31 de jan de 2012

VEJA: O custo da negligência

Rio de Janeiro
VEJA: O custo da negligência
Imperícia em obra clandestina resulta em pelo menos 17 mortos (mais cinco, que ainda estão desaparecido, nesta terça-feira,31) e três edifícios reduzidos a escombros no centro do Rio

Foto: Ari Versiani/AFP/Getty Images

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Veja- 30/01/2012

Acidentes da magnitude de uma queda de avião – ou do desmoronamento de um prédio de vinte andares – raramente têm uma única causa. Em geral, decorrem de uma perversa soma de fatores. No caso do Edifício Liberdade – que ruiu na quarta-feira passada no centro do Rio fazendo desmoronar dois prédios vizinhos – e matando ao menos quinze pessoas – já se vislumbram alguns.

O prédio art déco que ficava bem ao lado do Teatro Municipal fora construído no início dos anos 40 e abrigava dezenas de pequenos escritórios. Quando foi ao chão, o expediente já havia terminado, mas cerca de 25 pessoas ainda estavam nele. Até a noite de sexta-feira, doze continuavam desaparecidas.

O Liberdade estava castigado pelo uso e por inúmeras reformas fora de padrão. Empregados do edifício ouvidos por VEJA disseram que as rachaduras avançavam pelas paredes e que o elevador dava arrepios em quem entrava nele.

"Enquanto subia, ia raspando nas paredes", contou um deles a VEJA. Mas não foi apenas a idade que derrubou o Edifício Liberdade.

Tudo indica até agora que o gatilho da tragédia foi uma obra de engenharia clandestina e mal planejada. A TO Tecnologia Organizacional, a maior empresa do condomínio, havia reformado cinco dos seis pavimentos que ocupava.

O andar restante, o nono, continuava em obras. As mudanças foram profundas. Cada andar abrigava duas ou três salas, que, juntas, ocupavam uma área de 130 metros quadrados. Os proprietários da TO decidiram eliminar a divisão entre as salas para criar um único ambiente. Assim, retiraram todas as paredes internas dos andares

. Foi o que aconteceu, por exemplo, no terceiro pavimento, cuja reforma terminou há um mês. Conforme relataram a VEJA cinco pessoas que trabalham no edifício, o piso foi revestido de granito e novas paredes foram erguidas, alterando a planta original.

Nos prédios mais modernos, a sustentação da estrutura é feita por vigas e colunas – as paredes servem apenas para separar ambientes. Já em construções anteriores à década de 80, como era o caso do Liberdade, é comum que elas tenham uma importante função de sustentação.

Especialistas ouvidos por VEJA afirmam que, ao retirar as paredes internas, os responsáveis pela reforma podem ter cometido uma barbeiragem. As vigas do edifício e as pilastras laterais, nessa hipótese, ficariam sobrecarregadas, o que pode ter influenciado no desabamento.

E entra aqui outro fator que pode ter contribuído para a tragédia. No 9° andar, as obras seguiam a pleno vapor havia apenas oito dias. Lá, um grupo trabalhava na substituição do piso antigo por placas de granito. Cada uma dessas placas pesa, em média, 60 quilos por metro quadrado.

"Na noite de terça-feira, um dia antes do desabamento, ouvi um barulho muito alto que parecia uma britadeira", diz um executivo de uma empresa que fica no 8° andar.

"Na manhã seguinte, eu e meus colegas vimos muita poeira cair do teto sobre as nossas mesas". Para especialistas, o episódio é preocupante.

"Mesmo no caso de uma britadeira de baixa potência, a ação contínua e localizada do aparelho pode desestabilizar a sustentação do edifício, principalmente se ela for utilizada nas quinas, que afetam as colunas laterais", diz Moacyr Duarte, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Outro fato perturbador: a fachada lateral do prédio sofria seguidas intervenções desordenadas, que vinham de muito tempo. Desde a sua inauguração, nos anos 40, diversas janelas foram abertas nos andares mais altos, o que também pode ter enfraquecido a estrutura.

O desmoronamento do Edifício Liberdade obedeceu à mesma lógica do ocorrido no World Trade Center, afirma o engenheiro Luiz Antônio Cosenza, do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ).

"Quando um elemento de sustentação, como um pilar ou uma viga, se rompe, pode haver um efeito dominó. Se um andar inferior cai, os de cima vêm descendo junto e esmagam a estrutura do prédio, que não suporta o peso dos escombros", explica.

A empresa TO nega que as reformas executadas tenham interferido no sistema estrutural do Liberdade. Segundo a sua versão, os principais eixos de sustentação laterais não foram alterados. Ao contrário do que determina a lei, ela não registrou as obras no Crea.

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, não conseguiu explicar o motivo pelo qual fiscais municipais não notaram que no Edifício Liberdade havia obras clandestinas em andamento. A maioria das vítimas identificadas até a noite de sexta-feira estava na sala de treinamentos da TO, como Kel1y Menezes, de 28 anos, Bruno Gitahy, de 25, e Priscilla Montezano, de 23. Em dezembro, os três haviam se reunido na festa da empresa, em um sítio no Rio, para celebrar a passagem do ano.

Outra funcionária da TO, Alessandra Alves, de 29 anos, estava conversando na noite de quarta-feira pelo MSN com o marido, Victor Lima, de 30 anos, quando subitamente parou de teclar. A última mensagem de Lima para a mulher foi um "E aí?". Não teve resposta. Preocupado, tentou ligar, também sem sucesso. Decidiu pegar um ônibus e ir ao encontro de Alessandra, mas, ao desembarcar, mal conseguiu se aproximar do edifício, àquela altura já transformado em escombros. O corpo de Alessandra só foi encontrado pelos homens da Defesa Civil quarenta horas depois, na tarde de sexta-feira.

O Edifício Liberdade pode ter ruído por uma combinação de fatores que incluíram a antiguidade do prédio, sua manutenção precária e uma reforma que não poderia ter sido feita. Mas o que matou os jovens Bruno, Kelly, Priscilla, Alessandra – e as outras onze pessoas que já haviam sido encontradas até sexta-feira – foram o despreparo de alguns profissionais e a negligência do poder público.


*Acrescentamos subtítulo e foto ao texto original

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