9 de set de 2013

Por que os cristão sírios apoiam Assad? - de Guga Chacra, para o Estadão

BRASIL - Opinião
Por que os cristão sírios apoiam Assad?
O ataque da Al Qaeda a Maloula, onde se fala aramaico, ajuda a explicar

Fotos: Guga Chacra

Fotos da minha visita a Maloula e Saydnaya, outra vila cristã, onde se fala aramaica na Síria. Notem o cartaz de Assad ao lado de santos.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Guga Chacra
Fonte: Blog do Guga Chacra

Já estive múltiplas vezes na Síria. Em três destas oportunidades, fiz questão de visitar a vila cristã de Maloula, a pouco mais de 50 km de Damasco. Visitei não apenas para conhecer os monastérios, mas também para escutar aramaico, a língua de Jesus.

A última visita minha a Maloula ocorreu já durante a guerra civil da Síria. Na cidade, havia gigantescos cartazes de Assad, inclusive na montanha. Os moradores, em alguns casos, defendiam o ditador sírio. Em outros, diziam que ele seria a única proteção dos cristãos diante da ameaça do rebeldes jihadistas da oposição. No fim, recebi de presente um dicionário aramaico-espanhol – “El Arameo Hablado de Ma’aloula”, de Hanna Francis e Issam Francis.

A previsão deles, aparentemente, se tornou realidade. Nesta semana, um terrorista suicida ligado à oposição se explodiu diante do posto de controle do regime na entrada desta vila com suas cruzes espalhadas pelas montanhas. Depois, estes rebeldes da Frente Nusrah, ligados à Al Qaeda, tomaram um hotel no alto da cidade e começaram a disparar contra igrejas desta vila de apenas 2 mil habitantes.

Muitos deputados e senadores dos EUA temem justamente que cristãos e outras minorias religiosas, como os alauítas, sejam alvo de rebeldes majoritariamente sunitas religiosos. Conforme lembrou o Fareed Zakaria, a Guerra da Síria é um conflito sectário. De um lado, estão os alauítas (10%), cristãos (10%), drusos (10%) e parte dos sunitas, especialmente os laicos. Do outro, na oposição, estão os sunitas mais religiosos. Curdos, que são sunitas, mas etnicamente não-árabes, agem de forma independente, buscando autonomia de suas áreas.

Por este motivo, é extremamente difícil definir como seria uma intervenção na Síria. Um ataque químico, atribuído a Assad pelos EUA, embora o regime negue, a Rússia acuse a oposição e a ONU não tenha chegado a uma conclusão, não pode ficar impune. Caso contrário, abriria um precedente grave para este armamento de destruição em massa voltar a ser usado não apenas na Síria, mas também em outros países.

Ao mesmo tempo, não está clara qual seria a estratégia de Obama para levar adiante esta ação, sem deteriorar ainda mais o cenário da guerra civil. Por exemplo, como vimos no meu relato acima, uma das duas vilas cristãs do mundo onde ainda se fala aramaico foi alvejada por radicais da oposição ligados à Al Qaeda. A outra vila também é na Síria.

No fim, é uma guerra envolvendo um regime sanguinário, de viés laico e aliado do Irã e do Hezbollah, contra uma oposição sanguinária, de viés religioso, ligada à Al Qaeda e a monarquias ultra religiosas do Golfo Pérsico. Os dois são péssimos. A Síria, como já falo há dois anos, não tem solução.

Foto: Guga Chacra

O cartaz de Assad junto com as Cruzes nas montanhas


Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa "Globo News Em Pauta" em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia.

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