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5 de dez. de 2013

Mandela era um gigante, não santo milagreiro, de Caio Blinder, para Veja

AFRICA DO SUL - Opinião
Mandela era um gigante, não santo milagreiro
A sensação de orfandade na África do Sul ficou ainda mais intensa durante esta longa espera de meses, de anos, pela morte de Mandela e deu uma medida de como foi, como é e como será difícil substituir alguém de sua estatura.


Nelson Mandela (1918-2013)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Caio Blinder
Fonte: Coluna de Caio Blinder, na Veja

Nelson Mandela, uma lenda viva, partiu aos 95 anos de idade, em meio a uma longuíssima expectativa global. Ele era apenas um gigante, não um santo milagreiro, curandeiro das mazelas sul-africanas. Mandela fez a sua imensa e generosa parte. Trata-se de uma lição para a humanidade. Ele deu um senso de propósito para o país, tanto na era pós-apartheid, como na penosa negociação para que o regime racista fosse enterrado da forma menos sangrenta possível. Mandela negociou com os algozes brancos. Seu espírito de reconciliação racial e sabedoria política acalmaram não apenas a minoria branca, mas a maioria do país.

Mandela tinha credibilidade. Ele fizera sua própria transição de líder de um movimento de resistência (que inclusive apelava para o terrorismo) a pai da nação. De origem aristocrática, Mandela era o que África do Sul tinha mais de próximo de rei. Ele deu este senso de propósito ao país, mas sabia que não seria possível um projeto nacional meramente em torno dele. Não é à toa que sua opção foi por apenas um mandato presidencial (1994 a 1999). A rigor, Mandela nunca foi um presidente executivo. Ele tinha este papel monárquico.

Mandela delegou, ou quem sabe foi coagido a tal, o processo decisório ao futuro presidente Thabo Mbeki. Era um papel necessário para tranquilizar o pais e o mundo na transição. Que contraste com outro líder de libertação nacional e de resistência ao racismo na África, Robert Mugabe, de Zimbábue. Lá este ele, no poder desde 1980, aos 89 anos. No entanto, com sua autoridade moral, Mandela poderia ter feito mais, por exemplo, para combater a Aids.

A sensação de orfandade na África do Sul ficou ainda mais intensa durante esta longa espera de meses, de anos, pela morte de Mandela e deu uma medida de como foi, como é e como será difícil substituir alguém de sua estatura. Mandela era grande e os dirigentes que o sucederam no Congresso Nacional Africano (CNA) e no governo bem menores. São líderes, como o atual presidente Jacob Zuma, que não estão à altura de tarefas como gerar empregos, cortar a corrupção e inspirar o país como Mandela conseguiu.

A Africa do Sul pós-apartheid deixou de ser um país-pária. Acolheu o mundo na Copa do Mundo de 2010 e é um dos campeões, uma das letras, o S, na hoje melancólica e oportunista liga dos Brics. É verdade que taxas de alfabetização e padrões de vida melhoraram desde que o CNA conquistou o poder. No entanto, a desigualdade social é maior do que nos tempos da desigualdade racial. Em uma cena que o brasileiro entenderia, pipocam os protestos pelo país com a precariedade dos serviços públicos. Até a ambulância que levava Mandela para o hospital em Pretória, em junho passado, quebrou no caminho. Muito chão pela frente para o país dar um salta qualitativo.

O governo de Jacob Zuma, o CNA e vários integrantes do clã Mandela vão explorar até onde der a imagem e o legado do gigante. Faz parte do jogo. Estão aí os milhões de novos eleitores criados e nascidos sem a indignidade do apartheid (40% dos sul-africanos nasceram depois de 1994).

Mas existem outras indignidades nesta nova África do Sul. Ironicamente, o governo recorre a algumas leis de segurança da época do apartheid para cercear informações e a imprensa. Também reprime manifestantes e grevistas com a brutalidade que faz lembrar os velhos tempos. Ademais, refugiados de países vizinhos não são recebidos com a generosidade dispensada a refugiados sul-africanos em outras eras.

Na trajetória comum a tantos movimentos de libertação, o CNA torna nebulosa a linha que separa partido e estado. Imagine que contra o presidente Zuma foram movidos 783 processos por corrupção e outros crimes. A África do Sul pós-apartheid está longe de de uma tirania, mas tampouco é a nação arco-íris, vendida em alguma momentos de mais euforia e comprada por gente complacente.

A lenda viva Mandela amorteceu tensões na África do Sul. A transição pós-apartheid foi um milagre, pois não aconteceu o temido banho de sangue ou fuga em massa dos brancos, mas teve muito de pragmática. Direitos individuais foram formalmente assegurados a todos, mas a minoria branca ainda controla a economia, com a participação de setores de uma nova elite negra.

De certa forma, é necessária uma nova transição, com lideranças novas e com novos referenciais. Em um mundo ideal, sem referenciais raciais, mas isto não será possível tão cedo. Será um tarefa de gerações, para miniMandelas.

21 de jan. de 2013

O segundo e último ato de Obama, de Caio Blinder, para a Veja

ESTADOS UNIDOS - Opinião
O segundo e último ato de Obama
Barack Obama está diante de um inimigo formidável: ele mesmo

Foto: Pete Souza/White House

Obama voltando à Casa Branca

Postado por Toinho de Passira
Texto de Caio Blinder, de Nova Iorque, para a Veja
Fonte: Blog do Caio Blinder

Em sua curta e intensa carreira política, Barack Obama já derrotou inimigos formidáveis como Hillary Clinton (sua rival nas primárias democratas em 2008) e uma crise econômica que tinha tudo para impedir sua reeleição em novembro passado. Sua sorte é ter enfrentado rivais republicanos menos formidáveis como John McCain e Mitt Romney.

Agora no seu segundo mandato, Obama está diante de um inimigo formidável: ele mesmo. O presidente nunca mais irá concorrer à presidência e até agora se mostrou muito melhor para fazer campanha do que para governar. Aliás, prefere fazer campanha do que fazer política, como se esta última atividade fosse uma tarefa menor.

O risco é Obama enraizar este seu talento para fazer campanha como um componente integral de governança, porque é mais vantajoso e mais fácil, especialmente com a demografia do lado do presidente, com seu bloco eleitoral de mulheres, jovens, minorias e setores profissionais mais sofisticados.

Improdutivos - Nada errado, por outro lado, em pegar pesado contra os republicanos. Eles merecem e Obama finalmente se mostra mais vigoroso para fincar posições, como contra a absurda postura republicana de usar a elevação do teto da dívida como chantagem em negociações fiscais. Até setores empresariais expressam preocupação com a irresponsabilidade e improdutividade da classe política, em particular os republicanos. Nenhuma surpresa que uma pesquisa meio folclórica tenha mostrado que o Congresso americano seja menos popular do que colonoscopia e piolho.

Os republicanos estão perdendo capital político e se tornaram basicamente obstrucionistas. Eles correm o risco de se petrificarem como o partido de brancos sulistas e rancorosos, especialmente homens. No entanto, eles existem. Ademais, uma parcela do país não é alinhada a nenhum dos dois grandes partidos e nunca se deixou enfeitiçar pela magia Obama. O presidente democrata não pode simplesmente passar ao largo de um partido que tem maioria na Câmara e se dirigir diretamente à nação para fazer pressão para concretizar sua agenda.

Recuo tático - Há alguns sinais de ao menos um recuo tático dos republicanos nos duelos com os democratas no impasse fiscal. A linha da ala mais barra pesada é de que “para salvar a aldeia é preciso destruí-la”, no raciocínio de que é melhor a economia despencar a curto prazo para arrumar as contas mais a longo prazo. Mas setores mais responsáveis e pragmáticos fizeram alertas de que até lá, no longo prazo, o partido irá despencar junto com o país. Diante de sinais de bom senso (ou no mínimo de autopreservação politica dos republicanos), Obama precisa responder à altura.

Claro que o presidente e seu partido gostariam de encurralar os republicanos, reforçando sua imagem como um partido radical e atrasado, para reconquistar a Câmara nas eleições de 2014 (os democratas ja controlam o Senado). Normal um partido buscar hegemonia com base nas regras da democracia, mas isto será muito difícil para os democratas a curto prazo. O redistritamento que ocorre a cada dez anos favorece o status quo. Com isto, uma grande onda que reverta as coisas é improvável no ano que vem.

Maioria governante - Mais viável para Obama é conseguir uma “maioria governante” em que sejam possíveis acordos bipartidários em algumas questões urgentes e outras mais estruturais. Por ora, esta costura é um remendo da minoria democrata com setores republicanos na Câmara.

A curto prazo, existem condições para estes acordos em controle de armas e imigração. No primeiro caso, a opinião pública indica ser favorável a algumas medidas (como expansão de exigência de antecedentes criminais para compradores de armas) e há perspectivas para a reforma da imigração, ou seja, ajustes no status dos imigrantes ilegais, pois algumas lideranças republicanas e possíveis candidatos presidenciais estão conscientes de que o partido precisa reciclar sua imagem como um bastião de insularidade e mesmo xenofobia, como ficou demonstrado pelo catastrófico apoio eleitoral em novembro junto a latinos e asiáticos.

O grande teste de Obama será na economia, em termos mais específicos na questão fiscal e na necessidade de enxugar programas sociais. Aqui o presidente precisará mostrar coragem. Desde o furacão Sandy, no final de outubro, o governador republicano de Nova Jersey, Chris Christie, ficou conhecido por sua coragem. Ele rompeu com a ortodoxia do seu partido e foi efusivo com o presidente, demonstrando espirito bipartidário. Na semana passada, Christie novamente mostrou audácia e alertou que seu partido não pode ser refém do lobby das armas, a Associação Nacional do Rifle.

Coragem republicana – Mas há outro republicano muito corajoso que rompeu com a ortodoxia partidária. Tom Coburn, é senador pelo Oklahoma, um daqueles estados mais associados ao atraso republicano, de gente jeca, que questiona a teoria da evolução, duvida do aquecimento global e acha que “os helicópteros pretos” da ONU estão chegando.

Coburn foi um raro republicano que aceitou a necessidade de uma maior arrecadação tributária mesmo antes da crise do abismo fiscal na virada do ano. Ele agora desafia democratas e o presidente Obama a assumirem riscos no corte de gastos, como ele assumiu com arrecadação.

O que pode mover Obama é a necessidade de um legado. O presidente não controla eventos (tragédias naturais ou crises internacionais), mas dentro de casa sua prioridade é engatar uma economia mais saudável. Na semana passada, Obama se reuniu com historiadores e biógrafos presidenciais para debates temas como lições de seus antecessores.

A informação foi a de que ele encontrou semelhanças e inspiração no segundo mandato de dois presidentes: Franklin Roosevelt, que assumiu em 1937 para um segundo mandato ainda com mazelas econômicas, depois da Grande Depressão, e uma oposição empedernida, que o considerava socialista e traidor de sua classe.

Outra inspiração na conversa foi Dwight Einsenhower, o comandante das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial, que ao final do segundo mandato em 1961 advertiu sobre os perigos de um “complexo militar-industrial”.

Liberalismo reacionário – Obama está correto: é preciso um Pentágono mais enxuto, mas também é preciso repensar o arsenal social do país e até agora o presidente não deu mostras de ser aguerrido nesta questão de oferecer concessões significativas em programas de saúde e de aposentadoria. O presidente precisaria de coragem para enfrentar o “liberalismo reacionário” de setores da base democrata, que não arredam pé de seus benefícios.

Aliás, estão aí as lições de dois outros presidentes, o republicano Ronald Reagan e o democrata Bill Clinton que souberam negociar e fechar acordos com uma oposição aguerrida. Obama tem agora a segunda e última chance.

16 de nov. de 2011

Vladimir Batman Putin tira a máscara e muito mais - Caio Blinder

28/09/2011

OPINIÃO
Vladimir Batman Putin tira a máscara e muito mais
“O ex-agente da KGB voltará à presidência no ano que vem com as eleições protocolares de março (e Medvedev ficará com o emprego de primeiro-ministro do mentor). Na expressão do site da revista Economist, é a volta de quem não partiu.”

Foto: Alexei Druzhinin/Reuters/RIA Novosti

O cavaleiro da desesperança

Caio Blinder
Fontes: Coluna do Caio Blinder

Algumas importantes eleições presidenciais em 2012 prometem muita emoção. Será que Barack Obama consegue um segundo mandato? E o francês Nicolas Sarkozy? As coisas, porém, serão anticlimáticas em mecas autoritárias como China e Rússia. No ano que vem, Xi Jinping vai para aquele trono opaco em Pequim no lugar de Hu Jintao (trono comuno-coletivista). Sei, sei que a Rússia é uma ditadura menos escancarada do que a chinesa ou o dorso do cavaleiro na foto acima, mas no fim-de-semana, a farsa foi finalmente exposta.

Na dupla Batman-Robin que manda na Rússia, o atual “primeiro-ministro” Vladimir Putin sempre foi o homem-morcego. O atual “presidente” Vladimir Medvedev é o garotão com a máscara cosmética da modernização. Agora está confirmado que por alguns detalhes legais (limite de dois mandatos consecutivos), Medvedev estava apenas esquentando o trono até a volta de Putin. A decisão na bat-caverna era esperada, mas as indicações são de que pegou de surpresa gente no segundo escalão (todos abaixo de Putin). A expectativa era de que mais este ato do teatro político russo fosse anunciado em dezembro, após eleições parlamentares. Existem até sinais de insatisfação e devem ocorrer mudanças ministeriais (atualização: já na segunda-feira caiu o amotinado e respeitado ministro das Finanças, Alexei Kudrin).

O ex-agente da KGB voltará à presidência no ano que vem com as eleições protocolares de março (e Medvedev ficará com o emprego de primeiro-ministro do mentor). Na expressão do site da revista Economist, é a volta de quem não partiu. Putin, que fará 59 anos em outubro, tem uma saúde cavalar, como revela a foto acima, de fazer inveja a um Hugo Chávez. Poderá ficar no poder até 2024, numa extensão que faz lembrar os líderes soviéticos Josef Stálin (três décadas) e Leonid Brezhnev (18 anos).

Sem se estender muito, Putin, pragmático no plano econômico, deverá seguir adiante com algumas reformas que diminuam a dependência russa do petróleo e gás. Diversificação é necessária, pois receita energética não poderá azeitar sozinha o padrão de vida dos russos e obviamente este ex-império no clube dos emergentes sonha em ser algo mais na vida do que uma Arábia Saudita.

Putin venceria mesmo num clima genuinamente livre. O sistema político russo é definido como “democracia administrada”. Se você preferir, uma semiditadura. Putin tem uma autoconfiança de autocrata e acredita que democracia ocidental seja um luxo para a Rússia, um desperdício. De qualquer forma, na expressão de Walter Russell Mead, do Bard College, a confirmação de sua volta à presidência expõe o Kremlin em uma posição defensiva, mais concentrado em preservação da ordem do que inovação. Existem turbulências no cenário econômico global, queda dos preços do petróleo e o círculo dominante em Moscou fará tudo para se imunizar contra o contágio da primavera árabe, de qualquer primavera política. Nada de assumir riscos: a Rússia tem sérios problemas demográficos, a explosiva instabilidade no Cáucaso, o perigo de disseminação do radicalismo islâmico da Ásia Central, a ascensão da China e uma Turquia mais assanhada.

Medvedev é o garotão que pode atrever, ensaiar ou encenar algumas experiências reformistas mais ousadas. Putin, o Batman, é o poder mais durão, sem máscara e, tantas vezes, sem camisa. Pronto, não há muito mais para falar das eleições russas de 2012. Inevitável a tentação da pergunta: será que Lula é o nosso homem-morcegão e Dilma Rousseff é a garotona na dobradinha? Esta bat-analogia é muito mecânica.


*Acrescentamos subtítulo e uma nova foto, ao texto original

28/09/2011
CEARÁ
Ciro Gomes flagrado nas tetas do PSB
O cargo de consultor político do PSB dá ao político cearense uma salário de R$ 22 mil, vindo do fundo partidário, dinheiro do governo para financiar as despesas do partido. Não é ilegal, mas é muiiiiito imoral.

Fotontagem Toinho de Passira:

Ciro Gomes com ar de sonso de quem está embolsando dinheiro fácil

Postado por Toinho de Passira
Fontes:Blog do Josias de Souza, O Povo

Sem mandato desde fevereiro, o ex-deputado Ciro Gomes recebe mensalmente R$ 22 mil do PSB do Ceará.

A pedido do irmão Cid Gomes, governador cearense e mandachuva do PSB no Estado, Ciro foi designado “consultor político” do partido.

A revelação veio à luz nas pegadas de uma conflagração do diretório do PSB no Ceará, que se encontra em pé de guerra.

O conflito acentuou-se após recente troca de comando da legenda.

O novo presidente, Karlo Kardozo, acusa o antecessor, Sérgio Novais, ligado aos irmãos Gomes, de ter inviabilizado as finanças do PSB cearense.

Kardozo anuncia que levará o caso à polícia, registrando boletim de ocorrência sobre R$ 140 mil que, segundo diz, Novais sacou indevidamente da conta do partido.

Em meio ao lufalufa, Novais esteve na redação de ‘O Povo’, o mais importante jornal do Ceará. Munido de documentação, negou que tenha procedido mal.

Lero vai, lero vem Novais revelou que Cid Gomes disignara Ciro Gomes como consultor do PSB-CE. Mencionou também a remuneração mensal de R$ 22 mil.

Ciro ainda não se pronunciou sobre o episódio.


16 de abr. de 2011

Caio Blinder ofende a rainha Raina, da Jordânia

BRASIL – JORDANIA
Caio Blinder ofende a rainha Raina, da Jordânia
O jornalista Caio Blinder, durante o programa "Manhatan Connection", da Globo News chamou a rainha Rania da Jordânia, e outras mulheres de chefes de estados do mundo árabe de "piranhas", por várias vezes. A embaixada da Jordânia no Brasil protestou e ameaçou processar a Globo. O programa e o próprio jornalista se desculparam na edição seguinte do programa querendo encerra o caso. "Manhatan Connection" e Caio Blinder, merecem perdão?

Foto: Divulgação

ERRANDO FEIO - Luca Mendes, o editor, e Caio Blinder, o comentarista, no "Manhatan Connection". .

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Portal Imprensa, Uol Notícias, Folha de São Paulo, The TelegraphR7

Tanto inexplicável como injustificável, o comentário lamentável do jornalista Caio Blinder, numa de suas participações programa "Manhatan Connection", da Globo News, no dia 3 de abril, deve ser rechaçado com toda a veemência. Irresponsavelmente, por mais de uma vez, tachou algumas primeiras damas, de chefes de estado do mundo árabe de “piranhas”. Entre elas citou nominal a rainha Rania Al Abdullah, da Jordânia.

"Politicamente, ela [Rania] e as outras piranhas são intragáveis. Todas elas têm uma fachada de modernização desses regimes - ou seja, não querem parecer que são realeza parasita e nem mulher muçulmana submissa. Isso é para vender para o Ocidente, enquanto os maridos estão lá, batendo e roubando", declarou Blinder.

Caio Blinder jamais vai conseguir se retratar o suficiente
Não fosse a intervenção do economista Ricardo Amorim, um dos integrantes do programa, que discordou das acusações que Caio fazia as primeiras damas, a coisa tinha ficado mais feia e sem arremedos. Sem mencionar a palavra “piranhas” usada pelo companheiro de programa, Amorim disse que elas não poderiam ser crucificadas pelos que seus maridos faziam e que os ditadores árabes só estavam no poder, porque o ocidente apoiava. Mantendo sua linha de mau gosto, Caio debochou do companheiro dizendo que não se podia falar em crucifixão quando se tratava de mulher árabe, que Amorim deveria falar em “apedrejamento”.

Diante da repercussão negativa Caio Blinder deu entrevista ao portal imprensa da UOL onde afirmou que considerava o episódio superado, para ele pelo menos.

"Eu sabia que a gente tinha feito uma besteira, mas já acabou essa história pra mim.” Houve a retratação, no ar, de Lucas Mendes, editor-executivo do 'Manhatan', e apresentador, pedindo desculpas, em nome do programa, pelo termo ofensivo de Caio Blinder, dizendo que estava dando literalmente “as mãos à palmatória”.

Caio em sua defesa até disse que não é de seu "feitio ofender pessoas", e que não costuma se referir às mulheres com termos chulos.

"Não me refiro às mulheres como piranhas, sejam elas árabes judias, esquimós...E não é uma questão política. Aliás, eu faço críticas políticas; não a pessoas. Eu errei e estou pedindo desculpas", tentou finalizou.

Em 1997 o programa viveu polêmica semelhante, quando Paulo Francis - comentarista ao lado de Mendes, Blinder e Nelson Motta - defendeu no ar a privatização da Petrobras e acusou seus diretores de possuírem 50 milhões de dólares em contas na Suíça. Francis se retratou, mas foi processado pela estatal em 100 milhões de dólares, e iniciou um embate indireto com o diretor da empresa, Joel Rennó. Poucas semanas depois, Francis morreu devido a um ataque cardíaco.

Foto: Blog Queen Rania

Rania, pela sua importância social e política só é merecedora de elogios e respeito

A polêmica atual gerou um protesto formal do embaixador da Jordânia no Brasil, Ramez Goussous, contra o comportamento do jornalista, apoiado por outros 17 embaixadores sediados em Brasília. O governo brasileiro vai se desculpar encaminhando junto inclusive correspondência dos dois jornalistas envolvidos, Lucas Mendes e Caio Blinder, que espontaneamente reconheceram o erro e pedem desculpas formais, depois das apresentadas durante o programa.

A embaixada exige retratação de Blinder durante o programa e ainda ameaça processar a Rede Globo. A Jordânia recebeu o apoio de outros 17 embaixadores, Assíduos telespectadores do programa e admiradores do jornalista Caio Blinder, vez por outra até transcrevemos no “thepassiranews” as sua matérias publicadas no “Blog ligado a Editora Abril, vamos continuar vendo o programa e lendo e transcrevendo quando acharmos conveniente os textos de Caio Blinder, mas não o perdoamos, não os desculpamos.

Jornalistas experientes como eles, não podem cometer desatinos dessa envergadura. Ferir irresponsavelmente a dignidade das pessoas e depois pedir desculpas e dá o caso por acabado é muito conveniente, para eles. Por outro lado, eles tiveram a chance de evitar esse vexame: o programa é gravado, apesar do clima de um debate ao vivo, e poderia ser editado suprimindo a palavra “piranha”, repetida indevidamente tantas vezes.

Veja a parte do programa que gerou a polêmica.

Rania Al Abdullah
A rainha Raina é um daquelas mulheres que iluminam o ambiente com sua chegada. Não porque é bela, embora o seja, mas como ser humano, mãe, esposa e mulher do seu tempo. Impô-se num ambiente adverso e abriu um caminho importantíssimo para que as mulheres árabes-mulçumanas tivesse mais espaço, merecesse mais respeito e pudesse opinar. A história vai lhe reservar o espaço destinado aos libertadores.

Foto: Arquivo

Rania Al Abdullah, 40, nasceu no Kuait, filha de palestinos, recebeu uma educação ocidental e se formou em administração de empresas pela American University, do Cairo, em 1991. Veste-se com elegantes estilistas e figura carimbada nas páginas de revistas de celebridades do país e do exterior.

Casou-se em 1993 com o rei Abdullah 2º [que só assumiu o trono em 1999, após a morte do pai] com quem tem quatro filhos.

Rania já foi eleita pela revista “Vanity Fair” uma das mulheres mais bem vestidas e uma das mulheres mais poderosas do mundo, pela “Forbes”.

A popularidade da rainha dentro e fora da Jordânia está relacionada ao seu envolvimento em ações humanitárias, o que lhe rende comparações à britânica princesa Diana. Ela é embaixadora do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e envolvida em campanhas em defesa das mulheres e sua inserção na sociedade por meio da educação.

Em 2008, Rania lançou seu canal no YouTube em um movimento contra estereótipos e preconceitos nos mundos islâmico e árabe. Tem, desde 2009, um Blog, onde posta vários comentários – sobre o país e o governo do seu marido e esclarecimentos sobre a religião mulçumana, muitas vezes, erroneamente confundida, como apoiadora de atos terrorista.

Rania é uma extraordinária ligação consciente de dois mundos. Sua atuação no cenário internacional beneficia e aproxima o mundo árabe e o ocidente.

12 de abr. de 2011

OPINIÃO: Dilma vai vai na China e o Weiwei - Caio Blinder

OPINIÃO
Dilma vai vai na China e o Weiwei
“... a prisão do Weiwei, por motivos econômicos (?) é perturbadora. Ele é um artista muito conhecido no mundo. Aqui, é mais importante salientar que era o último dissidente muito conhecido que ainda estava em circulação.” – Caio Blinder

Foto: Reuters

A prisão do maior artista e ativista político Ai Weiwei , detido em Pequim, levantou uma onda de protesto em Hong Kong e inundou a Internet chinesa com a frase "Ai Wei Lai" ("ame o futuro"), cujos ideogramas são quase idênticos aos do nome do dissidente.

Caio Blinder
Fonte: Blog do Caio Blinder

Senhora presidente,

Não estou aqui para falar dos seus cem primeiros dias de governo. Isto é mais conversa para Napoleão ou Franklin Roosevelt. Gostaria de falar sobre esta sua visita à China. A segunda economia mundial já é a principal parceira comercial do Brasil e principal investidora estrangeira no país. Mas não vou falar de questões cambiais ou da necessidade do Brasil exportar produtos agregados e não apenas minério. Vou, na verdade, agregar outra coisa. Tema frequente desta minha coluna é a situação de direitos humanos no mundo e a senhora bem sabe que a China tem uma ditadura de ferro (e eu dissera que não falaria de minério).

Não estou fazendo uma cobrança boboca para que a senhora peite aqueles sisudos comunistas de Pequim para respeitarem os direitos humanos. Aliás, já é bom ver bem menos daquela cumplicidade obscena do seu predecessor com ditadores. Há mais elegância na atual política externa brasileira. De qualquer forma, não custa a gente tocar no tema de direitos humanos neste meu comentário, apenas para incomodar os sisudos comunistas de Pequim. Sei que conversa de direitos humanos é complicada. Os países têm interesses estratégicos e econômicos. Estes interesses podem colidir com a matéria-prima de valores e ideais. E não são apenas os países.

Que coisa! Lembra-se de um roqueiro da sua (e da minha) geração, o Bob Dylan? Ele também foi pragmático na sua viagem. Num tour pela Ásia, ele passou pela China na semana passada e acertou com as autoridades as músicas que cantaria. Chato que um artista faça isto. Não está vendendo nada de valor muito agregado. Os ventos não sopram para músicas de protestos na China e o Bob Dylan não cantou aqueles clichês políticos e sociais dos anos 60. Por mim, tudo bem. Eu já passei da fase. Mas, eu decidi sozinho, né? Os chineses, digo os cidadãos e não as autoridades, deveriam ter este direito de optarem ou não por uma sessão nostalgia.

O Bob Dylan não mencionou o Ai Weiwei no seu concerto. E este é o ponto que eu queria tocar com a senhora. De novo, nada de cobrança boboca, aliás, nem para cima do Bob Dylan também. Mas a prisão do Weiwei, por motivos econômicos (?) é perturbadora. Ele é um artista muito conhecido no mundo. Aqui, é mais importante salientar que era o último dissidente muito conhecido que ainda estava em circulação. O regime de ferro (de novo, conversa de minério) implantou a maior operação-arrastão em anos, prendendo dissidentes, ativistas dos direitos humanos, advogados e blogueiros. E agora foi o Weiwei, que parecia imune. Mas o recado é óbvio: ninguém tem privilégios na China, apenas os mandantes. A repressão também se estendeu a fiéis cristãos que rezam em igrejas não abençoadas pelo regime.

Nem pensar em usar as convulsões por liberdade dos últimos meses no mundo árabe para inspirar os chineses. O regime tem esmagado qualquer ensaio de revolução jasmim. Existe o empenho para sinalizar que na transição de poder (no ano que vem assume outro camarada), não existe espaço para liberalização. Pior, nem a longo prazo.

Senhora presidente, a China é um lugar estranho. O país se sente sitiado. Um recente relatório do seu Ministério da Defesa sugere que o mundo está morrendo de ressentimento da ascensão do país como um poder global. De fato, existe um certo temor do sucesso deste modelo de leninismo de mercado. Mas, veja, só, senhora presidente, se os chineses são tão poderosos como é que têm medo destes quase setentões excêntricos como o Bob Dylan? Até entendo, o medo do Weiwei, O vento dele pode soprar.

Bem, presidente, deixa para lá o Weiwei e vai vai. Faça bons negócios para o Brasil. Um dia quem sabe, todos, nós e os chineses, possamos cantar juntos The Times They Are A-Changing’. E não estou falando apenas de mudanças da política cambial.


*Acrecentamos subtitulo e legenda ao texto original

Veja o que já foi publicado no “thepassiranews” sobre Weiwei

Phil Collins canta "The Times They Are A Changin” - de Bob Dylan

Phil Collins canta "The Times They Are A Changin”
de Bob Dylan

The Times They Are A-Changin'
Os Tempos Estão Mudando


Come gather 'round people
Venham pessoal
Wherever you roam
Por onde quer que andem
And admit that the waters
e admitam que as águas
Around you have grown
á sua volta aumentaram (cresceram)
And accept it that soon
E aceitem que logo
You'll be drenched to the bone.
Estarão cobertos até os ossos
If your time to you
Se seu tempo para você
Is worth savin'
Vale a pena ser salvo
Then you better start swimmin'
Então é melhor começar a nadar
Or you'll sink like a stone
Ou irá se afundar como uma pedra
For the times they are a-changin'.
Pois os tempos estão mudando

Come writers and critics
Venham escritores e críticos
Who prophesize with your pen
Aqueles que profetizam com sua caneta
And keep your eyes wide
E mantenham seus olhos abertos
The chance won't come again
A chance não virá novamente
And don't speak too soon
E não falem tão cedo
For the wheel's still in spin
Pois a roda ainda está girando
And there's no tellin' who
E não há como dizer
That it's namin'.
quem será nomeado
For the loser now
Pois o perdedor de agora
Will be later to win
Mais tarde vencerá
For the times they are a-changin'.
Pois os tempos estão mudando

Come senators, congressmen
Venham senadores, congressistas
Please heed the call
Por favor escutem o chamado
Don't stand in the doorway
Não fiquem parados no vão da porta
Don't block up the hall
Não congestionem o corredor
For he that gets hurt
Pois aquele que se machuca
Will be he who has stalled
Será aquele que nos impediu
There's a battle outside
Há uma batalha lá fora
And it is ragin'.
e está rugindo
It'll soon shake your windows
E logo irá balançar suas janelas
And rattle your walls
E fazer ruir suas paredes
For the times they are a-changin'.
Pois os tempos estão mudando

Come mothers and fathers
Venham mães e pais
Throughout the land
de toda a terra
And don't criticize
E não critiquem
What you can't understand
O que não podem entender
Your sons and your daughters
Seus filhos e filhas
Are beyond your command
Estão além de seu comando
Your old road is
Sua velha estrada
Rapidly agin(g)'.
está rapidamente envelhecendo
Please get out of the new one
Por favor saiam da nova
If you can't lend your hand
Se não puderem dar uma mãozinha
For the times they are a-changin'.
Pois os tempos estão mudando

The line it is drawn
A linha foi traçada
The curse it is cast
A maldição foi lançada
The slow one now
E lento agora
Will later be fast
Será o rápido mais tarde
As the present now
Assim como o presente agora
Will later be past
Será mais tarde o passado
The order is
A ordem está
Rapidly fadin'.
rapidamente se esvaindo
And the first one now
E o primeiro agora
Will later be last
Será o último depois
For the times they are a-changin'.
Pois os tempos estão mudando.

FONTE: Letras de músicas - Portal Terra


13 de fev. de 2011

OPINIÃO: Somos todos egípcios (por uns tempos) - Caio Blinder

OPINIÃO
Somos todos egípcios (por uns tempos)
EGITO: “Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se acalmarem. Na verdade, eles na última hora foram até a mansão do policial e o despejaram. Foi traição, pois os fardados sempre tiveram negócios com o homem, ex-militar.”

Charge de Site de DAVE GRANLUND – Massachusetts (USA)

Caio Blinder
Fontes: Coluna do Caio Blinder, Portal de Dave Granlund

Eu conheço o ritual. É momento de dizer: somos todos egípcios. Celebramos a partida de um Hosni Mubarak. Tipo desagradável. Se quisermos dar pose para o enxotado autocrata podemos chamá-lo de faraó. Mas Mubarak estava mais para o gênero de policial que resolvia os problemas na vizinhança a um preço. Havia segurança e muitas vezes era melhor nem perguntar como ele impunha lei e ordem.

Agora existe festa na vizinhança, mas tambem muita inquietação com a partida do policial corrupto e brutal. Quem vai oferecer proteção? Uma garotada animada liderou o movimento para se livrar do policial, mas muitos bandidos estão fantasiados de mocinhos neste carnaval de libertação.

Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se acalmarem. Na verdade, eles na última hora foram até a mansão do policial e o despejaram. Foi traição, pois os fardados sempre tiveram negócios com o homem, ex-militar. Mas deixa para lá e chega de metáforas policialescas sobre o estado policial do Egito.

Sim, somos todos egípcios. Numa região do mundo que cultiva o martírio, explora a vitimização e cultua o terrorista-suicida, a moçada com ajuda de amplos setores da sociedade egípcia empreendeu uma mudança relativamente pacífica (300 mortos). Tiveram uma mão dos militares que ficaram em cima do muro e finalmente concluíram que precisavam se livrar do ônus Mubarak. O ditador que tinha serventia como pilar de estabilidade se convertera em fator de instabilidade.

Um jornalista que respeito e conhece bem a região, Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, lembra que a crise egípcia está apenas começando. Perdão por estragar a festa tão cedo. Uma ditadura de 30 anos caiu em menos de três semanas. A massa festiva ficará impaciente e será difícil conter suas expectativas. De um lado, existe um cenário econômico, com gente muito pobre e um setor jovem e altamente educado sem perspectivas. Do outro, plutocratas que não estão interessados em reformar um sistema, sem esquecer que estes militares, hoje heróis do povo, são grandes beneficiados do esquema.

O poder político agora está nas mãos destes militares (a rigor, eles sempre estiveram nas entranhas deste regime). Não está claro que tipo de transição eles irão patrocinar e isto num país sem tradição de democracia e submetido a quase 60 anos de liderança militar (de variadas ideologias). Goldberg lembra um ponto essencial: Mubarak marginalizou, baniu e reprimiu líderes e movimentos seculares de oposição. Reprimiu, mas também tolerou a Irmandade Muçulmana. O grupo ajudava a justificar o estado policial em casa e seu papel de guarda no imenso quarteirão do Oriente Médio.

Goldberg, que não é nenhum ingênuo, não está particularmente preocupado com a possibilidade da Irmandade Muçulmana ocupar o vácuo de poder de uma hora para outra, mas adverte que as coisas são muito voláteis e podem mudar rapidamente, para o lado mais perigoso. A questão não é ficar em pânico e passar o tempo alertando sobre estes perigos. Obviamente não interessa nem a consolidação do poder militar nem o caos que abra caminho para a ascensão da Irmandade Muçulmana. É verdade que interessa um Exército forte, guardião das instituições democráticas e seculares e que preserve o acordo de paz com Israel. Para tal será preciso uma revolução cultural no Exército (na parte democrática).

Grupos radicais islâmicos como a Irmandade e o filhote Hamas, em Gaza, têm fervor, disciplina, organização e capacidade de sacrifício. Por meio liberais podem atingir fins iliberais. Somos todos egípcios por um momento. Devemos ser por alguns egípcios mais a longo prazo (espero que por muitos). Devemos favorecer e ajudar aqueles setores da sociedade egípcia, e por extensão, no mundo islâmico, que não querem ser governados nem por ditadores nem por fanáticos religiosos.

A protestocracia precisa se transformar num verdadeiro movimento e construir instituições civis.Será preciso forjar um senso de cidadania, em uma experiencia que será acompanhada com atenção e apreensão na região e no resto do mundo. Num projeto espinhoso, será preciso, como lembrou Anthony Shadid, no New York Times, aprender a “reconciliar direitos individuais com identidade religiosa”. Se este Egito triunfar será uma maravilha voltar para a praça Tahrir, a genuína praça da duradoura libertação e não apenas da festa fugaz do fim de uma ditadura.


*Acrescentamos subtítulo e imagem ao texto original

6 de fev. de 2011

OPINIÃO - Com muito ceticismo (e um pouco de esperança) no Egito - Caio Blinder

OPINIÃO
Com muito ceticismo (e um pouco de esperança) no Egito
“Vai ter emoção na praça da liberdade, um corre-corre e, no final das contas, a Irmandade Muçulmana vai assumir o controle na marra ou no voto”.

Foto: AP/Reuters

O xá e Mubarak: determinismo histórico

Caio Blinder
Fonte: Blog do Caio Blinder

Estrategistas, de pomposos generais a pomposos colunistas, costumam lutar a última guerra. Precisamos de referenciais e nesta crise em marcha no Egito é inevitável se agarrar nos galhos da revolução iraniana de 1979. Em uma mistura de atitude sempre alerta, uma saudável paranóia sobre os perigos do radicalismo islâmico, uma pitada de arrogância e um pouco de preguiça intelectual para não se desdobrar com os malabarismos e as surpresas da história, concluímos que vai dar no mesmo desfecho tenebroso. Para que perder tempo? Vai ter emoção na praça da liberdade, um corre-corre e, no final das contas, a Irmandade Muçulmana vai assumir o controle na marra ou no voto.

A ironia é que o próprio regime islâmico de Teerã arrota esta narrativa . Com uma incrível cara-de-pau, os déspotas de Teerã dizem que os manifestantes egípcios devem ter o direito de ir `as ruas e expressar sua fúria contra o regime Mubarak e derrubá-lo. O ministro das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, disse que a revolução no Egito “vai criar um Oriente Médio islâmico” e condenou o envolvimento dos EUA e seus esforços para “tolher” o movimento popular por liberdade”. Como é que pode? Esta é a mesma turma que reprimiu e matou o movimento popular por liberdade no Irã em 2009.

Claro que existem numerosos paralelos entre Teerã 1979 e Cairo 2011. Líderes esclerosados no poder (o xá Reza Pahlavi e Hosni Mubarak) e, após vaciladas, presidentes americanos democratas puxam o tapete do aliado (Jimmy Carter e Barack Obama). Podemos pincelar também as diferenças. No Egito, ainda bem, não existe um líder religioso com o carisma do aiatolá Khomeini e a Irmandade Muçulmana, ao contrário dos fundamentalistas xiitas, esconde sua força justamente para não assustar e tentar enfraquecer esta narrativa de que a história irá se repetir, novamente como tragédia e não como farsa.

Mais do que isto, a Irmandade Muçulmana, ao contrário dos fundamentalistas islâmicos de Teerã, tenta se apresentar ao mundo como um movimento hoje mais moderado, numa jogada para se distanciar das idéias do seu mentor Sayyd Qutb, idéias racistas, misóginas, antissemitas e anticristãs. Qutb é um pensador reverenciado pelo Talibã. Será que deixará de ser reverenciado por seguidores no próprio país?

Mais do que nunca, será preciso cobrar de forma infatigável da Irmandade Muçulmana que esclareça suas posições sobre direitos das minorias religiosas, apedrejamento e se está disposta a aceitar a mera existência do estado de Israel, além de honrar o o tratado de paz firmado por Anuar Sadat e Menachem Begin. Sei que é um pouco quixotesco, mas não basta demonizar a Irmandade Muçulmana. Se houver um ambiente mais democrático no Egito, será fundamental tentar moderar o grupo. A história, reitero, não é muito estimulante, mas vigilância do mundo pode ajudar a impedir que se repita a tragédia iraniana, tanto a de 1979, como a de 2009.

A questão militar é igualmente tortuosa. No Egito, os militares estão nas entranhas do regime Mubarak. O regime é militar. É assim desde o golpe que derrubou a monarquia em 1952. Agora temos os esforços do Exército para se preservar, sacrificando Mubarak. No Irã, em janeiro de 1979, os militares não tiveram o beneplácito de Washington para um golpe e acabaram se acertando com Khomeini. O xá precisou partir para o exílio, justamente para o Egito do presidente Sadat e do seu então vice Mubarak. E o Exército acabou sendo absorvido pela revolução islâmica, que também criou seu próprio aparato de segurança.

Vendo de hoje, parece inconcebível que os militares egípcios aceitem este papel de subordinação. Há as versões de infiltração da Irmandade Muçullmana no escalão médio, mas tudo isto é incipiente. Sei lá. A gente reconversa sobre isto dentro de 30 anos. Por ora, os americanos precisam tirar proveito dos seus laços e assistência aos militares egípcios para que exerçam um papel construtivo em uma nova ordem. O caso do Paquistão, é verdade, não encoraja.

Como eu disse acima, são apenas pinceladas. Há exemplos promissores, como o apontado por Gideon Rachman, no Financial Times. O Irã não é o único exemplo de revolta popular bem sucedida contra uma ditadura no mundo islâmico. Existe o consolo da Indonésia. Em 1998, o regime Suharto caiu após 32 anos e a Indonésia, o país com a maior população muçulmana do mundo, hoje é uma democracia funcional (combate o radicalismo islâmico) e está ingressando no primeiro time dos países emergentes. Existe também gente mais otimista (demais para o meu gosto). Alguns analistas de mercado disseram a agência Reuters que em um ano o Egito vai se parecer mais com a Turquia (com sua versão de democracia e controle islâmico sem as vestimentas radicais do Irã).

A situação no Egito ainda está muito volátil. Para os egípcios, a revolução islâmica de 1979 deve servir de advertência. Abbas Milani, um bom acadêmico iraniano hoje na Universidade de Stanford e que acaba de escrever uma biografia sobre o xá, palpita que a revolta no Egito deveria colocar os aiatolás de Teerã na defensiva e quem sabe se configure como uma prima bem sucedida do movimento pró-democracia no Irã em 2009. Seria uma maravilha, não?

Mas é bom tomar nota quando o veterano editor de Oriente Médio da BBC de Londres, Jeremy Bowen, reportando da praça Tahrir, no Cairo, observa que o movimento antiMubarak tem uma cara cada vez mais religiosa. Portanto, não quero perder as esperanças, mas preciso ficar cético, ainda com aquela guerra de 1979 em mente, sem as feridas cicatrizadas. E neste quadro volátil, feridas são abertas, como nesta nova dimensão da crise, com os confrontos de rua, na quarta-feira no Cairo, ao que tudo indica por iniciativa de provocadores pró-Mubarak. O referencial deixa de ser apenas Teerã 1979. É também Teerã 2009.

Cético, mas não cínico. Nada de lavar as mãos com determinismo histórico e achar que não adianta. A pomposa tarefa é valorizar as vozes e as caras não sectárias para que a praça Tahrir não se converta em 30 anos, ou menos, em mais uma praça de uma revolução traída.


20 de jan. de 2011

OPINIÃO: Vem aí o complexo militar industrial chinês - Caio Blinder

OPINIÃO
Vem aí o complexo militar industrial chinês
“No cimentado sistema político chinês, o poder militar é subordinado ao poder civil”. “Mas, nos últimos tempos na China, temos um poder militar atuando com mais desenvoltura em relação ao comando civil, deixando claro seu propósito de ampliar sua influência no sistema de poder”. 

Foto: Feng Li/Getty Images

O poder na ponta do míssil

Caio Blinder
Fontes: Veja

Há 50 anos, em janeiro de 1961, Dwight Eisenhower encerrou seus oito anos de presidência americana com um dos discursos mais famosos de despedida do poder, marcado pela advertência sobre o crescimento de um “complexo militar industrial” e os perigos que ele trazia. A importância do discurso cresceu ao longo das décadas, tornou-se lendário e se converteu em motivo de adoração para antiamericanos denunciarem a podridão do esquema. Afinal, até o presidente que partia apontava os malefícios de um sistema supostamente a serviço do Pentágono e dos fabricantes de armas (os mercadores da morte)

Esclarecimentos: Eisenhower, o general que comandou as tropas aliadas na Europa na Segunda Guerra Mundial, não traiu o sistema e sabia do que estava falando. Obviamente, Eisenhower não era um pacifista ou manso com os inimigos do seu país (fez o discurso no auge da Guerra Fria). Seu recado era contra extravagantes gastos militares e o perigo de que um complexo militar industrial transformasse os EUA em um estado policial, tolhendo as liberdades civis.

Há extravagâncias estúpidas nos gastos militares, um lobby obsceno da indústria bélica no Congresso e alguns excessos contra as liberdades civis. No entanto, é um salto de imaginação descrever os EUA como um estado de guerra, em que conflitos, como o do Iraque, são deflagrados por uma conspiração dos fabricantes de armas. Também é inconcebível o cenário de uma tomada militar do poder, como em Sete Dias de Maio, o filme de John Frankenheimer.

Bem, mas não eu quero me estender nos excessos reais do império americano e aqueles no imaginário dos antiamericanos. A idéia é especular um pouco sobre o complexo militar industrial do emergente império chinês. É curioso até pensar na sua existência no país sob o tacão do Partido Comunista (80 milhões de afiliados), em que Hu Jintao é presidente, secretário-geral deste partidão e tambem chefe da comissão militar central.

Hu Jintao é um burocrata cinzento, o antônimo do carisma e representante de um coletivo decisório. Não tem experiência militar ou revolucionária. Por formação, é engenheiro hidroelétrico. A rigor, melhor isto do que o esfuziante, narcisista e sádico Mao Tsé-tung. Hu Jintao representa a consolidação da revolução, após décadas de turbulências, experimentos devastadores e erros colossais. Ainda ditadura, mas menos sangrenta e menos tumultuada.

No cimentado sistema político chinês, o poder militar é subordinado ao poder civil. Mao, o maldito pai fundador, disse que o poder estava na ponta do fuzil, mas o final da frase é: “O partido comanda a arma; a arma nunca deve comandar o partido”.

Mas, nos últimos tempos na China, temos um poder militar atuando com mais desenvoltura em relação ao comando civil e expressando mais agressividade na arena internacional, motivado por nacionalismo, e deixando claro seu propósito de ampliar sua influência no sistema de poder. Outros atores também atuam com mais desenvoltura, como os exportadores, que exercem pressão para que a moeda continue manipulada para favorecer seus negócios. O poder na China que cresce é mais difuso, mais dificil de ser interpretado.

Basta ver a confusão dias atrás durante visita do secretário de Defesa americano Robert Gates a Pequim. Havia uma certa perplexidade sobre o próprio Hu Jintao, no pico de uma estrutura partidária centralizada, mas que às vezes parece no escuro sobre aqueles que comanda, a destacar O Exército Popular de Libertação (a propósito, hoje em dia, libertação de quem?). De acordo com relatos, durante encontro com Gates, Hu Jintao parecia não saber que seus militares tinham acabado de fazer um teste com um protótipo de avião invisível a radar. “E verdade?”, ele teria perguntado ao seu ministro da defesa Liang Guanglie.

É possível especular que os militares chineses atuem como “falcões”, tentando abortar vôos de um modus-vivendi entre a China, superpotência emergente, e a madura superpotência americana. Este empenho marca a visita oficial em curso de Hu Jintao aos EUA. Também interessa a estes militares, agressividade do outro lado, o que justifica investimentos industriais e armas mais sofisticadas no aparato militar do país (inevitável e compreensível, de qualquer forma, diante de sua ascensão global). A economia americana é três vezes maior do que a chinesa, mas seu complexo militar gasta oito vezes mais por ano e seu armamento é muito mais, mas muito mais, sofisticado. Até quando?

A liderança civil chinesa deve controlar este impulso dos militares. Nada de descartá-lo, é claro. Nacionalismo é uma cola que unirá cada vez mais os chineses. Com a falência da ideologia comunista. militares são arautos impecáveis de nacionalismo e de patriotismo, ampliando seus tentáculos navais no mar do Sul da China, construindo mísseis mais incrementados e exibindo seu avião invisível. Os chineses se distanciam do famoso conselho de Deng Xiaoping, o patrono das reformas econômicas, para “esconder nossas capacidades, ganhar tempo e não reinvindicar liderança”.

Portanto, não espere advertências de Hu Jintao contra o complexo militar industrial no seu discurso de despedida no ano que vem, quando passar o poder para o camarada Xi Jinping.


30 de nov. de 2010

OPINIÃO: Há método na loucura norte-coreana, mas até quando? - Caio Blinder

OPINIÃO
Há método na loucura norte-coreana, mas até quando?
“Não existem opções animadoras nesta crise. E uma medida da falta de boas opções para lidar com Kim Jong-il é que a Coréia do Sul espera que a China enquadre o seu afilhado delinqüente” – Caio Blinder

Foto: Kyodo/Getty Images

Herança maldita, de pai para filho

Caio Blinder
Fonte: Blog Abril – Caio Blinder

Você fala norte-coreano? Na praça, existem várias tentativas de tradução das ações teatrais, pirotécnicas e letais do regime comunista de Kim Jong-il, que o subsecretário de estado para assuntos asiáticos dos EUA, Kurt Campbell, define como uma “caixa preta”.

Na escalada de tensões, tivemos estes últimos e preocupantes lances que foram a barragem de artillharia contra uma ilha sul-coreana e a revelação ao mundo por um regime recluso que o seu programa de enriquecimento de urânio, de um país já dotado de um pequeno arsenal nuclear, é mais avançado do que se temia. Em março, já ocorrera uma escalada de tensões com o ataque a uma embarcação sul-coreana, que deixou 46 marinheiros mortos, numa ação negada pelos norte-coreanos, apesar das evidências.

Uma tradução é que existe método na loucura de uma regime que é uma mistura de relíquia stalinista, organização mafiosa e militarismo ultranacionalista. Kim Jong-il precisa mostrar ao mundo e ao público doméstico a sua força quando empreende a transição de poder ao filho Kim Jong-un, na única monarquia comunista do mundo, pois será a terceira geração no comando.

Há também a jogada frequente de botar fogo e fazer extorsão da comunidade internacional para que apague o incêndio com mais negociações nucleares, suprimentos e qualquer tipo de ajuda. Americanos e seus aliados prometem não cair novamente no golpe do método na loucura, mas se assustam. Não existem opções animadoras nesta crise. E uma medida da falta de boas opções para lidar com Kim Jong-il é que a Coréia do Sul espera que a China enquadre o seu afilhado delinquente.

E aqui os sinais são incertos. A China está adotando uma diplomacia cada vez mais muscular, batendo de frente com os EUA e outros países ocidentais em questões cambiais, comerciais e de direitos humanos. O irriquieto aliado é um estorvo, mas Pequim parece temer, antes de tudo, a perspectiva da implosão do vizinho e de reunificação da península coreana, num desfecho pró-ocidental. Melhor que, antes de tudo, os chineses também se assustem com a explosão do método da loucura do regime de Kim Jong-il.

Afinal, há o cenário de uma escalada de tensões ainda maior. O método da loucura pode falhar, caso a Coréia do Sul revide com mais vigor às provocações do vizinho delinquente e fortemente armado. E o bandido também quer respeito. Apronta inclusive para ser aceito no clube nuclear e chamar atenção quando a Coréia do Sul consolida sua posição como um país próspero e democrático. Semanas atrás inclusive sediou a reunião do G-20. Os norte-coreanos também fizeram provocações perigosas no final dos anos 80 quando Seul foi escolhida para sediar os Jogos Olímpicos de 1988.

Tudo parece ser um lance de cartas marcadas, mas o que está em jogo é cada vez mais alarmante. Como a Coréia do Sul e o mundo, inclusive a China, podem continuar a assistir a este espetáculo teatral, pirotécnico e letal? Apesar de alguns sinais de progressos, os anos de diplomacia e sanções econômicas não impediram a Coréia do Norte de desenvolver seu pequeno arsenal nuclear. Lembra o Irã, certo?

Os norte-coreanos realizaram testes nucleares em 2006 e 2009 e agora mostram ao mundo sua sofisticada instalação de enriquecimento de urânio. Este regime faz qualquer coisa para desviar as atenções da opressão e miséria ofertadas ao seu povo. E tecnicamente as duas Coréias continuam em estado de guerra, pois em 1953 foi apenas assinado um armistício.

É necessário acompanhar a crise dia a dia, hora a hora. O método na loucura pode pifar. É preciso traduzir o perigo?