29 de mar de 2013

Fritando a frigideira, de Lucas Mendes, para a BBC Brasil

ESTADOS UNIDOS - Opinião
Fritando a frigideira
Lucas Mendes fala do consumismo americano e das revistas que guiam os consumidores

Foto: Arquivo

Uma mulher contou que sentou na privada e dormiu de cansaço depois de um dia de compras

Postado por Toinho de Passira
Texto de Lucas Mendes , para a BBC Brasil
Fonte: BBC Brasil

No Brasil compra-se até quebrar, mas não se compra até cair. A expressão não existe em português. Em inglês, é "to shop until you drop" e em Nova York há brasileiros em colapso de compras.

No Eataly, na 5ª Avenida eu sou mais reconhecido e abordado do que em Belo Horizonte. Alguns tiram fotos comigo sem saber meu nome.

Falamos alto. É impossível não ouvir a conversa ao lado. Compras. Uma mulher contou que sentou na privada e dormiu de cansaço depois de um dia de consumo. Não caiu, mas sentou para o pipi e apagou. Foi acordada pela segurança.

Aqui tudo está mais barato inclusive a pizza e o espaguetone na frente da família que naquele dia fritou os cartões de crédito e vai voltar com malas mal educadas. Pais e filhos compraram de tudo, até milagrosas frigideiras francesas.

Uma das minhas brigas conjugais inesquecíveis foi por causa de uma panelona que tive de trazer do Brasil, que pesava, e ainda pesa, 20 quilos. Como decoração na cozinha é linda, gigante, preta com o aro dourado. Em cima do fogo? Três ou quatro vezes em trinta anos.

Não quero me perder nesta história. Nossas classes A, B e a recém-chegada C vivem o furor do consumo nas lojas e na internet.

Assisto ao Bom Dia Brasil. Nossos consumidores consomem, mas têm queixas. O produto não cumpre o prometido na promoção, chegou com defeito, com atraso ou nem chegou.

Há leis e há o Procon, mas não funcionam como deveriam. Devolver o produto, brigar com o fabricante e recuperar o dinheiro estressam, consomem horas e nem sempre compensam.

E os americanos, inventores e campeões mundiais da sociedade do consumo?

São mais patéticos do que nós, emergentes deslumbrados, porque aqui há informação. No Brasil, não existe um Consumer Reports, uma publicação criada em 1936 e que hoje gasta US$ 21 milhões por ano testando de fraldas a automóveis nos próprios laboratórios e é implacável nas suas conclusões.

Consumer Reports condenou berços e carros, entre eles o AMC Ambassador e o Dodge Omni Plymouth. BMW e Grand Cherokee, da Chrysler, mudaram peças por denúncias da revista.

Fabricantes processaram e perderam. A revista tem mais de 7 milhões de assinantes, eu entre eles, um péssimo consumidor, mas que nunca comprou nada condenado pela Consumer Reports, tão rígida contra as empresas que na década de 50 entrou na lista de organizações subversivas com grupos acusados de comunistas.

E como você traduz "Good Housekeeping"? "Deixando a Casa em Ordem"?

Você compraria uma revista com este título? Deveria. Vai fazer 128 anos. A maioria das revistas americanas estão em crise, mas Good Housekeeping vai em perfeita ordem.

Seu segredo é a credibilidade reforçada pelo "Selo de Garantia", criado em 1909 e que, há mais de um século, promete e cumpre.

A revista não aceita anúncios de produtos que não passam nos testes dos próprios laboratórios. Vai além. Em 1952, quando os europeus fizeram as primeiras conexões entre cigarro e câncer, a Good Housekeeping parou de aceitar anúncios de cigarros. Para anunciar na revista é preciso passar pelos seus laboratórios de pesquisa, um tribunal de inquisição sobre a qualidade do produto.

A frigideira que não frige como promete está frita. Se frigiu, recebe um Selo de Garantia que pode colocar no rótulo ou nos comerciais. O efeito quase sempre é lotérico.

Quando um creme de pele que ia mal nas vendas recebeu o selo da revista, vendeu 2,2 milhões de dólares em apenas um dia na rede de vendas do canal QVC.

Comprou e não gostou? Chegou com defeito ou não cumpriu o prometido? Quem reembolsa o consumidor ou manda um produto novo é a própria revista. Sem talvez.

Brasileiros, antes de vir comprar até dormir na privada, entre no Consumer Reports ou na Good Housekeeping e pesquise até dormir ou cair do sofá.

*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

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