3 de jun de 2013

VEJA: Novo escândalo de dinheiro na cueca vai chacoalhar Brasília

BRASIL - Corrupção
Novo escândalo de dinheiro na cueca
vai chacoalhar Brasília
Reportagem de VEJA desta semana mostra por que a apreensão de meio milhão de reais pela PF em aeroporto é apenas o início de terremoto político

Foto: Marcia Kalume

É MEU - Aos policiais que apreenderam os 465 000 reais, o operador Dudu limitou-se a dizer que carregar dinheiro em espécie não é crime

Postado por Toinho de Passira
Texto de Rodrigo Rangel e Hugo Marques
Fonte: Veja

O homem da foto diz ser o dono de meio milhão de reais achados na cueca de dois passageiros flagrados no aeroporto de Brasília. É mentira. Os donos são outros. E Dudu é só a ponta de um grande escândalo prestes a estourar.

Um passageiro flagrado no portão de embarque de um aeroporto com muito dinheiro vivo em seu poder não chega a ser uma novidade no Brasil. Tampouco causa grande surpresa se o tal passageiro tiver escolhido, como local para acondicionar as notas, suas roupas íntimas.

Tudo isso já se viu — e tudo isso se repetiu na manhã do último dia 16 no Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília. Nesse dia, uma quinta-feira, a Polícia Federal flagrou dois homens que tentavam embarcar para o Rio de Janeiro com 465.000 reais escondidos em suas meias e cuecas. A dupla foi detida para esclarecimentos e o dinheiro, apreendido.

Horas depois, um terceiro homem se apresentou à polícia dizendo ser o dono da bolada. Identificou-se como Eduardo Lemos, disse que os homens eram seus funcionários e que a quantia se destinava a comprar um imóvel no Rio.

Indagado sobre os motivos de ter recorrido ao método (ainda) pouco usual para transporte de dinheiro, respondeu apenas que carregar valores em espécie não é crime. E ainda esnobou os policiais: para ele, o quase meio milhão de reais apreendidos nem era "tanto dinheiro assim".

Para comprovar o que dizia, fez questão de exibir o relógio de 120.000 reais que carregava no pulso e de informar que havia chegado ao prédio da polícia a bordo de um Porsche.

O homem declarou ainda não ter nenhuma relação com políticos e disse que o dinheiro que seus empregados carregavam não provinha dos cofres públicos.

A realidade é bem diferente, conforme apurou a reportagem de VEJA. Eduardo Lemos, na verdade, é Carlos Eduardo Carneiro Lemos, um operador de mercado conhecido por fazer negócios com fundos de pensão de empresas estatais, e o flagrante em que ele acaba de se envolver é o princípio de um grande escândalo.

Ao contrário do que disse aos policiais, Dudu, como é chamado pelos amigos, tem excelentes contatos no mundo da política. Por essas conexões, foi parar há oito anos no banco da CPI dos Correios, que investigou o mensalão.

Lá, teve de dar explicações sobre transações milionárias que fez quando ocupava o cargo de gerente de investimentos da Prece, o fundo de pensão dos funcionários da companhia de saneamento do Rio.

Ele foi escolhido para o cargo pelo PT — mais precisamente por Marcelo Sereno, homem de confiança do ex-ministro José Dirceu —, com a bênção do aliado PCdoB.

No posto, Dudu comandou operações que contribuíram para um prejuízo de mais de 100 milhões de reais ao fundo, pelas contas da própria CPI.

As transações funcionavam da seguinte forma: corretoras amigas compravam papéis de pouco valor no mercado e os repassavam à Prece por um preço muito acima do real. O fundo ficava com o prejuízo, Dudu e seus amigos, com os lucros da operação.

Era ele o responsável por autorizar os negócios.

No ano passado, os golpes lhe renderam uma punição da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Num veredicto inédito em processos que envolvem fundos de pensão, ele foi condenado a pagar uma multa de 3,3 milhões de reais.

Também em 2012, Dudu foi formalmente acusado pelo Ministério Público Federal de tramar operações prejudiciais aos cofres de outros dois fundos — a Refer, dos funcionários da Rede Ferroviária Federal, e o Núcleos, da Eletronuclear.

Apesar de ter sido investigado e condenado, continuou operando. Hoje, usa como fachada a Fides Advisor Consultoria Financeira, aberta há pouco menos de dois anos, que tem como sede uma sala de escritórios virtuais num bairro nobre de Manaus.

A empresa, que ele fundou em sociedade com um amigo, é apontada como fonte dos 15 milhões de reais que o operador diz faturar anualmente.

Embora a sede da Fides seja em Manaus, o centro das atividades de Dudu fica mesmo em Brasília.

VEJA apurou que o dinheiro apreendido no aeroporto é a ponta aparente de um esquema grandioso que mistura interesses públicos e privados, passa por operações financeiras prejudiciais a fundos de pensão e resulta em dividendos que beneficiam, além dos envolvidos nas negociatas, também políticos que dão sustentação aos dirigentes dos fundos responsáveis por chancelar cada negócio.

Dudu, o milionário do Porsche, é só um personagem dessa rede, e sua atribuição principal é distribuir os lucros provenientes das operações.

Para dificultar o rastreamento do fluxo do dinheiro, a rede inclui empresas de factoring, serviços de doleiros e contas em paraísos fiscais.

Os lucros obtidos são partilhados em dinheiro vivo. Cada pagamento — inclusive aos políticos — é cuidadosamente registrado em planilhas, com nomes e valores. O dinheiro apreendido no Aeroporto JK deixou rastros. E as conseqüências de sua apreensão mostrarão que ela não tem nada de corriqueira.

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