24 de jul de 2012

VENEZUELA: O Davi contra o Golias - entrevista de Henrique Capriles

VENEZUELA – Eleição 2012
O Davi contra o Golias
– entrevista de Henrique Capriles
O candidato da oposição à Presidência da Venezuela conta como é enfrentar a máquina eleitoral de Chávez e explica por que não é um bom momento para o país entrar no Mercosul


Postado por Toinho de Passira
Fontes: Veja - 23/07/2012

Em contraste com a monotonia vermelha dos comícios em apoio ao presidente venezuelano Hugo Chávez, as passeatas do candidato único da oposição às eleições de outubro, Henrique Capriles Radonski, são uma profusão de cores.

Elas representam os mais de vinte partidos que apoiam seu nome para presidente. Nos eventos de Capriles, conhecido como "o Magro", também não há ônibus fretados pelo governo ou bonés e bandeiras com o logotipo da petrolífera estatal PDVSA - alguns dos sinais óbvios do escandaloso uso de dinheiro público a serviço da reeleição de Chávez.

Capriles, advogado, governador do estado de Miranda, tem quase três meses para reverter o favoritismo de Chávez. Sua esperança é tornar-se conhecido pelos 23% de eleitores indecisos.

Para apoiá-lo, é preciso coragem. Em um único dia de campanha testemunhado por VEJA, a caravana de Capriles furou três barricadas de chavistas que batiam nos carros e faziam ameaças aos passageiros. Dentro de um ônibus na cidade de Matutín, no leste da Venezuela, e com os braços arranhados pelas mulheres (ele é solteiro e acaba de fazer 40 anos), Capriles concedeu a seguinte entrevista.


Caprilhes, campanha multi colorida, apoio de mais de 20 partidos

Depende do cenário. Se o modelo econômico vigente em nosso país for mantido, não teremos nada a ganhar. As expropriações de empresas e de fazendas, os confiscos, os blecautes de energia, as estradas malconservadas e os assaltos destruíram o aparato produtivo em todas as áreas.

A Venezuela hoje não exporta nada além de petróleo, e até esse setor está em declínio, por causa da falta de investimentos. A produção, que já esteve acima de 3 milhões de barris, caiu para 2,4 milhões de barris por dia. A Venezuela se tomou essencialmente um país importador.

Há filas de barcos ao longo do litoral esperando para desembarcar contêineres cheios de produtos vindos do exterior. Depois, voltam todos vazios para os países de origem. O ingresso no bloco regional só será positivo se mudarmos o modelo econômico, valorizando as exportações.

A Venezuela é uma terra bendita, que pode diversificar a economia, desenvolvendo o potencial agrícola, o turismo, a indústria e a mineração de ouro e de ferro. Os outros integrantes do Mercosul poderiam comprar nossos produtos com tarifas de importação reduzidas, o que beneficiaria os trabalhadores venezuelanos.

É nesse cenário que eu aposto. Não quero que a Venezuela seja uma economia de portos.

Se não há vantagens comerciais, por que Chávez se empenhou tanto para o país entrar no Mercosul?

Seu interesse é puramente político. O presidente quer estender sua influência. Ele não está preocupado com o desenvolvimento da Venezuela. Um de seus argumentos foi que os produtos importados ficarão mais baratos. Não há nenhuma preocupação com a produção nacional.

Vivemos um momento de bonança petrolífera, com o preço do barril de petróleo cotado a preços altíssimos. Quando se olha ao redor, porém, parece que estamos exatamente como há quarenta anos. As estradas não têm asfalto e os hospitais estão em ruínas.

Na última década de governo Chávez, a Venezuela perdeu uma gigantesca oportunidade de se desenvolver.

No início da campanha, o senhor dizia inspirar-se em Lula. Recentemente, ele declarou apoio a Hugo Chávez. Foi uma má ideia associar-se à imagem do ex-presidente brasileiro?

Isso não importa. Não sou do tipo que personaliza as coisas. Lula foi o capitão da equipe, mas o time é o Brasil. O capitão mudou, e o Brasil continuou produzindo.

Desde o Plano Real, os brasileiros entenderam que tanto o estado como a iniciativa privada têm um papel a cumprir. Quando esses dois trabalham juntos, os mais pobres se beneficiam. No fim a saída da pobreza é ter um emprego que permita às pessoas se superar. O Brasil compreendeu isso e mantém um modelo de sucesso.

Muitos eleitores de Chávez são beneficiários das misbnes, como são chamados os programas sociais do governo. Elas reduziram a pobreza na Venezuela?

Os cidadãos só saem da pobreza quando conquistam condições de vida dignas. Não basta ter recursos para comprar comida. Sair da pobreza é ter um emprego estável, ter oportunidades para que os filhos estudem em uma escola de qualidade, morar em uma casa em bom estado e poder ser atendido decentemente em um hospital.

O governo criou programas sociais que ajudam, mas não resolvem o problema. Os recursos do estado são insuficientes para que todos possam desfrutar do bem-estar a que aspiram. É preciso contar com a ajuda da iniciativa privada e isso não aconteceu na Venezuela.

Como governador do estado de Miranda, eu também criei programas sociais. Eles têm um objetivo final, pois apontam para uma porta de saída. Quem vive na pobreza deve ter um sustento digno até que se capacite para encontrar um emprego formal.

Ocorre que, na Venezuela, não se criaram novos empregos. Eles foram reduzidos. O único empregador que aumentou sua folha de pagamento foi o estado, e ainda assim são postos de trabalho mal remunerados.

O senhor faria alguma mudança nas "misiones" chavistas?

Eu proponho que elas não sejam partidarizadas e que a escolha dos beneficiários não obedeça a critérios políticos. Se o cidadão não pertence ao partido do governo, não ganha nada. Isso é uma chantagem, uma maneira de comprar apoio para o presidente.

Não importa quem seja o governante, os programas precisam estar bem regulamentados para que cheguem até onde devem chegar, ou seja, a todos os venezuelanos que de fato necessitam.


Chavez, desequilibrando a eleição usando a TV Estatal e a máquina de governo na campanha
Chávez está no comando da Venezuela há treze anos e, nesse período, as expropriações de empresas, os apagões de eletricidade e os homicídios se tomaram mais frequentes. Apesar disso, ele lidera as pesquisas eleitorais. Como explicar isso?

A alta no preço do petróleo permitiu a ele repartir os lucros desse recurso com os mais pobres, uma parcela da população antes ignorada pelos governos nacionais. Eu não reivindico o passado. Chávez é a consequência de um sistema que implodiu, e se apresentou como um salvador. O problema é que ele não salvou o país.

Como Caracas se transformou na capital com a maior taxa de homicídios do mundo?

Governos como o de Chávez se sustentam na anarquia. Quando há uma situação como a atual, de insegurança, quem são os fortes? São dois, o estado e o delinquente. O fraco é o cidadão. O que ele faz? Esconde-se. Nessas condições, é mais fácil para Chávez manter os cidadãos sob controle, porque eles estão amedrontados. O medo e o terror estão presentes na vida dos venezuelanos, isso é uma realidade.

O que o senhor mudaria na política externa da Venezuela?

A Venezuela prioriza as relações com países cujo governo é uma vergonha para todos, como a Bielorrússia e o Irã. Veja os amigos que temos. A política exterior deve fortalecer as relações com países em que há democracia, que respeitam os direitos humanos e com os quais temos interesses em comum: Brasil, Colômbia e Estados Unidos, por exemplo.

Chávez fala em não ingerência e em respeitar a soberania de outros países, mas ficou numa situação complicada no Paraguai. Menos por causa da reunião do chanceler Nicolás Maduro com militares paraguaios (em que o venezuelano insuflou um golpe militar para evitar o impeachment do presidente Fernando Lugo) e mais pela ameaça de Chávez de suspender a venda de petróleo a Assunção.

Como alguém que se opõe ao embargo econômico a Cuba pode defender o mesmo tipo de sanção ao Paraguai?

Isso prova que a diplomacia da Venezuela obedece apenas às preferências políticas e pessoais de Chávez. Ele se relaciona com quem sente afinidade ideológica, e se distancia de todos os outros.

O que Cuba, cujo regime Chávez patrocina, pode esperar do futuro se o senhor se tomar presidente?

Não pretendo suspender as relações diplomáticas com a ilha. Cuba e Venezuela podem ter uma relação ainda mais proveitosa. Atualmente, o que existe é uma admiração de Chávez por Fidel Castro, e uma tentativa do governo venezuelano de manter de pé o modelo cubano. Este, contudo, é insustentável. O processo de abertura de Cuba vem sendo adiado há muitos anos, mas é inevitável.

O senhor disputa as eleições em igualdade de condições com Chávez?

Qualquer pessoa que ficar uma semana na Venezuela perceberá que não. Ao ligar a televisão, verá todos os canais públicos dedicados a fazer campanha para o presidente. Mais do que isso, verá como esses programas pagos com o dinheiro dos contribuintes se esmeram em me desprestigiar. Também verá as publicidades do governo que todos os jornais e canais são obrigados a divulgar de graça. Em compensação, as visitas que tenho feito pessoalmente aos povoados do país são inéditas.

O governo até tentou impedir que eu fizesse a campanha dessa forma. Chávez nunca se empenhou em um corpo a corpo como esse. Assim vencerei essas eleições, não colando cartazes por todos os lados ou falando o tempo todo na televisão.


Capriles, o candidato esbanjando saúde
O senhor se considera de direita, como afirma Chávez?

Não, e esse não é o debate da minha geração. Essas etiquetas não servem mais. A China é comunista? É um debate do passado, assim como as ideias de Chávez. O atual governo, que se diz de esquerda, na realidade é apenas retrógrado.

Chávez nunca quis que eu fosse candidato, por isso tenta me desqualificar inventando um rótulo qualquer. Ele queria enfrentar um candidato que representasse o passado. Lamentavelmente para ele, não foi o que aconteceu. Quem comparece aos meus atos de campanha são, em sua maioria, jovens. Entre eles, a taxa de desemprego chega a 20%. As mensagens ideológicas de Chávez não fazem o menor sentido para eles.

Chávez diz que há um plano da oposição para não reconhecer o resultado das eleições. Por outro lado, alguns militares chavistas deram a entender que não aceitarão uma derrota do presidente. Que credibilidade terão essas eleições?

Eu propus a Chávez a assinatura de um acordo formal em que nos comprometeremos a respeitar a decisão das umas. Esse documento, contudo, deve incluir o compromisso de não usar os recursos da petrolífera estatal na campanha, de não transmitir discursos políticos em cadeias de televisão, de não obrigar os funcionários públicos a ir aos comícios do presidente e de não usar a polícia para impedir nossas passeatas. Essas violações das leis eleitorais ocorrem diariamente. (O acordo foi assinado após a entrevista, sem os compromissos adicionais propostos por Capriles)

Quais são os outros métodos usados pelo governo para intimidar a oposição?

Houve a criação das milícias fiéis ao presidente, que não obedecem às Forças Armadas. Todo país tem o seu contingente de reservistas. Chávez transformou civis em um braço político armado de seu governo. O objetivo é amedrontar a população. Em Caracas, também existem os coletivos armados que atacam os opositores do governo e controlam territórios inteiros da capital. É preciso desarmá-los totalmente.

Chávez passou o último ano recebendo tratamento contra um câncer, sobre o qual o governo faz muito mistério. A doença pode influenciar no resultado das eleições?

Não acho que a enfermidade possa ajudar ou atrapalhar. O debate é outro. As pessoas estão cansadas de sentir medo e de ter de falar o que não pensam apenas para agradar ao governo e não perder o pouco que ganham do estado. A maioria quer mudar o governo e viver em paz. Estou convencido de que a partir de 8 de outubro, após a votação, haverá uma nova realidade política no país.
*Acrescentamos fotos a publicação original

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