21 de dez de 2014

O drama da Petrobras e de Dilma Rouseff e Graça Foster

BRASIL – Operação Lava Jato
O drama da Petrobras de Dilma Rouseff e Graça Foster
“Se a culpa é minha, boto em quem eu quiser.” O governo usa a máxima de Homer Simpson para lidar com a crise na Petrobras. A Petrobras perdeu R$ 600 bilhões em valor de mercado nos últimos seis anos.

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

AMIGAS - Graça Foster com Dilma Rousseff. A presidente encontra dificuldades para demitir uma auxiliar de confiança

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Murilo Ramos com Flávia Tavares e Filipe Coutinho
Fonte: Época

O que vale mais: uma sandália de borracha ou uma ação da Petrobras? Um CD no camelô ou uma ação da Petrobras? Um McLanche Feliz (um cheeseburger, um refrigerante pequeno, uma batata frita pequena e um brinquedo), com sobremesa – ou duas ações da Petrobras?

A resposta parece inacreditável. Infelizmente, não é piada. As ações da empresa, que já foi a maior do Brasil, passaram a valer menos de R$ 10 na semana passada. E não param de cair, cair, cair... O patamar é o menor em dez anos.

A Petrobras perdeu R$ 600 bilhões em valor de mercado nos últimos seis anos. Se cédulas de R$ 100 fossem colocadas lado a lado, seria possível dar 23 voltas ao mundo com a dinheirama da Petrobras que evaporou.

O valor corresponde ao PIB da Finlândia, próspero país escandinavo, ou metade do PIB da Bélgica.

Ganha uma sandália de borracha, um CD de camelô ou até um McLanche Feliz quem adivinhar quanto tempo ainda dura no cargo a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster.

Foi preciso que a situação da Petrobras se deteriorasse ao tragicômico para que a presidente Dilma Rousseff finalmente se convencesse de que a melhor solução para a crise é demitir Graça e a atual diretoria – informação confirmada por quatro pessoas com conhecimento do assunto. Isso depois de Graça pedir três vezes demissão e imolar-se em público ao pedir para ser investigada. A saída de Graça é questão de dias, ou semanas.

A parolagem do governo para se eximir da administração desastrosa da estatal é antiga. Para Dilma, a culpa é dos outros – no caso, da baixa acentuada no preço do petróleo no mercado mundial. Como já disse Homer Simpson: “Se a culpa é minha, eu a boto em quem eu quiser”. O princípio Homer vale para a Petrobras, para a economia (a culpa é da crise lá fora) e para as perenes dificuldades políticas do governo (a culpa é do Congresso).

No caso da Petrobras, fica ainda mais difícil recorrer ao princípio Homer. Dilma é, desde o primeiro mandato do governo Lula, a principal responsável pela Petrobras – na prática e no papel. Foi presidente do Conselho e dava ordens expressas, no segundo mandato de Lula, ao então presidente da empresa, José Sergio Gabrielli. Quando se elegeu presidente da República, escolheu os diretores e a estratégia de curto e longo prazo da empresa. Em termos econômicos e operacionais, a Petrobras deve seu Natal miserável a Dilma. Ao que ela fez antes – e ao que ela deixa de fazer agora.

O princípio Homer não explica a crise na Petrobras. Basta comparar a queda das ações da Petrobras nos últimos seis meses, desde que o preço do petróleo começou a cair, à desvalorização das ações de outras grandes petroleiras. As ações da Petrobras caíram 45%. As da Exxon, 11%; as da Chevron, 17%; e as da British Petroleum, 27%. A queda no preço do petróleo atinge todas as petroleiras – mas atinge muito mais a Petrobras. Ao contrário das maiores petroleiras do mundo, conhecidas como “supermajors”, ela não se preparou para o cenário de queda do petróleo. Também, ao contrário delas, demora a agir para se adaptar à nova realidade do mercado de petróleo.

A PETROBRAS É A EMPRESA MAIS ENDIVIDADA DO PLANETA, COM PAPAGAIOS NO VALOR DE US$ 135 BILHÕES

O despreparo da Petrobras para enfrentar esse momento ruim deve-se, como em qualquer outra empresa, ao despreparo dos executivos escolhidos para comandar a Petrobras. A equipe que a dirige não foi escolhida por reunir os melhores dentre os excelentes quadros da empresa. Foi escolhida por afinidades pessoais e ideológicas com Dilma – e, até outro dia, por atender às demandas dos partidos da base aliada. Quando o aparelhamento político se uniu à ideologia nacionalista do PT, em 2004, o destino da Petrobras estava traçado.

Na prática, transformar a exploração do pré-sal em obsessão empresarial (a ideologia nacionalista) e traçar cenários pouco realistas foram os principais erros cometidos nos últimos anos. Os planos de investimentos da Petrobras tomaram por base o barril do petróleo no patamar de US$ 100. O valor, hoje, está na casa dos US$ 60. A principal razão para a desvalorização do petróleo é o desequilíbrio entre a oferta e a demanda. Estados Unidos e Líbia passaram a produzir muito mais petróleo. Ao mesmo tempo, a desaceleração da economia mundial levou a maioria dos países ricos e emergentes (sobretudo a China) a consumir menos. Há outros fatores mais complexos em jogo. Tudo no mercado de petróleo é complexo e exige um grau de planejamento incomum em nenhuma outra área.

Para persistir em seus ambiciosos planos de investimento, a Petrobras passou a vender ativos no exterior com grande potencial de crescimento. Para financiar a exploração do pré-sal, como revelou ÉPOCA no ano passado, ela desfez-se, em condições desvantajosas, de plataformas e refinarias na Argentina e em países africanos. Para completar, a Petrobras foi usada indiscriminadamente como instrumento de política econômica do governo. Em tempos de alta no preço do petróleo, congelava os preços nas bombas para segurar a inflação. Na baixa, não repassa a queda aos consumidores finais. Hoje, os consumidores brasileiros pagam pelo litro de gasolina um preço 40% acima do praticado em outros países. “Em um momento, a Petrobras subsidia o consumidor. No seguinte, o consumidor subsidia a Petrobras”, afirma o consultor de energia Adriano Pires.

Foto: Fotos: Felipe Dana/AP e Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

DENÚNCIAS - A empresa holandesa SBM disse que ganhou US$ 25 milhões para apressar a inauguração de uma obra da Petrobras

O problema atual da Petrobras é, sobretudo, de confiança. Ela ostenta o nada honroso título de empresa mais endividada do planeta. Sua dívida alcança US$ 135 bilhões. Desse total, 80% em moedas estrangeiras, que têm se valorizado ante o real nos últimos meses.

Já seria difícil para a Petrobras conseguir contrair novos empréstimos para levar adiante seu plano de investimentos. Nas condições atuais, é impossível: ela adiou indefinidamente a publicação do balanço do terceiro trimestre de 2014. É por meio desse documento que os bancos analisam as condições da empresa e decidem se devem ou não emprestar a ela,

Na quarta-feira passada, num tom de lamento, Graça disse que ela e todos os diretores da Petrobras precisavam ser investigados. Está claro que Graça não tem mais condições de conduzir a empresa pelos próximos anos. Por que a demora em substituí-la? Um dos motivos é que a saída de Graça representaria o afastamento de uma das poucas pessoas em quem a presidente Dilma confia.

Elas se conhecem desde os anos 1990, quando Dilma era secretária de Energia do Rio Grande do Sul, e Graça, já na Petrobras, era uma das gerentes responsáveis pela construção do gasoduto que liga a Bolívia ao Brasil. Com a chegada de Dilma ao governo federal, Graça passou a ocupar postos importantes. Entre eles, a Secretaria de Gás e Petróleo do Ministério de Minas e Energia e a presidência da BR Distribuidora. Para os padrões de Dilma, Graça sempre correspondeu a suas expectativas.


Venina Fonseca (acima), subordinada de Paulo Roberto Costa, afirmou que alertara Graça Foster sobre a corrupção na Petrobras
A Operação Lava Jato abalou o prestígio de Graça e obrigou a presidente Dilma a procurar substitutos. “A escolha tem de ter o mesmo impacto que teve a indicação do Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda”, diz um ministro do governo. Até agora, o nome mais cotado é Murilo Ferreira, que preside a Vale desde 2011.

O governo também deverá indicar um novo diretor financeiro para ajudar o futuro presidente. A tendência é que os outros diretores sejam funcionários de carreira.

A soma do endividamento com a pilhagem transformou a Petrobras num mico mundial. Para piorar, as revelações de roubalheira sucedem-se com a mesma rapidez da queda na Bolsa. Na última semana, o jornal Valor Econômico revelou que Venina Fonseca, uma subordinada de Paulo Roberto Costa, alertara Graça para as evidências de corrupção na diretoria ocupada por ele. Foi despachada para Cingapura.

O jornal O Globo mostrou que a empresa holandesa SBM, ré confessa na corrupção na Petrobras, ganhou US$ 25 milhões a mais para que Lula e Dilma inaugurassem apressadamente, durante a campanha de 2010, a plataforma P-57, construída pela SBM.

As más notícias criminais não pararão. Em 2015, a força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público que investiga os múltiplos ramos da corrupção na Petrobras incluirão mais empreiteiras, dirigentes da Petrobras e políticos no escândalo – os deputados, senadores, ministros e governadores que, segundo os depoimentos de Paulo Roberto e do doleiro Alberto Youssef, participaram do petrolão.

Listas extraoficiais já começam a circular, como a divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira passada. No começo de fevereiro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedirá ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito contra eles. Antes, Janot e sua equipe analisam as provas que pesam contra os políticos. A mera citação nos depoimentos de Paulo Roberto ou de Youssef não significa que eles tenham participado do esquema.

“Paulo Roberto estava tão desesperado que citou até quem passou para tomar um cafezinho com ele”, diz um dos procuradores do caso, brincando – mas nem tanto. É preciso cautela antes de julgar quem foi meramente citado pelos delatores. Isolada, a palavra deles vale tanto quanto uma ação da Petrobras.

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