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3 de set. de 2013

Veja diz que o embaixador da Bolívia no Brasil representa o ‘narcoestado’ boliviano

BOLÍVIA - BRASIL
Veja diz que o embaixador da Bolívia no Brasil
representa o ‘narcoestado’ boliviano
O advogado Jerjes Justiniano é o embaixador da Bolívia, em Brasília, desde setembro do ano passado, veio com a missão expressa de fazer frente às denúncias contra os narcofuncionários da Bolívia. E mais: o que faz um grupo de parlamentares brasileiros ir a embaixada da Bolívia, pedir desculpas e tomar licor de coca?

Foto: Antonio Cruz/ABr

Dilma e Jerjes Justiniano, na cerimônia de entrega das credenciais de embaixador da Bolivia

Postado por Toinho de Passira
Fontes:  Veja, Agência Brasil

Segundo reportagem de Duda Teixeira, para a Veja, o motivo primordial da perseguição política que levou o senador Roger Pinto Molina a pedir asilo na Embaixada do Brasil em La Paz foi um dossiê que ele entregou no Palácio Quemado, sede do Executivo boliviano, em março de 2011. O pacote trazia cópias de relatórios escritos por agentes da inteligência da polícia boliviana em que se desnudava a participação de membros do partido do presidente Evo Morales, o Movimento ao Socialismo (MAS), e de funcionários de alto escalão do seu governo no narcotráfico.

Alguns desses documentos posteriormente também foram obtidos por VEJA e serviram de base para a reportagem "A República da cocaína", de 11 de julho de 2012. Neles, afirma-se que o atual ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana, e a ex-modelo Jessica Jordan entraram na casa do narcotraficante brasileiro Maximiliano Dorado, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 18 de novembro de 2010. Os dois saíram cada um com duas maletas tipo 007. A intenção do senador hoje refugiado no Brasil era que o presidente Morales mandasse investigar as denúncias, e assim contribuísse no combate à indústria da pasta de coca — matéria-prima contrabandeada para o Brasil para a produção de cocaína e crack —- e à rede de corrupção ligada a ela.

A ex-modelo e ex-miss Bolivia, Jessica Jordan
Nenhum suspeito foi interrogado. Em vez disso, Morales iniciou a perseguição ao senador Pinto Molina e nomeou para o posto de embaixador no Brasil o advogado Jerjes Justiniano, que assumiu há um ano com a missão expressa de fazer frente às denúncias contra os narcofuncionários da Bolívia. Morales poderia ter escolhido alguém menos comprometido com o assunto para desempenhar esse trabalho. O filho do embaixador, o também advogado Jerjes Justiniano Atalá, tem entre seus maiores clientes justamente funcionários do governo acusados de narcotráfico.

Pior do que isso, Atalá, que no passado dividiu o escritório com o pai, foi o advogado do americano Jacob Ostreicher, que investiu 25 milhões de dólares em plantações de arroz na Bolívia em parceria com a colombiana Cláudia Liliana Rodriguez, sócia e mulher de Maximiliano Dorado. Resumindo a história: o filho do embaixador defendeu o sócio da mulher do traficante brasileiro, aquele que recebeu em sua casa o ministro denunciado por Pinto Molina. Trata-se, no mínimo, de uma coincidência constrangedora para o papel que Justiniano veio desempenhar no Brasil.

Igualmente constrangedor é um vídeo de quatro minutos que mostra o embaixador visitando a fábrica do narcotraficante italiano Dario Tragni, em Santa Cruz de laSierra, no início de 2010. Na ocasião, Justiniano era candidato ao governo de Santa Cruz pela legenda do presidente Morales. Ele foi derrotado na eleição, que ocorreu em abril. No tour pela fábrica de madeira Sotra, Justiniano percorreu as dependências do local ciceroneado por um Tragni falante e irrequieto. "Esta é uma das máquinas mais produtivas da América Latina", disse Tragni, apontando para um de seus equipamentos.

Justiniano perguntou: "Estão exportando para onde?" O italiano respondeu orgulhoso que para Espanha, Itália, Estados Unidos e Alemanha. Participou também da visita amigável Carlos Romero, atual ministro do Governo da Bolívia e responsável pela segurança interna do país. O incrível desse episódio é que poucos meses antes, em novembro de 2009, a polícia encontrara na Sotra diversos recipientes com cocaína, somando 2,4 quilos. No quarto de Tragni, foram apreendidos uma balança e um liquidificador com vestígios de cocaína. Um dos conhecidos meios para transportar drogas usado pelos traficantes bolivianos é escondê-las dentro de compensados de madeira para exportação.

Em tempo: em outubro do ano passado. o ator americano Sean Penn foi nomeado por Morales como embaixador mundial da coca. Nem precisava. A Bolívia já tem Jerjes Justiniano despachando em Brasília.

Foto: Valter Campanato/ABr

O embaixador da Bolívia no Brasil, Jerjes Justiniano, toma licor de coca, com os deputado Ivan Valente, o senador Randolfe Rodrigues, o deputado Elvino Bohn Gass e o deputado Cláudio Puty, na embaixada da Bolívia

Acrescentamos que segundo reportagem de Marcelo Brandão para a Agência Brasil, um grupo de parlamentares brasileiros foram até a embaixador da Bolívia, em Brasília, no dia 27 de agosto, encontrar o embaixador Jerjes Justiniano, para prestar solidariedade ao governo de Evo Morales diante da saída do senador Roger Pinto Molina do país com ajuda de um diplomata brasileiro.

Compunha a comitiva os deputados Ivan Valente (PSOL-SP), Cláudio Puty (PT-PA) e Elvino Bohn Gass (PT-RS), além do senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP). O senador Rodrigues até pediu desculpas “em nome do povo brasileiro” e disse que “claramente houve um atentado à soberania boliviana” (Esse senador não nos representa).

O deputado petista Cláudio Puty, por sua vez, criticou a postura da embaixada brasileira no caso. “O que aconteceu foi que a embaixada brasileira cometeu uma trapalhada diplomática. Não sabia se livrar do problema que criou para ela mesma e agora está querendo dar um caráter humanitário [à ação]”.

Ao final do encontro, os parlamentares e o embaixador se cumprimentaram e tomaram um licor de coca, como símbolo de união entre as duas nações. Foi lindo!

1 de set. de 2013

Senador boliviano Roger Pinto Molina: "Quero levar minha vida no Brasil"

BRASIL -
Senador boliviano Roger Pinto Molina:
"Quero levar minha vida no Brasil"
Resgatado da embaixada brasileira em La Paz, o maior adversário político de Evo Morales afirma que se considera perseguido, ameaçado e que seu asilo no país, agora, é automático

Foto: Igo Estrela/ÉPOCA

SEGURANÇA - Molina, fotografado no escritório de seu advogado em Brasília
na última quinta-feira. “Tenho legitimidade para ficar neste país”

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Leonel Rocha
Fonte: Época

O senador boliviano Roger Pinto Molina, de 53 anos, líder da oposição ao governo, repete insistentemente sua gratidão à presidente Dilma Rousseff pelo asilo que recebeu na embaixada brasileira em La Paz. O discurso de Molina contrasta com a recepção que o governo lhe reservou nesta semana, quando chegou a questionar sua permanência no Brasil. Molina foi o personagem central da crise política que redundou na demissão do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota. “Já agradeci à presidente Dilma Rousseff pelo ato generoso de me conceder asilo”, afirmou em entrevista a ÉPOCA.

ÉPOCA – O senhor se considera um perseguido político?
Roger Pinto Molina –
Sim, mas não sou o único na Bolívia. Sou o líder da minha região (Estado de Pando) e líder da oposição no Senado. O modelo de poder de Evo Morales é de tomada de controle total do Senado. Foi aí que começou nosso confronto político. Os ex-presidentes, ex-governadores, ex-prefeitos, quem teve algum tipo de liderança é hoje processado judicialmente. Os processos atingem, sobretudo, quem tem viabilidade eleitoral. Não sou exceção. Mas só busquei asilo porque sofri ameaças de morte.
ÉPOCA – Como as perseguições começaram?
Molina –
A primeira fase das perseguições começou com as mortes no departamento (Estado) de Pando, em setembro de 2008. Quando apresentei a documentação sobre o assunto, o presidente ordenou minha prisão e abriu oito processos por desacato. Isso só aconteceu porque denunciei atos de corrupção. Disse publicamente no Senado que o narcotráfico infiltrou-se no governo. Apresentei provas disso. Pedi que investigassem o ministro (da Presidência, Juan Ramón) Quintana e o vice-presidente da República. O presidente deveria levar adiante uma investigação. Mas isso não aconteceu. Fiz uma série de denúncias contra outros ministros. Denunciei o ministro da Fazenda pelo seu envolvimento com os bicheiros. Era senador e tinha direito de denunciá-los. O governo Evo, no entanto, acreditava que eu só poderia fazer denúncias em casa, para minha família, e não na imprensa. Minhas denúncias geraram um rosário de calúnias. Tive acesso a uma documentação que mostra que o ministro Quintana foi à casa de um narcotraficante para receber recursos para sua campanha. Todas as ameaças de morte tiveram origem no governo.

ÉPOCA – De que tipo? O senhor foi alvo de algum atentado?
Molina –
Não. Muitas das ameaças que sofri foram gravadas. Estão documentadas. Há gravações em que dizem até a arma com que me assassinariam. Em 2009, antes de eu fazer minhas denúncias, descobriu-se uma tentativa de assassinato. Quintana ofereceu U$ 20 mil a um assassino de aluguel para me matar com arma que lhe fora entregue por ele mesmo. Denunciei e o governo não fez nada. Logo depois, descobriram um assassino do PCC (Primeiro Comando da Capital), ligado ao ministro Quintana, que pretendia me eliminar no portão de casa. Isso tudo está registrado no jornal Sol de Pando. Uma vez, resgataram um cidadão que fora sequestrado. No cativeiro em que foi mantido, encontraram a planta da minha casa, documentos, fotos de meu carro. Os sequestradores foram presos. No interrogatório, afirmaram que eu estava na lista deles. E era gente que tinha relação com o governo.

ÉPOCA – Quando começou seu confronto com o governo boliviano?
Molina –
Minha diferença com o governo Evo Morales vem de muito tempo. Estou convencido de que a coca é a matéria-prima do narcotráfico. Por isso, defendo a erradicação da coca. Um compromisso estabelecido em lei prevê que uma área de 12 mil hectares seria mantida para preservar a produção de coca necessária para o consumo tradicional. Mas a área plantada chegava a quase 40 mil hectares. Todo excedente é destinado ao narcotráfico. Ora, os cocaleiros constituem a base social e política do presidente, que preside as seis federações de trabalhadores do setor. Então, sua base era fornecedora do narcotráfico. Ele sempre foi tolerante com os produtores de coca. Sempre dissemos que, em algum momento, o tênue limite entre a produção de folhas de coca e de matéria-prima para o narcotráfico seria ultrapassada. Foi o que aconteceu. Nós temos informação de que o setor cocaleiro financiou as campanhas do presidente Evo Morales. Denunciei isso e criaram-se situações de confronto. Em determinado momento, chegamos a descobrir uma série de documentos que estabelecia uma relação de funcionários do governo com o narcotráfico.

ÉPOCA – O governo Morales diz que o senhor não é um perseguido político, mas um criminoso condenado. O que tem a dizer sobre isso?
Molina –
Há 22 processos de todos os tipos contra mim. Só um foi julgado, de corrupção. Quando governei (o Estado de) Pando, criei uma universidade e atraí investimentos privados para ela. Ora, corrupção é quando você tira dinheiro do Estado. O que fizemos foi dar dinheiro ao Estado. Existe uma Zona Franca em Pando, onde os empresários pagavam uma alíquota de 1% para se instalar. O que fizemos foi propor a eles que pagassem 1,5%. O 0,5% a mais seria destinado à universidade. Os empresários aceitaram. Mas sob a visão do governo, isso é corrupção. Dos oito que assinaram a resolução para criar a universidade, só eu fui sentenciado, e à revelia, sem defesa, a um ano de prisão. Esse é o único processo julgado.

ÉPOCA – Por que o senhor pediu asilo à embaixada brasileira, e não a outra representação diplomática?
Molina –
Há uma relação mais direta do Brasil com a Bolívia. O Brasil tem uma longa tradição de respeito à vida, aos direitos humanos, aos direitos dos asilados.

ÉPOCA – O senhor negociou com os diplomatas brasileiros seu asilo na embaixada em La Paz antes de pedir refúgio?
Molina –
Não, nem houve nenhuma possibilidade de isso acontecer. Foi decisão tomada diante de uma emergência. Eu temia ser assassinado a qualquer momento. Procurei a embaixada do Brasil sem nenhum diálogo prévio e fui recebido por um homem de princípios, o embaixador Marcel Biato. Ele assumiu meu caso de maneira profissional. Levando em conta que precisava informar seu país, solicitou a documentação dos processos judiciais a que respondo. Depois de analisar os documentos, me concedeu o refúgio, sob o crivo da presidente (Dilma Rousseff). Por um descumprimento dos tratados e das leis internacionais, a Bolívia nunca me outorgou salvo-conduto para deixar o país. E isso é o que se deve a qualquer cidadão que obtém asilo diplomático.

ÉPOCA – O senhor pretende ficar no Brasil ou cogita pedir asilo definitivo a outras nações?
Molina –
Quero regularizar minha situação no Brasil e levar minha vida aqui da maneira mais normal possível. Quando entrei na embaixada brasileira, pessoas próximas ao governo boliviano tentaram queimar minha casa e sequestrar minha família. Eles tiveram de abandonar a Bolívia. Saíram em busca de refúgio com o que tinham à mão. Hoje, vivem aqui. Já agradeci à presidente Dilma Rousseff pelo ato generoso de me conceder asilo e me dar as garantias necessárias para dar início à próxima etapa da minha vida. O que espero, agora, é superar esta etapa. Espero não ter nunca a necessidade de buscar outra alternativa.

ÉPOCA – A Advocacia-Geral da União diz que lhe foi concedido asilo apenas para permanecer na embaixada e que seu caso terá de ser reanalisado. O senhor teme ser deportado?
Molina –
Em meu entender, o asilo diplomático que recebi em La Paz se converte automaticamente em asilo territorial no Brasil. Depende da presidente Dilma Rousseff, mas creio que tenho legitimidade para ficar neste país. Acredito que eu tenha definitivamente a condição de refugiado político neste país.

ÉPOCA – Os diplomatas brasileiros garantiram que o senhor teria asilo definitivo?
Molina –
Não. Devo fazer aqui menção à qualidade humana do diplomata Eduardo Saboia, dos fuzileiros e de todas as pessoas que me acompanharam todo esse tempo. Eles fizeram de tudo para que me sentisse melhor num tempo prolongado de isolamento, muito difícil suportar.

ÉPOCA – O diplomata Eduardo Saboia, que resgatou o senhor da embaixada em La Paz, informou-o que o governo brasileiro poderia reagir mal à sua fuga?
Molina –
Não. Acredito que ele fez o que fez por motivos humanitários. É alguém que entende as dificuldades que passa um ser humano e os perigos que ele pode enfrentar. O que Saboia mencionou várias vezes foi que reportou a minha situação às autoridades do Brasil, inclusive, com informes médicos sobre a minha saúde.

ÉPOCA – O senhor está satisfeito com a posição do Brasil em seu caso?
Molina –
Não posso emitir juízos sobre as autoridades brasileiras. Só posso dizer que eles têm sido muito generosos. Quando cheguei, as autoridades de saúde se preocuparam em garantir meu bem-estar. A polícia se mobilizou para me dar as garantias. O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), num ato de desprendimento e humanidade, arranjou um avião para trazer-me a Brasília. Somado à decisão da presidente Dilma, isso mostra o espírito dos brasileiros de criar as condições para garantir a vida e a liberdade de quem, como eu, busca segurança em outro país. Não sou o único nessa condição.

ÉPOCA – Como foi sua viagem até o Brasil?
Molina –
Uma operação muito arriscada. Não sei quem fez o planejamento profissional da viagem. Houve um cuidado com a distância, com a forma de avançar na estrada. Eram 1.600 quilômetros, passando por regiões perigosas. Foi necessário tomar várias medidas de segurança, cuidar das necessidades fisiológicas e da alimentação. Num momento da viagem, minha saúde estava muito debilitada. Cheguei a achar que sofria um princípio de infarto. Pelo menos, entendemos que era infarto. Vomitei durante o percurso. Em algum momento, pensamos em ir a um hospital. Mas isso significaria abortar a operação. Consultado, disse que deveríamos seguir adiante e correr o risco.

ÉPOCA – O governo Evo Morales ofereceu asilo a Julian Assange, o criador do WikiLeaks acusado de abusar sexualmente de duas suecas, abrigado na embaixada do Equador em Londres sem salvo-conduto para deixar o país. O que seu caso tem em comum com o dele?
Molina –
Não há uma comparação, uma similaridade, além do fato de termos ficado em embaixadas. Os procedimentos e o contexto das garantias à vida nos dois casos são totalmente diferentes. Os motivos pelos quais nos buscam, também. Sou senador da República, chefe da oposição. Sou perseguido politicamente por uma decisão do presidente da República. O senhor Assange é um australiano na Inglaterra, com ordem de prisão, acusado por violação em países onde não existe a figura do asilo político. Nosso caso é oposto. Temos uma longa tradição de asilo e garantias. Há tratados estabelecendo essas regras, e eles estão em vigor.

ÉPOCA – O senhor passou 455 dias na embaixada em La Paz. Como o senhor e sua família estão sobrevivendo?
Molina –
É uma situação difícil. Há uma decomposição da saúde física e mental. Se algo verdadeiramente se deteriora, são as condições econômicas. Tenho três filhas. Uma é psicóloga, as outras são advogadas. Minha mulher também é advogada. Sobrevivemos com o trabalho delas.

ÉPOCA – O senhor não tem mais negócios na Bolívia?
Molina –
Tenho. Na verdade, sempre tive. À margem da vida política, desenvolvi um trabalho agropecuário, coisa que foi ameaçada por decisões do governo. Tenho 650 cabeças de gado. Na Bolívia, o que fazem é usar pessoas para invadir e ameaçar a propriedade dos adversários. Muitos sucumbiram ante ao temor e se alinharam ao governo. Fui convidado várias vezes pelo presidente Evo Morales para fazer parte de seu governo. Não fui. Entendi que não era o caminho. Temos visões política diferentes. Com o tempo, isso me converteu em inimigo dele e, sob a ótica do seu governo, em delinquente.

ÉPOCA – O senhor tem esperança de retornar à Bolívia e retomar sua atividade política e empresarial?
Molina –
Nós, seres humanos, somos ligados aos lugares onde nascemos. Onde vivemos e crescemos sempre nos atrairá. Como boliviano, tenho a esperança de que este momento poderá ser superado, que a Bolívia voltará à tolerância, que a institucionalidade será recuperada e que poderemos retornar ao país, não somente eu, mas todos os bolivianos expulsos por qualquer motivo. Tenho esperança, sim.

ÉPOCA – O senhor chegou ao extremo de pensar em suicídio no tempo em seu asilo na embaixada brasileira?
Molina –
É preciso entender que eu estava sem acesso e contato com as pessoas. O ser humano necessita dessas relações. Eu passava dias, semanas e meses totalmente isolado, sem falar com ninguém. Sou um homem cristão e, pelo princípio cristão, nunca se mata. Mas, num determinado momento, comecei a pensar que poderia dar outra saída ao problema. Essa ideia passou pela minha mente de maneira muito forte.

ÉPOCA – Há democracia na Bolívia?
Molina –
A democracia boliviana está gravemente ameaçada. Em qualquer país do mundo onde não há respeito pela oposição, onde as instituições foram tomadas, onde as decisões verticais são diárias, onde o presidente é capaz de dizer quem é culpado e inocente e ditar sentenças, a democracia está ameaçada. Na Bolívia, não há instituições, não há independência entre poderes. Em meu país, a Justiça está totalmente tomada pelo poder executivo. Então, é difícil perseguir e prender a oposição e querer seguir sendo um regime democrático. Não creio que seja uma ditadura, mas que o sistema democrático esteja sob ameaça. Há repressão à oposição, há perseguição política, há intolerância em relação às pessoas que pensam diferente e há ainda o controle dos meios de comunicação.

29 de ago. de 2013

Patriota foi informado na véspera, pelo diplomata Eduardo Saboia, da operação de fuga do senador boliviano

BRASIL -
A operação de fuga do senador boliviano era do conhecimento do ex-Ministro Antonio Patriota
O diplomata Eduardo Saboia informou na véspera, a Patriota, da pretensão de executar a fuga do senador boliviano. Desconfiada Dilma teria demitido o chanceler, por achar que ele ficou pouco indignado com a ação do diplomata "rebelde" e agia “como quem não entendesse a gravidade da situação”

Foto: Antonio Cruz/ABr

A presidenta Dilma Rousseff e novo ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo Machado, no lugar de Antônio Patriota, durante cerimônia de posse no Palácio do Planalto

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Blog do Camarotti, Terra , Agência Brasil

O jornalista Gerson Camarotti diz que o editor de economia do Jornal das 10, da GloboNews, João Borges, soube por fontes seguras que o diplomata Eduardo Saboia, encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil em La Paz, teria enviado uma mensagem para o ex-ministro de Relações Exteriores Antonio Patriota, na quinta-feira, 22 de agosto, um dia antes da operação deflagrada para trazer ao país o senador boliviano Roger Pinto Molina.

No comunicado a Patriota em que dizia que diante da piora do quadro do senador Molina, não restava a ele, como responsável pela embaixada, outra alternativa a não ser a remoção do parlamentar para local seguro com objetivo de tratar da saúde.

Saboia teria citado, inclusive, já ter os meios de transporte adequados para fazer a remoção em segurança. Ao final da mensagem, o diplomata teria enfatizado que o presidente da Bolívia, Evo Morales, certamente compreenderia a operação, pois, tendo sido vítima recentemente de uma tentativa de vistoria do avião presidencial em países da Europa, quando retornava de uma viagem a Moscou, tornou-se um ardoroso defensor da imunidade e da inviolabilidade das instalações e meios de transportes dos diplomatas.

Ou seja, Patriota soube, com a antecedência devida, o que iria acontecer, se não deu autorização, não tentou impedir a ocorrência. É bem verdade que o diplomata não teria revelado que estava disposto a por em prática a ideia no dia seguinte. Mas por certo, o fato de ter informado ao chanceler, foi um fator de encorajamento, em realizar a aventura.

Foto: Antonio Cruz/ABr

Dilma acabou sabendo que Antonio Patriota sabia, antecipadamente, da possibilidade da fuga do senador boliviano

Informada ou não desses fatos, interlocutores presidenciais dizem que a presidente Dilma Rousseff decidiu demitir o ministro Antonio Patriota do comando da pasta de Relações Exteriores ao perceber que ele não estava indignado o suficiente com a operação que trouxe o senador boliviano Roger Pinto para o Brasil. Isso ficou claro na conversa que os dois tiveram na última noite no Palácio do Planalto, antes do afastamento do ministro.

Nas palavras da fonte presidencial, Dilma há muito tempo já estava incomodada com o assunto. Ela havia ficado contrariada com o fato do senador boliviano ter entrado na Embaixada do Brasil, em La Paz, sem ter sido consultada no ano passado.

“O Patriota parece que não entendeu a gravidade do problema. Esse era um tema muito delicado para Dilma”, observou essa fonte ao Blog do Camarotti.

No sábado, quando o senador Roger Pinto Molina já estava em Corumbá, Dilma foi avisada por Patriota. Segundo relatos, ele disse que a situação do boliviano estava resolvida, apesar de não ter sido da melhor maneira.

O clima de contrariedade no Palácio do Planalto tomou conta com a entrevista do diplomata Eduardo Saboia ao Fantástico, da Rede Globo, em que reagiu à nota divulgada pelo Itamaraty.

“Não houve qualquer contestação de Patriota”, observou o interlocutor de Dilma. Para o Planalto, com esse gesto, o comando do Itamaraty avalizou a decisão do encarregado de Negócios da Embaixada do Brasil em La Paz.

Agora o Palácio do Planalto tenta dar por encerrado o episódio, considerando que é natural o “jogo de cena” do governo boliviano e que o presidente Evo Morales peça o retorno do senador à Bolívia.

É verdade, por exemplo, que o próprio Evo chegou a propor três vezes a solução de fuga do senador boliviano e, em todas as ocasiões, ela negou e solicitou o salvo-conduto.

Depois dos discursos desta quarta, no Itamaraty, durante a cerimônia de posse do novo ministro, a ordem é “baixar a poeira” e não fazer estardalhaço.

Continuará o processo que apura a conduta do diplomata Eduardo Saboia, que não deve receber uma sanção extrema, mas uma advertência; o ex-chanceler Antonio Patriota ficou bem resolvido com o cargo na ONU; e o senador boliviano deve permanecer no Brasil, desde que calado. Ele já foi alertado para não fazer novas declarações políticas porque isso poderá prejudicar sua estada no país.

A presidenta Dilma Rousseff e o presidente da Bolívia, Evo Morales, se reunirão amanhã, sexta-feira (30), em Paramaribo, capital do Suriname, onde estarão para a reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). O encontro bilateral servirá para os chefes de estado encontrarem uma forma de administrar a crise criada com a fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina.

26 de ago. de 2013

A história da fuga do senador boliviano para o Brasil, contada pela senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES)

BRASIL – Asilo de Pinto Molina
A história da fuga do senador boliviano para o Brasil,
contada pela senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES)
Após 455 dias abrigado na Embaixada do Brasil na Bolívia, o senador de oposição Roger Pinto Molina, de 53 anos, para chegar ao Brasil, enfrentou 21 horas e meia de viagem de carro, saindo de La Paz, passando por Cochabamba, Santa Cruz de La Sierra, Puerto Soares até chegar à cidade brasileira de Corumbá (MT). A fuga só foi possível devido a determinação do diplomata brasileiro Eduardo Saboia, que arriscou sua carreira com essa decisão e a ajuda do senador Ricardo Ferraço

Foto: Captura de vídeo Globo News

Senador Ferraço e o senador boliviano Pinto Molina, na chegada Aeroporto Brasilía, na madrugada do domingo

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Blog do Josias de Souza, La Razón, El Diário, La Prensa, Globo News, Agência Brasil, Fantastico

A fuga do senador boliviano Roger Pinto Molina, desde a embaixada brasileira em La Paz, até Brasília, começa a ser desvendada, pelas declarações dos principais personagens. É uma aventura de suspense e ação quase cinematográfica. Depois de 455 dias de refúgio forçado numa sala da embaixada brasileira em La Paz, o líder da oposição ao governo de Evo Morales dormiu em Brasília na madrugada de sábado para domingo.

Pinto Molina deve sua liberdade a uma ousada operação secreta que reuniu, à revelia do Itamaraty, um diplomata brasileiro inconformado, dois fuzileiros da Marinha, um senador do PMDB, e uma equipe de cinco agentes da Polícia Federal.

O senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES) que ajudou nos momentos finais da execução da fuga, preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Entrou na operação a pedido do diplomata Eduardo Saboia, encarregado de negócios e titular interino da representação diplomática brasileira em La Paz, contou ao Blog do Josias de Souza, sua participação na operação:
— Como se interessou pelo caso do senador boliviano Roger Pinto?

Em março, eu fui à Bolívia para averiguar a situação dos torcedores do Corinthians que estavam presos na cidade de Oruro. Na volta, fiz uma visita ao senador Roger. Encontrei-o numa sala do segundo andar do prédio administrativo da embaixada brasileira, em La Paz. Improvisaram um quarto num escritório. Mede uns 3m X 6m. Fuzileiros da Marinha guardavam a porta. Fiquei impressionado com aquela situação. De lá para cá, venho agendando no Senado. Nada evoluiu.

— O sr. se manteve em contato com a embaixada brasileira em La Paz?

Sim. Tem lá um diplomata, encarregado de negócios, chamado Eduardo Saboia. A embaixada está sem embaixador há muito tempo. É ele quem está respondendo pelo posto. Ele notou uma deterioração do estado de saúde do senador boliviano. Havia um quadro de depressão. Vendo tudo isso, e percebendo a ausência de perspectiva de solução para o caso, o Saboia chegou a me confidenciar, de maneira muito pessoal, que estava com medo de que o senador boliviano se suicidasse. Ele me disse que estava pensando em tirar o senador de lá.

— Qual foi a sua reação?

O que eu fiz foi entusiasmá-lo a tomar uma decisão. Fiz isso por solidariedade humana. Eu só vi o senador Roger Pinto duas vezes. Em março, quando estive em La Paz, e neste sábado.


Primeira página dos principais jornais bolivianos nesta segunda, as manchetes principais referem-se a fuga do senador

— O diplomata Eduardo Saboia autorizou a fuga?

Ele fez muito mais do que isso. O Saboia organizou a saída, colocou o Roger no carro da embaixada e trouxe ele até o Brasil. Os fuzileiros navais brasileiros deram cobertura durante todo o percurso. Percorreram um caminho complicado. Foram mais de 1.500 km, passando por regiões com produção de coca, até chegarem a Corumbá, no Mato Grosso do Sul. O Saboia foi a figura central no episódio.

— O sr. foi comunicado da operação com antecedência?

A gente vinha conversando, trocando ideias. Mas, quando eu soube, a operaçao já estava em curso. Quando o Saboia me ligou, eles já estavam próximos da fronteira. Estava muito tenso. Ele criou uma relação de confiança comigo desde que o conheci, em março, na Bolívia. Eu dava retorno a ele. Esteve no Brasil duas vezes. E foi recebido por mim na Comissão de Direitos Humanos. Coloquei o assunto na agenda da comissão.

— Qual foi o seu papel na operação de fuga?

Eu vinha acompanhando o processo, toda a angústia do Saboia. Neste sábado, eu estava em Vitória [ES], na minha casa, quando recebi um telefonema dele, pedindo ajuda.

— Que hora foi isso?

Era hora do almoço.

— O que o sr. fez?

Tentei contactar autoridades brasileiras.

— Que autoridades?

Na verdade, liguei para o presidente do Senado [Renan Calheiros]. Mas não consegui falar. Deixei recado.

— E daí?

Telefonei para o aeroporto de Vitória. Tinha um jato privado, de uma empresa capixaba. Liguei para o dono. Não dei detalhes, não queria que vazasse. Mas esclareci que precisava do avião para uma missão importante. Que envolvia uma pessoa correndo risco de vida. Ele se sensibilizou e me emprestou o avião.

— Como se chama o empresário?

Prefiro não dizer, até porque ele não sabia exatamente do que se tratava. A responsabilidade é minha.

— Ele cedeu o avião graciosamente, sem cobrar?

Sim, isso mesmo.

— É seu amigo?

É conhecido meu, mas não é pessoa íntima. Decidi pedir. Se não desse, paciência. Não sou pessoa de me omitir. A omissão é o pior dos pecados.

— A que horas decolou de Vitória?

Levantamos voo pouco antes das seis da tarde, umas cinco e meia. Desci em Corumbá à noite. O aeroporto estava meio vazio, sem muito movimento. Fiquei esperando umas duas ou três horas. Logo fui abordado por um agente da Polícia Federal. Eu me identifiquei, dei meus documentos. O cara ligou para o superior dele. Dali a mais ou menos uma hora, chegou o agente com o senador boliviano. Me entregou ele. Embarcamos para Brasília. Chegamos na cidade perto de uma e meia da madrugada.

Foto: captura de vídeo Globo News

Senador boliviano Roger Pinto Molina em entrevista a Globo News

— A Polícia Federal foi buscar o senador boliviano do outro lado da fronteira?

Não. Quando ele chegou ao Brasil, na fronteira, estava acompanhado do diplomata brasileiro e escoltado por dois fuzileiros navais do Brasil. Os fuzileiros o atravessaram na fronteira. A Polícia Federal foi procurá-los no hotel.

— Então, eles chegaram a se hospedar num hotel em Corumbá?

Sim, chegaram na cidade por volta de duas horas da tarde de sábado. E foram para o hotel. O Saboia me ligou do hotel.

— Quem acionou a Polícia Federal foi o diplomata Eduardo Saboia?

Não sei dizer. Sei que a PF foi até o hotel, me contactou no aeroporto e apareceu lá com o senador Roger Pinto.

— A Polícia Federal foi acionada por alguém, não?

Eu não tenho esse detalhe. Sei que o Saboia estava tentando fazer contato com o ministro Celso Amorim [Defesa], com o José Eduardo Cardozo [Justiça]. Não sei se conseguiu. Foi tudo muito rápido. Não deu para perguntar tudo.

— Acredita que ele tenha dado ciência da movimentação ao Itamaraty?

Não acho improvável que ele tenha sinalizado alguma coisa. Como ele está respondendo pela embaixada há meses, não é nenhum absurdo supor que ele tenha manifestado aos seus superiores que a situação estava no limite, e que, se ele tivesse oportunidade, faria alguma coisa. Talvez as pessoas no Brasil não acreditassem que ele tivesse disposição para fazer.

— Quando o senador Roger Pinto chegou ao aeroporto de Corumbá, estava acompanhado de grande aparato de segurança?

Umas sete pessoas davam segurança a ele. Cinco agentes da Polícia Federal, bem armados, e os dois fuzileiros navais que o haviam acompanhado desde La Paz.

— O Eduardo Saboia não foi ao aeroporto?

Não. Eu insisti muito para que ele voasse com a gente até Brasília. Mas ele preferiu não nos acompanhar.

— Ele decerto está ciente de que pode sofrer sanções administrativas, não?

Obviamente, ele não ignora os riscos. Mas acho que deveria ser condecorado, jamais punido. Tomou uma decisão corajosa. Ao viajar junto com o senador, pôs inclusive a própria vida em risco. Conversamos muito. Sei que ele fez isso por não suportar a indiferença de ver um perseguido político se deteriorando numa sala, como se fosse um resto de gente. Era essa a situação do senador na Bolívia.

— Pelo que conversavam, o Eduardo Saboia planejava essa operação há muito tempo?

Ele revelava, há algum tempo, muito incômodo com a falta de definição e de determinação do governo brasileiro, em função de ter concedido o asilo político e não ter obtido o salvo-conduto para o deslocamento do asilado. O Saboia é uma figura muito comprometida com os direitos humanos. É um homem muito sério. O que o moveu foi a indignação.

— Na sua opinião, o governo brasileiro se portou mal no episódio?

Não há nenhuma dúvida a esse respeito. Sou um crítico da falta de determinação da diplomacia brasileira nesse caso. Nossa diplomacia por vezes é muito companheira dos nossos vizinhos bolivarianos. Há um nítido viés ideológico nas relações. Acho um absurdo que o governo brasileiro, após conceder o asilo ao senador, não tenha se empenhado para obter o salvo-conduto.

— Na sua avaliação, faltou pressionar a Bolívia?

O salvo-conduto é uma consequência natural do asilo político, que por sua vez é uma decisão unilateral do país que concede. Mesmo nos momentos mais duros das ditaduras sulamericanas, como a do Chile, nunca um salvo-conduto para o Brasil foi negado. O governo brasileiro deveria ter exigido da Bolívia o salvo-conduto. No mês passado, em encontro de cúpula do Mercosul, no Uruguai, os chefes de Estado do grupo aprovaram uma nota concluindo que o asilo é decisão soberana dos países. Referiam-se ao caso do Edward Snowden [ex-técnico terceirizado da CIA]. Entre os signatários está o Evo Morales. Por que as regras do asilo valem para o Snowden e não valeriam para o senador Roger? Não faz o menor sentido.

Foto: Caputura de vídeo Fantástico

Diplomata brasileiro Eduardo Saboia entrevista no Fantastico

— Depois do desembarque em Brasília, o senador boliviano foi para um hotel?

Chegamos à Capital na madrugada de sábado para domingo. Eu tinha oferecido minha casa para ele pernoitar. Ele tinha topado. Mas, no meio do caminho, falou com o advogado dele. E preferiu ir para a casa desse advogado.

— Então, ele tem um advogado em Brasília?

Sim. Chama-se Fernando Tibúrcio. Peticionou em nome dele junto ao STF, pedindo providências ao governo brasileiro.

— O senador Roger Pinto responde a mais de 20 processo na Bolívia. É acusado de corrupção. Está seguro de que as acusações são falsas?

Confio muito na avaliação do Eduardo Saboia. No caso dos torcedores corintianos, já libertados, ele tinha me dito que nenhum deles tinha envolvimento com a morte daquela menino boliviano, no estádio de Ururo. E o Saboia me passa a mesma segurança em relação ao caso do senador Roger. Ele está muito seguro, pelos dados que obteve, de que o senador é perseguido pelo governo do Evo Morales. Diz que as acusações que pesam contra ele fruto de disputa política. Ele é o líder da oposição. Não o conheço em profundidade. Mas pergunto: se ele fosse um criminoso, o governo brasileiro teria concedido o asilo político?

— Sobre o quê o sr. e o senador boliviano conversaram durante o voo de Corumbá até Brasília?

Ele me pareceu em estado de choque. A ficha ainda não havia caído. Ele parecia ainda não acreditar na possibilidade de ser um homem livre. Me disse que contou os dias em que ficou retido numa sala. Foram 455 dias. Na cabeça dele, a estratégia do governo da Bolívia era vencê-lo pelo cansaço. Esperavam que ele não aguentasse e saísse à rua, para ser preso. É um homem de família, Batista, conservador. Sabe que terá de refazer a vida.

— O senador Renan Calheiros respondeu ao recado que o sr. deixara no sábado?

Ele me ligou no domingo, quando tudo já estava resolvido. Contei rapidamente o que se passou. E ficou nisso.

— Não receia ser criticado por sua participação na fuga?

De jeito nenhum. Não convivo muito bem com a omissão. Prefiro o erro à indiferença. E não creio ter cometido nenhum erro nesse episódio.


Editoria de Arte - Folha de S. Paulo