1 de out de 2012

Mujica, o corte no nariz e os buracos de Havana

CUBA
Mujica, o corte no nariz e os buracos de Havana
A história de Pepe Mujica me fez refletir sobre o divórcio que existe entra o modo de vida dos dirigentes e o do povo de Cuba.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Yoani Sánchez
Fonte: Blog de Yoani Sánchez - Desde Cuba

Foi uma folha de teto empurrada pelo vento que cortou o nariz do presidente uruguaio José Mujica. Um pedaço de metal que se desprendeu justamente quando ajudava um vizinho a reforçar a cobertura do teto de sua casa. O fato rolou pelas midias e as redes sociais como um exemplo da sensibilidade de um mandatário conhecido pelo seu modo de vida austero. Estava ele ali como mais um camponês, cuidando para que o vendaval não levasse as telhas de uma moradia próxima da granja onde vive em Montevidéu. Sem dúvida uma história cheia de ensinamentos que muitos outros governantes no mundo deveriam imitar.

A história de Pepe Mujica me fez refletir sobre o divórcio que existe entra o modo de vida dos dirigentes e o do povo de Cuba. O contraste é tão marcante, tão abissal, que indica com exatidão boa parte dos erros que estes cometem na hora de tomar decisões. Não se trata somente do fato de residirem nas melhores casas, morarem em bairros residenciais formosos ou dirigirem automóveis mais modernos. Não. A grande diferença apóia-se na prática quase nula que as autoridades têm em relação aos problemas que afligem nosso dia a dia. Desconhecem a sensação de esperar por mais de uma hora numa parada de ônibus, o desassossego de um corte de eletricidade no meio da noite, o mal estar de se caminhar nas ruas sem iluminação pública ou cheias de buracos. Não têm a menor idéia do odor de suor rançoso que preenche o interior dos caminhões onde dezenas de pessoas viajam de um povoadozinho para outro, nem do tumulto das carroças a cavalo que são, para muitos, a única forma de se transportarem. Nunca passaram uma noite no terminal La Coubre, na lista de espera para conseguir uma passagem de trem, nem tiveram que deixar o equivalente a um salário mensal para o segurança que revende os tickets para subir num vagão desmantelado.

Quando um comandante ou general deste país entrou numa loja em pesos conversíveis para ver se no momento vendem o picadinho mais barato e teve que ir-se porque o dinheiro não dava para nenhuma das mercadorias exibidas nas prateleiras? Há quanto tempo que um ministro não abre a geladeira e comprova que sobra água e falta comida? O presidente do parlamento haverá dormido alguma vez sobre o colchão remendado sucessivamente pela avó da sua família? Haverá cerzido sua roupa íntima para continuar usando-a ou utilizado o vinagre de cozinha para lavar o cabelo na falta do shampú? Os filhos destes hierarcas sabem sobre essas madrugadas úmidas nas quais há que se passar esquentando o fogareiro de querosene para que esteja pronto para fazer o café da manhã? Viram de perto a cara do funcionário que diz “não” – quase com prazer – quando perguntado pelo resultado de um trâmite? Alguns deles haverão tido que vender cartuchos de amendoim para sobreviver como tantos aposentados ao longo de todo o país?

Não podem nos governar porque não nos conhecem. Não são capazes de encontrar soluções porque jamais sofreram as dificuldades que temos. Não nos representam porque faz muito tempo que se perderam num mundo de privilégios, comodidades e luxos. Não têm a menor idéia do que implica ser um cubano hoje.


* Tradução Humberto Sisley de Souza Neto

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