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6 de ago. de 2014

Por que a guerra Israel-Hamas é típica guerra Exército-Guerrilha? - Gustavo Chacra

Oriente Médio - Opinião
Por que a guerra Israel-Hamas é típica
guerra Exército-Guerrilha?
O Exército de Israel não é diferente de nenhum outro Exército do mundo. O Hamas tampouco é diferente de outras guerrilhas urbanas do mundo.

Charge: Joep Bertrams – Het Parool - Amsterdam - Holanda

Postado por Toinho de Passira
Texto de Gustavo Chacra
Fonte: Estadão

O Exército de Israel não é diferente de nenhum outro Exército do mundo. Não é o mais moral e tampouco o mais cruel. Atua da mesma forma que a maior parte das Forças Armadas do mundo atuariam se enfrentassem uma guerrilha como o Hamas.

Como exemplo, pegue os Estados Unidos, do celebrado Barack Obama, Nobel da Paz. Seus Drones bombardeiam o Yemen para combater a Al Qaeda. Mas no fim morrem centenas de civis nestes ataques. E olhe que os iemenitas não lançam um foguete sequer contra o território americano.

Noto que os conflitos mais sanguinários do Oriente Médio no pós Guerra envolveram potências não árabes – Irã (Guerra Irã-Iraque), EUA (Guerra do Iraque) e França (Guerra da Argélia). Todos mataram bem mais do que qualquer conflito entre israelenses e palestinos.

O Hamas tampouco é diferente de outras guerrilhas urbanas do mundo. Age de forma similar a outros grupos guerrilheiros, independentemente da região. Suas táticas são comuns em uma zona com elevada densidade demográfica, bloqueada e enfrentando um Exército superior. É um pouco óbvio que se esconderão no meio da população.

Trata-se de um conflito assimétrico. Não há condições de nenhum dos lados sair totalmente vencedor, embora guerrilhas, como o Hamas, tendem a sair vencedoras ao não perderem. Foi o que aconteceu no atual conflito.

A única forma de estabilidade definitiva seria um acordo de paz. Isso também já ocorreu em outras partes do mundo. Os europeus, que são o povo que mais se matou na história da humanidade, hoje vivem em relativa paz, a não ser pela Ucrânia.

Por que no Oriente Médio, onde nunca houve violência que chegasse aos pés da violência europeia, judeus e árabes não conseguirão o mesmo?
*Guga Chacra é comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY.
**Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

26 de mar. de 2014

Em oito meses, General Sissi, do Egito, matou 5 vezes mais do que o Brasil em 20 anos de regime militar

EGITO - Opinião - Violência
Em oito meses, General Sissi, do Egito, matou 5 vezes mais do que o Brasil em 20 anos de regime militar
Ainda assim, a maior parte da população do Egito, especialmente os de viés mais laico, apoiam incondicionalmente o regime. O Marechal Sissi deve disputar as eleições e, mesmo que estas sejam transparentes, certamente é o favorito.

Foto: Reuters

VIOLENTO E POPULAR - General Sissi, o presidente interino do Egito, empossado após um golpe militar, tem mais apoiadores que críticos

Postado por Toinho de Passira
Texto de *Guga Chacra
Fonte: Blog do Guga Chacra

O Egito, desde a deposição de Mohammad Morsy em julho do ano passado, enfrenta o momento de maior repressão na história moderna do país, iniciada após Segunda Guerra Mundial. O regime do Marechal Sissi supera seus antecessores Nasser, Sadat e Mubarak na violência contra a oposição. Vamos ver algumas informações

1) Condenação à morte é quase recorde mundial

A condenação à morte de 529 membros da Irmandade Muçulmana pela acusação de terem matado um policial beira o realismo fantástico. O julgamento durou apenas dois dias. Isto é, sem interrupções, equivaleria a julgar 11 acusados por hora, ou um a cada cerca de cinco minutos. Algo impossível em uma justiça transparente.

2) Maior violência na história moderna do Egito

De acordo com artigo do Carnegie Endowment for International Peace publicado nesta terça, desde julho, com a instalação do regime de Sissi, já foram mortas 3.143 pessoas. “Estes números excedem até mesmo os momentos mais sanguinários do Egito desde a revolução militar comandada por Gamal Abdel Nasser em 1952”, diz o artigo

3) A volta do terrorismo

Das mortes, 2.528 foram de manifestantes durante protestos contra o regime – o quíntuplo do total de desaparecidos no regime militar no Brasil ao longo de 20 anos. Nestes embates, morreram ainda 59 policiais. O terrorismo, que voltou a assustar o Egito, ressurgiu e alveja acima de tudo policiais (150 mortos) e soldados (59)

4) Até presidente deposto está preso

Além das vítimas fatais, outros 17 mil egípcios ficaram feridos na repressão ou em outros atos de violência e cerca de 16 mil pessoas estão presas.

Entre elas, o presidente deposto Morsy, que segue incomunicável há meses, aparecendo apenas dentro de uma jaula a prova de som durante seu julgamento.

5) Mas por que Sissi é tão popular?

Ainda assim, a maior parte da população do Egito, especialmente os de viés mais laico, apoiam incondicionalmente o regime. O Marechal Sissi deve disputar as eleições e, mesmo que estas sejam transparentes, certamente é o favorito. Os egípcios queriam ordem depois da instabilidade que sucedeu a queda de Hosni Mubarak. Muitos temem o retorno da Irmandade Muçulmana ao poder, embora a organização, agora classificada como terrorista pelo novo regime, também conte com apoio popular, especialmente das alas mais conservadoras.

6) Acredite, Mubarak era mais liberal e estável

O Egito, depois de Mubarak, sonhava em ser democrático e estável. Sem dúvida, conseguiu um pouco de democracia. Mas esta era instável. E os egípcios saíram em busca da estabilidade ao derrubar Morsy, ainda que isso significasse sacrificar a democracia. No fim, obtiveram sucesso ao acabar com a democracia, mas fracassaram totalmente na busca da estabilidade. Hoje o Egito é uma ditadura instável. Pior até do que no regime de Mubarak, também uma ditadura, mas, pelo menos, estável.


*Guga Chacra é comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY.
**Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

9 de set. de 2013

Por que os cristão sírios apoiam Assad? - de Guga Chacra, para o Estadão

BRASIL - Opinião
Por que os cristão sírios apoiam Assad?
O ataque da Al Qaeda a Maloula, onde se fala aramaico, ajuda a explicar

Fotos: Guga Chacra

Fotos da minha visita a Maloula e Saydnaya, outra vila cristã, onde se fala aramaica na Síria. Notem o cartaz de Assad ao lado de santos.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Guga Chacra
Fonte: Blog do Guga Chacra

Já estive múltiplas vezes na Síria. Em três destas oportunidades, fiz questão de visitar a vila cristã de Maloula, a pouco mais de 50 km de Damasco. Visitei não apenas para conhecer os monastérios, mas também para escutar aramaico, a língua de Jesus.

A última visita minha a Maloula ocorreu já durante a guerra civil da Síria. Na cidade, havia gigantescos cartazes de Assad, inclusive na montanha. Os moradores, em alguns casos, defendiam o ditador sírio. Em outros, diziam que ele seria a única proteção dos cristãos diante da ameaça do rebeldes jihadistas da oposição. No fim, recebi de presente um dicionário aramaico-espanhol – “El Arameo Hablado de Ma’aloula”, de Hanna Francis e Issam Francis.

A previsão deles, aparentemente, se tornou realidade. Nesta semana, um terrorista suicida ligado à oposição se explodiu diante do posto de controle do regime na entrada desta vila com suas cruzes espalhadas pelas montanhas. Depois, estes rebeldes da Frente Nusrah, ligados à Al Qaeda, tomaram um hotel no alto da cidade e começaram a disparar contra igrejas desta vila de apenas 2 mil habitantes.

Muitos deputados e senadores dos EUA temem justamente que cristãos e outras minorias religiosas, como os alauítas, sejam alvo de rebeldes majoritariamente sunitas religiosos. Conforme lembrou o Fareed Zakaria, a Guerra da Síria é um conflito sectário. De um lado, estão os alauítas (10%), cristãos (10%), drusos (10%) e parte dos sunitas, especialmente os laicos. Do outro, na oposição, estão os sunitas mais religiosos. Curdos, que são sunitas, mas etnicamente não-árabes, agem de forma independente, buscando autonomia de suas áreas.

Por este motivo, é extremamente difícil definir como seria uma intervenção na Síria. Um ataque químico, atribuído a Assad pelos EUA, embora o regime negue, a Rússia acuse a oposição e a ONU não tenha chegado a uma conclusão, não pode ficar impune. Caso contrário, abriria um precedente grave para este armamento de destruição em massa voltar a ser usado não apenas na Síria, mas também em outros países.

Ao mesmo tempo, não está clara qual seria a estratégia de Obama para levar adiante esta ação, sem deteriorar ainda mais o cenário da guerra civil. Por exemplo, como vimos no meu relato acima, uma das duas vilas cristãs do mundo onde ainda se fala aramaico foi alvejada por radicais da oposição ligados à Al Qaeda. A outra vila também é na Síria.

No fim, é uma guerra envolvendo um regime sanguinário, de viés laico e aliado do Irã e do Hezbollah, contra uma oposição sanguinária, de viés religioso, ligada à Al Qaeda e a monarquias ultra religiosas do Golfo Pérsico. Os dois são péssimos. A Síria, como já falo há dois anos, não tem solução.

Foto: Guga Chacra

O cartaz de Assad junto com as Cruzes nas montanhas


Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa "Globo News Em Pauta" em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia.

31 de ago. de 2013

Como Obama convencerá o Congresso a autorizar a intervenção na Guerra da Síria?

ESTADOS UNIDOS - SÍRIA
Como Obama convencerá o Congresso a autorizar a intervenção na Guerra da Síria?
Obama terá a tarefa agora de, em primeiro lugar, apresentar provas de que realmente o regime de Assad foi responsável pelo uso de armas químicas.

Foto: Charles Dharapak / Associated Press

Presidente Obama anunciando que vai pedir apoio ao congresso sobre intervenção na Síria, neste sábado, acompanhado do vice-presidente Joseph R. Biden, o Jardim das Rosas da Casa Branca, em Washington

Postado por Toinho de Passira
Texto de Guga Chacra*
Fontee: Blog Estadão

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez história hoje ao buscar autorização do Congresso para intervir na Síria. Desta forma, o líder americano abre um precedente para outros ocupantes da Casa Branca no futuro não agirem sem o aval de deputados e senadores. Mas esta decisão ocorreu apenas como um último recurso depois de fracassos na ONU e no Reino Unido e não por ele agir como um estadista.

Não será simples, porém, para Obama conseguir esta autorização. Existem opositores a esta operação tanto entre democratas como entre republicanos. No seu partido, há uma ala mais à esquerda que vê esta ação como uma repetição dos anos de Bush, embora a intervenção na Síria seja completamente distinta por ser de curta duração e sem o envio de tropas.

Entre os republicanos, o cenário é mais complexo. Alguns, como os senadores John McCain e Lindsay Graham, são a favor de uma intervenção ainda maior, incluindo, além dos bombardeios, uma zona de exclusão aérea e o armamento em larga escala da oposição. Outros, como os libertários e isolacionistas, são contra uma ação contra a Síria por achar uma intervenção cara, em um país não estratégico e que iria contra os cristãos sírios, majoritariamente aliados de Assad.

Obama terá a tarefa agora de, em primeiro lugar, apresentar provas de que realmente o regime de Assad foi responsável pelo uso de armas químicas. Em segundo lugar, precisará responder a todas às dúvidas sobre a eficiência de sua estratégia de bombardeios contra a infraestrutura militar de Assad. Será suficiente para coibir novas ações com armas químicas? Aumentará a intensidade da guerra civil? Provocará reações nos países vizinhos? Os EUA serão sugadas para um conflito ainda maior?

No Reino Unido, David Cameron fracassou. Mas o premiê teve pouco tempo para se preparar. Vamos ver a Casa Branca, com mais tempo e, possivelmente, mais informações.
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia.

18 de ago. de 2013

Entenda a situação dos cristãos do Egito, de Guga Chacra, para O Estado de S. Paulo

BRASIL - Oponião
Entenda a situação dos cristãos do Egito
Mesmo antes da Primavera Árabe, os cristãos, ao redor do mundo árabe, buscaram se aliar a setores mais fortes em suas sociedades para tentar se proteger. Algo normal para minorias religiosas.

Foto: Roger Anis/Jornal El Shorouk/AP

Quarenta e igrejas cristãs copta foram queimadas em todo o Egito
durante os eventos dos últimos dias

Postado por Toinho de Passira
Texto de Guga Chacra, para O Estado de S. Paulo
Fonte: Blog do Guga Chacra – De Beirute a Nova York

Os cristãos do Egito, majoritariamente coptas, desde a Revolução Arabista de Nasser, nos anos 1950, nunca tiveram a mesma importância dos cristãos do Líbano, do Iraque e da Síria para seus países. Diferentemente de seus pares em Damasco, Bagdá e Beirute, onde integram ou integravam a elite, os egípcios sempre enfrentaram dificuldades no Cairo e Alexandria.

Durante o regime de Hosni Mubarak, muitos deles viviam nos lixões do Cairo, onde criavam porcos. Os cristãos também eram perseguidos e raros, como o ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros Ghali, alcançavam posições de importância.

Apenas como comparação, no Líbano, os cristãos possuem o cargo de presidente, chefe das Forças Armadas, metade do gabinete ministerial e metade do Parlamento. Verdade, representam cerca de um terço da população, enquanto no Egito são 10%. Mas, na Síria, onde a proporção é similar à egípcia, os cristãos sempre tiveram cargos importantes, incluindo, até recentemente o de ministro da Defesa.

Mesmo antes da Primavera Árabe, os cristãos, ao redor do mundo árabe, buscaram se aliar a setores mais fortes em suas sociedades para tentar se proteger. Algo normal para minorias religiosas. Ditadores seculares sempre foram vistos como protetores em Bagdá e Damasco, por exemplo. No Iraque, até 2003, os cristãos eram abertamente a favor do regime de Saddam Hussein – o número dois do regime era o cristão caldeu Tariq Aziz. Na Síria, sempre estiveram ao lado da família Assad.

No Líbano, até a Guerra Civil de 1975 a 90, os cristãos eram os mais poderosos. Depois, em uma nação politicamente nos dias de hoje dividida entre sunitas e xiitas, a maior parte dos cristãos, seguidores de Michel Aoun, buscou em uma aliança com os xiitas do Hezbollah a sua proteção. Outros, como os seguidores de Samir Gaegea, acharam melhor se aliar aos sunitas de Saad Hariri.

No Iraque, a aposta dos cristãos, em se aliar a Saddam, foi um grande erro. A invasão americana fez centenas de milhares de cristãos iraquianos buscar refúgio na Síria e nos braços de Assad que, como o ditador em Bagdá, sempre protegeu os cristãos.

A Guerra Civil da Síria fez os cristãos sírios, incluindo autoridades religiosas, a apoiarem em massa as forças de Assad, um líder secular, embora alauíta, uma vertente moderada do islamismo, e com o apoio da classe média sunita não religiosa das grandes cidades. O medo dos cristãos sírios eram acabar como os iraquianos. Neste caso, a aposta deles tem sido positiva, por um lado, pois Assad está vencendo a guerra. De outro, porém, são alvos dos rebeldes radicais sunitas da oposição que, com o apoio do Golfo e de Nações ocidentais, alvejam vilas cristãs que são alvos de massacres – para os cristãos sírios, quem os protege são a Rússia e o Irã, além de Assad, e não os EUA e a França, a quem consideram aliados do extremismo islâmico.

Os cristãos egípcios, por sua vez, nunca tiveram um protetor. Para eles, não há um Assad ou um Saddam e tampouco uma Rússia ou um Irã para defende-los. E tampouco possuem o poder político e econômico dos cristãos libaneses, que também são elite ao redor do mundo, incluindo em São Paulo.

Já tratados cidadãos de segunda classe nos anos de Mubarak, os cristãos apostaram inicialmente na redemocratização do Egito. Mas, com o presidente Mohammad Morsy, da Irmandade Muçulmana, fazendo propostas que não respeitavam totalmente as demais religiões do Egito, especialmente a cristã, eles se juntaram aos milhões de manifestantes pedindo a queda do então líder egípcios. E decidiram apostar nos militares.

Esta opção, porém, parece não estar sendo eficiente. Os cristãos, que não são responsáveis diretos pelos massacres de membros da Irmandade Muçulmana nesta semana, vem se transformando em bode expiatório por parte da Irmandade. Dezenas de igrejas foram queimadas nos últimos dias. O problema é que, diferentemente de Saddam e de Assad, com todos os seus defeitos de ditadores sanguinários, o general Sisi, assim como Mubarak anteriormente, não está preocupado com os cristãos. De uma certa forma, até os usa como tática de PR para dizer que os membros da Irmandade Muçulmana são radicais no Ocidente.

Uma pena, mas o cristianismo egípcio corre enorme risco. Cada vez mais, o único bastião seguro para os cristãos no mundo árabe é o Líbano e a Cisjordânia, além da Síria, se Assad conseguir vencer a guerra.
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY e correspondente da Folha em Buenos Aires
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original