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26 de mar. de 2014

Em oito meses, General Sissi, do Egito, matou 5 vezes mais do que o Brasil em 20 anos de regime militar

EGITO - Opinião - Violência
Em oito meses, General Sissi, do Egito, matou 5 vezes mais do que o Brasil em 20 anos de regime militar
Ainda assim, a maior parte da população do Egito, especialmente os de viés mais laico, apoiam incondicionalmente o regime. O Marechal Sissi deve disputar as eleições e, mesmo que estas sejam transparentes, certamente é o favorito.

Foto: Reuters

VIOLENTO E POPULAR - General Sissi, o presidente interino do Egito, empossado após um golpe militar, tem mais apoiadores que críticos

Postado por Toinho de Passira
Texto de *Guga Chacra
Fonte: Blog do Guga Chacra

O Egito, desde a deposição de Mohammad Morsy em julho do ano passado, enfrenta o momento de maior repressão na história moderna do país, iniciada após Segunda Guerra Mundial. O regime do Marechal Sissi supera seus antecessores Nasser, Sadat e Mubarak na violência contra a oposição. Vamos ver algumas informações

1) Condenação à morte é quase recorde mundial

A condenação à morte de 529 membros da Irmandade Muçulmana pela acusação de terem matado um policial beira o realismo fantástico. O julgamento durou apenas dois dias. Isto é, sem interrupções, equivaleria a julgar 11 acusados por hora, ou um a cada cerca de cinco minutos. Algo impossível em uma justiça transparente.

2) Maior violência na história moderna do Egito

De acordo com artigo do Carnegie Endowment for International Peace publicado nesta terça, desde julho, com a instalação do regime de Sissi, já foram mortas 3.143 pessoas. “Estes números excedem até mesmo os momentos mais sanguinários do Egito desde a revolução militar comandada por Gamal Abdel Nasser em 1952”, diz o artigo

3) A volta do terrorismo

Das mortes, 2.528 foram de manifestantes durante protestos contra o regime – o quíntuplo do total de desaparecidos no regime militar no Brasil ao longo de 20 anos. Nestes embates, morreram ainda 59 policiais. O terrorismo, que voltou a assustar o Egito, ressurgiu e alveja acima de tudo policiais (150 mortos) e soldados (59)

4) Até presidente deposto está preso

Além das vítimas fatais, outros 17 mil egípcios ficaram feridos na repressão ou em outros atos de violência e cerca de 16 mil pessoas estão presas.

Entre elas, o presidente deposto Morsy, que segue incomunicável há meses, aparecendo apenas dentro de uma jaula a prova de som durante seu julgamento.

5) Mas por que Sissi é tão popular?

Ainda assim, a maior parte da população do Egito, especialmente os de viés mais laico, apoiam incondicionalmente o regime. O Marechal Sissi deve disputar as eleições e, mesmo que estas sejam transparentes, certamente é o favorito. Os egípcios queriam ordem depois da instabilidade que sucedeu a queda de Hosni Mubarak. Muitos temem o retorno da Irmandade Muçulmana ao poder, embora a organização, agora classificada como terrorista pelo novo regime, também conte com apoio popular, especialmente das alas mais conservadoras.

6) Acredite, Mubarak era mais liberal e estável

O Egito, depois de Mubarak, sonhava em ser democrático e estável. Sem dúvida, conseguiu um pouco de democracia. Mas esta era instável. E os egípcios saíram em busca da estabilidade ao derrubar Morsy, ainda que isso significasse sacrificar a democracia. No fim, obtiveram sucesso ao acabar com a democracia, mas fracassaram totalmente na busca da estabilidade. Hoje o Egito é uma ditadura instável. Pior até do que no regime de Mubarak, também uma ditadura, mas, pelo menos, estável.


*Guga Chacra é comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY.
**Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

18 de ago. de 2013

Entenda a situação dos cristãos do Egito, de Guga Chacra, para O Estado de S. Paulo

BRASIL - Oponião
Entenda a situação dos cristãos do Egito
Mesmo antes da Primavera Árabe, os cristãos, ao redor do mundo árabe, buscaram se aliar a setores mais fortes em suas sociedades para tentar se proteger. Algo normal para minorias religiosas.

Foto: Roger Anis/Jornal El Shorouk/AP

Quarenta e igrejas cristãs copta foram queimadas em todo o Egito
durante os eventos dos últimos dias

Postado por Toinho de Passira
Texto de Guga Chacra, para O Estado de S. Paulo
Fonte: Blog do Guga Chacra – De Beirute a Nova York

Os cristãos do Egito, majoritariamente coptas, desde a Revolução Arabista de Nasser, nos anos 1950, nunca tiveram a mesma importância dos cristãos do Líbano, do Iraque e da Síria para seus países. Diferentemente de seus pares em Damasco, Bagdá e Beirute, onde integram ou integravam a elite, os egípcios sempre enfrentaram dificuldades no Cairo e Alexandria.

Durante o regime de Hosni Mubarak, muitos deles viviam nos lixões do Cairo, onde criavam porcos. Os cristãos também eram perseguidos e raros, como o ex-secretário-geral da ONU Boutros Boutros Ghali, alcançavam posições de importância.

Apenas como comparação, no Líbano, os cristãos possuem o cargo de presidente, chefe das Forças Armadas, metade do gabinete ministerial e metade do Parlamento. Verdade, representam cerca de um terço da população, enquanto no Egito são 10%. Mas, na Síria, onde a proporção é similar à egípcia, os cristãos sempre tiveram cargos importantes, incluindo, até recentemente o de ministro da Defesa.

Mesmo antes da Primavera Árabe, os cristãos, ao redor do mundo árabe, buscaram se aliar a setores mais fortes em suas sociedades para tentar se proteger. Algo normal para minorias religiosas. Ditadores seculares sempre foram vistos como protetores em Bagdá e Damasco, por exemplo. No Iraque, até 2003, os cristãos eram abertamente a favor do regime de Saddam Hussein – o número dois do regime era o cristão caldeu Tariq Aziz. Na Síria, sempre estiveram ao lado da família Assad.

No Líbano, até a Guerra Civil de 1975 a 90, os cristãos eram os mais poderosos. Depois, em uma nação politicamente nos dias de hoje dividida entre sunitas e xiitas, a maior parte dos cristãos, seguidores de Michel Aoun, buscou em uma aliança com os xiitas do Hezbollah a sua proteção. Outros, como os seguidores de Samir Gaegea, acharam melhor se aliar aos sunitas de Saad Hariri.

No Iraque, a aposta dos cristãos, em se aliar a Saddam, foi um grande erro. A invasão americana fez centenas de milhares de cristãos iraquianos buscar refúgio na Síria e nos braços de Assad que, como o ditador em Bagdá, sempre protegeu os cristãos.

A Guerra Civil da Síria fez os cristãos sírios, incluindo autoridades religiosas, a apoiarem em massa as forças de Assad, um líder secular, embora alauíta, uma vertente moderada do islamismo, e com o apoio da classe média sunita não religiosa das grandes cidades. O medo dos cristãos sírios eram acabar como os iraquianos. Neste caso, a aposta deles tem sido positiva, por um lado, pois Assad está vencendo a guerra. De outro, porém, são alvos dos rebeldes radicais sunitas da oposição que, com o apoio do Golfo e de Nações ocidentais, alvejam vilas cristãs que são alvos de massacres – para os cristãos sírios, quem os protege são a Rússia e o Irã, além de Assad, e não os EUA e a França, a quem consideram aliados do extremismo islâmico.

Os cristãos egípcios, por sua vez, nunca tiveram um protetor. Para eles, não há um Assad ou um Saddam e tampouco uma Rússia ou um Irã para defende-los. E tampouco possuem o poder político e econômico dos cristãos libaneses, que também são elite ao redor do mundo, incluindo em São Paulo.

Já tratados cidadãos de segunda classe nos anos de Mubarak, os cristãos apostaram inicialmente na redemocratização do Egito. Mas, com o presidente Mohammad Morsy, da Irmandade Muçulmana, fazendo propostas que não respeitavam totalmente as demais religiões do Egito, especialmente a cristã, eles se juntaram aos milhões de manifestantes pedindo a queda do então líder egípcios. E decidiram apostar nos militares.

Esta opção, porém, parece não estar sendo eficiente. Os cristãos, que não são responsáveis diretos pelos massacres de membros da Irmandade Muçulmana nesta semana, vem se transformando em bode expiatório por parte da Irmandade. Dezenas de igrejas foram queimadas nos últimos dias. O problema é que, diferentemente de Saddam e de Assad, com todos os seus defeitos de ditadores sanguinários, o general Sisi, assim como Mubarak anteriormente, não está preocupado com os cristãos. De uma certa forma, até os usa como tática de PR para dizer que os membros da Irmandade Muçulmana são radicais no Ocidente.

Uma pena, mas o cristianismo egípcio corre enorme risco. Cada vez mais, o único bastião seguro para os cristãos no mundo árabe é o Líbano e a Cisjordânia, além da Síria, se Assad conseguir vencer a guerra.
Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY e correspondente da Folha em Buenos Aires
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

15 de ago. de 2013

Confronto no Cairo, entre manifestantes e forças de segurança, deixam mais de 300 mortos e 2 mil feridos

EGITO - Manifestações
Confronto no Cairo, entre manifestantes e forças de segurança, deixam mais de 500 mortos e 2 mil feridos
O Egito mergulhou novamente numa crise política caótica ornada por um brutal banho de sangue. Nesta quarta-feira,14, qando as forças de segurança apoiadas por tratores removiam acampamentos da oposição instalados por partidários do presidente deposto Mohammed Mursi, houve brutal e mortal confronto

NOTA DO EDITOR: algumas fotos que acompanham esta notícia, contém cenas de violência explícita, pessoas gravemente feridas e mortas. Não recomendamos aos leitores que acharem perturbadoras esse tipo de imagens, que prossigam na leitura do presente post.

Foto: Mosaab El-Shamy/Agence France-Presse — Getty Images

Um homem chora os mortos em meio aos corpos de um necrotério improvisad

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Veja, Folha de S. Paulo, NBC News, Aljazeera, Reuters, Welt, The Guardian,
The New York Times

O Exército do Egito detonou nesta quarta-feira uma operação para pôr fim aos protestos de partidários do presidente islamita Mohamed Mursi, deposto no último dia 3 de julho. Na capital Cairo, dezenas de pessoas morreram. O Ministério da Saúde egípcio confirmou a morte de 278 pessoas em todo o país, sendo 43 delas policiais, e pelo menos 2.001 feridos. Manifestantes e imprensa, porém, mencionam números maiores. A agência France-Presse diz ter registrado 124 mortos somente na praça Rabaa al-Adawiya, onde o Ministério da Saúde aponta 61.

Já o porta-voz da Irmandade Muçulmana, Gehad el-Haddad, diz que são mais de 2.000 mortos e 8.000 feridos no total.

No fim da tarde a Aljazeera falava em 281 mortos e o The New York Times, noticiava que os mortos já somavam 300. Hoje pela manhã as agências de notícias já confirmavam 525 mortos, com o aviso que este número pode crescer, por risco de morte entre os feridos ou por atualizações de dados diante do caós instalado no governo diante da brutal violência.

Foto:Aly Hazzaa/El Shorouk, via Associated Press

Manifestantes empurraram um carro da polícia de uma ponte, no Cairo.

O foco principal do governo é o desmantelamento de dois acampamentos na capital, mas também houve confrontos --e mortes-- em outras cidades, como Alexandria.

O primeiro-ministro do governo interino egípcio, Hazem al-Beblawi, afirmou nesta quarta-feira (14) que as forças de segurança agiram com "toda moderação" durante a sangrenta desocupação de partidários do presidente deposto Mohammed Mursi.

Beblawi justificou a intervenção da polícia e do Exército dizendo que "nenhum Estado que se respeite teria conseguido tolerar" a ocupação das praças Rabaa al-Adawiya e Nahda por milhares de manifestantes pelo período de um mês e meio.

”As forças de segurança do Egito tiveram de acabar com os acampamentos montados por partidáriosdo presidente deposto Mohamed Mursi para “restaurar a segurança” no país, afirmou Hazem al-Beblawi. “Notamos que as coisas saíram um pouco do controle. O estado tinha a necessidade de intervir para restaurar a segurança”, disse o primeiro-ministro, que convidou grupos de direitos humanos a irem ao país para supervisionar as ações das forças de segurança.

Foto:Hussein Tallal/AP

Cartaz do presidente deposto do Egito, Mohammed Mursi, exposto numa tenda queimada num acampamento perto da Universidade de Cairo no distrito de Giza, após o confronto com as forças de segurança. (Em árabe o cartaz diz: "Não ao golpe!")

Pouco depois, o ministro do Interior, Mohamed Ibrahim fez um pronunciamento no qual afirmou que as duas áreas ocupadas por membros da Irmandade Muçulmana foram totalmente liberadas e acrescentou que “nenhuma outra ocupação em nenhuma praça de nenhum lugar do país será permitida”. Disse ainda que 43 policiais foram mortos e defendeu a ação das forças de segurança, dizendo que as forças de segurança foram surpreendidas pelo ataque dos partidários de Mursi.

“Houve uma tentativa dos partidários da irmandade de disseminar o caos pelo país. Alguns atacaram centros policiais”, afirmou, ressaltando que a ação para dispersar os manifestantes ocorreu de acordo com os níveis internacionais de “autocontenção”. “Nós agimos segundo o mandato nos dado pelo gabinete para dispersar acampamentos e de acordo com o plano para minimizar a possibilidade de vítimas. Demos ordens claras para que não fossem usadas armas durante o processo de dispersão”.

Foto: Ahmed Ramadan/AP

Corpos de manifestantes dispostos no chão de um hospital improvisado numa iya mesquita no bairro de Nasr City Cairo

A declaração do ministro vai contra os relatos de testemunhas, incluindo jornalistas, que disseram ter ouvido disparos. Segundo a TV estatal, o número de mortos já chega a 235, e são mais de 2 000 os feridos, segundo fontes da área de saúde. Com os 43 policiais mortos, segundo o ministro do Interior, o número de vítimas chega perto de 280, no dia de maior violência no país desde a revolução de 2011 que derrubou a ditadura de Hosni Mubarak.

A rede Al Jazira informou que 61 vítimas morreram durante a dispersão da praça de Rabaa al-Adawiya, a principal ocupação de partidários de Mursi no Cairo. Outras 21 pessoas morreram na praça Nahda. Também houve mortes na cidade de Alexandria.

Foto: Sabry Khaled/El Shorouk/ Associated Press
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Manifestantes arrastam corpo de membro das forças de segurança despojado de seu colete

Ibrahim disse que armas foram apreendidas e que manifestantes foram detidos e interrogados, mas negou a informação de fontes policiais sobre a prisão de lideranças da Irmandade Muçulmana. Depois dos confrontos, o vice-presidente interino Mohamed El-Baradei renunciou ao cargo. Em uma carta endereçada ao presidente Adly Mansour, El-Baradei afirmou que não conseguia “arcar com a responsabilidade pelo derramamento de sangue”. A crise levou o governo do Egito a decretar estado de emergência e um toque de recolher no país.

Manifestantes envolveram o corpo de um homem que havia sido baleado no peito.

A rede CBS News informou que entre os mortos está Asmaa Beltagy, 17 anos, filha de Mohammed Beltagy, um dos principais líderes da Irmandade Muçulmana - e pelo menos dois jornalistas estrangeiros.

No necrotério do hospital, um repórter da Reuters contou 29 corpos, incluindo o de um menino de 12 anos de idade. A maioria morreu de ferimentos de bala na cabeça.

Imagens de televisão egípcia mostraram médicos usando máscaras de gás e óculos de natação enquanto tentavam tratar os feridos..

Foto: Mohammed Abdel Moneim/Agence France-Presse — Getty Images
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Um mulher detém uma escavadeira evitando que causasse danos a um jovem ferido

ESTADOS UNIDOS

O secretário de estado americano John Kerry classificou a ação da polícia egípcia de “deplorável” e alertou que o massacre atenta contra as aspirações democráticas do país. “Exigimos que o governo respeite os direitos de livre expressão e resolva esta situação de forma pacífica. Não haverá solução após uma polarização. Este é um momento crucial para o Egito. O caminho através da violência só levará a uma grande instabilidade. O mundo está olhando para o Egito e está muito preocupado”.

No dia 3 de julho, o Exército anunciou que Mohamed Mursi, eleito um ano antes, não era mais presidente do Egito. O golpe veio depois de dias de protestos contra o governo do membro da Irmandade Muçulmana, que não conseguiu resolver os problemas na economia e ainda tentou usar a democracia para acabar com a democracia.

Depois da deposição, Mursi foi preso - e assim permanece, em local desconhecido. Membros da irmandade também foram detidos. Seus apoiadores, no entanto, não reconheceram o governo interino e passaram a exigir a volta de Mursi ao poder.

Foto: AFP/Getty-Image


Foto: Ahmed Gomaa/AP


Foto: Mahmoud Khaled/AFP/Getty Images


Foto: Manu Brabo/Associated Press


Foto: Mohammed Asad/Associated Press

Cenas de feridos sendo amparados por companheiros manifestantes

8 de jul. de 2013

Violência aumentam impasse em Egito dividido

EGITO
Violência aumentam impasse em Egito dividido
A morte de 51 manifestantes partidários do presidente deposto, Mohammed Morsi, aumenta as dúvidas sobre o futuro egípcio. O movimento Irmandade Muçulmana, de Morsi, acusa os militares de abrirem fogo contra seus partidários, enquanto soldados dizem que um grupo terrorista seria responsável pela ação. O Egito não está longe de uma sangrenta guerra civil

Foto: Louafi Larbi / Reuters

Manifestantes partidários do ex-presidente egípcio Mohamed Mursi levar um homem ferido durante confrontos fora do prédio da Guarda Republicana no Cairo

Postado por Toinho de Passira
Fonte:   BBC Brasil, The New York Times,

Um clima sombrio pairava sobre o Cairo na manhã desta segunda-feira após os relatos de que ao menos 51 pessoas foram mortas e mais de 300 ficaram feridos, todos ou quase todos alvejados por tiros disparados pelas forças de segurança, durante um protesto em apoio ao presidente deposto Mohammed Morsi.

Testemunhas asseveram que os militares dispararam contra centenas de apoiantes de Morsi, enquanto estes rezavam na madrugada desta segunda-feira em frente ao local onde se acredita ele esteja detido.

A onda crescente de violência diminui, ainda mais, qualquer esperança de uma reconciliação política.

Porta-vozes do exército e da polícia, disseram, em uma coletiva de imprensa, defendendo o uso da força mortal que foram atacados primeiro, e que dois soldados e dois policiais também foram mortos. Testemunhas asseguram que pelo menos um dos policiais foi morto por um soldado das forças de segurança.

O incidente não é o primeiro. Na sexta-feira, três manifestantes pró-Morsi foram mortos no mesmo local.

Diante do que qualificou de "massacre" desta segunda-feira, o partido islamista linha-dura Nour, grupo salafista que apoiou o golpe contra Morsi, anunciou que vai se retirar das negociações com o presidente interino Adly Mansour para buscar uma saída para a crise política.

Mansour lamentou o ocorrido, pediu calma à população e ordenou a abertura de uma investigação para apurar as circunstâncias em que as mortes ocorreram.

Apesar de o Nour ter apoiado a ação do Exército, o partido tem sido cauteloso em relação ao isolamento da Irmandade Muçulmana e vetou a nomeação de dois possíveis primeiros-ministros porque a Irmandade não foi consultada na seleção desses nomes.

Um dos nomes rejeitados pelo Nour, o líder opositor Mohamed ElBaradei, condenou a violência e pediu uma "investigação imediata, independente e transparente", dizendo que o Egito necessita de reconciliação "desesperadamente".

O Partido Justiça e Liberdade – braço político da Irmandade Muçulmana - que conseguiu quase metade dos assentos na eleição histórica do ano passado, pediu aos egípcios que organizem um levante em resposta ao incidente contra os que estão tentando roubar sua revolução com tanques.

O grupo também pediu à comunidade internacional e a todas a pessoas livres do mundo que intervenham para evitar novos massacres e que o Egito se torne a "nova Síria".

Foto: Wissam Nassar/The New York Times

Manifestantes favoráveis a Morsi, feridos recebem atendimento médico de emergência no meio da rua, no Cairo.

3 de jul. de 2013

Exército egípcio derruba presidente e convoca eleições

EGITO
Exército egípcio derruba presidente e convoca eleições
Em pronunciamento feito na tarde desta quarta-feira na TV estatal, o chefe das Forças Armadas do Egito, general Abdul Fattah al-Sisi, anunciou a suspensão da Constituição e a convocação de novas eleições presidenciais. Anunciou que o país será governado internamente pelo chefe da Suprema Corte de Justiça do Egito.

Foto: Amr Nabil/Associated Press

Fogos de artifício iluminou o céu sobre Cairo na quarta-feira à noite,
comemoram a queda de Mohammed Mursi

Postado por Toinho de Passira
Fontes: The New York Times, Revista Época, Veja, G1, Reuters, The Guardian, The Telegraph, BBC Brasil, Al Jazeera

Mohamed Mursi não é mais presidente do Egito. O chefe do Exército, Abdel Fattah Al Sisi, anunciou a criação de um governo de transição e a convocação de eleições. Os planos anunciados preveem a suspensão temporária da Constituição, a formação de um governo tecnocrata e a transferência da administração dos assuntos de estado e da preparação de eleições presidenciais para uma Corte Constitucional. O chefe da Corte, Adly Mansour, deverá ser empossado como presidente interino nesta quinta.

O anúncio foi recebido com festa por milhares de manifestantes que ocupavam a Praça Tahrir, no Cairo.

“O Exército vê que o povo egípcio está pedindo a ele para ajudá-lo, não tomar o poder ou para reinar, mas para servir ao interesse público e proteger a revolução. Essa é a mensagem que as Forças Armadas receberam de todos os cantos do Egito”, disse o general, que também é ministro da Defesa. “O discurso do presidente na noite de ontem foi contrário às aspirações e demandas do povo. Foi necessário que as Forças Armadas consultassem figuras nacionais – políticas, religiosas e da juventude – e as que responderam concordaram em um roteiro que construirá um Egito forte uma sociedade egípcia unida”.

Foto: Suhaib Salem / Reuters

A multidão reage com euforia ao tomar conhecimento da deposição do presidente

Pouco antes do pronunciamento, a agência estatal Al Ahram afirmou que Mursi havia sido comunicado que não era mais presidente. As Forças Armadas egípcias mobilizaram tanques e soldados nas imediações do palácio presidencial, no Cairo, onde Mursi estaria entrincheirado depois do término do prazo de 48 horas estabelecido pelo Exército para que o presidente atendesse às demandas dos manifestantes que se reúnem aos milhares há uma semana pedindo sua renúncia. Também há informações de que Mursi estaria em um escritório presidencial que fica nas dependências da Guarda Republicana, no subúrbio do Cairo.

Mursi manifestou-se pelas redes sociais e classificou o anúncio do Exército como um golpe militar. Ele tentou manter a postura desafiadora do pronunciamento desta terça, ao pedir a restauração da Constituição e chamar os cidadãos egípcios a seguir a lei e evitar um "derramamento de sangue". Também há informações de um áudio do agora ex-presidente divulgado a manifestantes favoráveis a Mursi, no qual ele diz que ainda é presidente, informou o jornal britânico The Guardian.

Mona al-Qazzaz, porta-voz da Irmandade, disse à rede britânica BBC que a ação dos militares é um golpe que o mundo deve impedir.

Há informações que o presidente deposto, Mohamed Mursi, estaria sendo mantido sob custódia, com seus principais assessores em uma instalação militar, após exército ter tornado suspensa a Constituição Nacional.

A agência Al Ahram informou que canais de TV islâmicos, incluindo um canal de propriedade da Irmandade Muçulmana, foram fechados pela polícia e seus diretores foram detidos pouco depois do anúncio do Exército.

Forças de segurança invadiram redações da Al Jazeera no Cairo e prenderam alguns funcionários. O canal foi impedido de divulgar informações sobre uma manifestação pró-Mursi, informou a agência Reuters. A rede do Catar passou a funcionar no Egito depois da revolta de 2011 que resultou na queda de Mubarak e tem sido acusada por críticos de fazer uma cobertura simpática à Irmandade Muçulmana.

Foto: Yusuf Sayman/The New York Times

Essa é a segunda revolução egípcia em dois anos

MOBILIZAÇÃO

O Egito registrou no último domingo as maiores manifestações desde a derrubada do ditador Hosni Mubarak, em 2011. O dia 30 de junho marcou um ano da posse de Mursi e milhares de pessoas foram às ruas para pedir sua renúncia. Depois do anúncio do Exército, nesta quarta, Mohamed El-Baradei afirmou que o roteiro de transição “garante a conquista da mais básica demanda do povo egípcio – ter eleições antecipadas durante um período de transição, enquanto a constituição é reescrita”.

Considerado líder da oposição liberal, ele acrescentou: “Esperamos que esse roteiro seja o começo de um novo início da revolução de 25 de janeiro, no qual o povo egípcio pagou um preço alto para conseguir liberdade e dignidade”.

O membro da Irmandade Muçulmana assumiu o poder depois de um período de mais de um ano de o comando ficar nas mãos de uma Junta Militar. No período em que os militares estavam no comando do país, os manifestantes os acusavam de minar os esforços para a construção da democracia. Mas, antes mesmo de largar o poder, a junta negociava para manter alguma relevância dentro do novo governo.

Mursi assumiu a Presidência, mandou para a reserva os generais mais influentes e substituiu-os por outros simpáticos à Irmandade Muçulmana, grupo fundamentalista criado em 1928 que, embora tenha passado quase toda sua história na clandestinidade, nunca perdeu sua consistência e organização.

Soldado de carreira, Al Sisi, de 58 anos, foi apontado para o Ministério da Defesa em agosto do ano passado. Ele substituiu Marshal Hussein Tantawi, que já estava perto dos 80 anos. Ex-chefe da inteligência militar, o general também integrou o Conselho Supremo das Forças Armadas, e tinha reputação de ser simpático à Irmandade, o que teria levado Mursi a escolhê-lo para o cargo.

O presidente estava sob intensa pressão para deixar o cargo após a renúncia de seis de seus ministros na última segunda-feira, incluindo o chanceler Kamel Amr.

Foto: : Reuters

Presidente do Egito, Mohamed Mursi reunido com ministro da Defesa, general Abdel Fattah al-Sisi, no Cairo, 22 de agosto de 2012.

PRESIDENTE ELEITO

Mursi tornou-se o primeiro presidente egípcio com uma plataforma islâmica a ser eleito democraticamente no dia 30 de junho de 2012, após vencer eleições presidenciais que se seguiram à queda do ex-presidente Hosni Mubarak.

Mas desde que Mursi assumiu o posto, o descontentamento aumentou gradativamente no Egito. Parte da população dizia-se pouco satisfeita com as mudanças ocorridas durante o período pós-revolucionário no Egito e acusou a Irmandade Muçulmana ─ o partido de Morsi ─ de tentar proteger seus próprios interesses.

No entanto, Morsi e a Irmandade Muçulmana ainda tinham amplo apoio popular, e ambos os lados levaram às ruas um grande número de manifestantes nos últimos dias.

Uma multidão voltou a se reunir nesta quarta-feira na Praça Tahrir pelo quarto dia seguido.

Houve focos de violência em várias partes da capital: no mais violento deles, 16 pessoas foram mortas e cerca de 200 ficaram feridas na Universidade do Cairo, em Giza.

Desde o domingo, o saldo de mortos já chega a 39 pessoas.

Pelo menos mais 14 pessoas foram mortas quando adversários e simpatizantes do presidente deposto, Mohamed Mursi, entraram em confronto depois que o Exército anunciou sua retirada nesta quarta-feira. Dois membros das forças de segurança estão entre os mortos, resultante do embate.

Foto: Khaled Desouki/AFP

Manifestantes escreveram com laser “Games is over”, num edifício no centro do Cairo

ENTENDA O CASO

• Na onda das revoltas árabes, egípcios iniciaram, em janeiro de 2011, uma série de protestos exigindo a saída do ditador Hosni Mubarak, há trinta anos no poder. Ele renunciou no dia 11 de fevereiro.

• Durante as manifestações, mais de 800 rebeldes morreram em confronto com as forças de segurança de Mubarak, que foi condenado à prisão perpétua acusado de ordenar os assassinatos.

• Uma Junta Militar assumiu o poder logo após a queda do ditador e até a posse de Mohamed Mursi, eleito em junho de 2012.

• Membro da organização radical islâmica Irmandade Muçulmana, Mursi ampliou os próprios poderes e acelerou a aprovação de uma Constituição de viés autoritário.

• Opositores foram às ruas protestar contra o governo e pedir a renúncia de Mursi, que não conseguiu trazer estabilidade ao país nem resolver a grave crise econômica.


Do Brasil à Turquia, uma revolução da classe média

ESTADOS UNIDOS - Opinião
Do Brasil à Turquia, uma revolução da classe média
Em artigo publicado no Wall Street Journal, o cientista político americano Francis Fukuyama afirma que “para essas pessoas, não é suficiente que a presidente Dilma Rousseff tenha sido ela mesma uma ativista de esquerda presa pelo regime militar durante os anos 70 e seja hoje líder do Partido dos Trabalhadores. Elas acham que o próprio partido foi tragado pela lama de um "sistema" corrupto", como revelou o recente escândalo do Mensalão, e agora contribui para a ineficácia e a inércia do governo.”

Foto: Reuters

BRASIL 22 de junho de 2013 | Manifestantes corrupção protesto e serviços públicos pobres.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Francis Fukuyama*
Fontes: The Wall Street Journal, BBC Brasil

Durante os últimos dez anos, Brasil e Turquia foram muito celebrados como estrelas do desempenho econômico — mercados emergentes com uma influência crescente no palco internacional. Mas nos últimos três meses ambos os países vêm sendo paralisados por imensas manifestações que expressam insatisfação com o desempenho dos seus governos. O que está acontecendo? Será que outros países vão sofrer agitações semelhantes?

O tema que une os eventos recentes no Brasil e na Turquia, bem como a Primavera Árabe de 2011 e os contínuos protestos na China, é a ascensão da nova classe média global. Em todos os lugares em que emergiu, a moderna classe média causou fermentação política, mas só raramente ela foi capaz, sozinha, de provocar mudanças políticas duradouras. Nada que temos visto recentemente nas ruas do Rio de Janeiro ou Istambul indica que esses casos vão ser uma exceção.

No Brasil e na Turquia, assim como ocorreu antes na Tunísia e no Egito, as manifestações políticas vêm sendo lideradas não pelos pobres, mas por pessoas jovens com níveis de educação e renda acima da média. Elas são adeptas da tecnologia e usam as redes sociais, como Facebook e Twitter, para divulgar informações e organizar protestos. Mesmo aquelas que vivem em países democráticos se sentem alienadas pela elite política governante.

No caso da Turquia, elas se opõem às políticas de desenvolvimento a qualquer preço e às maneiras autoritárias do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan. No Brasil, elas se opõem a uma elite arraigada e altamente corrupta que alardeou projetos glamorosos como a Copa do Mundo e a Olimpíada do Rio, mas não consegue proporcionar serviços públicos básicos como saúde e educação.

Para essas pessoas, não é suficiente que a presidente Dilma Rousseff tenha sido ela mesma uma ativista de esquerda presa pelo regime militar durante os anos 70 e seja hoje líder do Partido dos Trabalhadores. Elas acham que o próprio partido foi tragado pela lama de um "sistema" corrupto, como revelou o recente escândalo do Mensalão, e agora contribui para a ineficácia e a inércia do governo.

Foto: Agência Europeia Pressphoto

TURQUIA 22 de junho de 2013 | Um manifestante segura uma bandeira na Praça Taksim, em Istanbul.

O mundo dos negócios vem falando sobre a ascensão de uma "classe média global" por pelo menos dez anos. Um relatório de 2008 do banco Goldman Sachs definiu esse grupo como aqueles com renda anual entre US$ 6.000 e US$ 30.000 e previu que ele chegaria a cerca de dois bilhões de pessoas até 2030. Um relatório de 2012 do Instituto para Estudos de Segurança da União Europeia, usando uma definição mais ampla de classe média, projetou que o número de pessoas nessa categoria aumentaria de 1,8 bilhão em 2009 para 3,2 bilhões em 2020 e 4,9 bilhões em 2030 (de uma população mundial projetada em 8,3 bilhões). O grosso desse crescimento vai ocorrer na Ásia, principalmente na China e na Índia. Mas todas as regiões do mundo vão participar da tendência, inclusive a África, que o Banco Africano de Desenvolvimento estima já ter uma classe média de mais de 300 milhões de pessoas.

As empresas estão com água na boca diante da perspectiva de uma classe média emergente porque ela representa um grande grupo de novos consumidores. Analistas e economistas tendem a definir a situação da classe média em termos simplesmente monetários, rotulando as pessoas como classe média se elas integram a faixa média de distribuição de renda dos seus países ou têm um consumo acima do nível de subsistência dos pobres.

Mas a situação da classe média é melhor definida pela educação, ocupação e bens possuídos, que têm uma influência muito maior na previsão do comportamento político. Estudos feitos em diversos países, incluindo pesquisas recentes do instituto Pew e a Pesquisa Mundial de Valores da Universidade de Michigan, mostram uma correlação entre níveis mais altos de educação e uma valorização maior pelas pessoas da democracia, liberdade individual e tolerância para com estilos de vida alternativos. As pessoas da classe média não querem somente segurança para suas famílias, mas opções e oportunidades para si próprias. Aqueles com nível superior completo ou que cursaram por alguns anos a universidade têm uma probabilidade muito maior de estarem informados sobre eventos em outras partes do mundo e de se conectarem com pessoas de classes sociais semelhantes no exterior através da tecnologia.

As famílias que possuem ativos duráveis como uma casa ou apartamento têm um interesse muito maior em política, já que essas são coisas que o governo poderia tirar delas. Como é geralmente a classe média que paga impostos, as pessoas têm um interesse direto em tornar o governo responsável. Ainda mais importante é que os novos membros da classe média têm uma probabilidade maior de serem levados a agir pelo que o cientista político Samuel Huntington chamou de "a lacuna": ou seja, a incapacidade da sociedade de satisfazer as expectativas crescentes por avanços econômicos e sociais. Enquanto os pobres se debatem para garantir sua sobrevivência diária, a decepcionada classe média é muito mais propensa a se engajar em ativismo político para conseguir o que quer.

Essa dinâmica ficou evidente na Primavera Árabe, em que as rebeliões que derrubaram regimes foram lideradas por dezenas de milhares de pessoas jovens e relativamente bem educadas. Tanto a Tunísia quanto o Egito formou um grande número de pessoas nas suas universidades durante a última geração. Mas os governos autoritários de Zine El Abidine e Hosni Mubarak foram clássicos regimes de capitalismo clientelista, nos quais as oportunidades econômicas dependiam grandemente das conexões políticas. Nenhum desses países, de qualquer modo, teve um crescimento econômico suficiente para dar emprego a uma população jovem cada vez maior. O resultado foi a revolução política.

Foto: European Pressphoto Agency

EGITO | Egípicios protestam em junho contra o presidente Morsi na praça Tahir, no Cairo.

Nada disso é um fenômeno novo. As revoluções francesa, bolchevique e chinesa foram todas provocadas por descontentamento de pessoas de classe média, mesmo que seu desfecho final fosse mais tarde afetado por camponeses, trabalhadores e pobres. Na Primavera dos Povos, em 1848, praticamente todo o continente europeu eclodiu numa revolução, um produto direto do crescimento da classe média europeia nas décadas anteriores.

Embora manifestações, rebeliões e, ocasionalmente, revoluções sejam tipicamente lideradas por membros recém-chegados à classe média, esta raramente consegue provocar sozinha mudanças políticas de longo prazo. A razão disso é que a classe média nunca representa mais que uma minoria da sociedade de países em desenvolvimento e é ela mesma internamente dividida. A menos que ela possa formar uma coalizão com outras partes da sociedade, seus movimentos quase nunca acarretam mudanças políticas duradouras.

Foi assim que os jovens manifestantes de Tunis ou da Praça Tahrir, no Cairo, tendo causado a queda dos seus respectivos ditadores, fracassaram em dar sequência ao movimento com a formação de partidos políticos que fossem capazes de disputar eleições nacionais. Estudantes, em particular, não têm ideia de como engajar os camponeses e a classe trabalhadora para criar uma coalizão mais ampla. Já os partidos islâmicos (o Ennahda, na Tunísia, e a Irmandade Muçulmana, no Egito), tinham, ao contrário, uma base social na população rural. Durante anos de perseguição política, eles aprenderam a mobilizar seus seguidores menos educados. Como resultado, triunfaram nas primeiras eleições depois da queda dos regimes autoritários.

Destino semelhante possivelmente aguarda os manifestantes da Turquia. O primeiro-ministro Erdoğan continua popular fora das áreas urbanas e não hesitou em mobilizar membros do seu próprio Partido da Justiça e do Desenvolvimento (o AKP) para enfrentar seus opositores. A classe média da Turquia, além disso, está ela própria dividida. O notável crescimento econômico do país nos últimos dez anos vem sendo alimentado em grande parte por uma nova classe média, conscienciosa e altamente empreendedora, que tem apoiado fortemente o AKP de Erdoğan.

Esse grupo social trabalha duro e poupa dinheiro. Ele exibe muitas das mesmas virtudes que o sociólogo alemão Max Weber associou ao Cristianismo Puritano dos princípios da Europa moderna, que ele alega ter sido a base para o desenvolvimento do capitalismo na região. Os manifestantes urbanos da Turquia, em contraste, continuam seculares e ligados aos valores modernistas dos seus pares na Europa e na América. Esse grupo enfrenta não somente uma dura repressão de um primeiro-ministro com instintos autoritários, mas também as mesmas dificuldades em forjar laços com outras classes sociais, dificuldades essas que minaram movimentos semelhantes na Rússia, Ucrânia e outros países.

A situação do Brasil é bem diferente. Os manifestantes brasileiros não enfrentarão uma dura repressão do governo de Dilma Rousseff. O desafio, em vez disso, será evitar a cooptação no longo prazo pelos representantes enraizados e corruptos do sistema. Ser de classe média não significa que a pessoa vai automaticamente apoiar a democracia ou tentar limpar o governo. De fato, uma grande parte da classe média brasileira mais velha trabalhou no setor público, onde ela era dependente da patronagem política e do controle do Estado sobre a economia. As classes médias no Brasil, e em países asiáticos como a China e a Tailândia, apoiaram governos autoritários quando isso pareceu ser a melhor maneira de garantir seu futuro econômico.

O recente crescimento econômico do Brasil produziu uma classe média diferente e mais empreendedora, emanada do setor privado. Mas esse grupo poderia seguir seus próprios interesses econômicos em duas direções possíveis. De um lado, a minoria empresarial poderia servir de base para uma coalizão de classe média que procurasse reformar o sistema político do Brasil como um todo, tentando fazer com que os políticos respondam por seus atos e mudar as regras que possibilitam o capitalismo clientelista. Foi isso que aconteceu nos Estados Unidos durante a Era Progressista, quando uma ampla mobilização da classe média conseguiu apoio para uma reforma do setor público e o fim do sistema patronal do século XIX. De modo alternativo, membros da classe média urbana poderiam dissipar suas energias em distrações como identidade política ou serem individualmente comprados por um sistema que oferece grandes recompensas para as pessoas que aprendem a navegar os trâmites do poder.

Foto: European Pressphoto Agency

TUNÍSIA | Milhares de manifestantes protestam em Tunis, em fevereiro de 2011.

Nada garante que o Brasil vai seguir um caminho reformista na esteira dos protestos. Vai depender muito da liderança. A presidente Rousseff tem uma grande oportunidade de usar as manifestações como uma ocasião para lançar um sistema de reforma mais ambicioso. Até agora, ela tem se mostrado muito cautelosa sobre até que ponto está disposta a ir contra o velho sistema, cerceada pelas limitações impostas pelo seu próprio partido e coligação política. Mas assim como o assassinato do presidente americano James A. Garfield, em 1881, por um ressentido postulante a um cargo oficial virou o estopim de uma ampla gama de reformas para limpar o governo, o Brasil hoje também poderia usar os protestos para enveredar por uma rota muito diferente.

O crescimento econômico mundial ocorrido desde os anos 70 — que quadruplicou a produção econômica global — redistribuiu as camadas sociais ao redor do mundo. As classes médias nos chamados "mercados emergentes" são hoje maiores, mais ricas, melhores educadas e mais conectadas tecnologicamente do que nunca na história.

Isso tem consequências imensas para a China, cuja população de classe média chega agora às centenas de milhões e constitui talvez um terço do total. Essas são pessoas que se comunicam pelo Sina Weibo — o Twitter chinês — e se acostumaram a expor e reclamar da arrogância e duplicidade do governo e do partido de elite. Elas querem uma sociedade mais livre, embora não esteja claro se querem uma democracia de um voto por pessoa no curto prazo.

Esse grupo vai ficar sob uma pressão particular na próxima década, enquanto a China se esforça para se elevar de uma situação de renda média para renda alta. O ritmo do crescimento econômico já começou a diminuir nos últimos dois anos e vai inevitavelmente reverter para um nível mais modesto à medida que a economia do país amadurece. A máquina de empregos industriais que o regime criou desde 1978 não vai mais satisfazer as aspirações da sua população. A China já forma nas suas universidades cerca de seis a sete milhões de profissionais por ano, cujas perspectivas de emprego são menos brilhantes do que as dos seus pais da classe trabalhadora. Se alguma vez houve uma lacuna entre expectativas em alta crescente e uma realidade decepcionante, ela vai emergir na China nos próximos anos, com vastas implicações para a estabilidade do país.

Na China, como em outras partes do mundo em desenvolvimento, a ascensão da classe média ressalta o fenômeno descrito por Moises Naím, do centro de estudos Carnegie Endowment, como o "fim do poder". As classes médias vêm sendo as linhas de frente da oposição contra os abusos do poder, seja em regimes autoritários ou democráticos. O desafio para elas é tornar seus movimentos em mudanças políticas duradouras, expressas na forma de novas regras e instituições. Na América Latina, o Chile vem sendo a estrela do crescimento econômico e da eficácia de um sistema político democrático. Ainda assim, nos últimos anos houve uma explosão de protestos de estudantes do ensino médio, que apontaram as falhas no sistema de educação pública do país.

A nova classe média não é apenas um desafio para os regimes autoritários ou para as novas democracias. Nenhuma democracia estabelecida deve acreditar que pode relaxar sobre seus louros, simplesmente porque realiza eleições e tem líderes populares. A classe média fortalecida pela tecnologia vai ser altamente exigente com seus políticos.

Os EUA e a Europa estão passando por uma fase de crescimento lento e desemprego alto, que para os jovens em países como a Espanha já chegou a 50%. No mundo rico, a geração mais velha também traiu os jovens ao deixar para eles um endividamento elevado. Nenhum político dos EUA e da Europa deve olhar com complacência para os eventos se desdobrando nas ruas de São Paulo e Istambul. Seria um grave erro pensar: "Não há como isso acontecer aqui."


*FRANCIS FUKUYAMA é um nipo-estadunidense, filósofo, economista, cientista político e acadêmico do Instituto Freeman Spogli para Estudos Internacionais da Universidade de Stanford. Ficou conhecido pelo livro "O Fim da História e o Último Homem" ("The End of the History and the Last Man", 1992). Seu mais recente estudo publicado é o livro "As Origens da Ordem Política: Dos Tempos Pré-Humanos até a Revolução Francesa", Editora Rocco, 2013
Uma versão deste artigo apareceu 29 junho de 2013, na página C1 na edição do The Wall Street Journal EUA, com o título: The Middle-Class Revolution.

29 de mai. de 2013

Polêmica do vandalismo chinês no templo egípcio

CHINA – EGITO
Polêmica do vandalismo chinês no templo egípcio
Um jovem chinês, Ding Jinhao, fez uma daquelas ridículas inscrições que turistas mal educados costumam fazer nos lugares que visitam. Só que ele grafitou sobre um baixo relevo que data de 14 a.C., no templo de Luxor, construído por Amenófis II. Sua proeza rendeu indignação e protestos nas redes sociais chinesas. Ele e a família tiveram que pedir desculpas. O governo do Egito, de olho na demanda chinesa de turistas, minimizou o incidente. .

Foto: Sina Weibo

A inscrição incivilizada "Ding Jinhao esteve aqui"

Postado por Toinho de Passira
Fontes: BBC Brasil, Huffington Post, The Daily Mail , China Daily , Egypt Independent

Um adolescente chinês causou uma onda de indignação entre internautas de seu país por ter rabiscado o seu nome na parede de um templo antigo em Luxor, no Egito.

A inscrição arranhada na parede - que dizia, em mandarim, "Ding Jinhao esteve aqui" - foi encontrado por um turista chinês chamado Shen, que visitou Luxor há três semanas.

Shen postou a foto do grafite em sua conta no Sina Weibo, um híbrido chinês do Twitter e do Faceboook, e rendeu mais de 100 mil comentários.

O grupo de chineses que visitava o templo fez um silencio envergonhado ao ver a inscrição feita por um seu patrício, disse Shen.

Ding Jinhao, o autor da “proeza”
O garoto foi identificado como estudante do ensino médio em Nanjing, no leste da China, e teve sua data de nascimento e escola revelados na internet.

O incidente é mais um exemplo do fenômeno crescente na China de usuários da internet expondo informações privadas sobre pessoas que cometeram atos considerados condenáveis.

A controvérsia surge dias após Wang Yang, um dos quatro vice-primeiros-ministros da China, dizer que o "comportamento incivilizado" de alguns turistas chineses estava prejudicando a imagem do país no exterior.

'MUITA PRESSÃO'

Os pais do menino pediram desculpas a um jornal local, dizendo que o garoto está arrependido de suas ações. "Queremos pedir desculpas ao povo do Egito e as pessoas que deram atenção a este caso em toda a China," disse a mãe de Ding Jinhao.

A mãe do menino acrescentou que o adolescente, agora um estudante do ensino médio em Nanjing, no leste da China, cometeu o ato quando era mais jovem e agora tinha percebido a gravidade de suas ações.

O pai de Ding Jinhao também apelou ao público pedindo que deixassem seu filho em paz. "Isso é muita pressão em cima dele".

Foto: Divulgação

A entrada do templo antigo em Luxor, Egito

O templo de Luxor, na margem do Nilo, foi construído por Amenófis II, que viveu no século 14 a.C., e mais tarde foi ampliado por Ramsés II.

O Ministério de Antiguidades do Egito disse que o dano à parede do templo era superficial, e medidas para restaurá-lo já estavam sendo tomadas.

Turistas chineses gastaram US$ 102 bilhões (R$ 209 bilhões) no exterior no ano passado, um aumento de 40% em relação ao ano anterior. A Organização Mundial de Turismo da ONU diz que a China é hoje a maior fonte de renda do turismo global.


7 de mai. de 2013

Turismo: álcool e biquíni são bem vindos no Egito do radicalismo religiosos?

EGITO
Turismo: álcool e biquíni são bem vindos
no Egito do radicalismo religiosos?
Para os radicais Salafistas e da Irmandade Muçulmana , correntes politicamente dominantes no Egito, pós Mubarak, os turistas continuam bem vindos, desde que não bebam nem usem biquínis durante a estada no país. Especialistas dizem que é impossível fazer turismo internacional sem essas duas premissas. Ministro do Turismo tenta enfrentar essa corrente, buscando fazer voltar à enxurrada de turistas e dólares, fundamentais para a economia do país.

Foto: Abdallah Dalsh/Reuters Arquivo

Banhistas no resort Sharm el-Sheikh, no Sinai.

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Al Arabiya, O Globo, The Age, Barenaked Islam, The Telegraph, Daily Mail

Para o Egito, o turismo sempre foi economicamente um dos setores da maior importância: emprega 12 por cento da força de trabalho e capaz de abarrotar, de dólares, os cofres esvaziados, nestes momentos de mercados em crise, pelas dificuldades da transição da política local.

De olho apenas no aspecto religioso, a poderosa Irmandade Muçulmana e os Salafistas, politicamente dominantes no jogo de poder do Egito de hoje, têm passado uma mensagem tida como repelente para os turistas: “Sejam Bem-vindos, mas não serão servidas bebidas alcoólicas, nem será permitido biquínis ou banho misto (homens e mulheres) nas praias!” Teoricamente esses grupos, radicalmente mais fechado, procura abafar toda e qualquer modernidade procedente das influências ocidentais como algo que destrói tudo o que é islâmico.

Dentro desse clima, o atual ministro do turismo, Hisham Zaazou, mostra-se disposto a se contrapor a essa posição, pelo bem da economia e da abertura do país para investimentos estrangeiros:

Foto: Flickr

Turista diverte-se com a mítica e gigantesca Esheps, a esfinge de Gizé. Especula-se que a cabeça do leão seria a representação do faraó Quéfren ou seu irmão, o faraó Djedefré, construção da quarta dinastia (2723 a.C.–2563 a.C.)

“ O Egito está aberto a visitantes “que bebam álcool e que usem biquínis”, disse ele, sem meias palavras, neste domingo, em visita oficial aos Emirados Árabes Unidos.

Pilar da economia egípcia, o turismo está em declínio desde a insurgência popular que derrubou o ditador Hosni Mubarak em 2011, na onda da chamada Primavera Árabe, criando um clima interno de instabilidade, protestos periódicos e permanente situação de violência urbana.

O ministro Zaazou, disse que o governo tem “objetivos otimistas” para o setor, e minimizou comentários do grupo radical muçulmano Salafi, que têm reivindicado o banimento de álcool e de mulheres usando roupas de banho.

— Tivemos conversas com estes grupos Salafi e eles agora entendem a importância danosa de se dizer este tipo de coisa — acrescentou o ministro, um independente que não é membro da Irmandade Muçulmana governante.

Foto: Getty Images

Pirâmides de Gizé, Egito - Construída em 2.550 a.C., a maior das três pirâmides de Gizé, Quéops, foi feita de 2,3 milhões de blocos de pedra. Alguns desses blocos chegam a pesar até 80 toneladas, cada. Das 7 maravilhas do mundo antigo, Quéops é a única que ainda existe.

Recentemente, pressionado por religiosos, o presidente islâmico Mohamed Mursi, oriundo da Irmandade Mulçumana, chegou a aumentar os impostos sobre bebidas alcoólicas em dezembro, mas foi obrigado a voltar atrás depois que a manobra foi criticada pelo setor de turismo e por liberais.

Antes do início dos protestos contra o governo, o turismo respondia por cerca de 10% da economia egípcia. Em 2010, o país recebeu 14,7 milhões de visitantes, que trouxeram US$ 12,5 bilhões para os negócios locais, mas esse número caiu para 9,8 milhões no ano seguinte, e faturamento, para US$ 8,8 bilhões.

De acordo com Zaazou, 2012 mostrou uma recuperação, com 11,5 milhões de turistas e faturamento de cerca de US$ 10 bilhões. Já no primeiro trimestre deste ano, foi registrado um aumento de 14,6% em relação ao mesmo período do ano passado, disse ele. A meta de longo prazo é alcançar 30 milhões de turistas e receita de US$ 25 bilhões em 2022.

Zaazou disse que reconstruir o turismo é uma prioridade nacional. Para ajudar a cumprir a meta de aumentar o número de visitantes em 20% este ano, o ministério instalou câmeras nos maiores resorts, para alimentar um website com transmissão em vídeo ao vivo.

— Queremos mostrar às pessoas que o Egito é seguro, e a melhor maneira de fazer isso é através do live streaming. O próximo passo será exibir ao vivo essas imagens em praças públicas de Paris ou Nova York.

Não se sabe se os turistas vão aprovar em serem personagens desse reality-show de férias.

As coisas, porém, não são tão fáceis como quer demonstrar o ministro: buscando novos mercados, o Egito tentou, este ano, abrir as portas aos turistas iranianos, após 34 anos de relações diplomáticas congeladas.

Mas teve que recuar, pois a medida enfrentou protestos dos muçulmanos sunitas linha-dura do Cairo, que acusaram o Irã de tentar espalhar a fé xiita, em seus domínios, o que levou à suspensão dos voos comerciais a partir do Irã desde abril.

Na verdade fazer turismo no Egito de hoje, está mais barato. Mas no pacote, além da beleza, o mistério e a grandiosidade do Vale dos Reis, as Pirâmides, a Esfinge e o rio Nilo, está incluso, a incerteza, os riscos, a insegurança e a possibilidade de voltar para casa sóbrio e com o biquíni intocado no fundo da mala.

Foto: Yumiru /Flickr

Sem biquíni o turismo não tem salvação!


3 de dez. de 2012

Em risco, a jovem democracia egípcia

EGITO
Em risco, a jovem democracia egípcia
O presidente Mohamed Mursi mergulhou o Egito em uma nova crise na semana passada, quando deu a si mesmo poderes ampliados e colocou suas decisões além do alcance judicial, dizendo que esta era uma medida temporária para acelerar a transição democrática do Egito até que uma nova constituição entre em vigor. Divididos os egípcios voltaram a ocupar a Praça Tahrir usando as mesmas palavras de ordens e a mesma determinação que derrubou o ditador Hosni Mubarak

Charge: Daryl Cagle (USA)

A charge retrata, ironizando, o presidente egípcio, Mohamed Mursi, como um faraó, referindo-se a exagerada concentração de poderes que ele passou a englobar desde quinta-feira

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Veja, G1, G1, Ultimo Segundo, Exame, The Telegraph, CNN, Al Jazeera

O presidente egípcio, Mohamed Mursi, pediu neste sábado um referendo sobre uma minuta para uma nova Constituição em 15 de dezembro. O anúncio aconteceu depois que pelo menos 200.000 islamitas se manifestaram a favor do presidente neste sábado, como uma resposta à fúria da oposição, na sexta-feira, rebelada pela decisão do presidente em auto expandir seus poderes, pondo, através de uma chamada 'declaração constitucional', que decretos e leis do presidente não podem ser contestados judicialmente.

Mursi pediu aos cidadãos que olhem 'com objetividade' a minuta constitucional e lhes solicitou que votem de acordo com sua consciência pelo bem do país e para cumprir as aspirações de 'liberdade, democracia, justiça social verdadeira e estabilidade'. Para ele, a nova Carta Magna 'ressalta a soberania do povo, os direitos e a dignidade de todos os egípcios, iguala os direitos de todos os cidadãos sem discriminação por crença ou raça e reduz os poderes do presidente, já que não pode dissolver o Parlamento'.

A Assembleia Constituinte, dominada pelos islamitas, aprovou na sexta-feira o projeto de Carta Magna, apesar do boicote dos grupos laicos que se queixam do predomínio da Irmandade Muçulmana e dos salafistas nesse organismo.

Mesmo com a proibição de contestações às decisões presidenciais, 12 denúncias já foram apresentadas à Justiça. As ações pedem o fim da aplicação do decreto e sua anulação. Os recursos, um deles apresentado pelo presidente do poderoso Clube de Juízes, Ahmed el Zind, afirmam que a medida de Mursi "viola todas as Constituições e as leis".

As ações também indicam que Mursi, como chefe do poder Executivo, não tem direito de emitir 'declarações constitucionais' sem recorrer a um referendo supervisado pelos juízes. Apontam ainda que as decisões do presidente são administrativas e podem ser submetidas a recursos perante os tribunais administrativos.

Milhares de egípcios protestaram contra o presidente Mohamed Mursi nesta sexta-feira mesmo depois que a Assembleia Constituinte, dominada pelos islâmicos, aprovou a minuta de nova Constituição na tentativa de pôr fim a uma crise desencadeada por um decreto do chefe de governo.

"O povo quer derrubar o regime", cantavam os manifestantes na Praça Tahrir, no Cairo, repetindo o que se ouvia no mesmo local há menos de dois anos, quando o ditador Hosni Mubarak foi derrubado. Os manifestantes lotaram a Praça Tahrir e saíram às ruas também em Alexandria e em cidades na região do Canal de Suez e do Delta do Nilo, respondendo ao clamor da oposição por uma grande manifestação.

Os manifestantes afirmam que pressionarão pelo "não" no referendo, que seria anunciado por Mursi, no sábado. "Saia, saia", cantavam alguns, também repetindo palavras usadas contra Mubarak.

Na mesquita do Cairo, alguns opositores cantaram contra o presidente, mas os simpatizantes de Mursi rapidamente os cercaram com gritos de apoio, segundo informações de jornalistas e de uma fonte da segurança. Milhares de simpatizantes de Mursi também foram às ruas em Alexandria.

A ONU também se diz preocupada com o futuro dos egípcios. A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, escreveu uma carta a Mursi para expressar sua preocupação. Ela pediu ao presidente egípcio que "reconsidere a declaração constitucional", anunciada na semana passada.

A comissária ressaltou que o Egito ratificou o Pacto Internacional de 1982 sobre os Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que preveem "o direito de acesso à Justiça e garantias à independência do Poder Judiciário". Para Navi, o decreto de Mursi vai contra esses acordos.

Pillay também disse a Mursi que "a aprovação de uma Constituição, nestas circunstâncias pode provocar ainda mais divisões".

Para minar ainda mais a situação, a Alta Corte Constitucional do Egito iniciou neste domingo uma greve por tempo indeterminado, em protesto contra a pressão de partidários do presidente Mohamed Mursi, que impediu os juízes de examinar a polêmica sobre a composição da comissão Constituinte, dominada por islamitas.

Antes do anúncio, a Alta Corte Constitucional do Egito havia postergado a audiência na qual devia examinar no domingo a legalidade da comissão que redigiu um polêmico projeto de Constituição e a própria Câmara Alta do Parlamento, ambos dominados por islamitas.

Centenas de partidários do presidente Mursi realizavam uma ruidosa manifestação diante das oficinas da Corte, muitos dos quais inclusive passaram a noite no lugar mostrando cartazes de apoio ao líder.

Alguns manifestantes chegaram a impedir a entrada dos juízes no edifício. Um dos acessos ao prédio foi bloqueado, assim como a estrada principal ao longo do rio Nilo.

Para denunciar as "pressões psicológicas ou materiais", a Corte anunciou em um comunicado que decidiu suspender suas audiências, rejeitando o "assassinato psicológico" dos juízes e chamou os eventos deste domingo de "dia negro na história da justiça egípcia".

Serão os primeiros sinais do outono da primavera árabe?

16 de nov. de 2012

Terceiro morteiro atinge Tel Aviv, no 2º dia de ataque contra a cidade

ISRAEL – PALESTINA -Conflito
Terceiro morteiro atinge Tel Aviv,
no 2º dia de ataque contra a cidade
A crise agrava-se: enquanto o primeiro ministro egípcio visitava Gaza, em sinal de solidariedade ao Hamas, devido ao ataque de Israel que matou o seu líder Ahmed al-Jabari, palestinos e israelenses disparam misseis e foguetes em ataques mútuos que não cessaram nem durante o pacto de cessar fogo, combinado acontecer durante a visita do premier egípcio.

Foto: Mahmud Hams / Pool via EPA

O líder do Hamas na Faixa de Gaza, Ismail Haniya, à esquerda, e primeiro-ministro egípcio Hisham Qandil, segunda à esquerda, visitar um homem ferido em um ataque aéreo israelense, no hospital al-Shifa, na Cidade de Gaza ,hoje, 16 . A visita de Hisham, a Palestina, forçou Israel a promover trégua de três horas.

Postado por Toinho de Passira
Fontes: O Globo

Um morteiro atingiu nesta sexta-feira Tel Aviv, centro financeiro israelense. É o terceiro incidente do tipo na cidade desde quinta-feira. Mais cedo, Israel chegou a decretar um cessar-fogo de três horas, durante a visita do premier egípcio, Hisham Kandil, ao território palestino, mas segundo os dois lados do conflito não teria sido respeitada.

Sirenes foram acionadas em Tel Aviv nesta manhã, e uma explosão foi ouvida, disse uma testemunha. Militantes palestinos dispararam dois morteiros contra a cidade na quinta-feira, e sirenes também foram acionadas pela primeira vez desde a Guerra do Golfo, em 1991. Um deles teria caído no mar, e outro em um subúrbio de Tel Aviv; nenhum incidente foi registrado.

Foto: Wissam Nassar/The New York Times

Funeral de Ahmed al-Jabari, o comandante militar do Hamas, morto por Israel, na cidade de Gaza, nesta quinta-feira, 15

Segundo o Exército israelense, o foguete desta sexta-feira atingiu uma área aberta e explodiu antes de tocar o chão. A prefeitura de Tel Aviv, por sua vez, disse que vai abrir todos os abrigos públicos antibombas. Apesar de grande parte de imprensa local falar em um foguete, o jornal “Jerusalem Post” diz que dois morteiros atingiram Tel Aviv hoje.

Foto: Uriel Sinai / Getty Images

Uma nuvem de fumaça se eleva sobre Gaza durante um ataque aéreo israelense, visto a partir da cidade israelense de Sderot, em 15 de novembro.

A viagem de Kandil a Gaza pode ser vista como um ato de solidariedade dos islamistas do Cairo com o Hamas, mas é também uma mensagem clara de que os tempos de cumplicidade com Israel, que vingavam durante o governo de Hosni Mubarak, acabaram. Durante a breve visita, Kandil chamou os ataques de Israel contra o território palestino de agressão:

- O que testemunho em Gaza é um desastre e não posso continuar calado. A agressão israelense tem que parar - disse o premier, durante uma visita a um hospital. - O Egito não vai poupar esforços para deter a agressão e alcançar uma trégua.

Foto: Uriel Sinai / Getty Images

Israelenses abrigados em um grande tubo de concreto usado como um abrigo anti-bomba depois que um foguete foi lançado a partir da Faixa de Gaza em 15 de novembro, 201, no Nitzan, Israel.

O presidente egípcio, Mohamed Mursi, emitiu um comunicado após a visita de seu premier a Gaza, denunciando os ataques israelenses como uma “gritante agressão contra a Humanidade” e se comprometendo a ajudar os palestinos.

O chanceler tunisiano também anunciou nesta sexta-feira que vai visitar o território palestino no sábado para oferecer seu apoio ao Hamas. O premier turco, Recep Tayyio Erdogan, também manifestou seu apoio a Gaza, chamando de “bárbara” a postura israelense.

Foto: Nir Elias / Reuters

Um rastro de fumaça traça o céu, produzido por um foguete lançado do norte da Faixa de Gaza, em direção a Israel, em 15 de novembro.

Cessar-fogo é decretado, mas ambas partes desrespeitam trégua

Apesar do breve cessar-fogo, Israel acusa o Hamas de não respeitar as três horas de trégua, e o grupo islâmico também acusa o Estado judeu de continuar os ataques. O governo de Tel Aviv ainda disse estar disposto a suspender a ofensiva, se e quando os islamistas fizerem o mesmo.

O Exército de Israel diz ter atingido 150 alvos na Faixa de Gaza durante a noite. Segundo o jornal “Haaretz”, três israelenses foram feridos nesta sexta-feira depois que um morteiro atingiu o sul do país. O Hamas diz ainda ter atingido um avião israelense, mas o Exército nega, informou o “New York Times”.

Vinte e um palestinos e três israelenses morreram desde o início da ofensiva, desatada com a morte do chefe militar do Hamas, Ahmed Jabari, na quarta-feira.

Nesta sexta-feira, 85 mísseis explodiram durante 45 minutos na Cidade de Gaza. Fontes militares disseram que os alvos do ataque são locais subterrâneos de lançamento de foguetes. Um míssil atingiu o Ministério do Interior, um símbolo de poder do Hamas, e outro alcançou uma casa vazia pertencente a um comandante do Hamas.

Segundo islamistas, uma criança e um militante teria morrido em um ataque israelense, durante a visita do premier egípcio. A violência, juntamente com um ataque a um prédio perto da casa do primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, em Gaza, indica que Israel está expandindo sua ofensiva além de alvos militares.

Fontes do Hamas dizem que o Exército israelense respondeu os ataques de morteiro com um bombardeio aéreo contra o norte da Faixa de Gaza, no qual dois palestinos teriam morrido. Israel nega que tenha atacado o território palestino durante a visita de Kandil.

No Twitter, um porta-voz do premier Benjamin Netanyahu acusou o “Hamas de não respeitar a visita do primeiro-ministro egípcio a Gaza e violar o cessar-fogo temporário”. Segundo um porta-voz do Exército, 50 morteiros foram lançados contra Israel durante a estadia de Kandil no território palestino.

Foto: Amir Cohen / Reuters

Um bebê judeu emoldurado por estilhaços de um janela quebrada após um foguete disparado por militantes palestinos na Faixa de Gaza re atingido sua casa no sul da cidade de Netivot, Israel, em 12 de novembro. A pesar dos danos, o pretado não causou vítimas, mas recebeu uma resposta dura por parte dos israelenses, nessa onda de violência sem data para acabar.


13 de set. de 2012

Embaixador dos EUA é morto na Líbia

ESTADOS UNIDOS
Embaixador dos EUA é morto na Líbia
O diplomata Christopher Stevens é uma das quatro vítimas americanas ao ataque de islamitas ao consulado dos EUA na cidade de Benghazi, sob o pretexto de protestar contra um filme de origem americana que desrespeita o profeta Maomé. Os protestos contra a película se espalharam por outros países do Oriente Médio.

Foto: Bryan Denton/The New York Times

O embaixador Christopher Stevens estava no serviço diplomático americano desde 1991 e já havia servido na Líbia em outras duas ocasições, tendo, nesta ano, assumido o cargo de embaixador.

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Folha de S. Paulo, The New York Times, Publico, Reuters, Terra, The Star, Gawker

O embaixador dos EUA na Líbia, J. Christopher Stevens, 52 anos, foi um dos quatro mortos no ataque ao consulado americano em Benghazi, leste do país, por um bando armado na noite de terça-feira, 12.

Stevens visitava o consulado quando o grupo abriu fogo, em meio a uma manifestação contra um filme produzido nos EUA que satiriza Maomé, fundador do islã.

Manifestações contra o filme se repetiram ontem em Marrocos, no Sudão, na Tunísia e na faixa de Gaza, despertando o temor de que uma onda de protestos se espalhe pelo mundo islâmico.

A gravidade do ataque para os EUA foi ressaltada por um incomum comunicado do próprio presidente americano, Barack Obama, confirmando que o embaixador era um dos quatro mortos.

Stevens é o primeiro embaixador dos EUA morto em missão desde 1979, quando o representante no Afeganistão morreu após sequestro.

Foto: Paul J. Richards/Agence France-Presse/Getty Images

O presidente Obama e a Secretaria de Estado Hillary Clinton, disseram que não há alteração nas relações diplomaticas com a Líbia, considerada nação amiga

Obama condenou a "violência sem sentido" e ordenou o aumento da segurança nas representações americanas no exterior. Foi aprovado ainda o envio de 50 fuzileiros navais para proteger as instalações dos EUA na Líbia.

Segundo a rede de TV CNN, dois destróieres (navios de guerra) dos EUA também foram deslocados para a região.

Horas antes do ataque em Benghazi, o mesmo filme provocara um protesto na embaixada americana no Cairo (Egito). Manifestantes rasgaram a bandeira americana, substituída pela do islã, mas não houve violência.

Ontem à noite, porém, houve novos protestos diante da embaixada, e forças egípcias usaram gás lacrimogêneo para dispersá-los.

Foto: Agence France Presse/Getty Images

Um dos manifestantes armado, diante do consulado americano, em chamas, em Benghazi, na Líbia

Na Líbia, onde o governo provisório é fraco e sobram armas da revolução que derrubou o ditador Muammar Gaddafi em 2011, o consulado foi incendiado após ser alvo de tiros e granadas.

Além do embaixador, morreram no ataque mais três americanos. O governo dos EUA confirmou a identidade de um deles, o diplomata Sean Smith, os dois outros eram fuzileiros navais americanos, que foram mortos a tiros.

As circunstâncias do ataque ainda não estão claras. Radicais armados teriam se infiltrado na manifestação e atacado o consulado com morteiros e granadas, dando início ao incêndio.

Stevens teria morrido asfixiado por inalação de fumaça, segundo um médico ouvido pela agência Associated Press. Mas uma autoridade líbia deu outra versão à Reuters: o comboio do embaixador teria sido atingido por morteiros numa emboscada, quando ele tentava escapar.

Foto: Esam Omran Al-Fetori/Reuter

Os manifestantes líbias condenaram os assassinatos em Benghazi

Segundo o vice-ministro do Interior líbio, Wanis al Sharef, havia rumores de que islamitas radicais planejavam usar o aniversário dos ataques de 11 de setembro de 2001 para vingar a morte de um dos líderes da rede terrorista Al Qaeda, o líbio Abu Yahya al Libi.

Militares líbios que protegiam o consulado, ainda chegaram a trocar tiros com os agressores, mas acabaram batendo em retirada uma vez que os agressores estavam mais bem armaddos.

Os EUA desconfiam que o ataque não tenha sido espontâneo. Segundo o "New York Times" e a CNN, a suspeita é que algum grupo salafista (islamitas ultraconservadores) surgido na guerra civil tenha planejado o atentado de antemão. O protesto contra o filme seria apenas pretexto.

Fundação Quilliam, dirigida em Londres por um ex-líder militante líbio, sugeriu na própria terça-feira que o "bem planejado" ataque de Benghazi pode ter sido uma retaliação pela morte, ocorrida neste ano, de um dirigente líbio da Al Qaeda, Abu Yahya al Libi, abatido por um bombardeio norte-americano no Paquistão.

Horas antes do ataque ao consulado, o dirigente máximo da Al Qaeda, Ayman al Zawahiri, divulgou um vídeo confirmando a morte de Al Libi, segundo homem na estrutura da organização.

O presidente da Fundação Quilliam, Noman Benotman, ex-líder da facção antigaddafista Grupo Líbio de Combate Islâmico, disse que, segundo suas fontes, até 20 militantes teriam se preparado para uma ofensiva militar.

Ele disse que a ação ocorreu em duas etapas: primeiro, com uma ação contra o consulado, o que motivou as autoridades diplomáticas a retirarem seu pessoal para uma casa supostamente protegida, onde o segundo ataque ocorreu.

Foto: Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Manifestantes egípcios, no Cairo, jogaram pedras e enfrentaram a policia diante da embaixada americana

O vídeo que motivou as manifestações no mundo mulçumano e serviu de pretexto para o ataque, esta no site do YouTube , tem 14 minutos de duração e é uma espécie de trailer do filme chamado a Inocência dos Muçulmanos. Segundo os mulçumanos o vídeo zomba e desrespeita o profeta islâmico Maomé.

A película teria sido produzido por um suposto judeu israelense residente na Califórnia chamado Sam Bacile. A imprensa americana especula que na verdade o homem responsável pela película é o americano, Nakoula Basseley Nakoula, 55, que se esconde atrás do pseudônimo.

Atores americanos e atrizes que apareceram no filme, emitiram uma declaração conjunta, nesta quarta-feira dizendo que foram enganados sobre o projeto. Alegam que alguns dos diálogos presentes hoje no filme, foram acrescidos durante a pós-produção, atraves de dublagem introduzidas.

Uma das atrizes, Cindy Lee Garcia, disse ao site Gawker.com que o filme era originalmente intitulado "Guerreiros do deserto" e que o roteiro não continha referências ofensivas ao Islã. Ela disse o diretor, que se identificou como Bacile, dizia-se egípcio.

Autoridades militares dos EUA estão preocupadas que o vídeo possa inflamar os sentimentos anti-americanos no Afeganistão, onde 74 mil soldados norte-americanos ainda estão em combate.

Nesta quarta-feira, o Talibã pediu aos afegãos que se preparem para um combate contra os norte-americanos e exortou os insurgentes a buscarem "vingança" pelo vídeo.

Na manhã desta quinta-feira, 13, centenas de manifestantes tentaram invadir a embaixada americana em Sanaa, capital do Iêmen. Ao conter a multidão a polícia matou uma pessoa e outras cinco nesta quinta-feira (13), durante confrontos com manifestantes que protestavam contra um filme anti-Islã em frente ao complexo da Embaixada dos EUA.

A Irmandade Muçulmana convocou para amanhã em todo o Egito manifestações contra "as ofensas ao islã".

O presidente egípcio, Mohamed Mursi, que pertence ao grupo, está sob pressão popular para que cancele sua visita aos EUA no fim do mês.