5 de dez de 2013

O depredador da Prefeitura de São Paulo, manifestações de junho, diz que perdeu emprego e deixou faculdade

BRASIL - Manifestações
O depredador da Prefeitura de São Paulo, manifestações de junho, diz que perdeu emprego e deixou faculdade
Para melhorar a imagem, no momento em que o inquérito da polícia é concluído e está prestes a ser enviado para justiça, o depredador da prefeitura de São Paulo, Pierre Ramon, ex-estudante de Arquitetura, assessorado por advogados, dá entrevista contando seu “infortúnio” desde que resolveu protagonizar cenas de vandalismo

Foto: Fabio Braga - 18.jun.2013/Folhapress

DEPREDADOR FEROZ EM AÇÃO - De máscara protetora no rosto, Pierre tenta convencer que nunca tinha ouvido falar em 'black blocs' e que atacou a prefeitura porque recebeu "spray de pimenta na cara"

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Folha de São Paulo

Em 18 de junho, o então estudante de arquitetura Pierre Ramon, 20, participou de sua primeira e, até agora, última manifestação.

Instruído por advogados, dá uma versão vitimizando-se para melhorar as chances no processo de dano ao patrimônio público, a que responde.

"Fiquei contagiado pela força do pessoal que protestava contra a tarifa de ônibus e resolvi ir ao ato. Aquele era um momento histórico e eu queria fazer parte dele."

Durante o protesto, no entanto, Ramon protagonizou, em cadeia nacional, cenas de depredação do edifício da Prefeitura de São Paulo.

Atirou furiosamente pedras contra o mármore da fachada e investiu uma grade metálica e contra os vidros do prédio.

De camisa branca, calça jeans e máscara --que retirava vez por outra para "respirar melhor"--, Pierre recebeu um alerta ao se misturar novamente à massa de gente que ocupava o local. "Aí, velho, você ficou visado demais. Melhor cair fora."

Foto: Fabio Braga - 18.jun.2013/Folhapress

Apesar de dizer que o protesto em junho foi a primeira e a última manifestação que que participou, protagonizou as cenas de maior violência contra o patrimônio público: O edifício da Prefeitura de São Paulo

Ao entrar no metrô para voltar para casa, diz que seu celular começou a apitar. "Meus amigos começaram a me mandar centenas de mensagens porque tinham me visto ao vivo na TV", conta. "Disseram que o [apresentador] Marcelo Resende estava dizendo que eu era o líder dos 'black blocs' e que tinha botado fogo num carro. Congelei."

Pierre diz que nunca tinha ouvido falar em 'black blocs' e que atacou a prefeitura porque recebeu "spray de pimenta na cara". Uma pergunta: como ele conseguiu aquela máscara contra gazes?

"Nunca fui de arrumar briga. Não sou um cara agressivo. Mas, no calor da hora, acabei tomando aquela atitude", finge lamentar. "Desde então, estou perdido. Minha vida virou do avesso."

Morador da zona leste, filho de um caminhoneiro, Pierre perdeu o emprego de garçom numa casa noturna do Itaim, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Parabéns aos patrões.

Sem o salário e o horário flexível do emprego anterior, se viu obrigado a trancar o curso de arquitetura. "É tudo deprê. Sem trampo, sem dinheiro... Parece que vivi uns três anos de junho para cá."

Pierre perdeu sete quilos, em parte porque parou de pagar a academia em que treinava jiu-jítsu e muay thai.

Foto: Jorge Araujo/Folhapress

Pierre Ramon, 20, trabalha hoje como garçom num clube de strip tease

Após errar entre um bico e outro, em setembro conseguiu emprego como garçom de uma casa de striptease no Tatuapé, zona leste. A carga horária, no entanto, não permite retomar os estudos.

Para encarar tamanho revertério, desde junho, Pierre leu quatro vezes a obra "O Alquimista", best-seller do escritor brasileiro Paulo Coelho. "É algo que faz com que eu me desligue do que está rolando comigo e que me traz um clima de paz."O livro narra a viagem de um pastor em busca de um tesouro, que descobre ser sua jornada o que há de mais valioso. "Tudo na vida serve de lição", filosofa.

Foto: Julia Chequer - 19.jun.2013/Folhapress

Cheio de marra e orgulho, fingindo arrependimento, Pierre Ramon dá entrevista após ser interrogado pela polícia

Quando se entregou à polícia, dois dias depois da manifestação, acompanhado de advogados, pois estava sendo procurado, foi indiciado sob a acusação de dano ao patrimônio público, crime que tem pena prevista de até três anos de prisão e multa indenizatória para reparar o dano causado, no caso algo em torno de um milhão.

Na delegacia, Pierre pediu desculpas ao Movimento Passe Livre, que havia convocado o ato do dia 18 de junho. "Fui errado e estou disposto a arcar com as consequências e pagar centavo por centavo tudo o que fiz de dano."

O caso está em fase de inquérito, segundo seu advogado, Gerson Bellani.

Apesar de todo o infortúnio que se seguiu a sua primeira e, até agora, segundo ele, última participação em uma manifestação, Pierre acredita e se orgulha de ter se tornado uma espécie de ícone das chamadas jornadas de junho, para o bem ou para o mal.

"Mais de 3.000 pessoas me mandaram mensagens do Facebook. Só duas me xingavam", conta, sem que possa ser verificada a veracidade da informação.

"Uns me chamavam para torcidas organizadas, outros elogiavam o quebra-quebra, depois a dignidade de ter assumido o que fiz e, por último, a coragem de ter pedido desculpas."

Esperamos que essa encenação de bom moço, quase arrependido, não influencie no resultado do julgamento desse marginal truculento e perigoso.

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