3 de set de 2014

O mundo não tem culpa

BRASIL – Economia - Opinião
O mundo não tem culpa
O resultado de 2014 no Brasil está na conta das decisões e indecisões da atual política econômica. O ambiente de negócios não favorece o investimento, a crise elétrica tirou o horizonte das empresas, as respostas do governo para os problemas são novas doses do mesmo remédio que já não funcionou.

Foto: Arquivo

As tentativas de escamotear cada problema só aumentam a insegurança em relação ao Brasil.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Míriam Leitão, para O Globo
Fonte: Blog da Miriam Leitão

O Brasil está estagnado, e a culpa não é do mundo. Na economia internacional, o pior passou. Sempre haverá algum tipo de instabilidade externa, e a arte de governar está em lidar com ela, atuando no que está sob controle interno. O crescimento da produção industrial de julho é uma andorinha. Melhor tê-la do que não, mas sozinha não fará o verão.

A economia americana teve queda no primeiro trimestre, pelo inverno rigoroso, mas mostrou robusta recuperação no segundo e espera-se um crescimento acima de 2% este ano. A economia alemã encolheu 0,2% no segundo trimestre. A Alemanha vive em grande parte do comércio internacional, é uma máquina que importa e exporta em grandes volumes e por isso sentiu o efeito das sanções contra a Rússia. Mas ela cresceu no primeiro trimestre, sua queda no segundo trimestre é menor do que a do Brasil e o PIB deverá ficar entre 1,5% e 1,8% este ano. Isso para falar de duas grandes economias que enfrentaram de frente a crise internacional iniciada em 2008. Estão melhores do que nós no momento.

Se olharmos para o lado, vamos ver que só ganhamos dos dois países cujos governos levaram a economia para o desastre: Venezuela e Argentina. Estamos crescendo menos do que o Chile, México e muito menos do que a Colômbia, que exibe um vigoroso aumento do PIB acima de 5%.

O resultado de 2014 no Brasil está na conta das decisões e indecisões da atual política econômica. O ambiente de negócios não favorece o investimento, a crise elétrica tirou o horizonte das empresas, as respostas do governo para os problemas são novas doses do mesmo remédio que já não funcionou.

Todo país passa por períodos difíceis, de baixo crescimento e acúmulo de números negativos. A economia é assim mesmo. Agora, no entanto, não é uma baixa pontual, o fraco desempenho está virando crônico. O problema aqui é a falta de diagnóstico inteligente sobre as razões do baixo desempenho e até mesmo a ausência de reconhecimento de que estamos indo mal.

A crise energética é gigante e vai além da falta de água nos reservatórios. A má administração provocou uma onda de dívidas cruzadas entre as empresas elétricas e chegou ao absurdo em alguns fatos, como a concessionária Santo Antônio dever ao consórcio Santo Antônio e por isso a usina começou a demitir. Parece piada, mas é isso mesmo. Consórcio e concessionária, com os mesmos sócios, brigam por pagamento não feito. Não adianta terceirizar a culpa no santo das chuvas. Como São Pedro não é uma variável que se controle do Planalto, era preciso ter uma política energética preparada para as oscilações do índice pluviométrico, mas o governo preferiu fazer populismo eleitoreiro e criou uma zona de sombra para a economia.

As tentativas de escamotear cada problema só aumentam a insegurança em relação ao Brasil. As alquimias e pedaladas tornaram os números fiscais uma ficção e criam nas contas públicas a mesma falta de credibilidade que a Argentina criou em relação aos indicadores de inflação e crescimento. No IBGE, o governo brasileiro não conseguiu intervir — graças ao próprio instituto — mas o Tesouro faz todo o tipo de invencionice para esconder o que todos sabem: a deterioração das contas públicas. E se é um segredo de polichinelo, o que o governo ganha com truques como o atraso nos repasses? Na época do governo militar, os números eram manipulados para se conseguir mais uma parcela dos empréstimos do FMI. É difícil saber o que o Tesouro acha que ganha ao espalhar o descrédito sobre os indicadores fiscais. Esse e outros problemas são fabricados aqui mesmo, em Brasília. O mundo não tem culpa.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

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