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14 de dez. de 2014

Chumbo grosso, cabeça fria - Nelson Motta

BRASIL – Opinião
Chumbo grosso, cabeça fria
O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão poderosos. Como diria Paulo Maluf com sua voz anasalada e a crueza de um quibe cru: “Não adianta trocar as moscas, precisamos é sair da merda.”

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelsinho Motta
Fonte: Coluna do Nelson Motta

A emoção serve para ganhar eleição, mas para governar o que vale é a razão. Mas parece cada vez mais difícil, justo num momento muito difícil para o país, estabelecer-se um debate racional e qualificado sobre os graves problemas que todos conhecem. Ninguém, nenhuma corporação, nenhum partido tem força política, popular, econômica e moral para mudar nada sozinho. É hora de negociar soluções para os impasses que atrasam e empobrecem o país, sem ser mais rigoroso com os outros e mais complacente com os seus.

Mas, quando se fala em negociar, qualquer brasileiro logo associa a falcatruas, vantagens indevidas, propinas e outros crimes corriqueiros no cotidiano nacional, em todos os níveis da administração pública. Sim, existem negociações legítimas e possíveis, dependendo dos interlocutores, de sua credibilidade e, principalmente, de boa vontade e tolerância, que, longe de serem sinais de fraqueza, representam superioridade moral.

Na negociação que levou Joaquim Levy ao comando da economia, a razão venceu a emoção. Mas sobre o aparelhamento das estatais, um dos fatores geradores da corrupção, ninguém fala. Não basta trocar de nomes, é preciso mudar conceitos e valores. Ou, como diria Paulo Maluf com sua voz anasalada e a crueza de um quibe cru: “Não adianta trocar as moscas, precisamos é sair da merda.”

Cheios de razão, milhares de funcionários e ex-diretores corretos, eficientes e dedicados da Petrobras, e de outras estatais, a imensa maioria que construiu com seu trabalho a grandeza das empresas, estão indignados com a tática defensiva dos delinquentes de dizer que todos fazem, que sempre foi assim, jogando no mesmo saco de lixo os melhores e os piores para dar a ideia que todos são iguais e, por isso, a culpa deve ser diluída, e ninguém condenado. Como se fossem todos óleo do mesmo barril, querem que a mancha se espalhe no mar do esquecimento e tudo mude para nada mudar.

O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão poderosos, ao mesmo tempo: nada é mais organizado do que o crime no Brasil.

20 de jul. de 2013

Fazendeiros do ar, por Nelson Motta, para O Globo

BRASIL – Opinião
Fazendeiros do ar
Todo político adora ser conhecido, ter um rosto familiar, ser cumprimentado nas ruas, afinal eles vivem disso. Mas agora, com raras e notórias exceções, eles querem passar despercebidos, se possível invisíveis, como se fossem, ó ironia, cidadãos anônimos e comuns.


FAZENDEIRO AÉREO - Deputado Henrique Alves, (PMDB-RN)
presidente da Câmara dos Deputados

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta, para O Globo
Fonte: Blog do Noblat

Eles podem até acreditar que é tudo inveja e ressentimento dos que estão fora do ar, como devem lhes dizer seus assessores, mas os abusos de aviões da FAB pelos presidentes da Câmara e do Senado se tornaram um símbolo do ponto de saturação a que chegamos e de como estamos longe — e eles mais longe ainda — das transformações exigidas pelas ruas e que eles fingem que ouviram, votando projetos populistas de afogadilho, mas fazendo tudo para atrasar o fim de seus privilégios.

Diante de tudo que aconteceu ultimamente, a melhor justificativa que eles poderiam dar para voar em jatos da FAB para casamentos e jogos de futebol seria a segurança, a que têm direito por lei.

Como enfrentar um aeroporto lotado, escondido nas salas VIP e cercado de assessores e seguranças? Como entrar num avião de carreira sob vaias e insultos? Para os mais conhecidos já está difícil ir a bares e restaurantes, e os cinemas, mesmo escurinhos, ficam perigosos quando a luz acende. Estádios, nem pensar. Está dura a vida dos políticos brasileiros.

Todo político adora ser conhecido, ter um rosto familiar, ser cumprimentado nas ruas, afinal eles vivem disso. Mas agora, com raras e notórias exceções, eles querem passar despercebidos, se possível invisíveis, como se fossem, ó ironia, cidadãos anônimos e comuns.

Mas suas fotos caíram na rede e vai ser arriscado enfrentar as multidões nas festas juninas do Nordeste sob a ameaça de vaias e insultos a qualquer parada da música ou imagem no telão. A quadrilha não pode parar.

Mas eles não mudam, é da sua natureza, só vão trocando de nome e de partido. O presidente da Câmara, Henrique Alves, é o arquétipo do político profissional brasileiro, com incontáveis mandatos, a mais completa tradução das oligarquias nordestinas e dos velhos políticos execrados pelas ruas.

Ele não se contenta com um avião da FAB exclusivo para transportá-lo, faz questão de dar carona a amigos, parentes e correligionários, distribuir assentos e privilégios no velho estilo coronelesco, para impressionar provincianos deslumbrados e demonstrar seu poder. É como se o avião fosse a sua fazenda.

Charge : Amarildo


Nelson Motta é jornalista.
*Acrescentamos subtítulo, Charge, foto e legenda a publicação original

21 de jun. de 2013

Mocidade independente, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL - Opinião
Mocidade independente
"Contrastando com o Brasil Maravilha que o embriagador marketing oficial mostra na TV, pago com dinheiro público, o Brasil real está nas ruas".

Foto: Wilson Dias/ABr

Dilma fingindo que não tem nada com isso

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta, para O Globo
Fonte: Blog do Noblat

Discursando para um auditório lotado de políticos, empresários, lobistas e funcionários, a presidente Dilma advertiu que “esta mensagem direta das ruas é de repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público” e foi aplaudida entusiasticamente pelos presentes, como se ninguém ali tivesse nada a ver com isso.

A democracia representativa foi desmoralizada pelos políticos, que a usaram para representar apenas os seus próprios interesses e de seus partidos, e agora os jovens gritam nas ruas “o povo unido/sem sigla e sem partido”, e são aplaudidos pela população. Para não ser vencido, o povo unido precisa estar representado no poder.

O governo e o Congresso não enfrentam uma urgente e fundamental reforma politica porque os políticos não querem se mostrar como são: incapazes de chegar a qualquer acordo no interesse do país — porque só sabem defender seus próprios interesses e de seus partidos, como uma corporação que se apossou do Estado e o usa em seu beneficio. Por isso os jovens gritam contra os privilégios dos políticos. E eles fingem que não é com eles.

Hoje as ruas gritam contra os gastos e roubalheiras da Copa do Mundo, que vai consumir bilhões de reais e o povo vai ver pela televisão, enquanto os velhos políticos e as novas elites da era Lula estarão lado a lado na tribuna dos privilegiados.

Contrastando com o Brasil Maravilha que o embriagador marketing oficial mostra na TV, pago com dinheiro público, o Brasil real está nas ruas.

As antigas militâncias apaixonadas, hoje amestradas e pagas, babam de inveja diante da TV, velhos partidos tentam pegar carona no movimento e são escorraçados. A maioria absoluta dos manifestantes despreza os atuais partidos — mas exige ser representada, ter voz e direitos respeitados. Novas formas de pressão e de expressão estão nas praças e no ar.

As cenas que vemos são uma representação dramática da insatisfação dos jovens com o futuro que os espera, se continuarmos representados pelo que o Brasil tem de pior, de saqueadores de verbas públicas a vândalos predadores.

No momento, quem me representa é meu neto de 17 anos.
Nelson Motta é jornalista.

15 de jun. de 2013

Fora do ar, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL - Opinião
Fora do ar
Nesse sentido, a TV Brasil se parece com o Brasil dos planos grandiosos. De que adianta investir na agricultura e na indústria sem estradas, ferrovias e hidrovias para o escoamento da produção?


Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta, para O Globo
Fontes: Blog do Noblat

Sonho de Zé Dirceu e criação de Franklin Martins, abençoada e bancada por Lula (“Vai ser uma BBC”, bravateou), depois de cinco anos de atividade não se pode comentar a qualidade da programação da TV Brasil, porque ninguém a vê.

Em abril a audiência média semanal em São Paulo foi de 0,1%, que corresponde a cerca de 600 domicílios. A sua maior audiência na primeira semana foi… o horário eleitoral gratuito: 3 mil residências.

Em um catastrófico exemplo de falta de planejamento, montaram estúdios, contrataram muita gente, compraram programas no Brasil e no exterior, produziram telejornais e programas de entrevistas, mas esqueceram o principal, o básico, o fundamental: som e imagem. A da TV Brasil é tão ruim, tão borrada e indefinida, que ninguém a veria mesmo com a melhor programação do mundo.

Nesse sentido, a TV Brasil se parece com o Brasil dos planos grandiosos. De que adianta investir na agricultura e na indústria sem estradas, ferrovias e hidrovias para o escoamento da produção? Para que serve produzir um bom programa de televisão se ele vai ser visto como um borrão sonoro? Na era digital, com a oferta massiva de canais, uma boa imagem é o mínimo para ir ao jogo. E a da TV Brasil é péssima.

Nossos produtos podem ser bons, mas a infraestrutura é ruim, a legislação, a burocracia e as práticas são borradas e indefinidas. Temos estádios novos e moderníssimos, mas sem acessos, como o Engenhão. Arenas maravilhosas vão melhorar o futebol jogado aqui? Ou só vai ficar mais caro, e seguiremos muito atrás das ligas europeias? E como o futebol vai melhorar se a CBF, as federações e os clubes continuam movidos a politicagem e negócios duvidosos?

Os idealistas, sim, eles existem, imaginavam uma TV pública com uma boa programação cultural, para informar e divertir, com um jornalismo ético e imparcial, como uma opção às emissoras privadas, sem baixar o nível, como a BBC.

Outros a ambicionavam como uma rede de televisão a serviço do partido no poder. Cinco anos depois, nem uma coisa nem outra: a TV Brasil está praticamente fora do ar e uma montanha de dinheiro foi pelos ares.

25 de mai. de 2013

A herança podre de Maduro, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL – VENEZUELA – Opinião
A herança podre de Maduro
Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, acredita que o seu país é o mais violento da America do Sul, por causa dos enredos das novelas. Isso não é uma piada.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta*
Fonte: O Globo

Não há herança mais maldita do que governar o país mais violento da América do Sul. Para enfrentar a criminalidade que mata por ano 75 pessoas por grupo de 100 mil (no Brasil selvagem morrem 26 e no Chile, três), o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, chamou os donos das três redes de televisão e denunciou a origem do mal:

“Por que as novelas têm de divulgar a deslealdade, a traição, o narcotráfico, a violência, a cultura das armas, a vingança?”

Os roteiristas venezuelanos estão em pânico. Como fazer uma novela sem traição, vingança, deslealdade, assassinatos, cobiça, ódio, inveja, e todas as coisas que Maduro diz que levam ao crime e à violência? Chávez já havia proibido videogames violentos há cinco anos, quando o país era bem menos violento.

Maduro assegura que a pobreza não é a única causa da delinquência, “porque a Venezuela tem os índices mais altos do mundo em superação da pobreza” (para matar Lula de inveja). Mas as mortes cresceram 15% de um ano para cá.

“Às vezes o que a escola faz em seis horas, um programa televisivo destrói em uma. Não vamos permitir programas que divulguem a prostituição, as drogas, a violência.” E bradou retumbante: “Vamos interromper o festim da morte.”

Algum passarinho precisa avisá-lo de que há muito mais consumo de programas com esses venenosos “antivalores do capitalismo” em países como o Japão e a Inglaterra do que na Venezuela, mas nenhum festim da morte: as vítimas de homicídios são de 0,4 (menos de meio japa) e 1,7 inglês por grupo de 100 mil. Como o marido traído, Maduro quer tirar a televisão da sala.

Como Chávez, o mexicano, o arguto lider chavista disse que como já sabe que quase 90% dos crimes ocorrem em 80 municípios, basta deslocar 3 mil soldados do Exército para as regiões violentas. E pronto. O secretario Beltrame poderia informá-lo que quando uma UPP toma uma comunidade a bandidagem não vai vender artesanato, se muda para áreas menos policiadas.

Ver o ex-motorista de metrô Nicolás Maduro dirigindo a Venezuela é como imaginar o Brasil com Carlos Lupi na Presidência da Republica. Só que Lupi é mais esperto.
* Nelson Motta é jornalista

26 de abr. de 2013

A quadratura da bola, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL - Opinião
A quadratura da bola
”… a atual seleção, seria goleado pelo Bayern com facilidade”. “Em dez jogos contra Espanha, Alemanha ou Argentina perderíamos seis ou mais”.

Foto: AFP

Seleção Brasileira não vence 'jogo importante' desde 2009, quando derrotou a Inglaterra ainda sob comando de Mano Menezes

Postado por Toinho de Passira
Texto de A Nelson Motta, para O Globo
Fonte: Blog do Moreno

Antigamente, quando o Brasil era um país pobre e atrasado, o futebol tinha enorme relevância não só por ser uma paixão nacional, mas pela crença de que, na falta de outros, tínhamos esse dom para jogar bola como nenhum povo do mundo. O futebol era nossa única esperança de excelência internacional, éramos a pátria de chuteiras, era nossa vingança contra o mundo rico e desenvolvido, mas de cintura dura.

Por tudo isso, perder a final para o Uruguai no Maracanã em 1950 teve o peso de uma tragédia nacional, com profundos reflexos na nossa já combalida autoestima. Por tudo isso, a vitória na Suécia em 1958 com Pelé e Garrincha não só maravilhou o mundo como nos redimiu do complexo de vira-lata perdedor e se tornou um marco do desenvolvimento e da modernização do país nos Anos JK.

Muita bola rolou de lá pra cá, e fomos descobrindo que, além dos temidos e invejados argentinos, jogadores de outros países podiam ter tanta habilidade individual como nós, e muito mais espírito coletivo e tático, como o "carrossel holandês" de Cruyff e do professor Rinus Michels em 1974.

Hoje em 19º lugar no ranking da Fifa, há anos não ganhamos de seleções de primeira linha, o Santos foi humilhado pelo Barcelona em Tóquio, e qualquer outro time brasileiro, ou mesmo a atual seleção, seria goleado pelo Bayern com facilidade. Em dez jogos contra Espanha, Alemanha ou Argentina perderíamos seis ou mais.

Quando se alterna na televisão os jogos das grandes ligas europeias e do Brasileirão, pela lentidão e violência, pelos gramados carecas, pela pobreza técnica e tática, pelas torcidas selvagens, os nossos parecem jogos da segunda divisão.

A ilusão dos reis do futebol acabou. Mas somos a sétima economia do mundo, nossa agricultura alimenta o planeta, lideramos em várias áreas de produção, nossa música é sucesso internacional, o vôlei e outros esportes nos dão grandes alegrias, temos muitos motivos de orgulho, energia, crédito, divisas, mas enquanto o Brasil, a CBF e a cartolagem ficavam ricos, o futebol empobrecia. Restou a antiga paixão. E o pesadelo de enfrentar a Argentina numa final no Maracanã.

A ilusão dos reis do futebol acabou. Restou o pesadelo de enfrentar a Argentina numa final no Maracanã.

21 de dez. de 2012

O grande circo místico, de Nelson Motta, para O Globo

BRASIL - Opinião
O grande circo místico
No Brasil, golpistas tentam derrubar ex-presidente. A piada é boa, mas a coisa está feia.

Foto: Ricardo Stckert/AFP

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta
Fonte: Blog do Moreno

O ministro Gilberto Carvalho já avisou que o bicho vai pegar e Zé Dirceu quer a militância nas ruas para defender Lula e o PT. De Paris, Lula já rosnou que vai voltar a percorrer o Brasil com suas Caravanas da Cidadania, como fez nos anos 90, para falar direto com o povo sobre o país maravilhoso que construiu e a herança maldita que recebeu, para satanizar as elites, a direita, a mídia e a Justiça. Ou para desmentir que protegeu Rose Noronha e os irmãos Vieira ?

Qual será a motivação da caravana, seu apelo ao público, seus slogans e palavras de ordem? Com alguma ironia, talvez possa se chamar Caravana da Verdade, e sirva para dizer que são mentiras todas as acusações. O mais difícil é imaginar multidões lotando as praças, sem um show de graça de um artista popular ou sorteio de um carro, só para ver Lula falar bem dele mesmo e mal de seus adversários.

Lula ama o palanque, é seu habitat natural, seu altar, onde se sente melhor do que nos gabinetes, nos palácios ou nos parlamentos, porque só tem que falar, esbravejar e gritar — o que ele mais sabe e mais gosta de fazer. Para um ser mitológico metade homem-metade palanque, diante da multidão amestrada, não há compromisso com a lógica e a verdade, todas as bravatas são bem-vindas, todas as demagogias são aplaudidas, sem responsabilidades nem consequências.

Sem estar em campanha por algum cargo, ou causa, a não ser ele mesmo, Lula vai precisar da "mídia golpista" para dar dimensão nacional à sua luta contra... a "mídia golpista". Porque, se depender só da TV Brasil e dos blogueiros estatizados, só a militância vai ficar sabendo.

As velhas elites já estão acostumadas a apanhar de Lula, a doar para suas campanhas, e a se dar bem nos seus governos, mas as novas elites sindicais e partidárias não estão preocupadas com as velhas, são progressistas, estão ocupadas com seu próprio progresso.

A direita, como se sabe, ou não existe no Brasil, ou então é tudo que contraria qualquer opinião do Zé Dirceu. O maior perigo da caravana é virar circo.


Publicado no Globo de hoje.
*Acrescentamos foto a publicação original

5 de out. de 2012

“Plano Perfeito”, por Nelson Motta, para o Estadão

BRASIL - Opinião
Plano Perfeito
E se Roberto Jefferson não tivesse denunciado o mensalão, como estaria o Brasil hoje?


PROPAGANDA ENGANOSA: Cartaz de propaganda do candidato Lula, eleições de 2002

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta para o Estadão
Fonte: Estadão

Pelo que o julgamento do Supremo Tribunal Federal está provando, o PT teria a maior e mais fiel base de apoio do Ocidente, maior até do que a velha Arena da ditadura, presidida por Sarney. Além dos cargos e boquinhas de sempre, os partidos aliados teriam suas despesas de campanha bancadas pelo PT. Assim, tanto nas votações no Congresso como nas eleições, não seria uma coalizão, mas um rolo compressor. A democracia perfeita de Lula e Dirceu.

Seria preciso apenas encontrar novas fontes de financiamento da operação, além dos empréstimos de araque de Marcos Valério no Banco Rural e no BMG e do desvio de dinheiro do Visanet, que não seriam suficientes para pagar as dívidas e as campanhas do PT, e as despesas crescentes com a voracidade da base aliada, que quanto mais come mais fome tem.

De onde sairia o dinheiro? Militantes do partido em postos-chave na administração pública facilitariam concorrências e superfaturariam campanhas publicitárias e eventos produzidos pelas agencias de Marcos Valério, que ficaria com uma parte do butim. Depois era só lavar o dinheiro na Bonus Banval e distribuí-lo aos aliados para garantir a governabilidade sem fazer concessões politicas e a aprovação de seus projetos que - eles tinham certeza - eram os melhores para o povo brasileiro.

Como Lula e Dirceu sabiam melhor que ninguém, pelo menos 300 picaretas estavam à venda no Congresso. Então, por que não comprá-los para servir ao governo do primeiro operário a chegar à Presidência, para atualizar e fazer as "reformas de base" que derrubaram Jango e Brizola em 1964? Era uma causa nobre, um velho sonho, um plano perfeito. Ou quase.

Mais do que um inútil exercício de retrofuturologia, imaginar as consequências funestas da continuidade do mensalão - que não ia parar ali, cresceria e envenenaria o Congresso, as campanhas eleitorais, a democracia e o Estado - serve para dar um suspiro de alívio e agradecer ao procurador-geral e aos ministros do Supremo Tribunal Federal. E ao gesto tresloucado de Roberto Jefferson.


*Acrescentamos imagem e legenda a publicação original

11 de ago. de 2012

Nina e Carminha em Brasília - por Nelson Motta

BRASIL – Opinião
Nina e Carminha em Brasília
Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu"


Roberto Jefferson é Nina e José Dirceu, Carminha

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta
Fontes: Estadão

Se o mensalão não tivesse existido, ou se não fosse descoberto, ou se Roberto Jefferson não o denunciasse, muito provavelmente não seria Dilma, mas Zé Dirceu o ocupante do Palácio da Alvorada, de onde certamente nunca mais sairia. Roberto Jefferson tem todos os motivos para exigir seu crédito e nossa eterna gratidão por seu feito heroico: "Eu salvei o Brasil do Zé Dirceu".

Em 2005, Dirceu dominava o governo e o PT, tinha Lula na mão, era o candidato natural à sua sucessão. E passaria como um trator sobre quem ousasse se opor à sua missão histórica. Sua companheira de armas Dilma Rousseff poderia ser, no máximo, sua chefa da Casa Civil, ou presidenta da Petrobrás.

Com uma campanha milionária comandada por João Santana, bancada por montanhas de recursos não contabilizados arrecadados pelo nosso Delúbio, e Lula com 85% de popularidade animando os palanques, massacraria Serra no primeiro turno e subiria a rampa do Planalto nos braços do povo, com o grito de guerra ecoando na esplanada: "Dirceu guerreiro/ do povo brasileiro". Ufa!

A Jefferson também devemos a criação do termo "mensalão". Ele sabia que os pagamentos não eram mensais, mas a periodicidade era irrelevante. O importante era o dinheirão. Foi o seu instinto marqueteiro que o levou a cunhar o histórico apelido que popularizou a Ação Penal 470 e gerou a aviltante condição de "mensaleiro", que perseguirá para sempre até os eventuais absolvidos.

O que poderia expressar melhor a ideia de uma conspiração para controlar o Estado com uma base parlamentar comprada com dinheiro público e sujo? Nem Nizan Guanaes, Duda Mendonça e Washington Olivetto juntos criariam uma marca mais forte e eficiente.

Mas, antes de qualquer motivação política, a explosão do maior escândalo do Brasil moderno é fruto de um confronto pessoal, movido pelos instintos mais primitivos, entre Jefferson e Dirceu. Como Nina e Carminha da política, é a história de uma vingança suicida, uma metáfora da luta do mal contra o mal, num choque de titãs em que se confundem o épico e o patético, o trágico e o cômico, a coragem e a vilania. Feitos um para o outro.


*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

23 de jun. de 2012

Andressa na cova dos leões - Nelson Motta

OPINIÃO
Andressa na cova dos leões
O colunista Nelson Motta comenta a convocação da mulher de Cachoeira para ser ouvida na CPMI que investiga o seu marido


Andressa Mendonça, a mulher de Carlinhos Cachoeira, a bela na cova dos leões tarados

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelson Motta
Fonte: O Estado de S.Paulo

A convocação da bela Andressa Cachoeira para depor na CPMI provoca frisson e reaviva a memória da distante e vergonhosa tarde do depoimento de Renilda Santiago, mulher de Marcos Valério, na CPI dos Correios.

Enfrentar os questionamentos agressivos e mal-educados não foi nada perto do que ela teve que suportar dos galantes parlamentares que acudiram em sua defesa elogiando sua beleza e seu caráter. Renilda era apenas uma discreta senhora mineira, bem-vestida e educada, de feições delicadas, que podia ser vista, no máximo, como bonitinha. Mas bastou para a macharia suprapartidária se assanhar. Foi de embrulhar o estômago ouvir tanto sentimentalismo barato ao vivo diante de todo o País, com deputados e senadores louvando a depoente por seu amor ao marido bandido e à família, por suas lágrimas, omissões e mentiras. Faltou muito pouco para alguém dizer que ela era a mulher que qualquer homem gostaria de ter e oferecer um ombro amigo.

Mesmo sabendo que Renilda mentia cínica e deslavadamente, eles se derretiam em elogios, como senhores magnânimos que não conseguiam esconder o galanteador cafajeste de calçada, tipicamente brasileiro, que os habita. Pareciam personagens caricatos de Chico Anísio, e pior, de Nelson Rodrigues, canalhas vocacionais que seduzem até a cunhada, que não respeitam nem CPI. Alguns eram gordos, outros carecas, quase todos mais velhos, a maioria nordestinos e gaúchos, todos antiquados e verbosos no estilão que Bernardo Cabral usou para seduzir Zélia Cardoso de Mello.

Esses machões galantes e sentimentais jamais se comportariam assim diante de quem dissesse o que Renilda disse, mas fosse homem. Seriam implacáveis, durões, não elogiariam o amor do depoente pela esposa e a família, nunca aceitariam suas mentiras. Os membros femininos da CPI deviam ter protestado contra tal falta de decoro, mas nenhuma teve tal macheza.

Se com a frágil e discreta Renilda eles deram um vergonhoso show de machismo travestido de cavalheirismo, imaginem a excitação parlamentar quando a bela, sexy e exuberante Andressa se sentar à mesa da CPMI. É melhor tirar as crianças da sala.


*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda ao texto original