6 de fev de 2011

OPINIÃO - Com muito ceticismo (e um pouco de esperança) no Egito - Caio Blinder

OPINIÃO
Com muito ceticismo (e um pouco de esperança) no Egito
“Vai ter emoção na praça da liberdade, um corre-corre e, no final das contas, a Irmandade Muçulmana vai assumir o controle na marra ou no voto”.

Foto: AP/Reuters

O xá e Mubarak: determinismo histórico

Caio Blinder
Fonte: Blog do Caio Blinder

Estrategistas, de pomposos generais a pomposos colunistas, costumam lutar a última guerra. Precisamos de referenciais e nesta crise em marcha no Egito é inevitável se agarrar nos galhos da revolução iraniana de 1979. Em uma mistura de atitude sempre alerta, uma saudável paranóia sobre os perigos do radicalismo islâmico, uma pitada de arrogância e um pouco de preguiça intelectual para não se desdobrar com os malabarismos e as surpresas da história, concluímos que vai dar no mesmo desfecho tenebroso. Para que perder tempo? Vai ter emoção na praça da liberdade, um corre-corre e, no final das contas, a Irmandade Muçulmana vai assumir o controle na marra ou no voto.

A ironia é que o próprio regime islâmico de Teerã arrota esta narrativa . Com uma incrível cara-de-pau, os déspotas de Teerã dizem que os manifestantes egípcios devem ter o direito de ir `as ruas e expressar sua fúria contra o regime Mubarak e derrubá-lo. O ministro das Relações Exteriores, Ali Akbar Salehi, disse que a revolução no Egito “vai criar um Oriente Médio islâmico” e condenou o envolvimento dos EUA e seus esforços para “tolher” o movimento popular por liberdade”. Como é que pode? Esta é a mesma turma que reprimiu e matou o movimento popular por liberdade no Irã em 2009.

Claro que existem numerosos paralelos entre Teerã 1979 e Cairo 2011. Líderes esclerosados no poder (o xá Reza Pahlavi e Hosni Mubarak) e, após vaciladas, presidentes americanos democratas puxam o tapete do aliado (Jimmy Carter e Barack Obama). Podemos pincelar também as diferenças. No Egito, ainda bem, não existe um líder religioso com o carisma do aiatolá Khomeini e a Irmandade Muçulmana, ao contrário dos fundamentalistas xiitas, esconde sua força justamente para não assustar e tentar enfraquecer esta narrativa de que a história irá se repetir, novamente como tragédia e não como farsa.

Mais do que isto, a Irmandade Muçulmana, ao contrário dos fundamentalistas islâmicos de Teerã, tenta se apresentar ao mundo como um movimento hoje mais moderado, numa jogada para se distanciar das idéias do seu mentor Sayyd Qutb, idéias racistas, misóginas, antissemitas e anticristãs. Qutb é um pensador reverenciado pelo Talibã. Será que deixará de ser reverenciado por seguidores no próprio país?

Mais do que nunca, será preciso cobrar de forma infatigável da Irmandade Muçulmana que esclareça suas posições sobre direitos das minorias religiosas, apedrejamento e se está disposta a aceitar a mera existência do estado de Israel, além de honrar o o tratado de paz firmado por Anuar Sadat e Menachem Begin. Sei que é um pouco quixotesco, mas não basta demonizar a Irmandade Muçulmana. Se houver um ambiente mais democrático no Egito, será fundamental tentar moderar o grupo. A história, reitero, não é muito estimulante, mas vigilância do mundo pode ajudar a impedir que se repita a tragédia iraniana, tanto a de 1979, como a de 2009.

A questão militar é igualmente tortuosa. No Egito, os militares estão nas entranhas do regime Mubarak. O regime é militar. É assim desde o golpe que derrubou a monarquia em 1952. Agora temos os esforços do Exército para se preservar, sacrificando Mubarak. No Irã, em janeiro de 1979, os militares não tiveram o beneplácito de Washington para um golpe e acabaram se acertando com Khomeini. O xá precisou partir para o exílio, justamente para o Egito do presidente Sadat e do seu então vice Mubarak. E o Exército acabou sendo absorvido pela revolução islâmica, que também criou seu próprio aparato de segurança.

Vendo de hoje, parece inconcebível que os militares egípcios aceitem este papel de subordinação. Há as versões de infiltração da Irmandade Muçullmana no escalão médio, mas tudo isto é incipiente. Sei lá. A gente reconversa sobre isto dentro de 30 anos. Por ora, os americanos precisam tirar proveito dos seus laços e assistência aos militares egípcios para que exerçam um papel construtivo em uma nova ordem. O caso do Paquistão, é verdade, não encoraja.

Como eu disse acima, são apenas pinceladas. Há exemplos promissores, como o apontado por Gideon Rachman, no Financial Times. O Irã não é o único exemplo de revolta popular bem sucedida contra uma ditadura no mundo islâmico. Existe o consolo da Indonésia. Em 1998, o regime Suharto caiu após 32 anos e a Indonésia, o país com a maior população muçulmana do mundo, hoje é uma democracia funcional (combate o radicalismo islâmico) e está ingressando no primeiro time dos países emergentes. Existe também gente mais otimista (demais para o meu gosto). Alguns analistas de mercado disseram a agência Reuters que em um ano o Egito vai se parecer mais com a Turquia (com sua versão de democracia e controle islâmico sem as vestimentas radicais do Irã).

A situação no Egito ainda está muito volátil. Para os egípcios, a revolução islâmica de 1979 deve servir de advertência. Abbas Milani, um bom acadêmico iraniano hoje na Universidade de Stanford e que acaba de escrever uma biografia sobre o xá, palpita que a revolta no Egito deveria colocar os aiatolás de Teerã na defensiva e quem sabe se configure como uma prima bem sucedida do movimento pró-democracia no Irã em 2009. Seria uma maravilha, não?

Mas é bom tomar nota quando o veterano editor de Oriente Médio da BBC de Londres, Jeremy Bowen, reportando da praça Tahrir, no Cairo, observa que o movimento antiMubarak tem uma cara cada vez mais religiosa. Portanto, não quero perder as esperanças, mas preciso ficar cético, ainda com aquela guerra de 1979 em mente, sem as feridas cicatrizadas. E neste quadro volátil, feridas são abertas, como nesta nova dimensão da crise, com os confrontos de rua, na quarta-feira no Cairo, ao que tudo indica por iniciativa de provocadores pró-Mubarak. O referencial deixa de ser apenas Teerã 1979. É também Teerã 2009.

Cético, mas não cínico. Nada de lavar as mãos com determinismo histórico e achar que não adianta. A pomposa tarefa é valorizar as vozes e as caras não sectárias para que a praça Tahrir não se converta em 30 anos, ou menos, em mais uma praça de uma revolução traída.


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