22 de jan de 2011

Crônica: FALANDO SÉRIO - Luis Fernando VERRISSIMO

Crônica
FALANDO SÉRIO
Luis Fernando VERRISSIMO

Foto: Natalia Franco/Flickr

Ele disse:
- Ora, reforma agrária...
Ela disse:
- Vai dizer que você é contra? Ele tentou cair fora:
- O assunto é muito complexo. Ela insistiu:
- Espera um pouquinho.
- Dá um beijo, vai.
- Espera isto é importante. Eu quero saber.
- O quê?
- A Reforma agrária. Você é contra?
- Por quê? Você é a favor?
- Mas só sou.
- Você quer que o velho divida as terras dele?
- Teu pai é latifundiário?
- Tremendo lati.
- Eu não sabia!
- Tem muita coisa a meu respeito que você ainda não sabe, boneca. Vem cá que eu te mostro...
- Espera. Falando sério.
- Da uma beijoca.
- Falando sério, pomba.
- Está bem. O que você quer saber?
- Seu pai. Quantos hectares ele tem? Ou acres? É acres ou hectares?
- E eu sei? Nunca fui lá.
- Quantos?
- Um monte.
- Mais ou menos?
- Olha, eles pegam o jipe da fazenda e, num dia, não conseguem chegar ao fim das nossas terras.
- Meu Deus do céu!
- É que o jipe quebra sempre. Dá um beijo, poxa
- Pára.
- Vem cá, mulher!
- Não vou. Olha, nunca pensei, viu?
- O quê? Que meu velho fosse fazendeiro? Como é que você pensa que eu tou pagando a faculdade? E o carro? E o apartamento? E as nossas alianças de noivado?
- Ele tem terra improdutiva?
- Tem. Exatamente a parte que ele está guardando pra me dar quando eu casar. A nossa terra, amor.
- Mas E o seu discurso?
- Bom...
- Até eu achava radical. E olha que eu sou meio PT.
- Não vamos brigar por causa disto.
- Tudo o que você vive dizendo. Justiça social...
- Confere.
- A insensibilidade dos ricos no Brasil
- Mantenho.
- Os escândalos dos sem terra num país deste tamanho.
- Sustento.
- Vem cá. Outra noite, aqui mesmo, neste bar, você disse que toda a propriedade é um roubo. Eu achei bacanérrimo.
- Foi uma frase que me ocorreu na hora. Mas escuta...
- E agora vem dizer que é contra a reforma agrária.
- Eu não sou contra a reforma agrária. Teoricamente, sou a favor.
- E então?
- Você não entende? Agora não é teoria. Agora são as terras do velho!


Crônica do livro “Comédia da Vida Privada” – 22ª Edição - Editora L&PM, Porto Alegre 1966


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