17 de dez de 2011

Fim da guerra do Iraque?

IRAQUE
Fim da guerra do Iraque?
Os EUA chegaram a ter 170 mil soldados no Iraque, e agora restam apenas cerca de 4.000, que deverão sair até o final do ano. O contingente em 2012 será de apenas 150. Caberá então ao Iraque enfrentar sozinho a insurgência sunita - enfraquecida, mas teimosa -, as tensões sectárias e a incerteza política. Com um custo econômico na casa dos trilhões de dólares e a perda de quase 4.500 vidas americanas será que a aventura do Iraque valeu a pena, para os americanos? E para os iraquianos?

Foto: Mohammed Ameen/Reuters

NOSTÁLGICA RETIRADA - O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira o encerramento formal da Guerra do Iraque, com a retirada dos últimos soldados do país e o final das operações que duraram quase nove anos, custaram bilhões de dólares e milhares de vidas.

Postado por Toinho de Passira
Fontes:The New York Times, BBC Brasil, Reuters, Iraq Body Count…

Quase nove anos depois de os primeiros tanques americanos terem ultrapassado a fronteira do Iraque, o Pentágono declarou o fim oficial da guerraa, encerrando um conflito controverso que reformular a política americana e deixou um legado amargo do sentimento antiamericano em todo o mundo muçulmano. – diz o The New York Times

O secretário de Defesa americano, Leon E. Panetta marcou a ocasião com um discurso em um pátio de concreto fortificado no aeroporto de Bagdá, com segurança mais que redobrada e dezenas de helicópteros patrulhando o espaço aéreo acima das cabeças das autoridades.

"Deixe-me ser claro: o Iraque será testado nos próximos dias - pelo terrorismo e por aqueles que procuram dividir, por questões econômicas e sociais, pelas exigências da própria democracia", disse Panetta.

"Os desafios permanecem, mas os EUA vão estar lá para acompanhar o povo iraquiano como eles conduzem os desafios para construir uma nação mais forte e mais próspera."

A guerra iniciada em 2003, como uma das reações militares dos americanos aos ataques as torres gemeas do World Trade Center. Com a busca por Osama Bin Laden no Afeganistão mostrava-se infrutífera, o governo Bush resolveu atacar em outra frente: focou no Iraque insinuando que Saddan Roussen, o ditador iraquiano, “poderia” abrigar grupos terroristas islâmicos e se lançou numa campanha internacional, alegando que o governo iraquiano era uma ameaça mundial, pois estava produzindo armas de destruição em massa.

Foto: Khalid Mohammed/Associated Press

Panetta diz que os Estados Unidos haviam dado uma oportunidade de sucesso aos iraquianos, e que cumpriram a missão de tornar o país soberano e independente, ainda que ao preço de muitas vidas.

As supostas armas de destruição biológica em massa jamais foram encontradas pelas forças de ocupação e sabe-se hoje que tanto os americanos e seus princiapais aliados ocidentais que o apoiaram militarmente na invasão, destacando a Inglaterra, sabiam que a as armas não existiam, antes mesmo da ocupação.

As alegadas ligações de Saddam com grupos terroristas islâmicos nunca foram comprovadas. Na verdade, os grupos terroristas islâmicos opunham-se a Saddam, pois eram xiitas em sua maioria, enquanto o líder iraquiano era sunita e ao contrário do que se imaginava, o Iraque era um dos países mais laicos da região.

Mesmo assim o ditador, Saddan Roussen, acabou capturado e executado, após ter sido condenado à morte por um tribunal iraquiano.

Até o pretexto nobre de que a guerra pretendia levar a democracia para o Oriente Médio, não convence mais ninguém há muito.

A retirada americana abre um novo capítulo para o Iraque, uma nação forjada menos de um século atrás por colonialistas britânicos e torturadas desde então por rebeliões, guerras e ditadura brutal.

Tem uma fronteira entre os impérios persa e árabe, o país ainda se esforça para equilibrar as ambições do Irã, o poderoso vizinho teocrática cujo programa nuclear tornou-se uma profunda preocupação para os Estados Unidos e seus aliados.

Foto: Michael Kamber/The New York Times

Para os americanos, a cerimônia na quinta-feira marcou um momento desconfortável de encerramento, sem noção clara do que tenha sido os ganhos e as perdas. Até a última sexta-feira passada, a guerra tinha ceifado 4.487 vidas americanas e produzido 32.226 americanos feridos na ação, de acordo com estatísticas do Pentágono.

Essas perdas humanas – e a constatação humilhante das falsas motivações ajudou a transformar o sentimento dos americanos em relação à guerra, contribuindo para uma queda na popularidade do presidente George W. Bush durante seu segundo mandato e para a eleição de Barack Obama, que havia se oposto à invasão em 2003 e prometeu durante a campanha e está cumprindo agora, a retirada das tropas do território iraquiano.

Os americanos estão levando as suas tropas, mas como pretendiam, não estão deixando o Iraque com instituições sólidas e seguras a ponto de garantir a permanencia do estado de direito e a democracia plena.

Embora cerimônia, de quinta-feira, representou o fim oficial da guerra, os americanos ainda tem duas bases no Iraque e cerca de 4.000 soldados, incluindo várias centenas que assistiram à cerimônia. No auge da guerra em 2007, havia 505 bases e mais de 170 mil soldados.

As tropas dos EUA deveriam permanecer no país como parte de um acordo que previa o treinamento das Forças Armadas iraquianas. Washington havia solicitado a Bagdá que pelo menos 3.000 soldados permanecessem no país. Mas não houve consenso a respeito da imunidade judicial dos soldados norte-americanos, pleiteada pelos EUA.

Foto: David Leeson

A INVASÃO – 2003 - A foto simbolica mostrando o iraque rendindo e humilhado nas mãos do invasor poderossímo

As lembranças dos abusos, prisões e assassinatos cometidos por soldados norte-americanos ainda assombram muitos iraquianos, e a concessão de imunidade aos militares estrangeiros era um assunto delicado demais para que o governo o submetesse ao dividido Parlamento local.

A partir de 2012, permanecerão no Iraque apenas cerca de 150 soldados dos EUA, na qualidade de adidos militares, ligados à embaixada. Instrutores civis assumirão a tarefa de treinar as forças do Iraque para o uso de equipamentos militares norte-americanos.

Há a possibilidade de essa cooperação ser ampliada no próximo ano, com mais militares americanos envolvidos nos treinamentos dos seus colegas iraquianos.

"Do ponto de vista de serem capaz de se defender contra uma ameaça externa, francamente, eles têm capacidade limitada." – disse o Gen. Lloyd J. Austin III, o comandante americano no Iraque, em uma entrevista após a cerimônia.

A defesa militar do Iraque tem falhas críticas em várias áreas: as dificuldades estão em toda a parte, desde a fragilidade na defesa aérea até as dificuldades de execução de tarefas básicas de logística, como abastecer suas tropas com alimentos e combustíveis, somando-se a incapacidade de fazer a manutenção dos veículos blindados herdando os americanos e dos jatos que está comprando.

Embora a saída americana tenha retirado a motivação central para os jihadistas que invadiram o Iraque após a invasão em 2003, o braço iraquiano da Al-Qaeda, mostra-se vivo e eficiente, e não parece disposto a encerrar suas atividades. Ao longo do ano passado, levaram a cabo uma série de atentados espetaculares, nas áreas “mais seguras” e protegidas pelos americanos.

Foto: Mario Tama/Getty Images

Momento de silencio, recordando os quase 4.500 americanos mortos em cambate

Mesmo em seus dias de crepúsculo, os militares americanos tem sofrido ataques humilhante que modificou inclusive a forma como se pretendia entrega das bases aos iraquianos.

As cermônias deixaram de serem anuncios publicos depois que os insurgentes estavam se aproveitando do clima de arrumar as malas para a mudança, para atacar os postos militares.

Desde então, o fechamento das bases foram feitas em segredo, nada de desfile de tropas e mudanças de bandeiras no mastro principal. Tudo passou a acontecer em reuniões a portas fechadas, onde oficiais americanas e iraquianas assinavam documentos que legalmente passavam o controle das instalações, trocaram apertos de mão enquanto entregavam e recebiam chaves como se fosse à entrega de um imóvel residencia.

Todos os números a respeito dessa guerra são controversos: segundo dados oficiais quase 60 mil iraquianos perderam suas vidas na guerra, em grande maioria por equívocos dos invasores, que confundiam cidadãos de bem com terroristas e vice-versa. Todavia, a respeitada organização “Iraq Body Count” contesta esses números, para eles, ocorreram entre 97.461 e 106.348 mortes entre os iraquianos até julho de 2010.

O Serviço de Pesquisa do Congresso, estima que, no final do ano fiscal de 2011, os Estados Unidos terão gasto quase US$ 802 bilhões para financiar a guerra. No entanto, o economista vencedor do prêmio Nobel Joseph Stiglitz e a professora de Harvard Linda Bilmes, afirmam que o custo real chega a US$ 3 trilhões se os impactos adicionais no orçamento e na economia dos Estados Unidos forem levados em conta.

Foto: Mohanned Faisal/Reuters

Em Falluja, antigo reduto da insurgência da Al Qaeda, e cenário de algumas das piores batalhas da guerra, milhares de iraquianos celebraram na quarta-feira a retirada norte-americana. Algumas pessoas queimaram bandeiras dos EUA, outras exibiam fotos de parentes mortos.

Os países vizinhos do Iraque também ficarão muito atentos a como Bagdá enfrentará seus problemas sem o amparo da presença militar norte-americana, e num momento em que a crise na vizinha Síria ameaça alterar o equilíbrio étnico e sectário da região.

A liderança xiita do Iraque vê na retirada o recomeço da soberania nacional, mas muitos iraquianos questionam que rumo o país tomará sem a presença dos militares estrangeiros.

Alguns temem violência sectária, ou que a Al Qaeda volte a semear o terror nas cidades. A disputa por petróleo e territórios entre os curdos, que controlam uma região semiautônoma no norte, e os árabes, que dominam o governo central, é outro assunto delicado.

A violência recuou desde o auge dos conflitos sectários, quando homens-bomba e esquadrões de atiradores chegavam a fazer centenas de vítimas por dia, e o país esteve próximo de uma guerra civil entre sunitas e xiitas.

Em geral, as forças de segurança são vistas como capazes de conter o que resta da insurgência sunita e as milícias xiitas, que autoridades dos EUA afirmam ser patrocinadas pelo Irã.

Mas, mesmo para quem desfruta da sensação de soberania, a segurança continua sendo uma grande preocupação. Os ataques atualmente têm como alvo órgãos públicos e forças locais de segurança, numa tentativa de mostrar que as autoridades não estão no controle.

Foto: Maya Alleruzzo/Associated Press

De volta para casa

Foto: Thaier al-Sudani/Reuters
A comemoração dos militares iraquianos ao assumirem a antiga base americana de Camp Echo

A queda de Saddam abriu caminho para que a maioria xiita do país ascendesse a posições de poder após décadas de opressão sob o Partido Baath, ligado aos sunitas. Mas, nove anos depois da invasão, o Iraque continua sendo um país rachado.

Isso se reflete até na coalizão chefiada pelo primeiro-ministro Nuri al Maliki, um xiita, que é retalhada por divisões sectárias. O governo às vezes parece paralisado, porque os partidos se contrapõem conforme critérios sectários em disputas por leis ou cargos.

Os sunitas iraquianos temem a marginalização ou mesmo um sorrateiro regime autoritário sob o comando de Maliki. Uma recente onda de repressão a ex-integrantes do Partido Baath alimentou esses temores.

As divisões sectárias deixam o Iraque vulnerável à interferência de vizinhos que tentam garantir mais influência, especialmente porque nações árabes controladas por sunitas veem o envolvimento do Irã como uma tentativa de controlar os partidos xiitas do Iraque em detrimento dos sunitas.

A liderança xiita do Iraque, por sua vez, teme que a crise na Síria acabe resultando em um governo sunita radical em Damasco, o que agravaria as tensões sectárias no próprio Iraque.

"Valeu a pena? Tenho certeza de que sim. Quando chegamos aqui, o povo iraquiano parecia feliz em nos ver", disse o primeiro-sargento Lon Bennish, arrumando suas malas.

"Espero que estejamos deixando para trás um país que diga: 'Ei, estamos melhores agora do que antes'."

Foto: Davis Turner/Getty Images

O presidente dos EUA, Barack Obama - que se elegeu com a promessa de retirar as tropas do Iraque, emocionado fala para as tropas que regressaram no Fort Bragg, na Carolina do Norte.

Foto: Joe Raedle/Getty Images

Soldados da 1ª Divisão de Cavalaria do Exército dos EUA chegam em sua base de Fort Hood, Texas depois de ter sido parte de um dos últimos unidades de combate americanas para sair do Iraque.


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