12 de fev de 2011

OPINIÃO - Mubarak, o ditador que nos amava

OPINIÃO
Mubarak, o ditador que nos amava
No final, a recusa dos manifestantes em ceder selou o destino de Mubarak. Mas o Ocidente ficou ao lado do líder quase até o final, apesar dele ter transformado seu país em um Estado policial, perseguido a oposição, eliminado dissidentes e saqueado sua economia. Por 30 anos, os parceiros de Mubarak no Ocidente o apoiaram enquanto ele governava o Egito com mão de ferro.

Foto: Associated Press

Mubarak, ainda aprendiz de ditador, acompanhado de Jimmi Carter, na Casa Branca, anos 80

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Der Spiegel, O Globo, Diario de Notícias, TVI 24, Le Monde

Os analistas não cansam de comentar que o movimento libertário egípcio, inspirado no sopro que veio da Tunísia, pode influenciar todo o comportamento político do Oriente Médio, do mundo árabe mulçumano e expandir os anseios populares por liberdade, até por outras regiões do planeta, onde quer que um ditador esteja de chicote na mão cerceando a legítimo direito do povo de escolher os seus governantes de forma direta e democrática.

O ocidente, porém, está entre perdido e envergonhado por ter apoiado e fortalecido durante estes 30 anos, Hosni Mubarak. A revista alemã Spiegel, diz na edição que vai as bancas hoje, que “O ocidente perde seu tirano favorito”, realçando a promiscuidade política dos líderes ocidentais para com o ditador.

Presidentes americanos, chefes de Estado franceses, primeiros-ministros britânicos e alemães – todos mantinham um relacionamento estreito com o presidente egípcio. Fechavam os olhos sobre a sua atuação interna, esmagando o seu povo, desde que continuasse como fiador do plano de paz com Israel, usasse sua influência no mundo árabe em defesa dos interesses ocidentais e combatesse com veemência e dedicação o terrorismo dos extremistas islâmicos.

Segundo a revista Spiegel, a família Mubarak desfrutava de alta estima na Alemanha. Em 2004, a Universidade de Stuttgart concedeu a “cidadania honorária” da universidade à esposa do presidente, Suzanne Mubarak, por seu compromisso social e sua dedicação aos direitos das crianças e mulheres.

O apreço pela habilidade diplomática de Mubarak permaneceu alto até recentemente. Na pauta dos encontros entre o chefe de governo egípcio e as democracias ocidentais, o tema “direitos humanos” aparecia como um item de protocolo, sem a importância devida, só para constar, nada que pudesse representar realmente uma pressão verdadeira por exigência de reformas internas.

Foto: Reuters

O presidente Mubarak e sua esposa Suzanne Mubarak posam com o presidente Ronald Reagan e a primeira-dama Nancy Reagan depois de um jantar em homenagem aos egípcio na Casa Branca, em janeiro de 1988

Os presidentes americanos sucederam-se durante esses 30 anos apoiando, fortalecendo e cortejando Mubarak. Enquanto foi ditador, o chefe de governo egípcio conviveu prestigiado por seis presidentes americanos, desde Jimmy Carter, seguido de Ronald Reagan, passando por George H. W. Bush (pai), Bill Clinton e George W. Bush (filho).

Fotos: Associated Press/DPA

Duas gerações de Bush aliadas ao ditador

O presidente Bush considerava o regime linha-dura do Egito útil na luta contra os suspeitos de terrorismo e aqueles que os apoiavam. Fala-se até em operações da CIA, o órgão de inteligência americana, feita por encomenda para Mubarak.

Barack Obama continuou na mesma política de apoio e de aliança com o Egito. Atualmente calcula-se que a ajuda externa dos Estados Unidos, para o governo de Mubarak, chegava a US$ 1,5 bilhão por ano, incluindo o pacote em ajuda militar.

Surpreendido pela revolta popular o governo de Barack Obama foi cauteloso o quanto pode. Só abandonou o seu ditador parceiro, quando o movimento popular não dava mais possibilidades de permanência de Mubarak. Apesar de todo o movimento diplomático americano, na realidade o presidente Obama, apenas aderiu às possibilidades de uma democracia no Egito, quando o povo egípcio já a havia instalado.

Não existem ditaduras boazinhas, como tantos outros Mubarak era um tirano corrupto, sanguinário e esmagador. Manteve por dezenas de anos o país sob perpétuo estado de emergência, com as garantias individuais dos cidadãos suspensas. O Egito é um Estado policial. Mais de 1 milhão de informantes, agentes e policiais supostamente mantinham a população de mais de 80 milhões sob vigilância.

A oposição era mantida pequena, os órgãos de imprensa que criticavam o governo enfrentavam dificuldades. Os dissidentes políticos iam parar em prisões que eram notórias pela tortura e muitas pessoas simplesmente desapareciam sem deixar vestígio.

Mubarak resistiu à pressão internacional para que desse maior liberdade ao seu povo. Pressionado por Washington, ele tolerou a presença de outros candidatos na eleição presidencial de 2005. Mas o regime fez pouco esforço para tornar a votação democrática. Devido à óbvia manipulação, o candidato de oposição Aiman Nur só conseguiu obter 7% dos votos. A candidatura de Nur também lhe custou caro pessoalmente. Logo após a eleição, ele foi sentenciado a cinco anos de prisão por acusações enganosas.

A fortuna da família Mubarak gira em torno de US$ 40 bilhões, riqueza acumulada por meio, por exemplo, de comissões recebidas em contratos de defesa, financiada pelos americanos. Os órgãos de imprensa árabes dizem que o dinheiro está seguramente investido no exterior.

Foto: Eric Feferberg/AFP/Scanpix

Mubarak, o ditador favorito de Sarkozy

Nicolas Sarkozy, de todos os chefes de Estados comprometidos com Mubarak é o que está passando o maior vexame. Mesmo no pronunciamento que fez quando soube da renuncia, elogiou o ditador dizendo que o gesto de Hosni Mubarak foi "uma decisão corajosa e necessária".

Os analistas franceses cobram que Sarkozy teve sempre gestos tardios durante todo o episódio, sempre atrás das reações do primeiro ministro britânico, David Cameron, e da chanceler alemã, Angela Merkel.

Mas a questão francesa pode ter desdobramentos ainda mais desagradáveis: o jornal “Canard Enchaîné” divulgou que o Primeiro ministro francês, o cargo de primeiro ministro francês François Fillon, balança, devido as suas férias de final de ano, reunido com a família, à custa de Hosni Mubarak, em território egípcio. Hospedagem, viagem pelo Nilo em suntuoso Iate, tudo pago pelo ditador, ou seja, pelo contribuinte do Egito.

Para piorar soube-se que o caso de proximidade entre Fillon e o Governo egípcio não é único na política francesa. A ministra dos Negócios Estrangeiros, Michele Alliot Marie, passou também o fim de ano na Tunísia. A viagem foi feita no avião privado de um amigo de Ben Ali, já a Revolução do Jasmim dava os primeiros sinais.

Foto: Getty Images

Mubarak recebido por Obama na Casa Branca, como grande aliado, em junho de 2009

Muito flexível, a moral política internacional, parece não se importar mesmo, com as ditaduras, desde que não seja no seu país e que o ditador seja seu amigo.


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