30 de nov de 2010

OPINIÃO: Há método na loucura norte-coreana, mas até quando? - Caio Blinder

OPINIÃO
Há método na loucura norte-coreana, mas até quando?
“Não existem opções animadoras nesta crise. E uma medida da falta de boas opções para lidar com Kim Jong-il é que a Coréia do Sul espera que a China enquadre o seu afilhado delinqüente” – Caio Blinder

Foto: Kyodo/Getty Images

Herança maldita, de pai para filho

Caio Blinder
Fonte: Blog Abril – Caio Blinder

Você fala norte-coreano? Na praça, existem várias tentativas de tradução das ações teatrais, pirotécnicas e letais do regime comunista de Kim Jong-il, que o subsecretário de estado para assuntos asiáticos dos EUA, Kurt Campbell, define como uma “caixa preta”.

Na escalada de tensões, tivemos estes últimos e preocupantes lances que foram a barragem de artillharia contra uma ilha sul-coreana e a revelação ao mundo por um regime recluso que o seu programa de enriquecimento de urânio, de um país já dotado de um pequeno arsenal nuclear, é mais avançado do que se temia. Em março, já ocorrera uma escalada de tensões com o ataque a uma embarcação sul-coreana, que deixou 46 marinheiros mortos, numa ação negada pelos norte-coreanos, apesar das evidências.

Uma tradução é que existe método na loucura de uma regime que é uma mistura de relíquia stalinista, organização mafiosa e militarismo ultranacionalista. Kim Jong-il precisa mostrar ao mundo e ao público doméstico a sua força quando empreende a transição de poder ao filho Kim Jong-un, na única monarquia comunista do mundo, pois será a terceira geração no comando.

Há também a jogada frequente de botar fogo e fazer extorsão da comunidade internacional para que apague o incêndio com mais negociações nucleares, suprimentos e qualquer tipo de ajuda. Americanos e seus aliados prometem não cair novamente no golpe do método na loucura, mas se assustam. Não existem opções animadoras nesta crise. E uma medida da falta de boas opções para lidar com Kim Jong-il é que a Coréia do Sul espera que a China enquadre o seu afilhado delinquente.

E aqui os sinais são incertos. A China está adotando uma diplomacia cada vez mais muscular, batendo de frente com os EUA e outros países ocidentais em questões cambiais, comerciais e de direitos humanos. O irriquieto aliado é um estorvo, mas Pequim parece temer, antes de tudo, a perspectiva da implosão do vizinho e de reunificação da península coreana, num desfecho pró-ocidental. Melhor que, antes de tudo, os chineses também se assustem com a explosão do método da loucura do regime de Kim Jong-il.

Afinal, há o cenário de uma escalada de tensões ainda maior. O método da loucura pode falhar, caso a Coréia do Sul revide com mais vigor às provocações do vizinho delinquente e fortemente armado. E o bandido também quer respeito. Apronta inclusive para ser aceito no clube nuclear e chamar atenção quando a Coréia do Sul consolida sua posição como um país próspero e democrático. Semanas atrás inclusive sediou a reunião do G-20. Os norte-coreanos também fizeram provocações perigosas no final dos anos 80 quando Seul foi escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 1988.

Tudo parece ser um lance de cartas marcadas, mas o que está em jogo é cada vez mais alarmante. Como a Coréia do Sul e o mundo, inclusive a China, podem continuar a assistir a este espetáculo teatral, pirotécnico e letal? Apesar de alguns sinais de progressos, os anos de diplomacia e sanções econômicas não impediram a Coréia do Norte de desenvolver seu pequeno arsenal nuclear. Lembra o Irã, certo?

Os norte-coreanos realizaram testes nucleares em 2006 e 2009 e agora mostram ao mundo sua sofisticada instalação de enriquecimento de urânio. Este regime faz qualquer coisa para desviar as atenções da opressão e miséria ofertadas ao seu povo. E tecnicamente as duas Coréias continuam em estado de guerra, pois em 1953 foi apenas assinado um armistício.

É necessário acompanhar a crise dia a dia, hora a hora. O método na loucura pode pifar. É preciso traduzir o perigo?


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