo, só teve 400 unidades fabricadas, foi recolhida pela polícia, coberta de poeira, depois de estar abandonada por vários meeses num estacionamento. Avaliada em um milhão de dólares foi colocada à venda num leilão oficial, ao lado de outras Ferraris, Porsches, Range Rover e Mercedes, todas encontradas sem dono pelas ruas da cidade.

Foto: Didi Paterno/Flickr

Um blogueiro local comentou que o lado positivo dessa história é que você pode comprar, num leilão, uma Ferrari com um baita desconto!


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