1 de jan de 2011

Crônica: ESCALÕES - Luis Fernando VERRISSIMO

Crônica
ESCALÕES
Luis Fernando VERRISSIMO

- Sabe quem está muito cotado para fazer parte do Governo?
- Conta.
- O marido da Alba.
- Que Alba?
- Aquela baixinha. Você conheceu no cabeleireiro.
- Tenho uma vaga lembrança
- Uma que pinta o cabelo de cobre. Fala muito barra porque ouviu na novela.
- Acho que sei quem é. Que horror.
- Pois é. Vai para Brasília.
- O marido é militar, é?
- Não, não. Área econômica. Parece coisa importante.
- Preciso investigar.

- Alô!
- Alô, Albinha? Aqui quem fala é Vivian Malheiros de Lima e Lima. Nos conhecemos no ca ...
- Mas claro! Como vai?
- Muito bem. E você? Já fazendo as malas?
- Nem me fala. Uma barra.
- Os amigos podem saber para que posto vai o ... o ...
- O Jorge Augusto? Olha, Vivian, a coisa ainda é meio secreta. O Jorge Augusto não fala muito no assunto, em casa. Só sei que é coisa certa.
- Está me cheirando a primeiro escalão ...
- A quê?
- Ministério, Albinha. E o Jorge Augusto merece.
- Não sei. Vai ser uma barra ...
- O que é isso, querida? Precisamos comemorar. Vocês estão livres na sexta?
- Sexta-feira? Bem ...
- Quero oferecer um jantarzinho para vocês, meu bem. Meu marido, de tanto me ouvir falar em vocês, está louco para conhecer o João Augusto.
- Jorge Augusto. Olha, acho que vai dar. Mas depois da novela, hein?
- Nove e meia, está bem? Só nós e mais uns três ou quatro casais.
- Ótimo, Vivian.
- As minhas amigas me chamam de Vica.
- Ótimo, Vica!

- Jorge Augusto Souza Santos? Nunca ouvi falar.
- Ou Santos Souza. Por aí.
- Tem certeza de que é primeiro escalão?
- Coisa certa.
- Estranho ...

- Alô, Vica? É a Alba.
- Oi, Albinha!
- Estou telefonando por uma bobagem, mas é que eu sou meio chata nessas coisas, sabe como é? O jantar na sua casa, é com que traje?
- Esportivo, Albinha, esportivíssimo. Coisa bem informal. É só para os nossos maridos se conhecerem melhor. Venham como quiserem.
- Então está bom, Vica ...
- Alguma novidade sobre o posto do Jorge, Albinha?
- Ah! Parece que não é primeiro não.
- Primeiro o quê?
- Escalão.
- Mmmm.
- Segundo escalão é até melhor. Mais estáveL O tráfego de influência é maior.
- Espero que você reconheça o que estou fazendo por você, Antônio. Ter que agüentar a tal de Alba ... Aposto que ela vem ao meu jantar de tafetá.

- Alô, Vica?
- Sim, Alba.
- Sobre o jantar de amanhã, outra vez. O Jorge Augusto que- ria levar alguma coisa. Quem sabe um vinho ...
- Não precisa nada, Alba. A bebida está incluída no preço.
- Essa é boa, Vica. Você, hein? Uma barra.
- Alguma notícia de Brasília, Alba?
- Bom, já sabemos que segundo escalão não é.
- Terceiro?
- Tem alguma coisa abaixo de terceiro, Vica?
- Tem, mas aí já é subsolo, Alba.
- Parece que é quarto escalão.

- Já sei. O cara vai ser contínuo. Você e as suas amizades, Vica.
- Minhas amizades, não senhor. Nem conheço a peça. E ago¬ ra? O jantar está marcado.
- Problema seu.

- Alô, Sra. Alba Santos Souza?
- Souza Santos. Sim, sou eu. 
- Aqui é da parte de Vivian Malheiros de Lima e Lima. A senhora Lima e Lima lamenta, mas não poderá receber para jantar hoje, como estava combinado.
- Por quê? Algum problema?
- Hepatite.


Crônica do livro “Comédia da Vida Privada” – 22ª Edição - Editora L&PM, Porto Alegre 1966

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