21 de mar de 2014

PETROBRAS: Um poço profundo, de Miriam Leitão, para O Globo

BRASIL - Opinião
PETROBRAS: Um poço profundo
Quando uma empresa do tamanho da Petrobras, com excelentes quadros em todas as áreas, começa a fazer tanto negócio ruim, a melhor resposta é investigar, explicar e punir. O governo apostou na ideia de deixar tudo como está que o país esqueceria. Só que, a cada novo escândalo, os contribuintes e os acionistas que tanto dinheiro têm perdido na empresa ficam querendo ter, ao mínimo, boas explicações.

Charge: Sponholz - Jornal da Manhã (PR)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Miriam Leitão
Fonte: Blog de Miriam Leitão

Não há explicação boa para a presidente Dilma no caso Pasadena. Se todo o seu marketing político foi feito com a ideia de que ela é boa gerente, a explicação mostra um desempenho sofrível. Se ela foi enganada, já houve muito tempo para apurar, entender e punir quem omitiu as informações sobre o desastroso negócio. A revelação do prejuízo da empresa foi feita há dois anos.

A prisão do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa reforça ainda mais a suspeita sobre alguns dos negócios feitos pela empresa. O incrível caso da refinaria Abreu e Lima, cujo preço saiu de US$ 2,5 bilhões para US$ 20 bilhões, as denúncias de pagamentos de propina a funcionários na Holanda, tudo mostra erros na primeira gestão da Petrobras sob o governo do PT.

Dos escândalos da Petrobras, o maior prejuízo à empresa até agora é a refinaria Abreu e Lima. Foi uma ideia do ex-presidente Lula, em setembro de 2005, para agradar o então presidente venezuelano Hugo Chávez. Um dos vários casos de ingerência política na petrolífera. A refinaria foi desenhada para refinar o petróleo daquele país e isso não pode mais ser mudado. A Venezuela pulou fora, não colocou um tostão. A Petrobras teve que assumir tudo e o custo da refinaria deu um salto. Ficaria pronta em 2009, mas ainda está em construção.

Em 2009, surgiram notícias de superfaturamento na obra que começou a ser investigado pelo TCU. O BNDES anunciou em seu balanço que emprestou R$ 10 bilhões para a construção da refinaria. Em fevereiro de 2011, numa entrevista concedida para esta coluna, o então diretor Paulo Roberto Costa, responsável pelo projeto, disse que quando se decidiu fazer a refinaria sob medida para o petróleo venezuelano não havia ainda as perspectivas do pré-sal. Na época, o preço estava calculado em US$ 13 bilhões. Já chegou a US$ 20 bilhões e a atual presidente da empresa, Graça Foster, disse que o custo foi reduzido para US$ 18,5 bilhões.

Recentemente, o jornal "Valor Econômico" publicou a notícia de que a holandesa SBM, que aluga plataformas, está sob investigação pelas autoridades de Holanda, Inglaterra e Estados Unidos, por suspeitas de pagamento de propina. Nas denúncias investigadas, a informação é de que pelo menos US$ 139 milhões foram pagos a funcionários da Petrobras.

O caso da compra da refinaria de Pasadena é outro que continua assombrando. E continua porque nunca foi explicado e nunca foi devidamente investigado pelo governo. Os números falam por si, não precisa nem ser um bom gerente para saber que não se paga US$ 360 milhões por metade de uma refinaria que no ano anterior havia sido comprada integralmente por US$ 42 milhões pela empresa belga Astra.

Mas quem achou que a Petrobras estava fazendo um mau negócio quando aceitou pagar isso por uma refinaria velha, ficou ainda mais perplexo ao saber que o pior estava por vir. Ao entrar em conflito com o seu sócio, a Petrobras teve que pagar mais US$ 860 milhões pela outra metade. Como já escrevi aqui neste espaço no ano passado: ou os belgas são muito astutos, ou alguém fez o papel de bobo na Petrobras ou os envolvidos são bem espertos.

Quando uma empresa do tamanho da Petrobras, com excelentes quadros em todas as áreas, começa a fazer tanto negócio ruim, a melhor resposta é investigar, explicar e punir.

O governo apostou na ideia de deixar tudo como está que o país esqueceria. Só que, a cada novo escândalo, os contribuintes e os acionistas que tanto dinheiro têm perdido na empresa ficam querendo ter, ao mínimo, boas explicações.

A resposta da presidente Dilma à matéria do "Estadão" — dizendo que, quando presidente do Conselho de Administração da empresa, aprovou o negócio porque foi informada por um parecer falho, que omitia a existência das cláusulas prejudiciais à Petrobras — tem dois defeitos. Primeiro, a explicação não combina com a imagem de uma gerente eficiente. Segundo, em 2012, todos souberam como o negócio era desastroso para a Petrobras. E, se ela foi enganada, por que mesmo ninguém foi punido, não se investigou, não se prestou contas à população e o diretor responsável pela negociação apenas trocou de área? Há muitas explicações a dar ao distinto público que não seja "eu não sabia".
*Acrescentamos subtítulo e charge à publicação original

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