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5 de dez. de 2013

O depredador da Prefeitura de São Paulo, manifestações de junho, diz que perdeu emprego e deixou faculdade

BRASIL - Manifestações
O depredador da Prefeitura de São Paulo, manifestações de junho, diz que perdeu emprego e deixou faculdade
Para melhorar a imagem, no momento em que o inquérito da polícia é concluído e está prestes a ser enviado para justiça, o depredador da prefeitura de São Paulo, Pierre Ramon, ex-estudante de Arquitetura, assessorado por advogados, dá entrevista contando seu “infortúnio” desde que resolveu protagonizar cenas de vandalismo

Foto: Fabio Braga - 18.jun.2013/Folhapress

DEPREDADOR FEROZ EM AÇÃO - De máscara protetora no rosto, Pierre tenta convencer que nunca tinha ouvido falar em 'black blocs' e que atacou a prefeitura porque recebeu "spray de pimenta na cara"

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Folha de São Paulo

Em 18 de junho, o então estudante de arquitetura Pierre Ramon, 20, participou de sua primeira e, até agora, última manifestação.

Instruído por advogados, dá uma versão vitimizando-se para melhorar as chances no processo de dano ao patrimônio público, a que responde.

"Fiquei contagiado pela força do pessoal que protestava contra a tarifa de ônibus e resolvi ir ao ato. Aquele era um momento histórico e eu queria fazer parte dele."

Durante o protesto, no entanto, Ramon protagonizou, em cadeia nacional, cenas de depredação do edifício da Prefeitura de São Paulo.

Atirou furiosamente pedras contra o mármore da fachada e investiu uma grade metálica e contra os vidros do prédio.

De camisa branca, calça jeans e máscara --que retirava vez por outra para "respirar melhor"--, Pierre recebeu um alerta ao se misturar novamente à massa de gente que ocupava o local. "Aí, velho, você ficou visado demais. Melhor cair fora."

Foto: Fabio Braga - 18.jun.2013/Folhapress

Apesar de dizer que o protesto em junho foi a primeira e a última manifestação que que participou, protagonizou as cenas de maior violência contra o patrimônio público: O edifício da Prefeitura de São Paulo

Ao entrar no metrô para voltar para casa, diz que seu celular começou a apitar. "Meus amigos começaram a me mandar centenas de mensagens porque tinham me visto ao vivo na TV", conta. "Disseram que o [apresentador] Marcelo Resende estava dizendo que eu era o líder dos 'black blocs' e que tinha botado fogo num carro. Congelei."

Pierre diz que nunca tinha ouvido falar em 'black blocs' e que atacou a prefeitura porque recebeu "spray de pimenta na cara". Uma pergunta: como ele conseguiu aquela máscara contra gazes?

"Nunca fui de arrumar briga. Não sou um cara agressivo. Mas, no calor da hora, acabei tomando aquela atitude", finge lamentar. "Desde então, estou perdido. Minha vida virou do avesso."

Morador da zona leste, filho de um caminhoneiro, Pierre perdeu o emprego de garçom numa casa noturna do Itaim, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Parabéns aos patrões.

Sem o salário e o horário flexível do emprego anterior, se viu obrigado a trancar o curso de arquitetura. "É tudo deprê. Sem trampo, sem dinheiro... Parece que vivi uns três anos de junho para cá."

Pierre perdeu sete quilos, em parte porque parou de pagar a academia em que treinava jiu-jítsu e muay thai.

Foto: Jorge Araujo/Folhapress

Pierre Ramon, 20, trabalha hoje como garçom num clube de strip tease

Após errar entre um bico e outro, em setembro conseguiu emprego como garçom de uma casa de striptease no Tatuapé, zona leste. A carga horária, no entanto, não permite retomar os estudos.

Para encarar tamanho revertério, desde junho, Pierre leu quatro vezes a obra "O Alquimista", best-seller do escritor brasileiro Paulo Coelho. "É algo que faz com que eu me desligue do que está rolando comigo e que me traz um clima de paz."O livro narra a viagem de um pastor em busca de um tesouro, que descobre ser sua jornada o que há de mais valioso. "Tudo na vida serve de lição", filosofa.

Foto: Julia Chequer - 19.jun.2013/Folhapress

Cheio de marra e orgulho, fingindo arrependimento, Pierre Ramon dá entrevista após ser interrogado pela polícia

Quando se entregou à polícia, dois dias depois da manifestação, acompanhado de advogados, pois estava sendo procurado, foi indiciado sob a acusação de dano ao patrimônio público, crime que tem pena prevista de até três anos de prisão e multa indenizatória para reparar o dano causado, no caso algo em torno de um milhão.

Na delegacia, Pierre pediu desculpas ao Movimento Passe Livre, que havia convocado o ato do dia 18 de junho. "Fui errado e estou disposto a arcar com as consequências e pagar centavo por centavo tudo o que fiz de dano."

O caso está em fase de inquérito, segundo seu advogado, Gerson Bellani.

Apesar de todo o infortúnio que se seguiu a sua primeira e, até agora, segundo ele, última participação em uma manifestação, Pierre acredita e se orgulha de ter se tornado uma espécie de ícone das chamadas jornadas de junho, para o bem ou para o mal.

"Mais de 3.000 pessoas me mandaram mensagens do Facebook. Só duas me xingavam", conta, sem que possa ser verificada a veracidade da informação.

"Uns me chamavam para torcidas organizadas, outros elogiavam o quebra-quebra, depois a dignidade de ter assumido o que fiz e, por último, a coragem de ter pedido desculpas."

Esperamos que essa encenação de bom moço, quase arrependido, não influencie no resultado do julgamento desse marginal truculento e perigoso.

18 de jul. de 2013

Manifestantes tiraram fotos nus, antes de desocuparem as dependências da Câmara de Porto Alegre

BRASIL -
Manifestantes tiraram fotos nus, antes de desocuparem as dependências da Câmara de Porto Alegre
Circulam pelas redes sociais fotos de manifestantes sem roupa dentro da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, que estava ocupada desde o dia 10 de julho. Postadas na noite desta quarta-feira em um perfil do Facebook, as imagens mostram jovens completamente nus, de rosto coberto, posando em frente à Galeria dos Ex-Presidentes da casa, ao lado da entrada do Plenário Otávio Rocha.

Foto: Reprodução

Postado por Toinho de Passira
Fontes:   O Globo, Zero Hora, Folha de S, Paulo, Bloco da Luta - Facebook

Um grupo de manifestantes que desde a quarta-feira (10) ocupava a Câmara de Vereadores de Porto Alegre postou em uma rede social várias fotos de seus integrantes total ou parcialmente nus e com os rostos cobertos. As imagens, retiradas do perfil de uma das manifestantes na rede social, foram compartilhadas por vários usuários.

Não há informação de quando as imagens foram feitas, mas a luz natural permite concluir que foram captadas durante o dia. As quatro fotografias foram retiradas da rede ainda no começo da manhã de hoje. Os manifestantes aparecem sob uma galeria de fotos oficiais de ex-presidentes da Câmara – alguns retratos de vereadores estão virados.

Ao todo 23 pessoas aparecem nas imagens, que também flagra um instante em que vários deles estão dançando abraçados.

Em outro flagrante, um ativista se destaca com a imagem oficial da atual deputada federal Manuela D'Ávila (PC do B) no meio das pernas. Ela foi vereadora em Porto Alegre entre 2004 e 2006. A Câmara foi ocupada por cerca de 400 pessoas, segundo a Brigada Militar.

Na página do Bloco de Luta pelo Transporte Público na internet, a divulgação das imagens dividiu os integrantes do grupo. A maioria das críticas registrava que as fotos iriam se sobrepor à divulgação dos resultados políticos da ocupação, que terminou com o ingresso de dois projetos sugeridos pelos manifestantes na pauta de tramitação do legislativo.

A Câmara foi totalmente desocupada nesta manhã, depois que um acordo na Justiça entre manifestantes e vereadores foi fechado. A desocupação começou na noite de ontem.

Os projetos preveem passe livre para estudantes, idosos e desempregados no sistema de transporte público de Porto Alegre e a abertura da planilha de custos das empresas de ônibus da cidade.

Segundo o Bloco de Lutas, que liderou as manifestações contra o aumento das passagens em junho, a redução do lucro das empresas pode financiar o passe livre. As propostas foram protocoladas pelas vereadores Sofia Cavedon (PT) e Fernanda Melchiona (PSOL).

Uma vistoria realizada pela manhã com a presença da juíza e de um oficial de justiça não constatou danos ao patrimônio da Câmara. Os manifestantes ocuparam o plenário durante uma semana.

Um pedido de reintegração de posse autorizado no sábado (13) pela Justiça foi cassado dois dias depois pela juíza Cristina Marchesan da Silva, que negociou a desocupação do prédio.

O plenário ainda não foi liberado e está lacrado para uma nova vistoria. Os técnicos não conseguiram ligar o painel eletrônico da Câmara, mas não há informação se houve danos ao equipamento.

25 de jun. de 2013

PODER ACUADO - O dia em que os manifestantes bateram na porta do Planalto

BRASIL - Manifestações
O PODER ACUADO
O dia em que os manifestantes bateram na porta do Planalto
No dia 20 de junho de 2013, a presidente Dilma Rousseff ficou por quase duas horas acuada no Palácio do Planalto, impedida de deixar o local pela porta da frente por uma multidão que, do lado de fora, bradava contra a corrupção, a PEC 37, os gastos na Copa, ela, o seu governo, todos os governos e mais uma lista sem fim de insatisfações — todas naquele momento atribuídas aos políticos no poder. Reportagem de VEJA desta semana revela como Dilma Rousseff reagiu à maior manifestação popular desde as Diretas Já. Perdido, o governo tenta achar formas de ganhar tempo e vislumbrar um plano para serenar a fúria do povo

Foto: Eraldo Peres/Associated Press

Exército reforça a segurança do Palácio do Planalto, para garantir a Presidente Dilma, sitiada em seu gabinete.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Otávio Cabral, para Veja
Fonte: Veja -24/06/2013

Dilma Rousseff assistiu perplexa, do Palácio do Planalto, à maior manifestação popular desde as Diretas Já. Perdido, o governo tenta achar formas de ganhar tempo e vislumbrar um plano para serenar a fúria do povo nas ruas brasileiras.

Em sua fala em cadeia de rádio e televisão na sexta-feira à noite, a presidente Dilma Rousseff teve pelo menos uma grande virtude. Ela reconheceu humildemente que o país que preside está vivendo um fenômeno social de massa inteiramente novo. Mérito dela, pois, se há algo que tira do sério um político de esquerda, é justamente um movimento de massa inescrutável. Desde os tempos da revolução bolchevique na Rússia que os líderes esquerdistas desdenham qualquer revolta popular que não tenha sido organizada por eles.

A da semana passada no Brasil foi um osso duro, mas essa gente tem estômago de ferro e nenhum compromisso com os fatos. O bolchevique Gilberto Carvalho, ministro do governo Dilma mas que presta continência apenas a Lula, disse que o mais de 1 milhão de brasileiros que foram às ruas protestar contra a corrupção e a impunidade estavam movidos por "um certo tipo de moralismo".

É o mesmo argumento que os comunistas, com ligeiras variações, historicamente usam quando as pessoas se manifestam livremente. Quem não se lembra do desprezo com que o camarada Ivanov chama de "moralistas diletantes" os revolucionários não comunistas no esplêndido livro “O Zero e o Infinito”, de Arthur Koestler, autor que, se os petistas tivessem lido a sério, teriam, talvez, poupado a si mesmos e aos brasileiros de tanto sofrimento.

O que as ruas brasileiras abrigaram na semana passada foram multidões de libertários independentes não ideológicos cansados de corrupção e de descaso. Por isso a perplexidade e a raiva surda dos esquerdistas de manual no poder no Brasil.

Esqueçamos os vândalos e os anarquistas, gente que não estava lutando por um governo melhor, mas por governo nenhum — o que é uma estupidez. A revolução verdadeira foi a que começou a ser feita pelos brasileiros que foram às ruas protestar por estar sendo mal governados.

Foto: Valter Campanato/ABr

Palácio do Itamaraty é invadido durante protesto. Manifestantes quebram janelas e enfrentam policiais na sede do Ministério das Relações Exteriores

No dia 20 de junho de 2013, a presidente Dilma Rousseff ficou por quase duas horas acuada no Palácio do Planalto, impedida de deixar o local pela porta da frente por uma multidão que, do lado de fora, bradava contra a corrupção, a PEC 37, os gastos na Copa, ela, o seu governo, todos os governos e mais uma lista sem fim de insatisfações — todas naquele momento atribuídas aos políticos no poder.

"Como a Abin não percebeu nada disso?", perguntou a presidente ao general José Elito chefe do Gabinete de Segurança Institucional. Naquele momento, 50.000 manifestantes desciam a Esplanada dos Ministérios rumo à Praça dos Três Poderes, enquanto um grupo tentava entrar à força no Congresso. Dilma perplexa, assistia a tudo na televisão de seu gabinete no Palácio, àquela altura cercado por um cordão de militares que impedia a aproximação dos manifestantes. À pergunta da presidente, o general respondeu com silêncio.

Dilma ainda deu dois telefonemas: um para o seu antecessor, o ex-presidente Lula, e o outro para o marqueteiro João Santana. Para o último, repetiu a pergunta feita ao general: "Como as suas pesquisas nunca pegaram isso, João?". Na noite mais tensa dos trinta meses de mandato de Dilma Rousseff na Presidência da República 1 milhão de pessoas em uma centena de cidades brasileiras estavam nas ruas. Foi a maior manifestação popular desde o movimento Diretas Já. E o PT, o partido de Dilma e de seu antecessor, não tinha nenhum controle sobre ela.

O PT assistiu, pasmo e impotente, a um território que antes lhe pertencia ser tomado por uma multidão não apenas imune aos seus comandos, mas também resistente à sua presença — como atestou dolorosamente seu presidente, Rui Falcão, o Rui Falcollor, que convocou a militância a participar das manifestações na quinta-feira e "defender o PT e o governo". Tiro no pé. Igualzinho ao que o então presidente Fernando Collor, sinônimo de corrupção e quadrilhismo no Brasil, desferiu em 1992 ao convocar o povo para vestir verde e amarelo em sinal de apoio a ele. O povo saiu de preto, em sinal de luto. Petistas apanharam da multidão, tiveram suas bandeiras queimadas, foram escorraçados e xingados de "oportunistas". O PT perdeu as ruas.

Foto: Valter Campanato/ABr

Manifestantes aglomeram-se em frente e assume o controle do teto do Congresso Nacional

Acuados no palácio, Dilma e seus principais assessores dividiram-se na quinta-feira quanto à forma de reagir à multidão. Gleisi Hoffmann, ao ver os manifestantes mais radicais tentando invadir o Itamaraty sugeriu colocar as Forças Armadas na rua "para defender o patrimônio público". A presidente negou a sugestão de imediato. Falou de seu histórico de oposição ao regime militar e do risco de que, se a iniciativa fosse bem-sucedida, seria apontada como uma solução de "conservadores e direitistas".

Aloizio Mercadante filho de general, concordou, mas com uma leitura míope da realidade: "Tanques não voltam para a garagem". Primeiro porque nem o mais aloprado general brasileiro cumpriria, hoje, a ordem de colocar tanques na rua contra o povo. Bastaria um destacamento da Polícia do Exército com equipamento de controle de distúrbios. Gleisi ficou isolada.

A ministra da Comunicação Social. Helena Chagas, sugeriu que a presidente convocasse uma rede nacional para fazer um pronunciamento que mostrasse que o governo não está acuado. "Mas para falar o quê?", perguntou Dilma. Alguém achou a resposta. Na noite de sexta-feira, a presidente falou à nação.

Na avaliação do governo, os protestos deverão continuar. Os alvos serão o excesso de gastos com a Copa a corrupção e a crise econômica. Um levantamento feito pelo Departamento de Inteligência e Pesquisa de Mercado da Editora Abril, que ouviu 9.088 pessoas, confirmou o desgaste dos governos e dos partidos políticos e apontou que a quase totalidade dos brasileiros está disposta a continuar nas ruas. Para fazer frente ao que virá e tentar conter a insatisfação generalizada, o governo federal deverá anunciar algumas medidas cosméticas nos próximos dias, mas os principais atos se darão nos bastidores.

Foto: Reprodução Video
BR>Presidenta Dilma fala em cadeia de rádio e TV

Nas reuniões do fim da semana passada, Dilma e seus conselheiros decidiram apoiar a CPI da Copa proposta pelo deputado e ex-jogador Romário (do PSB do Rio de Janeiro), trabalhar pela derrubada da PEC 37 (que limita o poder de investigação do Ministério Público) e oferecer, se preciso, a cabeça do presidente do Senado, Renan Calheiros muito lembrado nos cartazes dos manifestantes. Até a troca do ministro da Fazenda. Guido Mantega, foi cogitada pelos assessores presidenciais como uma forma de acalmar os mercados. A ideia é que, com medidas assim, o governo possa ganhar tempo para traçar uma estratégia de fôlego até o fim do mandato.

As pesquisas do marqueteiro João Santana podem ter falhado ao não detectar a possibilidade de uma onda de protestos no país mas já traziam alertas ao governo sobre insatisfações de certos setores da população, principalmente nos grandes centros urbanos. Na avaliação de Santana, nos últimos anos, a vida do brasileiro médio melhorou "da porta para dentro", com o aumento do emprego, da renda e do consumo. Mas piorou significativamente "da porta para fora", com o crescimento da criminalidade, a piora do trânsito e do transporte público. Isso criou uma população com uma insatisfação represada.

"Grandes explosões sociais vêm quando a situação é de progresso, não quando há falta de avanços sociais", lembra o professor de sociologia da Universidade Brown Gianpaolo Baiocchi. "Quando os índices sociais melhoram, a população fica mais exigente. E muitas vezes as demandas são maiores do que as respostas alcançadas, como no caso dos brasileiros", diz.

Na sexta-feira, o Movimento Passe Livre (MPL) que iniciou os protestos em São Paulo, anunciou sua retirada de cena. Oficialmente, declarou que tomou a decisão por já ter atingido seu objetivo. A verdade, porém, é que seguindo a lei histórica segundo a qual as revoluções raramente são concluídas pelos que as iniciam, o MPL tornou-se irrelevante ao cabo de alguns poucos dias.

O caminho que as manifestações tomarão, é claro, está no campo da especulação. A história mostra que os grandes espasmos populares espontâneos nem sempre prenunciam mudanças políticas de mesma coloração e envergadura. O famoso Maio de 68 na França culminou com a eleição de um presidente conservador. Georges Pompidou. No mesmo fim de década, o movimento pacifista americano "flower power" conquistou corações e mentes de milhões, mas quem se elegeu presidente foi mesmo o direitista Richard Nixon. O certo, porém é que as ruas das grandes cidades brasileiras parecem agora vacinadas contra o proselitismo, as ideologias velhas e o populismo. Essa é a verdadeira revolução.


Com reportagem de Julia Carvalho e Pieter Zalis
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

24 de jun. de 2013

Musa do movimento 'Bunda-pintada' que ficou nua contra FHC em 2001, volta a protestar

BRASIL - Manifestação - Bizarro
Musa do movimento 'Bunda-pintada' que ficou nua contra FHC em 2001, volta a protestar
Carlinha presidente da UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), tirou a roupa diante do Congresso Nacional, protestando contra o segundo governo de FHC (1999-2002), agora volta aos protestos, embora ocupe cargo no governo federal, vestida, mas não menos comedida

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Carla Santos, com ampliação da foto feita por Beto Barata, para a Folha na qual aparece nua em protesto contra o governo FHC; em 2001

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Folha de S. Paulo

Diante dessa onda nacional de manifestação no território nacional, ressurgiu das cinzas, a musa do movimento "bunda-pintada", que fez sucesso em 2001, quando queria derrubar o Fernando Henrique Cardoso, da presidência da república.

Carla Taís dos Santos, 33, ou Carlinha, para os mais chegados, recorda-se como se fosse ontem do dia em que "parou tudo" em Brasília, ao desfilar nua em frente ao Congresso Nacional.

Era 2001. A garota tinha 21 aninhos --e atributos típicos da idade, por exemplo os bem distribuídos 56 quilos e um generoso painel para abrigar frases do tipo "CPI Já".

Ao tirar a roupa contra o segundo governo de FHC (1999-2002), Carla, então presidente da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), ganhou fama nacional de "bunda-pintada".

Na semana passada, ela que é filiada ao PC do B, desde os 19 anos, participou de uma manifestação em Novo Hamburgo (RS) que fechou a BR 116.

Dessa vez, 12 anos depois da nudez, optou por protestar de roupa.

Em linhas gerais seu pensamento atual é de que a “ redução das tarifas foi uma grande vitória e que deve ser comemorada e "servir de impulso para mais organização e novas conquistas", embora "ainda não inverta a lógica das máfias do transporte". Rechaça a proibição ou hostilidade às bandeiras de partidos nos atos.

Acha que a depredação de bancos, grandes redes de lojas e ônibus não se justifica, mas "se explica". "Serão os empresários que mais lucram que pagarão a conta."

Já a do patrimônio público, "não faz o menor sentido, pois, além de ser mais um dinheiro que deixará de ser investido na educação e na saúde, divide e afasta o movimento". Só serve ao "prazer egoísta de quem se acha ultrarrevolucionário".

Formada em letras pela USP, Carla hoje assessora Rosana dos Santos Alcântara uma das diretoras da Ancine (Agência Nacional do Cinema), órgão ligado ao Ministério da Educação.

Jura que o cargo não é "boquinha", tampouco cota do seu partido o PC do B.

"Mandei meu currículo para diferentes pessoas, e a Rosana conhecia minha história de orelhada."

"Hoje, sou uma outra mulher", diz, mas os sonhos continuam os mesmos da época de "bunda-pintada". "Se mudanças não começarem a acontecer, a rua continuará a aumentar o volume de seu grito. E eu estarei em todas as manifestações com a perspectiva de construir um Brasil socialista."

Mesmo engajada no novo movimento de protestos, diz que não pretende ficar pelada de novo.

"Tirar a roupa sempre me pareceu um gesto natural", filosofa Carla, que hoje só se despe para o namorado, com quem está há três meses, ou numa praia de nudismo, "pra extravasar".

Foto: Beto Barata-31.mai.2001/Folhapress

Então presidente da UBES, de estudantes secundaristas, Carla protestava contra o governo federal, em 31 de maio de 2001

Recorda-se, então, daquele momento que precedeu à nudez de Brasília. "Diante do Congresso, os manifestantes da Ubes precisavam de um desfecho para o protesto." Uns sugeriram velas; outros cogitaram "enterrar" um boneco de FHC, ideias que demandavam tempo e, é claro, uma corridinha ao mercado.

"Me lembrei de protestos na Europa em que as pessoas tiravam a roupa. Vamos ficar pelados", disse, para o espanto dos garotos. "Eu fico!" O carro de som virou camarim. Em cinco minutos, estava pintada de guache.

Quando saiu, surpresa! Cadê os peladões? "Rodei a baiana. Agora que estou aqui, vou até o final", disse.

A imagem estampada nos principais jornais do Brasil e do mundo derrubou a máxima de Andy Warhol: em vez dos 15 minutos de fama, o espetáculo de Carlinha na capital do país durou 20.

Com uma bandeirinha da Ubes cobrindo os seios, entrou no espelho-d'água do Congresso e organizou os estudantes para formar a palavra CPI deitados no gramado.

E por que raios escondeu os peitos? "Desde menina, tenho complexo dos meus seios. O que me incomoda é a forma. Acho caído. Nunca gostei dessa parte do meu corpo", diz Carla, em sua casa, numa vilinha no centro do Rio, onde vive desde março.

Filha de um mecânico e de uma comerciante, Carlinha tem uma irmã mais nova, de 29 anos, que é modelista.

Foto: Beto Barata-31.mai.2001/Folhapress

Nua em frente ao Congresso Nacional, querendo derrubar FHC

Mas a guria mais velha sempre foi uma "rebelde com causas". No final de 99, já como presidente da Ubes, fugiu de casa, ao inventar que iria a um seminário de educação em Goiânia. Veio parar em São Paulo, onde dividiu uma república com 11 rapazes no bairro da Aclimação. Vivia na pindaíba, dura que só, à base de doações da entidade.

A "bunda-pintada" repercutiu, mas o que pintou de concreto? "Pintaram umas baixarias", brinca Carlinha, que chegou a ser assediada à época por congressistas. "Virei motivo de gozação: a peladona do PC do B, a banda pelada do partido", conta.

Qualquer bunda com outro sentido estava valendo, mas a dela era um problema. "Preconceito contra uma bunda politizada. Nunca quis virar celebridade. Meu sonho sempre foi e continua sendo fazer revolução no Brasil."

Como filiada a um partido que faz parte da base aliada do governo, acha que o PT está "fazendo uma revolução ao criar condições para isso".

Lula é o "melhor presidente que o país já teve". Dilma representa "as mulheres no poder", mas "precisa de mais diálogo com os movimentos sociais". Mensalão? "Não há provas concretas nos autos."

"Libertária comunista" --assim se define--, é a favor do aborto, da legalização da maconha e da união homoafetiva. Não esconde discreto orgulho ao assumir que ainda desperta nos homens um "fetiche de pegar a Carlinha", aquela da "bunda-pintada".

Carlinha com bunda pintada ou não, apesar dos elogios ao PT, por ter participado das manifestações atuais de forma tão engajada, vai perder o cargo de assessora da Ancine por ordem de Mercadante, o Ministro da Educação, nos próximos dias. A ditadura petista não perdoa a liberdade de criticar o partido e o governo Dilma. Podem anotar.

Foto: Daniel Marenco/Folhapress

Quem sabe se após essa desilusão ela volte a tirar a roupa. Tomara!


23 de jun. de 2013

Primeiro Ministro turco crê ser da mesma origem “conspiração” que gera protestos no Brasil e na Turquia

BRASIL – TURQUIA - Manifestações
Primeiro Ministro turco crê ser da mesma origem “conspiração” que gera protestos no Brasil e na Turquia
Os dois países estão sendo 'vítimas da mesma conspiração', disse Erdogan, neste sábado. Como no Brasil, manifestações na Turquia são marcadas por confrontos de manifestantes exaltados com a “tropa de choque” resultando em mortos e feridos. Não estranhemos, porém, se Dilma e sua turma, que nega a princípio, comece a encontrar semelhanças.

Ricardo Stuckert Filho/PR

Presidenta Dilma Rousseff durante encontro com o primeiro-ministro da Turquia, Recep Erdogan na Cúpula de Líderes do G20, (Cannes - França, 04/11/2011)

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Times Of Israel, G1, BBC Brasil, ABC News

O primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan comparou neste sábado (22) os protestos do Brasil com os que ocorreram recentemente na Turquia. Segundo Erdogan, o Brasil é vítima da mesma conspiração que o seu país, cujo objetivo é desestabilizar o governo.

"O mesmo jogo está sendo jogado sobre o Brasil", disse Erdogan. "Os símbolos são os mesmos, os cartazes são os mesmos; Twitter, Facebook são os mesmos, a mídia internacional é a mesma. Eles [os protestos] estão sendo conduzidos a partir do mesmo centro." As informações são da agência AP.

O movimento de contestação nasceu em 31 de maio no parque Gezi, quando a polícia reprimiu violentamente centenas de ecologistas que se opunham ao corte das árvores do parque. O protesto se espalhou por todo o país voltado, principalmente, contra Erdogan, que é acusado de autoritarismo e de querer islamizar a sociedade turca, segundo a agência France Presse.

As manifestações contra o governo do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), do premiê Recep Tayyip Erdogan, no poder desde 2002, deixaram ao menos dois mortos e milhares de feridos.

Essa comparação entre Brasil e Turquia já havia sido feita, não por Erdogan. Em entrevista à rede CNN nesta quarta-feira (19), o ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, negou que os protestos ocorridos na última semana no Brasil fossem parecidos com as manifestações que tomam as ruas da Turquia desde o começo de junho. "Acho que é uma situação diferente; as manifestações (no Brasil) tem sido pacíficas, predominantemente", disse Patriota à jornalista Christiane Amanpour.

"Podem ter ocorrido episódios de violência aqui e ali, e claro, as forças de segurança tinham que estar preparadas pois havia um grande número de pessoas envolvidas", disse o ministro.

Neste sábado, o primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, disse a milhares de simpatizantes na cidade de Samsun, na costa do Mar Negro que as semanas de protestos muitas vezes violentos contra o seu governo beneficiaram os inimigos da Turquia.

O premiê disse que opositores tanto na Turquia como no exterior haviam orquestrado as manifestações, dizendo que um "lobby de taxas de juros" promovido por especuladores nos mercados financeiros se beneficiaram com a agitação.

"Quem ganhou com estas três semanas de protestos? O lobby da taxa de juros, os inimigos da Turquia", disse Erdogan, de um palco enfeitado com seu retrato e um slogan apelando para os seus apoiadores para "frustrarem o grande jogo" jogado contra a Turquia.

"Quem perdeu a partir desses protestos? A economia da Turquia, mesmo que em pequena escala, e o turismo perdeu. Eles ofuscaram e mancharam a imagem e o poder internacional da Turquia", afirmou.

Ao término de seu discurso, cerca de 10 mil manifestantes se reuniram na Praça Taksim de Istambul, muitos deles para participar de uma cerimônia para depositar cravos na praça em memória às quatro pessoas que foram mortas nas manifestações.

Mais tarde a polícia usou canhões de água para dispersar os manifestantes, no primeiro confronto deste tipo em quase uma semana.

Em Samsun, uma multidão de cerca de 15.000 simpatizantes do Partido AK de Erdogan aplaudiu e acenou bandeiras turcas, enquanto ele chamava o público para dar a sua resposta aos protestos nas urnas, quando a Turquia realizar eleições municipais em março do ano que vem.

Foto: Sedat Suna/EPA


Foto:+Nelson Antoine/AP

Mórbidas semelhanças – No alto a tropa de choque turca, enfrenta manifestantes, na capital Ancara, embaixo a tropa de choque brasileira, faz o mesmo no Rio de Janeiro

Sem poder culpar a oposição, pois assim estaria lhe dando o crédito de ter mobilizando o povo insatisfeito, não estranhemos se nos próximos dias o desgoverno Dilma, de repente achar, que é sim semelhante, as origens das manifestações turcas e as brasileiras, pegando no mote, que o povo está sendo manipulado por alguma força estrangeira, para prejudicar o país.

Na verdade os organizadores das manifestações são os perigosos indivíduos alienígenas Twitter e Facebook>, pertencentes a uma tal de Rede Social que já deve estar sendo investigado pela Polícia Federal, pela Abin e pelo gabinete de segurança institucional, o mesmo que andou espionando o governador Eduardo Campos, e não foi capaz de sacar que o povo estava em ebulição.

22 de jun. de 2013

Manifestações : O grande líder

BRASIL - Manifestações
Manifestações : O grande líder
A onda de protestos que varreu o Brasil nos últimos dias é resultado da força avassaladora das redes sociais, que semeiam ideias, arregimentam seguidores e convocam passeatas

Foto: Fabio Motta/Estadão

RIO DE JANEIRO - Manifestantes na avenida Rio Branco expressam o poder de liderança da internet

Postado por Toinho de Passira
Texto de Mariana Queiroz Barboza, para a revista IstoÉ
Fonte: IstoÉ

De todas as transformações desencadeadas pela internet nos últimos anos, talvez a mais extraordinária de todas esteja em curso neste exato momento. Se é verdade que todo grande movimento popular é resultado da força magnética de um líder, agora é possível afirmar que a onda de protestos se deve ao poder irresistível de um novo tipo de liderança.

Os gritos de guerra não surgem mais em assembleias. As bandeiras não se submetem ao escrutínio de encontros às escuras de jovens revolucionários. As ações deixaram de ser planejadas em aparelhos partidários.

Na segunda década do século 21, os movimentos populares nascem, amadurecem e avançam de forma avassaladora no universo quase ilimitado das redes sociais.

Os protagonistas da indignação atendem pelo nome de Facebook, Twitter, Tumblr, WhatsApp e YouTube, os canais de comunicação mais usados pelos manifestantes para plantar suas ideias, arregimentar seguidores e agendar passeatas e ondas de revolta que paralisaram o Brasil, especialmente na semana passada.

A hashtag (símbolo equivalente ao jogo da velha e que é usado para agregar conteúdo na internet) #VemPraRua se tornou febre nacional. Na noite da quinta-feira 20, depois de uma convocação massiva nas redes sociais, as ruas brasileiras receberam, em diversas cidades, mais de um milhão de manifestantes.

“Diante de um movimento horizontal, sem cara nem líder, a internet passa a ser o principal meio de divulgação, porque é rápida, relativamente barata e produz bom retorno”, diz Maria do Socorro Braga, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo.

“Ela dá uma dinâmica à democracia que os partidos não conseguem oferecer.” O mesmo já havia acontecido, nos últimos dois anos, durante a Primavera Árabe, o Ocupe Wall Street e as revoltas de Londres.

“A internet é a soma de opiniões privadas sem a união de uma temática pública”, afirma o sociólogo Fábio Gomes.

Foto: Veja

SÃO PAULO - Ato na terça-feira 18 teve dois milhões de convidados

A dimensão das manifestações no Brasil mostra que a organização política nas redes sociais é provavelmente um caminho sem volta e os governantes que não tiverem sensibilidade para detectar esse fenômeno serão condenados ao desaparecimento.

Um exemplo recente: o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, culpou o Twitter pela série de protestos que tomou seu país no início do mês e ordenou a prisão de dezenas de ativistas sob a acusação de incitarem protestos pela rede social. Resultado: as manifestações só cresceram.

Na Itália, o novato Movimento 5 Estrelas, liderado pelo comediante Beppe Grillo, surpreendeu ao receber um quarto dos votos nas eleições parlamentares, em fevereiro. O partido, que propõe uma forma de democracia direta via internet, usou as redes sociais para angariar simpatizantes e eleitores, num momento em que as filiações partidárias não param de cair.

Grillo tem mais de um milhão de fãs no Facebook e no Twitter e seu blog é um dos mais lidos do país. No Brasil, o recado foi dado. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha publicada na quarta-feira 19, as redes sociais são a instituição com mais prestígio entre os paulistanos (65%). Para 72% dos que responderam à pesquisa, as redes têm mais influência na sociedade do que as Igrejas Católica (34%) e Universal (32%).

Fotos: Allan-Nucci-Leitor-Folha-S-Paulo


Foto: Emiliano Capozoli/Estadão


Foto: Mateus Bertolini Fernandes dos Santos/Facebook

MUNDO SEM FRONTEIRA: Em Dublin, Londres e Frankfurt, os brasileiros expressaram apoioa e incluíram outras reivindicações na pauta.

O primeiro estudo empírico que analisa os mecanismos por trás dos recrutamentos nas redes sociais foi conduzido por um grupo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, e publicado no jornal “Scientific Reports”, em dezembro de 2011.

Os pesquisadores examinaram o Twitter durante os protestos que tomaram 59 cidades na Espanha em maio daquele ano. A mobilização tinha por objetivo criticar a resposta política à crise financeira, o que posteriormente inspirou o Movimento Ocupe Wall Street, nos Estados Unidos.

“Ao examinar o comportamento coletivo dos internautas, estabelecemos que a maioria das pessoas é influenciada pelo que aqueles ao redor delas fazem”, concluiu a coordenadora do estudo, Sandra Gonzalez-Bailon. A pesquisa analisou o comportamento de 87.569 usuários e rastreou 581.750 mensagens sobre os protestos disparadas durante 30 dias.

Sua equipe viu que, quando as pessoas recebem muitas mensagens convocando para atos num curto espaço de tempo, elas tendem a responder a isso como uma “aparente urgência” e se juntam ao movimento. “Isso cria recrutamentos explosivos que se traduzem numa cascata global com efeitos verdadeiramente dramáticos, como se viu na onda de ocupações que se seguiu”, diz Sandra.

Foto: Gabriel de Paiva / O Globo




Fabrica no Rio de Janeiro produz máscaras de Guy Fawkes, ativista condenado à morte após tentar explodir o Parlamento Britânico no século XVII. Ficou popular por ter sido retratado no filme “V de Vingança” e virou símbolo de luta nas redes sociais

Em São Paulo, a cada minuto, quase 600 pessoas no Facebook foram convocadas para a manifestação da quinta-feira 20. O número de convites enviados, no entanto, pode ser muito maior, já que uma pessoa pode ser convidada mais de uma vez para um evento na rede. Estima-se que pelo menos 20% das pessoas chamadas, via rede social, para uma determinada passeata realmente deixam o computador em casa para ir às ruas.

Diretamente dependentes da internet, as redes sociais podem ficar reféns da qualidade de conexão no Brasil, especialmente em multidões. Quando muitas pessoas utilizam as mesmas antenas simultaneamente, a velocidade da transmissão de dados cai e, assim, dificulta o compartilhamento de informações e imagens.

Por isso, durante os protestos em São Paulo, os manifestantes pediam que as pessoas retirassem as senhas da internet sem fio (wi-fi) de suas casas para liberar o acesso a todos.

A rede N.I.N.J.A (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) tentou transmitir vídeos ao vivo das manifestações por meio de um sistema conhecido como “live streaming”. Só conseguiu na terça-feira 18, quando um grupo pequeno enfrentou a Tropa de Choque na rua Augusta, região central da cidade. Já passava das 22 horas e Filipe Peçanha, 24 anos, era provavelmente o único indivíduo a documentar a situação via 3G e transmiti-la para milhares de pessoas.

O vídeo teve, no total, 180 mil visualizações e um pico de 50 mil espectadores simultâneos. O grupo conseguiu a audiência pelo esforço de divulgação de uma equipe flutuante de colaboradores espalhados por todo o País, organizados pela hashtag #midianinja.

“Havia tanta gente interessada porque nós éramos os únicos no meio do conflito”, diz Bruno Torturra, do N.I.N.J.A. “As possibilidades são infinitas.”

Detalhe da primeira página do The New York Times

A primeira página do The New York Times, mostrando violência policial

As imagens da violenta repressão da Polícia Militar no protesto da quinta-feira 13 correram o mundo com rapidez e pautaram a imprensa internacional (a foto de uma repórter atingida no olho por uma bala de borracha se tornou um viral).

O jornal americano “New York Times” estampou na capa de sua edição da quarta-feira 19 a imagem de um policial militar do Rio de Janeiro que lança spray de pimenta contra uma manifestante.

A publicação também trouxe uma reportagem intitulada: “Protestos crescem enquanto brasileiros culpam seus líderes”. O britânico “Independent” publicou a mesma foto acompanhada de uma chamada irônica: “Te vejo no Rio?”.

No jornal francês “Le Monde”, a onda de protestos no País foi apresentada com destaque. No espanhol “El País”, a indignação dos brasileiros também esteve na capa. O veículo manteve em seu site, ao longo de toda a semana, uma parte reservada para a cobertura dos protestos.

No fim de semana, começaram as manifestações de apoio ao Brasil em cidades como Londres, Munique e Dublin e novos atos estão marcados até o fim do mês. Tudo combinado pela internet para quem quiser ver, compartilhar e participar.


21 de jun. de 2013

Mocidade independente, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL - Opinião
Mocidade independente
"Contrastando com o Brasil Maravilha que o embriagador marketing oficial mostra na TV, pago com dinheiro público, o Brasil real está nas ruas".

Foto: Wilson Dias/ABr

Dilma fingindo que não tem nada com isso

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta, para O Globo
Fonte: Blog do Noblat

Discursando para um auditório lotado de políticos, empresários, lobistas e funcionários, a presidente Dilma advertiu que “esta mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público” e foi aplaudida entusiasticamente pelos presentes, como se ninguém ali tivesse nada a ver com isso.

A democracia representativa foi desmoralizada pelos políticos, que a usaram para representar apenas os seus próprios interesses e de seus partidos, e agora os jovens gritam nas ruas “o povo unido/sem sigla e sem partido”, e são aplaudidos pela população. Para não ser vencido, o povo unido precisa estar representado no poder.

O governo e o Congresso não enfrentam uma urgente e fundamental reforma politica porque os políticos não querem se mostrar como são: incapazes de chegar a qualquer acordo no interesse do país — porque só sabem defender seus próprios interesses e de seus partidos, como uma corporação que se apossou do Estado e o usa em seu beneficio. Por isso os jovens gritam contra os privilégios dos políticos. E eles fingem que não é com eles.

Hoje as ruas gritam contra os gastos e roubalheiras da Copa do Mundo, que vai consumir bilhões de reais e o povo vai ver pela televisão, enquanto os velhos políticos e as novas elites da era Lula estarão lado a lado na tribuna dos privilegiados.

Contrastando com o Brasil Maravilha que o embriagador marketing oficial mostra na TV, pago com dinheiro público, o Brasil real está nas ruas.

As antigas militâncias apaixonadas, hoje amestradas e pagas, babam de inveja diante da TV, velhos partidos tentam pegar carona no movimento e são escorraçados. A maioria absoluta dos manifestantes despreza os atuais partidos — mas exige ser representada, ter voz e direitos respeitados. Novas formas de pressão e de expressão estão nas praças e no ar.

As cenas que vemos são uma representação dramática da insatisfação dos jovens com o futuro que os espera, se continuarmos representados pelo que o Brasil tem de pior, de saqueadores de verbas públicas a vândalos predadores.

No momento, quem me representa é meu neto de 17 anos.
Nelson Motta é jornalista.

20 de jun. de 2013

É preciso ouvi-los, de Míriam Leitão, para O Globo

BRASIL - Opinião
É preciso ouvi-los
”O mamútico governo federal, montado com 39 ministérios, faz anúncios sequenciais de planos que não se transformam em realidade. Em cada pronunciamento de sua campanha eleitoral antecipada, a presidente Dilma desenha um país cor de rosa onde tudo está resolvido...”

Foto: Reprodução - 18.jun.13/Facebook/Javier Cencig

Postado por Toinho de Passira
Texto de Míriam Leitão, para O Globo
Fonte: Blog do Noblat

Um surto de manifestação como o que se espalhou pelo Brasil nos últimos dias nunca tem uma explicação simples. É preciso humildade para admitir que ele não está inteiramente compreendido. Existem pistas. Ele tem a vantagem de quebrar a convicção de que o brasileiro suportaria todo o desaforo sem reagir: da deterioração dos costumes políticos ao desconforto econômico.

Há razões conjunturais e outras mais antigas para justificar qualquer manifestação de protesto no Brasil. A inflação está alta há muito tempo, o nível de inadimplência cresceu e isso eliminou o amortecedor que o crédito vinha exercendo, o desemprego de jovens chega a quase 16% em São Paulo.

No início da nova legislatura, o Congresso escolheu, para presidentes das duas Casas, líderes e integrantes de comissões que foram vistos como um acinte pela população. A lista com 1,3 milhão de assinaturas coletadas em tempo recorde contra Renan Calheiros na presidência do Senado foi ignorada com desprezo.

O mamútico governo federal, montado com 39 ministérios, faz anúncios sequenciais de planos que não se transformam em realidade. Em cada pronunciamento de sua campanha eleitoral antecipada, a presidente Dilma desenha um país cor de rosa onde tudo está resolvido, exceto por alguns da “turma do contra”.

Ontem, ela elogiou o movimento das ruas. Falta só agora conciliar o elogio aos protestos com a sua visão de que o governo faz tudo certo, que o país vai muito bem, e só os que torcem pelo pior é que não reconhecem.

O movimento é heterogêneo, apartidário, sem lideranças claras. As reivindicações são muitas. Como em qualquer onda de descontentamento, há sempre um estopim. Desta vez foi o aumento da tarifa de ônibus, que havia sido adiado. Mas o estopim é só isso: a gota que transborda o copo já cheio pelos desaforos diários.

O Brasil sofre uma aguda crise de representação política. Nossa democracia envelheceu precocemente pela repetição do jogo dos conchavos, pelas escolhas erradas para cargos importantes, pela mesmice de oligarquias que controlam partes da federação e nacos da administração pública.

Ainda que o protesto seja contra políticos em geral, e todos devem pôr suas barbas de molho, é preciso ponderar um fenômeno recente.

O governo do PT cooptou a maioria das organizações de representação da sociedade civil. Sindicatos e centrais sindicais, algumas ONGs, movimento estudantil, e até o Movimento dos Sem-Terra, recebem recursos federais e ficam na órbita do governo. Já não representam os interesses dos representados.

A UNE acaba de eleger sua nova presidente. Mais uma vez não se sabe como foi a escolha, mas já se sabia de antemão que seria do PCdoB. Como tem sido por décadas. Há muito tempo a UNE deixou de justificar o nome e virou um feudo do partido da base governista. É plataforma de lançamento do partido.

Na economia, a inflação de alimentos está em 13,5% e tem estado persistentemente em níveis altos, a de serviços está em 8,51%, as famílias já comprometem quase um quarto da sua renda mensal com o pagamento de dívidas.

O desemprego de jovens tem índices de 12,6% no Rio, 15,9% em São Paulo e 17,4% em Salvador. Nada disso é novo, mas o torniquete foi rodando. Famílias com ambições recentes alimentadas pela abundância do crédito já sentem o efeito colateral.

Para a imprensa, o desafio é enorme diante de tantas demonstrações de protesto. O maior erro dos jornalistas e das pesquisas de opinião foi não ter percebido o avanço do descontentamento.

Mas, se nessa pilha de motivos para a insatisfação fosse necessário escolher um, talvez o mais acertado seja essa sensação de divórcio entre os governantes e os brasileiros. Movimentos como esse produzem alguns excessos, mas sempre fortalecem a democracia. É preciso ouvi-los.
*Acrescentamos subtítulo e foto a publicação original

Corrupção é o foco, de Merval Pereira, para O Globo

BRASIL - Opinião
Corrupção é o foco
"O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que "a única coisa que mete medo em político é o povo na rua"

Foto: AFP

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira, para O Globo
Fonte: Blog do Merval

Mesmo que as reivindicações sejam várias e muitos cartazes exibam anseios mal explicados ou utopias inalcançáveis, há um ponto comum nessas manifestações dos últimos dias: a luta contra a corrupção. A vontade de que o dinheiro público seja gasto com transparência e que as prioridades dos governos sejam as questões que afetam o dia a dia do cidadão comum, como a saúde, a educação, os transportes públicos, está revelada em cada palavra de ordem, até mesmo nas que parecem nada ter a ver com o fulcro das reivindicações, como no protesto contra a PEC 37.

Nele está contido o receio da sociedade de que, com o Ministério Público impedido de investigar, o combate à corrupção seja prejudicado. Todas as questões giram em torno do dinheiro público gasto sem controle, como nos estádios da Copa do Mundo, todos com acusações de superfaturamento. O dinheiro que sobra para a construção de “elefantes-brancos” falta na construção de hospitais ou de sistemas de transportes que realmente facilitem a vida do cidadão.

O mundo político está de cabeça para baixo tentando digerir as mensagens que chegam da voz rouca das ruas, como dizia Ulysses Guimarães, que dizia também que “a única coisa que mete medo em político é o povo na rua”. Ninguém entende, por exemplo, por que houve esse verdadeiro estouro da boiada agora, e não há um mês ou mesmo há um ao.

Eu tenho um palpite: assim como as manifestações na Tunísia, as primeiras da Primavera Árabe, começaram com o suicídio de Mohamed Bouazizi, de 26 anos, vendedor ambulante de frutas e verduras, que ateou fogo ao corpo depois de ser proibido de trabalhar nas ruas por não ter documentos nem dinheiro para pagar propinas aos fiscais, as manifestações aqui foram grandemente impulsionadas pela reação violenta da polícia em São Paulo na semana passada.

O movimento contra o aumento das passagens de ônibus poderia não ter a amplitude que ganhou se não houvesse uma reação nas redes sociais à atitude da polícia, como se todos sentissem a opressão do Estado na sua pele, e de repente liberassem os diversos pleitos que estavam latentes na sociedade.

Creio que foi a partir do entendimento de que uma reivindicação justa como a da redução das tarifas de ônibus estava sendo tratada simplesmente como um pretexto para arruaças e vandalismos que a sociedade passou a se mobilizar para ampliar suas reivindicações.

Isto nada tem a ver com comparações entre as mobilizações que ganham as principais cidades do país e a Primavera Árabe, pois estamos em uma democracia e não se trata de derrubar governos, mas de mudar a maneira de geri-los, política e administrativamente. E também não é possível considerar que os abusos de um dia impedem as polícias de reprimir a parte radicalizada das manifestações, que vandaliza as cidades ou tenta invadir prédios públicos ou as residências das autoridades.

Creio mesmo que no Rio e em São Paulo as autoridades ficaram paralisadas diante da violência de parte dos manifestantes e não agiram com o rigor devido nessas ocasiões. O que demonstra falta de bom senso. Um detalhe que define bem a divisão desses movimentos foi o grupo de jovens que foi ao centro do Rio ontem tentar limpar e consertar em parte o que os vândalos fizeram no dia anterior. E em São Paulo, em frente ao Palácio dos Bandeirantes, enquanto um grupo tentava derrubar o portão de entrada, outros o recolocavam no lugar.

O ambiente econômico também deve ter contribuído para quebrar aquela falsa sensação de bem-estar. E é impressionante que o imenso aparato de informações de que cada governo dispõe, especialmente a presidência da República, e as pesquisas de opinião não detectaram essa indignação que explodiu nas ruas.

O dono de um desses institutos de opinião que vende seus serviços para o PT e acrescenta a eles, como um bônus, comentários em revistas chapas-brancas, chegou a ironizar as oposições e analistas que criticavam o governo, afirmando que viviam em uma realidade paralela, que nada tinha a ver com a vida do cidadão comum, que estava muito satisfeito. Segundo ele, não havia sinal de mudança de ventos que suas pesquisas pudessem captar.

Também o ministro Gilberto Carvalho, da secretaria geral da Presidência, que anunciou que “o bicho vai pegar”, parece estar atordoado com o bicho novo que está pegando sem que ele, ou o PT, dominem a situação.
*Acrescentamos subtítulo e foto a publicação original

Fadiga Política, de Maynard Marques de Santa Rosa

BRASIL - Opinião
Fadiga Política
“Nada existe de permanente, a não ser a mudança” (Heráclito, 540-470 a.C.)
General brasileiro analisa causas e consequências do momento de inquietação vivido pela nação brasileira

Foto: AFP

Postado por Toinho de Passira
Texto de General Maynard Marques de Santa Rosa, para o site Alerta Total
Fonte: Alerta Total

Nos comentários que fez, em 1947, sobre a sociologia psicológica de Pareto, Gilberto Freyre consagrou o conceito de fadiga política – “A fadiga do povo em face de seus líderes, que induz os mesmos efeitos da fadiga industrial entre os operários”.

Os sintomas parecem evidentes. Após longo ciclo de anomia política, as manifestações do chamado “movimento passe livre” começam a quebrar a inércia da estabilidade artificial a que o Brasil vem submetido, há mais de 20 anos.

As causas de insatisfação foram claramente resumidas pela jornalista Ruth de Aquino, em seu artigo O Outono da Ignorância, na Revista Época: “Os preços sobem, a inflação está em alta, os impostos absurdos não revertem em saúde, moradia, transporte e educação, os empregos começam a minguar, as empresas demitem em massa, sem repor vagas. (...) O noticiário continua coalhado de mordomias no Legislativo, Judiciário e Executivo”. A essas razões poderíamos aditar a corrupção renitente e a frustração popular ante a expectativa de impunidade do “mensalão”.

Menos avaliada é a questão da ineficiência do setor público. A existência de 39 ministérios transforma o governo em um fórum inócuo e caro, onde muito se discute e pouco se decide. Só com o aluguel de imóveis fora da Esplanada dos Ministérios, a despesa ultrapassou R$ 2 milhões por dia em 2012, num total de R$ 741,4 milhões, segundo o SPU (Secretaria do Patrimônio da União).

O uso de cargos políticos para cooptar apoio dilui o poder delegado e, portanto, a capacidade de decisão, concentrando-o na autoridade delegante, tornada árbitro de tudo.

Além do mais, os negócios públicos têm sido em geral conduzidos de uma forma parcial e facciosa, que põe em risco a liberdade, a harmonia social e o direito de propriedade.

As intervenções erráticas e a falta de coerência na condução da economia afetaram a credibilidade e já se refletem nos investimentos, levando à estagnação. E o estímulo equivocado ao consumo sem preocupação com o aumento da oferta, alimenta a inflação, reduzindo a confiança do consumidor e a atividade econômica que gera emprego.

Assim considerado, o modelo patrimonialista adotado no País nas duas últimas décadas parece exaurido. O enigma do “day after” é que manifestações provocam mudança, mas não apresentam soluções, ensejando espaços de poder para novas aventuras.

Em meio a expectativas de toda a ordem, uma única coisa é certa: o Brasil está fatigado e precisa mudar. Uma agenda de desafios se impõe, portanto, na definição das prioridades futuras. E a primeira providência precisa ser a varredura do entulho ideológico, desobstruindo o caminho do progresso.
Maynard Marques de Santa Rosa, General da Reserva do Exército Brasileiro, em fevereiro de 2010, foi exonerado pessoalmente pelo Presidente Lula, do cargo de chefe do Departamento Geral de Pessoal do Exército, em fevereiro de 2010, por ter chamado em artigo, a então recém-criada, Comissão da Verdade de "comissão da calúnia";

Dizia no texto que a comissão era composta por "fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o sequestro de inocentes e o assalto a bancos como meio de combate ao regime para alcançar o poder".

Anteriormente havia sido afastado do cargo de Chefe da Secretaria de Política e Estratégia e Assuntos Internacionais (SPEAI) do Ministério da Defesa, por ter criticado, em depoimento no Congresso, a atuação das ONGs que atuam na Amazônia, o que acabou gerando a CPI das ONGs.

Também discordou do emprego do Exército ao lado da Polícia Federal contra os posseiros e residentes da Reserva Raposa Serra do Sol.

Depois da última exoneração, ficou sem função nos dois meses finais de sua permanência no Exército, até passar para a reserva, compulsoriamente, em até 31 de março de 2010, por ter completado 12 anos de generalato.