13 de fev de 2011

OPINIÃO: Somos todos egípcios (por uns tempos) - Caio Blinder

OPINIÃO
Somos todos egípcios (por uns tempos)
EGITO: “Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se acalmarem. Na verdade, eles na última hora foram até a mansão do policial e o despejaram. Foi traição, pois os fardados sempre tiveram negócios com o homem, ex-militar.”

Charge de Site de DAVE GRANLUND – Massachusetts (USA)

Caio Blinder
Fontes: Coluna do Caio Blinder, Portal de Dave Granlund

Eu conheço o ritual. É momento de dizer: somos todos egípcios. Celebramos a partida de um Hosni Mubarak. Tipo desagradável. Se quisermos dar pose para o enxotado autocrata podemos chamá-lo de faraó. Mas Mubarak estava mais para o gênero de policial que resolvia os problemas na vizinhança a um preço. Havia segurança e muitas vezes era melhor nem perguntar como ele impunha lei e ordem.

Agora existe festa na vizinhança, mas tambem muita inquietação com a partida do policial corrupto e brutal. Quem vai oferecer proteção? Uma garotada animada liderou o movimento para se livrar do policial, mas muitos bandidos estão fantasiados de mocinhos neste carnaval de libertação.

Os militares apareceram para tomar conta do pedaço e prometem partir quando as coisas se acalmarem. Na verdade, eles na última hora foram até a mansão do policial e o despejaram. Foi traição, pois os fardados sempre tiveram negócios com o homem, ex-militar. Mas deixa para lá e chega de metáforas policialescas sobre o estado policial do Egito.

Sim, somos todos egípcios. Numa região do mundo que cultiva o martírio, explora a vitimização e cultua o terrorista-suicida, a moçada com ajuda de amplos setores da sociedade egípcia empreendeu uma mudança relativamente pacífica (300 mortos). Tiveram uma mão dos militares que ficaram em cima do muro e finalmente concluíram que precisavam se livrar do ônus Mubarak. O ditador que tinha serventia como pilar de estabilidade se convertera em fator de instabilidade.

Um jornalista que respeito e conhece bem a região, Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic, lembra que a crise egípcia está apenas começando. Perdão por estragar a festa tão cedo. Uma ditadura de 30 anos caiu em menos de três semanas. A massa festiva ficará impaciente e será difícil conter suas expectativas. De um lado, existe um cenário econômico, com gente muito pobre e um setor jovem e altamente educado sem perspectivas. Do outro, plutocratas que não estão interessados em reformar um sistema, sem esquecer que estes militares, hoje heróis do povo, são grandes beneficiados do esquema.

O poder político agora está nas mãos destes militares (a rigor, eles sempre estiveram nas entranhas deste regime). Não está claro que tipo de transição eles irão patrocinar e isto num país sem tradição de democracia e submetido a quase 60 anos de liderança militar (de variadas ideologias). Goldberg lembra um ponto essencial: Mubarak marginalizou, baniu e reprimiu líderes e movimentos seculares de oposição. Reprimiu, mas também tolerou a Irmandade Muçulmana. O grupo ajudava a justificar o estado policial em casa e seu papel de guarda no imenso quarteirão do Oriente Médio.

Goldberg, que não é nenhum ingênuo, não está particularmente preocupado com a possibilidade da Irmandade Muçulmana ocupar o vácuo de poder de uma hora para outra, mas adverte que as coisas são muito voláteis e podem mudar rapidamente, para o lado mais perigoso. A questão não é ficar em pânico e passar o tempo alertando sobre estes perigos. Obviamente não interessa nem a consolidação do poder militar nem o caos que abra caminho para a ascensão da Irmandade Muçulmana. É verdade que interessa um Exército forte, guardião das instituições democráticas e seculares e que preserve o acordo de paz com Israel. Para tal será preciso uma revolução cultural no Exército (na parte democrática).

Grupos radicais islâmicos como a Irmandade e o filhote Hamas, em Gaza, têm fervor, disciplina, organização e capacidade de sacrifício. Por meio liberais podem atingir fins iliberais. Somos todos egípcios por um momento. Devemos ser por alguns egípcios mais a longo prazo (espero que por muitos). Devemos favorecer e ajudar aqueles setores da sociedade egípcia, e por extensão, no mundo islâmico, que não querem ser governados nem por ditadores nem por fanáticos religiosos.

A protestocracia precisa se transformar num verdadeiro movimento e construir instituições civis.Será preciso forjar um senso de cidadania, em uma experiencia que será acompanhada com atenção e apreensão na região e no resto do mundo. Num projeto espinhoso, será preciso, como lembrou Anthony Shadid, no New York Times, aprender a “reconciliar direitos individuais com identidade religiosa”. Se este Egito triunfar será uma maravilha voltar para a praça Tahrir, a genuína praça da duradoura libertação e não apenas da festa fugaz do fim de uma ditadura.


*Acrescentamos subtítulo e imagem ao texto original

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