16 de nov de 2014

Marta Suplicy, a líder da guerra fria contra Dilma e o PT

BRASIL – Opinião
Marta Suplicy, a líder da guerra fria contra Dilma e o PT
A petista não esconde porque saiu do governo: "A maneira estreita e autoritária como Dilma, Mercadante e Rui (Falcão) conduzem o governo e o PT. Eles não ouvem ninguém, não reconhecem os erros e levam o partido ao isolamento." – diz Marta

Foto: Carlos Roberto/Hoje em Dia/Futura Press

EGOS INFLAMADOS - Dilma, entre Mercadante e Marta, num evento do governo, em outubro. Marta não aceitou entregar a carta de demissão a Mercadante e diz que só continua no partido "se houver mudança, novos compromissos, recuperação de credibilidade..." LEGENDA

Postado por Toinho de Passira
Texto de Dora Kramer
Fonte: Fontes: EstadãoÉpoca

A presidente Dilma Rousseff ainda descansava no Palácio da Alvorada na segunda-feira, dia 27 de outubro, depois da extenuante vitória contra o tucano Aécio Neves. Dilma estava praticamente sem voz, como mostrara no discurso da vitória, horas antes. Enquanto isso, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, telefonava para Beto Vasconcelos, o chefe do gabinete presidencial no Palácio do Planalto. Menos de 24 horas depois do resultado, Marta já insistia em conversar com Dilma para acertar o mais rápido possível sua saída do governo.

Marta chegou a ir ao Palácio da Alvorada, mas Dilma não a recebeu alegando cansaço. Falaram por telefone. Uma conversa difícil, em que a então ministra expôs as razões da saída, entre as quais boicotes na administração e atitudes de desdém no campo político; a presidente reagiu, disse que ela estava com mania de perseguição. Marcaram reunião para dali a uma semana, no Palácio do Planalto.

Durante uma hora e meia expôs todas as suas contrariedades, tentou entregar a carta, Dilma mais ouviu do que falou, mas não pegou o pedido de demissão. Sugeriu que Marta saísse em dezembro e, diante da negativa, pediu que ela esperasse até a volta da viagem à Austrália, dia 18. Pediu sigilo.

Tudo acertado, dois dias depois dessa conversa, Marta viu divulgada a notícia de que o ministro Aloizio Mercadante estava pedindo as cartas de demissões de todos os ministros para o dia 18. Nessa hora sentiu-se liberada de qualquer compromisso e antecipou a demissão que já estava decidida desde meados do ano.

Marta decidiu sair sozinha para manter o protagonismo que uma saída coletiva lhe negaria. Queria entregar seu cargo a Dilma, não a Mercadante, um colega do PT paulista com quem disputa espaço e prestígio. Por isso, às 10h30 da última terça-feira, Marta protocolou sua carta de demissão na Casa Civil, no 3o andar do Palácio do Planalto.

Trinta minutos depois, às 11 horas, publicou a carta na íntegra em sua página de uma rede social. No trecho mais agudo, escreveu:

“Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada, que resgate a confiança e credibilidade ao seu governo e que, acima de tudo, esteja comprometida com uma nova agenda de estabilidade e crescimento para o nosso país”.

Marta e Dilma não conviviam bem havia tempos. Elas se aproximaram em 2009, porque o então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, pediu a Marta que organizasse eventos para apresentar sua futura candidata ao PT paulista. Ela fez jantares com petistas, empresários e socialites paulistanos para conhecerem Dilma. Viajou para os Estados Unidos com Dilma e a apresentou a seu cabeleireiro, Celso Kamura, até hoje o oficial encarregado dos fios e da maquiagem da presidente.

Por essa aproximação e pelo histórico de ex-prefeita de São Paulo, Marta chegou a ser cotada para o Ministério das Cidades, quando Dilma se elegeu pela primeira vez. Ficou na fila. Só assumiu o Ministério da Cultura, uma Pasta com orçamento menor, em 2012, como consolação por não ter sido candidata a prefeita de São Paulo pela terceira vez. Teve dificuldades para obter recursos. Conseguiu aprovar o Sistema Nacional de Cultura e criar o cartão Vale Cultura. Marta foi preterida de novo numa disputa eleitoral no ano passado, quando Lula escolheu o novato Alexandre Padilha, ex-ministro da Saúde, para disputar o governo de São Paulo.

Marta se irritou em setembro. Na noite do dia 15, num encontro com artistas no Teatro Casa Grande, no Leblon, no Rio de Janeiro, passou pelo constrangimento de ser recebida pela plateia com frieza, enquanto um de seus antecessores – e considerado provável sucessor –, Juca Ferreira, era aplaudido e ovacionado com gritinhos. “Foi uma das maiores humilhações da minha vida”, disse Marta a colegas ministros após o evento.

Para piorar, numa carreata na cidade de São Paulo, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, solicitou a Marta que descesse da caminhonete onde estavam Dilma, Padilha e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Falcão pediu a ela para ceder o lugar a seu suplente no Senado, Antonio Carlos Rodrigues, vereador com votos na região da carreata. Falcão sugeriu a ela que se acomodasse noutro carro, onde estavam ministros e parlamentares. Marta não aceitou a proposta, bateu boca com Falcão e, depois disso, desapareceu da campanha. Emissários de Lula e Dilma pediram a ela para voltar, por causa da vantagem do tucano Aécio Neves em São Paulo. Marta exigiu que Lula e Dilma ligassem pessoalmente para ela. Ela espera a ligação até hoje.

Com sua saída ensaiada, Marta atraiu a atenção que queria e provocou a confusão que desejava. Dilma foi surpreendida pela divulgação da carta – não pelo conteúdo, que já conhecia – e pela saída de Marta antes do combinado. Soube de tudo no Catar, onde seu avião parara, para que ela pudesse passar a noite e descansar da longa viagem até a Austrália, numa suíte de cerca de 700 metros quadrados. Dilma não gosta de voar à noite e, sempre que pode, viaja apenas de dia.

Falando a colunista do Estadão, Dora Kramer, a senadora, ex-ministra e ainda petista Marta Suplicy diz abertamente que está em seus planos sair do PT. Embora ainda diz examinar três hipóteses: disputar a legenda do PT com Fernando Haddad para concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2016, sair do partido ou ficar no Senado aguardando a eleição para o governo do Estado em 2018.

Caso resolva mudar de endereço, há vários em vista: PMDB, PR, Rede. "De qualquer modo, é uma decisão que não preciso tomar de imediato. Pode ser daqui a um ano ou nos próximos meses", diz ela.

A razão da provável saída? "A maneira estreita e autoritária como Dilma, Mercadante e Rui (Falcão) conduzem o governo e o PT. Eles não ouvem ninguém, não reconhecem os erros e levam o partido ao isolamento."

Por essas e várias outras é que pensa mesmo em sair do partido. Tudo vai depender, segundo ela, do rumo que as coisas vão tomar daqui em diante. "É como eu disse na carta, se houver mudança, novos compromissos, recuperação de credibilidade, muito bem, mas se ficar tudo do mesmo jeito, não há outro caminho."

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