6 de jun de 2013

Branquearam o futebol, de Juca Kfouri, para a Folha de S.Paulo

BRASIL – Opinião
Branquearam o futebol
Juca Kfouri comenta o fenomeno da ausência de negros e até mestiços como ídolos do nosso futebol

Foto: Luiz Paulo Machado/Placar

O fotografo Luiz Paulo Machado flagrou o suor na camiseta do Rei Pelé formando o desenho de um coração. Foi publicada em 1970 na Revista Placar. Essa imagem é real, não tem truques, não é montagem, na época photoshop ainda não tinha sido inventado

Postado por Toinho de Passira
Texto de Juca Kfouri, coluna Folha de S.Paulo
Fonte: Folha de S.Paulo

Que perdoem os que vivem num país tão diferente que imaginam não haver racismo no Brasil.

Que perdoem, ainda, os que diziam que a política de cotas é que estabeleceria discriminação racial em nossas faculdades, o que os fatos têm desmentido à exaustão.

Que perdoem, também, os complacentes de plantão que a tudo justificam, até a entrega de estádios inacabados, sujos, com entornos perigosos, por mais que as obras tenham estourado todos os prazos e quase dobrado os custos.

Porque o preço médio do ingresso na reabertura do Maracanã ficou na casa dos R$ 150!

Negros, no estádio, só os que lá foram para trabalhar.

Dê uma olhada neste time, dos anos 80, convocado por Telê Santana: Valdir Peres, Leandro, Oscar, Edinho e Pedrinho; Falcão, Sócrates e Zico; Dirceu, Careca e Éder. Sabe o que ele tem de extraordinário, apesar de jamais ter entrado em campo, embora os 11 tenham convivido na mesma concentração para a Copa da Espanha? São todos brancos.

Fruto do momento em que a várzea perdeu para a especulação imobiliária, do surgimento das escolinhas de futebol e, é claro, de circunstâncias aleatórias.

Curiosamente, os maiores ídolos dos times mais populares do eixo Rio-São Paulo eram brancos, Zico e Sócrates, filhos da classe média.

João Saldanha se preocupava e apelava: "Não acabem com os nossos crioulos!".

Do time que disputou a Copa de 1982, Luisinho, Júnior, Toninho Cerezo e Serginho eram os titulares que davam o tom mestiço que sempre caracterizou nossas seleções de Djalma Santos, Didi, Mané Garrincha, Pelé, Zózimo, Amarildo, Jairzinho, Brito, Everaldo, Cafu, Aldair, Márcio Santos, Mauro Silva, Mazinho, Romário, Ronaldos, Rivaldo, Roque Júnior, Gilberto Silva, Kleberson, Roberto Carlos, para citar apenas os titulares campeões mundiais.

Será que teremos de criar cotas também nos estádios, para evitar que a elitização em marcha exclua ainda mais os excluídos? Se até no velho Pacaembu, nos jogos mais cotados do Corinthians, é perceptível o branqueamento, como será nos novos estádios da Copa-14, chamados impropriamente de arenas?

Dia desses esta Folha fez certeiro editorial sobre as oportunidades que a nova situação enseja para a modernização do futebol brasileiro.

Organização, conforto, segurança e bons gramados, tudo é essencial e há décadas se luta por isso.

Como não se deve esquecer de que o bom gestor do negócio do futebol haverá de ser aquele profissional que, friamente, for capaz de exacerbar a paixão.

Que perdoem as arenas, mas sem os crioulos a paixão será absorvida pela areia virtual e movediça que as caracterizam, porque até do ponto de vista puramente da língua elas são uma fraude, plastificadas, pasteurizadas e higienizadas.

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