5 de ago de 2010

Lula atirou a primeira pedra na iraniana

IRÃ - DIREITOS HUMANOS
Lula atirou a primeira pedra na iraniana
Tudo que o presidente brasileiro fez em benefício da mulher iraniana condenada à morte, por apedrejamento, foi apressar sua execução, depois de “avacalhar” o movimento internacional que obteve mais de 700 mil assinaturas, de todo o planeta pedindo sua libertação

Fotomontagem Toinho de Passira

Toinho de Passira
Fontes: Blog Mirian Leitão, Estadão , BBC Brasil, Estadão, Correio Braziliense

Quando assumiu a presidência pela primeira vez, o Presidente pelo menos parecia ter consciência da sua ignorância e assessorava-se.

No segundo mandato, depois de ter lido meia dúzias de discursos produzidos por outros e ser elogiado, pensou que havia virado gênio e começou a dispensar colaboração e a adotar uma política internacional, baseada na sua experiência de sindicalista no ABC Paulista. O começo de um desastre que tem se acelerado nesse último ano, progressivamente.

Acabou desaguando nos posicionamentos equivocados e vexatório no caso da libertação da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani condenada a morte por apedrejamento, acusada de adultério.

Primeiro, o presidente Lula intrometeu-se no caso com uma das mais infelizes declaração, depois de pressionado para que fizesse uma gestão diplomática junto ao presidente iraniano, usando sua estranha amizade com o presidente Ahmadinejad, disse que seria uma “avacalhação” interferir nas leis dos países.

Mirian Leitão no seu blog lembra que “Leis injustas e arbitrárias devem ser combatidas, porque os direitos humanos são universais.” Não importa em que país esteja.

Mais vexatório, na segunda intervenção, no palanque de Dilma, o presidente errou feio, no local, na forma e nas palavras: “disse que, já que ela estava incomodando, o Brasil oferecia asilo.”

Pela rejeição ríspida do governo iraniano, dizendo em tese Lula é um emotivo que não sabe do que está falando. Imaginava-se que algo de ruim ia acontecer, com a mulher.

De prático, para pior, a Corte Suprema do Irã ignorou ontem apelos de defensores dos direitos humanos e atendeu ao pedido do Ministério Público para que a iraniana Sakineh Ashtiani seja executada.

Em uma aparente tentativa de aplacar as críticas internacionais, Teerã mudou o teor da principal acusação contra Sakineh - de adultério para assassinato. O tribunal definirá na próxima semana se ela será enforcada ou apedrejada. Não cabe recurso e priu.

Um detalhe nesses episódios recentes, é que o advogado de defesa, da mulher presa, Mohammad Mostafaei desapareceu de Teerã desde 24 de julho depois de interrogado por autoridades iranianas. Sua mulher e cunhado foram presos depois disso, segundo um relatório da Anistia Internacional.

No momento ele está em Istambul, num local onde são mantidos imigrantes em busca de asilo político.

A iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, foi julgada pela primeira vez em 15 de maio de 2006, por um tribunal de Tabriz, quando admitiu ser culpada do crime de "manter relacionamento ilícito" com dois homens, em ocasiões diferentes, embora o incidente tivesse ocorrido após a morte do seu marido. Por isso ela recebeu uma condenação já cumprida de 99 chibatadas.

Em setembro de 2006 o processo foi novamente aberto quando outro tribunal julgava um dos dois homens envolvidos na morte do marido de Sakineh Mohammadi Ashtiani. Ela foi então condenada por cometer adultério enquanto ainda era casada e sua sentença confirmada como pena de morte por apedrejamento.

Durante uma das apelações ela declarou ao tribunal que não era verdadeira a confissão de adultério, que fizerá. Na verdade confessará sob pressão e por só falar fluentemente o turco, não compreendia corretamente o que lhe falavam os seus interrogadores, que falavam no idioma farsi.

Precisa-se esclarecer que a relação sexual nesses casos é presumida. Basta que ela tenha caminhado com o homem, por um local pouco movimentado, recebido-o como visita em casa, sem a presença de um familiar masculino, para se concluir pelo adultério.

Mulheres estrupadas já foram condenadas no Irã, por por não ter se precavido, ou ter tido um comportamente considerado insinuante.

O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani virou comoção internacional, principalmente por causa da brutal pena de apedrejamento, mas os iranianos estão acostumados com esse tipo de execução: segundo o correspondente da BBC em Teerã Jon Leyne pelo menos duas pessoas por ano continuam a ser executadas pelo método no país.

O assessor especial para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Top Top Garcia, afirmou ontem (4/8) que o presidente Lula não se ofendeu com o comentário do porta-voz do governo iraniano de que ele era desinformado e por essa razão ofereceu asilo político à mulher condenada à morte por suspeita de adultério e que as relações bilaterais entre Brasil e Irã estão mantidas, sem alterações.

Teme-se que da próxima vez que Lula for falar do assunto, não diga que não vai brigar com seu amigo o presidente Ahmadinejad, “por causa de umas pedradas...”


Um comentário:

Rodrigo disse...

Ainda bem que no ocidente, e especialmente no Brasil, os crimes são julgados por um estado secular, e a população, de uma forma geral, não faz seus julgamentos baseada em costumes ancestrais ou preceitos religiosos já à muito tempo abandonados. No Brasil, um "crime" ou um ato ilícito, como adultério, blasfémia, heresia, ou coisas desse tipo do ponto de vista de algumas religiões, nunca teria como resultado a condenação de seu executor a um pena capital.

No Brasil temos liberdade religiosa, liberdade de expressão e plena democracia. E, conceitos vindos da Idade Média, já foram esquecidos à muito tempo.

Espero que, como saldo positivo da aproximação do Brasil com o Irã, tão criticada, se consiga intervir em favor desta cidadã iraniana. Caso contrário, a manifestação do governo e da população contrários a sua prisão e execução já servem para demonstrar como o país em que vivemos está mais próximo de uma democracia moderna do que de uma teocracia anacrónica.

Espero que os opositores ao presidente Lula lembrem-se de que o pedido feito por ele representa a melhor possibilidade de libertação desta mulher, que deixem de lado sua oposição política e apoiem esta causa tendo a libertação de Sakineh como objectivo humanitário e não político casual. Abra uma excessão pela vida.

É obvio que um pedido de um líder próximo ao Governo do Irão terá muito mais possibilidade de ser atendido do que qualquer pedido feito por opositores ao país. Da mesma forma, um pedido feito pelo presidente Lula aos EUA seria muito mais excito do que um pedido feito por Fidel Castro. Concorda?...

Eu penso que, e posso estar enganado COM CERTEZA, o que ocorre é exactamente o oposto. Na verdade os excessos contra o Itã e que estão impedindo a aproximação diplomática do Brasil e consequentemente do ocidente. Baste lembrar que ano passado uma ampla manifestação de usuários da internet contra as eleições e a favor do povo do Irã, teve como único resultado prático um ataque de um grupo 'cyberterrorista' ao Twitter. E nada mais... Se algéum lembra de outra coisa, por favor, me diga.

Nestes momentos é preciso rever o que se fez, admitir a derrota, enxergar uma possibilidade de vitória mesmo onde não se quer ver e, finalmente, mudar de tática.

E, em caso extremo, vale lembrar que os EUA já mandaram um porta-aviões nuclear para a região. Este fato isolado, pode ser o maior argumento diplomático no final da contas. Como se sabe os EUA não negociam com quem não mantém relação, eles tem esse tipo de argumento, o Brasil não tem...


Esta é minha humilde opinião, que pode estar errada, mas que posso defender e até mesmo mudar de acordo com os acontecimentos futuros. Aliás já estou pensando nisso...