29 de jul de 2013

Mercadante, o “entrão”, procurou Temer, o cauteloso, para tentar derrubar Guido Mantega, o equilibrista

BRASIL - Conspiração
Mercadante, o “entrão”, procurou Temer, o cauteloso, para tentar derrubar Guido Mantega, o equilibrista
O ministro da Educação foi ao vice-presidente da República para expor um plano insólito: fazer parte de uma conspiração para convencer Dilma Rousseff a demitir o ministro da Fazenda. Temer ouviu, não falou nada e espalhou que recebera a proposta indecente, para fazê-la chegar aos ouvidos da presidenta

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

Mercadante tentou convencer o vice Michel Temer, a ajudar a derrubar Guido Mantega

Postado por Toinho de Passira
Baseado no texto de para a Veja
Fontes: Veja, Radar Online

Uma reportagerm de Veja desta semana assinada por Robson Bonin conta que a meteórica queda de popularidade dos governantes não foi a única consequência imediata dos protestos que tomaram as ruas do país há pouco mais de um mês. Eles também desestabilizaram governos e alianças políticas que se mantinham unidos diante da perspectiva — cada vez mais incerta — de vitória nas eleições de 2014.

Na semana passada, um graduado auxiliar da presidente Dilma Rousseff fez o seguinte diagnóstico: "O clima no governo nunca esteve tão ruim. É um clima de barata voa, muito fogo amigo, ministro atacando ministro, uma situação caótica. Está todo mundo brigando com todo mundo, falando mal de todo mundo".

O melhor exemplo dessa atmosfera de desentendimento ocorreu na quinta-feira 18, numa reunião entre o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante (PT). Era para ser uma agenda de rotina, mas a conversa trilhou o caminho de uma insólita conspiração que teve como alvo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já devidamente acossado por políticos, empresários e sindicatos devido ao desempenho pífio da economia brasileira.

Com a autoridade de quem desfila pelos gabinetes de Brasília como uma espécie de primeiro-ministro informal de Dilma, e de quem foi conselheiro econômico do ex-presidente Lula, Mercadante propôs o plano para forçar a demissão de Mantega.

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Mercadante conspira contra Mantega a céu aberto

Ele chegou ao Palácio do Jaburu pouco antes das 9 da manhã. Travou a conversa com Temer num conjunto de poltronas que ficam em um canto reservado do salão principal da residência oficial do vice-presidente da República. De início, Mercadante criticou a articulação política e a atuação da equipe econômica, reproduzindo queixas correntes no Congresso. Depois, o petista foi mais incisivo e falou que o governo precisava de gente mais competente e com mais autonomia nessas duas áreas.

Temer, um especialista na arte de ouvir e medir as palavras, apenas acompanhava o raciocínio do interlocutor, sem pontuá-lo. Mercadante, então, apresentou seu plano maquiavélico: fazer com que diferentes interlocutores com prestígio junto a Dilma, como o próprio Temer, passassem a desconstruir a credibilidade do ministro da Fazenda.

Se isso fosse feito como planejado, a presidente seria convencida, sem se sentir pressionada, a demitir Mantega. "A presidente não reage bem quando se sente cobrada. Então, não adianta pressionar. Daqui para a frente, nas conversas com ela, todos deveríamos falar a mesma língua."

A estratégia, segundo Mercadante, teria de ser posta em prática logo, para que as mudanças ocorressem em setembro. O alvo e o argumento do petista foram escolhidos a dedo. O péssimo desempenho da economia é uma das explicações para a queda vertiginosa de popularidade de Dilma. Nesse contexto, mudar o comando da equipe econômica seria fundamental para que a aliança PT-PMDB tenha chance de vencer a próxima sucessão presidencial. "A saída é uma reformulação total", ponderou Mercadante, lembrando que demitir só o secretário do Tesouro, Arno Augustin — como sugerem importantes assessores da presidente —, não estancaria a crise.

Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Mantega, sufocado, quanto tempo ainda resistirá?

A referência a setembro foi feita como forma de adular os peemedebistas. Uma ala do partido defende uma reforma ministerial imediata. Para entregar os cargos, como sugeriu o líder da bancada na Câmara, Eduardo Cunha? Longe disso. Com as trocas, o partido quer assumir pastas com mais recursos à disposição e mais visibilidade política.

Desde o início do governo, foram várias as ofensivas pela demissão de Mantega. A presidente sempre resistiu a elas, apoiando o ministro da Fazenda. Ciente disso, Temer não disfarçou sua contrariedade com o plano de Mercadante. Não era para menos.

De maneira inesperada, o vice-presidente da República fora envolvido numa trama para derrubar o titular da Fazenda num momento em que a economia patina de mãos dadas com o próprio governo. Pior, essa conspiração era patrocinada pelo principal conselheiro político da presidente.

Temer não quis alongar a conversa. Ele aproveitou a chegada do ministro da Aviação Civil, o peemedebista Moreira Franco, para mudar de assunto. Mercadante saiu do Jaburu sem a mercadoria que queria. Já Temer passou a história adiante. Nos dias seguintes, ele narrou o episódio a aliados no Congresso e no próprio governo, sempre, segundo os interlocutores, se mostrando contrariado.

"O Mercadante está fazendo a cabeça de todo mundo para derrubar o Mantega. Mas o Michel não concordou. Isso acaba vazando e tocando fogo no governo", diz um senador peemedebista.

A Veja, Temer confirmou o encontro com Mercadante, mas disse que ele, Temer, não propôs nenhuma mudança ministerial, porque isso é uma "prerrogativa da presidente". "Encontrei o Mercadante para fazer uma análise das relações do governo com o Congresso e o empresariado", disse.

Já o ministro da Educação negou a conspirata: "Jamais tratei de mudança na equipe econômica com o vice-presidente Michel Temer ou com qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Não é da minha alçada o assunto e não está na pauta do governo, conforme a presidenta já afirmou em nota pública".

Ideli Salvatti não esconde de ninguém desaprovar o jeito Aloizio Mercadante de ser, aos mais próximos, o define como um “entrão”
Dois dias depois da conversa entre o ministro e o vice-presidente, dirigentes do PT aprovaram um documento que pede mudanças no governo — entre elas, na economia e na articulação política. Dilma sabia que esse fogo amigo estava sendo urdido pelos petistas. Por isso, não apareceu na reunião do partido.

Quem responde pela articulação política é a ministra Ideli Salvatti, que não perdoa o fato de Mercadante agir no Congresso como se fosse ele o responsável pelas negociações com deputados e senadores.

Chefe da Casa Civil, a ministra Gleisi Hoffmann ecoa a opinião de Ideli e repete as mesmas críticas às interferências indevidas e à desenvoltura desmedida do ministro da Educação. Mercadante quer suceder a Gleisi no posto. Considerado um trator pelos próprios petistas, ele quer o cargo com os mesmos poderes de que gozava o mensaleiro José Dirceu. Ou seja: Mercadante substituiria Ideli e Gleisi juntas. Valeria pelas duas.

Esse apetite, somado às ingerências, é um catalisador do caos administrativo. Numa reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, por exemplo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez questão de declarar que discursaria pouco porque Mercadante, ministro da Educação, já havia falado quase tudo sobre a área da saúde. Uma queixa polida na forma, mas contundente no conteúdo.

"A Ideli está revoltada com o Mercadante, a Gleisi também.

Depois da reunião do conselhão, a própria Dilma deu um chega pra lá nele, porque o Mercadante não pode ver uma brecha que quer ocupá-la", diz um senador petista. Mercadante sabe que não é querido no PT. Por isso, aposta as fichas no PMDB. Nos últimos meses, tomou-se um interlocutor frequente de cardeais como Renan Calheiros, presidente do Senado, Henrique Eduardo Alves, comandante da Câmara, e Temer. É neles que procura apoio para se cacifar politicamente. Uma jogada perigosa. O clima que já está ruim pode ficar ainda pior.

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