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30 de set. de 2012

Os crimes sexuais de Kadafi

LÍBIA
Os crimes sexuais de Kadafi
O livro reportagem, “As presas - sobre o harém de Kadafi” , da jornalista do Le Monde, Annick Cojean, conta o horror dos porões do palacio do ditador líbio, onde mulheres, homens e crianças viviam como prisioneiros, para satisfazer o doentio apetite sexual do ditador, que utilizava-se de até quatro vítimas diárias.


Ex-presidente líbio mantinha, segundo o livro, mulheres, homens e menores de ambos os sexos como escravos sexuais, em Trípoli. Costumava estruprar menores de ambos os sexos.

Postado por Toinho de Passira
Fontes: O Globo, El Pais, Terra

As orgias e depravações sexuais dos filhos de Muamar Kadafi são de conhecimento público, mas pouco se sabe da intimidade do ex-ditador líbio, morto no ano passado.

Em entrevista ao jornal espanhol “El País”, a jornalista Annick Cojean, autora do livro “As presas”, conta detalhes do apetite sexual insaciável do ex-presidente, que além de violar mulheres, abusaria também de homens, incluindo seus próprios ministros e embaixadores, e teria ao menos quatro relações sexuais por dia. O livro, recém-lançado na França, retrata um Kadafi megalomaníaco, vaidoso e cínico.

- Muitos o viam como um predador de mulheres, mas não podíamos imaginar seu nível de barbárie, sadismo e violência - disse Annick.

Soraya, uma das jovens cujo relato está presente no livro, tinha 15 anos quando, em 2004, foi sequestrada por 'olheiros' de Kadafi após entregar um buquê de flores para ele durante uma cerimônia em sua escola. O ex-líder aceitou o presente e colocou a mão sobre a cabeça da menina. Soraya disse que só mais tarde percebeu que o sinal queria dizer "eu quero essa".

No dia seguinte, mulheres em uniformes apareceram no salão de beleza de sua mãe em Sirte e explicaram que Kadafi queria a menina para outra "cerimônia de buquê". Ela foi levada, viajou horas por um deserto, teve seu sangue tirado e os seios medidos antes de ser desnuda e depilada. Após ser vestida com uma pequena calcinha e um vestido justo de cetim branco, ela foi levada ao quarto de Kadafi, onde o encontrou já pelado.

As mulheres que escoltavam Kadafi, nas suas viagens, eram, na verdade, escravas sexuais
"Ele segurou a minha mão e me forçou a sentar ao seu lado na cama", contou Soraya, acrescentando que não se atreveu a encará-lo. "Ele disse: 'não tenha medo. Eu sou o seu papai. Não é assim que vocês me chamam? Mas também serei seu irmão e amante, porque você ficará e viverá comigo para sempre'". A jovem afirmou que tentou resistir e foi então foi enviada para ter lições com Mabrouka, mulher responsável pelo harém de Kadafi, que recebeu ordens para educá-la e trazê-la de volta.

De acordo com o livro, Kadafi repetidas vezes estuprou, espancou e urinou em cima da adolescente nos cinco anos que ela passou em cativeiro. Algumas vezes outras garotas estavam presentes nos seus encontros com o líder. Quando alguma delas fazia sexo oral em Kadafi, ele dizia para Soraya "assistir e aprender". Segundo a jovem, Kadafi estava sempre drogado e obrigava suas vítimas a cheirar cocaína, fumar, beber e dava filmes pornôs para a jovem ver como "dever de casa" .

Outra vítima, Houda, relatou à jornalista francesa que concordou em fazer sexo com Kadafi após ele prometer libertar o seu irmão. Ela tinha 18 anos na época do primeiro encontro. Kadafi teria abusado dela nos próximos cinco.

Famoso por sua tirania, os relatos no livro ajudam a trazer luz sobre o misterioso exército de mulheres em uniforme que sempre escoltava Kadafi em suas viagens. De acordo com a obra, em vez de fazer a segurança do líder, elas eram suas escravas sexuais e Kadafi adotava o estupro como prática diária. O ex-líder, morto em 2011 ao fim da revolução que tomou conta da Líbia, também estupraria meninos com frequência, segundo relatos de vítimas.

Capa da versão francesa do livro sobre os crimes sexuais de Kadafi

Como Soraya, eram muitas mulheres e até alguns homens, vivendo como escravos sexuais. Alguns ficavam por dias, outros por anos sob o domínio do ditador. O fluxo era constante para saciar o apetite sexual de Kadafi, que mantinha relações com quatro pessoas por dia, segundo as testemunhas entrevistadas por Annick.

- Algumas me falaram de 30 mulheres presas ao mesmo tempo, mas é impossível comprovar, havia muitas idas e vindas e os movimentos eram restritos. Não tinham muito contato umas com as outras - disse a jornalista.

>Qualquer evento poderia ser usado para encontrar novas presas sexuais, incluindo viagens ao exterior, diz Annick. Segundo a jornalista, qualquer lugar poderia ser usado para saciar o apetite do líder. Nos porões da Universidade de Trípoli, por exemplo, rebeldes encontraram um quarto, com uma enorme cama ainda feita e uma hidromassagem com detalhes de ouro.

Mas a obsessão sexual de Kadafi também era uma arma de poder. O ditador usava o sexo para punir seus desafetos políticos, contou um ex-membro do regime, afirmando que o líder abusava sexualmente com alguns de seus ministros, condenados à desonra, e elaborava estratégias para seduzir mulheres de chefes de Estado africanos e embaixadores.

- Cada vez que queria se posicionar como vencedor frente a um chefe tribal, de Estado ou um opositor qualquer, prometia que poderia dar dinheiro para uma fundação, diploma de estudo, para sua mulher, sua filha. Uma desculpa para um convite até o complexo de Bab al-Aziziya. O simples fato de ter transado com a filha de um deles o fazia se sentir triunfal - disse Annick.

1 de abr. de 2011

As 112 maneiras de se escrever Kadhafi

LÍBIA
As 112 maneiras de se escrever Kadhafi
O nome do líder líbio é escrito de centena de maneiras diferentes devido a dificuldades da transliteração da língua árabe e também da pronúncia regional da Líbia. Dizem que o comandante líbio prefere as grafias Moammar El-Gadhafi, Muammar Gadafi ou al-Gathafi

Foto: Arquivo

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Portal Sapo, Wikipedia , Portal SIC

As dúvidas não são de agora, mas nesses últimos tempos as dúvidas como se escreve e se pronuncia o nome do líder da Líbia têm surgido com mais frequência nos meios de comunicação social.

Khadafi, Kadhafi ou Gadaffi são apenas três das mais de cem formas possíveis.

Um levantamento feito entre 1998 e 2008 chegou à conclusão que o nome e o apelido do líder da Líbia foram escritos de 112 maneiras diferentes.

Apesar de estar no poder há mais de 40 anos, a uniformização está longe de ser consensual.

O New York Times, por exemplo, escreve "Qaddafi", o Washington Post "Gaddafi", Los Angeles Times "Kadafi" e a France Press Kadhafi.

Uma das explicações para tanta divergência é que não há como traduzir para o alfabeto romano ou latino os nomes árabes. Kadhafi é especialmente complicado porque tem sons que não têm equivalente noutros idiomas. A dificuldade aumenta se quisermos escrever e pronunciar o nome e o sobrenome. A Biblioteca do Congresso norte-americano elaborou uma lista com 112 grafias possíveis utilizadas pelo New York Times, Associated Press e outras agências noticiosas entre 1998 e 2008.

Eis as 112 formas de escrever o nome do líder líbio

  • Qaddafi, Muammar
  • Al-Gathafi, Muammar
  • al-Qadhafi, Muammar
  • Al Qathafi, Mu'ammar
  • Al Qathafi, Muammar
  • El Gaddafi, Moamar
  • El Kadhafi, Moammar
  • El Kazzafi, Moamer
  • El Qathafi, Mu'Ammar
  • Gadafi, Muammar
  • Gaddafi, Moamar
  • Gadhafi, Mo'ammar
  • Gathafi, Muammar
  • Ghadafi, Muammar
  • Ghaddafi, Muammar
  • Ghaddafy, Muammar
  • Gheddafi, Muammar
  • Gheddafi, Muhammar
  • Kadaffi, Momar
  • Kad'afi, Mu`amar al-
  • Kaddafi, Muamar
  • Kaddafi, Muammar
  • Kadhafi, Moammar
  • Kadhafi, Mouammar
  • Kazzafi, Moammar
  • Khadafy, Moammar
  • Khaddafi, Muammar
  • Moamar al-Gaddafi
  • Moamar el Gaddafi
  • Moamar El Kadhafi
  • Moamar Gaddafi
  • Moamer El Kazzafi
  • Mo'ammar el-Gadhafi
  • Moammar El Kadhafi
  • Mo'ammar Gadhafi
  • Moammar Kadhafi
  • Moammar Khadafy
  • Moammar Qudhafi
  • Mu`amar al-Kad'afi
  • Mu'amar al-Kadafi
  • Muamar Al-Kaddafi
  • Muamar Kaddafi
  • Muamer Gadafi
  • Muammar Al-Gathafi
  • Muammar al-Khaddafi
  • Mu'ammar al-Qadafi
  • Mu'ammar al-Qaddafi
  • Muammar al-Qadhafi
  • Mu'ammar al-Qadhdhafi
  • Mu`ammar al-Qadhdhāfī
  • Mu'ammar Al Qathafi
  • Muammar Al Qathafi
  • Muammar Gadafi
  • Muammar Gaddafi
  • Muammar Ghadafi
  • Muammar Ghaddafi
  • Muammar Ghaddafy
  • Muammar Gheddafi
  • Muammar Kaddafi
  • Muammar Khaddafi
  • Mu'ammar Qadafi
  • Muammar Qaddafi
  • Muammar Qadhafi
  • Mu'ammar Qadhdhafi
  • Muammar Quathafi
  • Mulazim Awwal Mu'ammar Muhammad Abu Minyar al-Qadhafi
  • Qadafi, Mu'ammar
  • Qadhafi, Muammar
  • Qadhdhāfī, Mu`ammar
  • Qathafi, Mu'Ammar el
  • Quathafi, Muammar
  • Qudhafi, Moammar
  • Moamar AI Kadafi
  • Maummar Gaddafi
  • Moamar Gadhafi
  • Moamer Gaddafi
  • Moamer Kadhafi
  • Moamma Gaddafi
  • Moammar Gaddafi
  • Moammar Gadhafi
  • Moammar Ghadafi
  • Moammar Khadaffy
  • Moammar Khaddafi
  • Moammar el Gadhafi
  • Moammer Gaddafi
  • Mouammer al Gaddafi
  • Muamar Gaddafi
  • Muammar Al Ghaddafi
  • Muammar Al Qaddafi
  • Muammar Al Qaddafi
  • Muammar El Qaddafi
  • Muammar Gadaffi
  • Muammar Gadafy
  • Muammar Gaddhafi
  • Muammar Gadhafi
  • Muammar Ghadaffi
  • Muammar Qadthafi
  • Muammar al Gaddafi
  • Muammar el Gaddafy
  • Muammar el Gaddafi
  • Muammar el Qaddafi
  • Muammer Gadaffi
  • Muammer Gaddafi
  • Mummar Gaddafi
  • Omar Al Qathafi
  • Omar Mouammer Al Gaddafi
  • Omar Muammar Al Ghaddafi
  • Omar Muammar Al Qaddafi
  • Omar Muammar Al Qathafi
  • Omar Muammar Gaddafi
  • Omar Muammar Ghaddafi
  • Omar al Ghaddafi

    em árabe:
  • معمر القذافي

  • 27 de fev. de 2011

    LÍBIA: Euforia em Benghazi, "Capital" dos rebelados líbios

    LÍBIA
    Euforia em Benghazi, "Capital" dos rebelados líbios
    Em Benghazi, cidade onde a revolta começou, ruínas de quartel-general de Gaddafi viram ponto de visitação. População festeja nas ruas e liberta presos pelo ditador; moradores falam em 1.200 mortos desde início da revolta. Rebeldes aproximam-se cada vez mais de Trípolí, o reduto da resistência de Kadhafi

    Foto: Lynsey Addario/The New York Times

    Quartel-general do Exército líbio em Benghazi, vira “passeio turístico” rebelde

    Postado por Toinho de Passira
    Fontes: Folha de São Paulo, Al Jazeera, The New York Times, Reuters

    O jornalista Marcelo Ninio, enviado especial da Folha de São Paulo, conta direto de Benghazi (Líbia), que as ruínas do quartel-general do Exército líbio em Benghazi, a cidade que deu início à revolta popular contra o regime de Muammar Gaddafi, viraram ponto de encontro de famílias e monumento à vitória contra o regime.

    No amplo complexo militar ocorreram alguns dos confrontos mais violentos entre manifestantes e forças leais a Gaddafi, e ninguém conta em menos de 500 o número de mortos. Na cidade, o total estimado pelos moradores é de 1.200.

    O médico Zakaria Alkatir é um dos que levaram os filhos para ver os destroços da base militar. Ele conta que estava de plantão num dos hospitais da cidade e recebeu dezenas de mortos e feridos a bala nos confrontos.

    "Uma das salas do hospital tinha uma pilha de cadáveres", disse o médico. "Quando a poeira baixar e a verdade vier à tona, o mundo ficará horrorizado".

    Foto: Getty Images

    Rebeldes comemoram diante do dominado quartel-general do Exército líbio em Benghazi

    Perto dali, um tumulto se forma quando dezenas de jovens começam a cavar num ponto isolado do complexo.

    Munidos de picaretas, marretas e pás, abrem um buraco no chão para livrar prisioneiros que o Exército colocou em masmorras concretadas. É possível ouvir suas vozes pelo pequeno orifício aberto a marretadas.

    "Há 150 prisioneiros vivos aí", diz um dos jovens, logo depois de dar um tiro para o alto para conter a euforia.

    Segunda maior cidade da Líbia, com cerca de 1 milhão de habitantes, Benghazi respira ares de uma nova era. Desde domingo sob o controle dos opositores, os moradores da cidade acompanham com aflição os desdobramentos da revolta na capital, Trípoli, mas sem perder a confiança de que o ditador está com os dias contados.

    A debandada das forças de Gaddafi do leste do país é uma realidade, ainda que o controle da região pelas forças da oposição nem sempre seja visível.

    Nos quase 500 km que separam Tobruk de Benghazi, as duas maiores cidades da região, a impressão é de uma terra de ninguém.

    Foto: Getty Images

    Jovens líbias caras pintadas com as cores da Líbia

    Se na estrada entre a fronteira egípcia e Tobruk a reportagem da Folha foi parada várias vezes em barreiras montadas por civis, no percurso até Benghazi praticamente não há ninguém.

    Na chegada à cidade, o clima muda. Sob chuva intensa, centenas de pessoas estavam nas ruas para manifestar apoio à revolução.

    "Não temos mais motivo para escolher outra palavra: esta é a nossa revolução", exulta o médico Khalifa Ilfaitury. Por toda a cidade alguém para a reportagem para explicar o que houve ou xingar Gaddafi.

    O espírito revolucionário dá mostras de comprometimento e generosidade, que inclui ofertas de todo o tipo aos jornalistas estrangeiros.

    "Precisamos ajudar a levar a verdade ao mundo", diz o empresário Salah Elghoul. Táxis tornam-se irrelevantes, enquanto motoristas se oferecem para levar repórteres de graça.

    Foto: Getty Images

    Os revolucionários comemoram sob a antiga bandeira líbia, dos tempos da independência.

    A bandeira nacional de Gaddafi, toda verde (cor do islã), foi definitivamente trocada pelas cores da bandeira da independência da Líbia, em listas horizontais vermelha, preta e verde.

    Um grande hotel de Benghazi, que costumava ser propriedade do regime, foi tomado pelos manifestantes.

    Pelo lobby, circulam jovens vestidos com abrigos esportivos e levando fuzis a tiracolo. Rumores sobre o que acontece na parte do país ainda dominada por Gaddafi proliferam.

    Foto: Lynsey Addario/The New York Times

    Um colar de munição anti-aérea conduzida por rebeldes

    No fim da noite em Benghazi, Alla Benaziz, estudante de 24 anos cujo pai desertou do Exército líbio, chega com notícias "preocupantes" de Trípoli. Diz que um amigo viu mais de 300 tanques partirem da base onde está Gaddafi rumo ao sul da capital.

    "Certamente o plano é matar o maior número possível de civis e acabar com a revolução", diz. "Mas eles não vão conseguir, nós vamos resistir", completa.

    Foto: Reuters

    Rebeldes comemoram nas ruas de Zawiyah

    As últimas notícias transmitidas pela agência de notícias Reuters, diz que os rebeldes tomaram o controle da cidade de Zawiyah, cerca de 50 quilômetros ao oeste da capital, Trípoli, neste domingo, e a bandeira vermelha, verde e preta dos rebelde tremula na cidade libertada.

    "Essa é a nossa revolução", gritava uma multidão de centenas de pessoas com os punhos erguidos, no centro da cidade. Algumas pessoas estavam em cima de um tanque capturado. Mulheres ficaram no alto dos edifícios torcendo pelos homens, que estavam na multidão.

    "A Líbia é a terra dos livres e honrados", dizia uma faixa. Outra mostrava a cabeça de Gaddafi num corpo de cachorro.

    Buracos de balas marcavam prédios queimados, onde os conflitos foram mais intensos, enquanto que veículos incendiados estavam abandonados pelas ruas.

    Foto: Al Jazeera

    CURSO RÁPIDO DE ARTILHEIRO - Um oficial do exército líbio, que desertou para o lado rebelde, ensina o funcionamento de uma bateria anti-aérea para os civis rebeldes, em Benghazi O exército rebelde está se preparando para lutar contra as forças do líder líbio Kadhafi


    OPINIÃO: Os outonos - Mirian Leitão

    OPINIÃO
    Os outonos
    “O que está acontecendo agora nesta extensa e nevrálgica área do mundo é uma revolução. Não sabemos o que vai dar, haverá desfechos variados, mas é saudável e positivo que centenas de milhões estejam se libertando de governos autocráticos e de oligarquias”. – diplomata Roberto Abdenur

    Foto: Getty Images

    Míriam Leitão e Alvaro Gribel
    Fonte: Coluna de Miriam Leitão - O Globo

    Todo patriarca, todo autocrata têm seu outono. E eles se parecem no seu final mais do que no início. Delirantes, de óculos escuros, criminosos. Não fosse pela roupa, Muamar Kadafi poderia se passar por Augusto Pinochet com aqueles óculos escuros. A primavera dos povos da África sob regimes tirânicos ensina o resto do mundo sobre seus erros e prenuncia novas mudanças.

    É preciso rever conceitos. O professor Hani Hazime, libanês de nascimento, brasileiro naturalizado, e especialista em estudos islâmicos da UFRJ, ensina até novas definições:

    - Oriente Médio é conceito errado. Oriente é onde nasce o Sol, que é China e Japão. Os árabes não são orientais. A cultura árabe está baseada na herança judaico-cristã e helênica. A religião é monoteísta, todos filhos de Abraão. O Norte da África é tratado como parte do Oriente Médio.

    Enfim, tudo está em revisão a partir das revoltas que pedem mudanças em toda uma vasta região governada por regimes autocráticos. O diplomata Roberto Abdenur não tem dúvida de uma coisa: estamos diante de um processo revolucionário:

    - Houve dois momentos revolucionários na segunda metade do século XX. As rebeliões estudantis de 1968, na França, e a queda do muro de Berlim. A primeira alterou comportamentos, foi uma revolução generacional. A segunda mudou a geopolítica, com o fim do comunismo, extinção da União Soviética e democratização dos países da região. O que está acontecendo agora nesta extensa e nevrálgica área do mundo é uma revolução. Não sabemos o que vai dar, haverá desfechos variados, mas é saudável e positivo que centenas de milhões estejam se libertando de governos autocráticos e de oligarquias.

    Conversei com os dois no programa da Globonews. O assunto parece infindável. O executivo de uma empresa brasileira na Líbia disse há dez dias aos superiores no Brasil que tudo estava tranquilo em Trípoli. Ontem, já tinha retirado seus funcionários e abandonado as instalações. É espantosamente rápido como os processos se espalham. Hoje, tudo parece instável. Isso assusta a economia e alimenta esperanças na política. A médio prazo, lembra Abdenur, haverá a verdadeira estabilidade, porque o que parecia estável até agora era uma panela de pressão.

    Hani Hazime acha que o que aconteceu até agora contraria a visão tradicional do Ocidente em vários pontos.

    -Foram revoltas de jovens. Mais da metade desses países é formada por jovens. São multidões e não partidos políticos. Usam meios modernos, o que derruba o preconceito de um Islã avesso à modernidade. Não há religião até agora envolvida. Eles estão pedindo liberdade e democracia, o que o Ocidente dizia que não condiz com o Islã - diz o professor.

    Abdenur alerta que cada país é uma situação:

    - Afastados Ben Ali e Hosni Mubarak, começa uma transição política na Tunísia e no Egito tutelada pelos militares, mas sob forte pressão da opinião pública. Na Líbia, é diferente. Lá, o poder político estava concentrado em uma pessoa só, tem muito impacto na economia mundial, que não pode se ver sem 1,5 milhão de barris de petróleo e, dependendo da evolução, pode virar uma Somália no Mediterrâneo.

    O grande peão é a Arábia Saudita. País que, como lembrou Abdenur, tem vivido há 80 anos a estranha situação de ter o nome de uma família: os Saud. Hani Hazime ilustra mais essa questão, lembrando que lá, na estrutura do poder, estão seitas radicais islâmicas.

    - O golfo árabe não é árabe; em alguns países a maioria da população é paquistanesa ou indiana. No Bahrein, o conflito é religioso, parecido com o do Iraque, em que a maioria xiita é oprimida por uma minoria sunita. A grande pergunta é se as mudanças chegarão à Arábia Saudita. Acho difícil. Lá, atuam radicais islâmicos, como a seita wahabista, que foi adotada pela família real, e que usa isso e o fato de ser sede das duas cidades sagradas, Meca e Medina, para se impor. Lá, ninguém levanta a voz. Não haverá qualquer mudança sem ajuda externa. Isso não quer dizer invasão, mas sim conversas com a oposição, convencimento do governo, pressão por reformas - diz Hazime.

    Abdenur, que já foi à Arábia Saudita várias vezes, lembra também que lá nasceu a Al Qaeda:

    - Nos outros países, os regimes são desafiados pela esquerda. Na Arábia Saudita, há pressões por reformas, mas o principal risco é o regime ser assaltado pela direita, porque o principal alvo de Bin Laden sempre foi a derrubada da monarquia saudita. Outras monarquias da região têm mais enraizamento: a do Marrocos é um líder religioso e o da Jordânia representa os beduínos. Em alguns países há clamor por reformas, em alguns casos se soma a exigência de queda do ditador.

    Hani Hazime disse que um grande teste será como o Ocidente vai lidar com os ventos da democracia sobre os territórios ocupados por Israel, onde os palestinos, ele diz, são tratados como cidadãos de segunda classe. Ele acha que o mundo Ocidental esqueceu seus valores e se guiou apenas por interesses. E que num momento em que se fala de proteção da Terra é necessário resgatar valores universais. Abdenur acha que o ponto é importante. Pensa que a região que passa hoje por convulsões foi tratada da mesma forma como os Estados Unidos trataram a América Latina na guerra fria. Os governos latinos não precisavam ser democráticos, apenas simpáticos aos Estados Unidos.

    Aqui, o nosso Gabriel Garcia Marquez transformou em literatura a figura grotesca de um patriarca no seu outono. Eles caíram e tivemos a nossa primavera. Lá, a mudança da estação começou, mas é o tempo apenas do imprevisto.

    Foto: Getty Images

    Kadafi vivendo seu outono


    23 de fev. de 2011

    LÍBIA : Kadafi resiste em meio a um banho de sangue

    LÍBIA
    Kadafi resiste em meio a um banho de sangue
    A rebelião líbia é até agora a mais sangrenta das revoltas que varreu o mundo árabe com uma velocidade surpreendente, nas últimas semanas, derrubando autocratas no Egito e na Tunísia, e desafiando os outros no Bahrein e Iêmen. Mesmo os que já esperavam uma reação cruel e violenta por parte do coronel Kadafi, assutam-se com o que já aconteceu e temem com o que estar por vir

    Foto: Líbia televisão estatal, via Associated Pres

    ""Não sou presidente, não posso renunciar. Se tivesse um cargo renunciaria" , disse Kadafi na TV estatal

    Postado por Toinho de Passira
    Fontes: The New York Times, El Universal, ”thepassiranews”, Reuters, …, El Pais, Estadão, Guardian,

    O líder líbio, coronel Muamar el Kadafi, prometeu nesta terça-feira, num pronunciamento pela TV, morrer na Líbia como um mártir.

    "Eu não vou deixar esta terra, morrerei aqui como um mártir", disse Kadafi na televisão estatal. Recusando os pedidos feitos por seus próprios diplomatas, soldados e aos manifestantes das ruas que exigem o fim de seu governo de quatro décadas.

    "Muammar Kadafi é o líder da revolução. Não sou um presidente para renunciar... Este é o meu país. Muammar não é um presidente para deixar o cargo, Muammar é o líder da revolução até o final dos tempos."

    "Eu permanecerei aqui desafiador", completou Kadafi, falando do lado de fora de uma de suas residências, bastante danificada num bombardeio dos Estados Unidos de 1986 durante uma tentativa de assassiná-lo.

    Foto: El Pais

    Diante do edifício, de onde ele falou, há um monumento de um punho gigante esmagando um caça norte-americano.

    No pronunciamento, sinuoso como de hábito, Kadafi, que fala, dele mesmo, na terceira pessoa, pediu que seus partidários saíssem às ruas, dizendo que os manifestantes estavam condenados à pena de morte. Ele também prometeu uma reformulação vaga nas estruturas do governo.

    Kadafi disse ainda que os responsáveis pelos distúrbios são "ratos e mercenários" que querem transformar a Líbia em um Estado islâmico.

    O líder afirmou que vai "limpar casa a casa da Líbia" se os manifestantes não se renderem.

    Ironicamente disse que ainda não usou a força contra os manifestantes, mas que o fará se for necessário.

    "Protestos pacíficos são uma coisa, mas rebelião armada é outra", disse.

    Foto: The New York Times

    Cerca de 10.000 partidários do líder líbio, coronel Kadafi, reuniram–se em Tripoli, depois do seu discurso à nação, para lhe manifestar apoio

    Mais cedo, testemunhas que atravessaram a fronteira da Líbia com o Egito disseram que Kadafi estava usando tanques, caças e mercenários no esforço de sufocar a rebelião, aparentemente incontrolável.

    Na cidade de Tobruk, no leste do país, um correspondente da Reuters no local afirmou que agora só podiam ser ouvidas explosões esporádicas, um sinal recente de diminuição do poder de fogo de Kadafi.

    Foto: Reuters

    "Todas as regiões do leste estão fora do controle de Kadafi agora...O povo e o Exército estão juntos ali", afirmou o ex-major do Exército Hany Saad Marjaa.

    A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para os refugiados, pediu que os vizinhos da Líbia concedam refúgio aos que fogem da insurreição, deflagrada por décadas de repressão e pelas revoltas populares que derrubaram os líderes da Tunísia e do Egito.

    No lado líbio da fronteira com o Egito, rebeldes anti-Kadafi armados com porretes e fuzis Kalashnikov saudavam os visitantes. Um homem levava um retrato de Kadafi de ponta cabeça com as palavras "o tirano carniceiro, assassino de líbios", disse um correspondente da Reuters que entrou na Líbia pela fronteira.

    Milhares de egípcios - há cerca de 2 milhões na Líbia - que lá trabalhavam e residiam estão abandonando o país, 15.000 já haviam cruzado a fronteira.

    Na cidade de Al Bayda, no leste do país, o morador Marai Al Mahry disse à Reuters por telefone que 26 pessoas, incluindo seu irmão Ahmed, foram mortos a tiros durante a noite por simpatizantes de Kadafi.

    "Eles atiram em você apenas por andar nas ruas", disse ele, soluçando sem parar enquanto pedia ajuda.

    Manifestantes foram atacados com tanques e aviões de guerra, afirmou ele.

    "Foi uma quantia obscena de tiros", disse uma testemunha, segundo o “The New York Times” falando também do confronto de Trípole. "Eles metralhavam as pessoas que corriam em todas as direções."

    "O tiroteio não foi concebido para dispersar os manifestantes", disse um morador, identificado apenas como Waleed. "Ele foi utilizado para matá-los."



    A Human Rights Watch afirmou que 62 pessoas morreram nos confrontos em Trípoli nos últimos dois dias, somando-se à conta anterior de 233 mortos. Grupos de oposição apontam para um número muito maior.

    A chefe dos direitos humanos da ONU, Navi Pillay, afirmou que a matança poderá ser considerada crime contra a humanidade e exigiu uma investigação internacional.

    Foto: Al Jazeera

    O ditador líbio, coronel Muamar el Kadafi

    Desde que se falou que as revoltas que foram bem sucedidas na Tunísa e no Egito espalhar-se-ia pelo mundo árabe, sabia-se que quando esse surto de anseio de liberdade chegasse à Líbia as coisas iam ser mais difíceis, mais cruéis, mais desumanas.

    O ditador líbio, coronel Muamar el Kadafi, 68 anos, é um homem violento na essência, está no poder por quase 42 anos, e governa com as mãos ensanguentadas, desde 1 de Setembro de 1969, quando liderou uma revolução e depôs o velho rei Idris I, 91 anos, que estava há 18 anos no trono.

    Logo após a tomada do poder Kadafi declarou ilegais as bebidas alcoólicas e os jogos de azar, exigiu e obteve a retirada americana e inglesa de bases militares e expulsou as comunidades judaicas.

    Nos anos 90 passou a ser o vilão do planeta por financiar toda a espécie de terrorismo contra americanos e seus aliados, principalmente contra Israel.

    Entre as proezas de financiamento terroristas de Kadafi, estão o “atentado de Lockerbie” quando uma bomba explodiu no voo 103 da Pan Am em 21 de dezembro de 1988, quando sobrevoava a cidade escocesa de Lockerbie, matando 270 pessoas (259 no avião e 11 na terra). Entre os mortos 189 eram cidadãos americanos.

    Também financiou e apoiou o grupo terrorista conhecido como Setembro Negro responsável pelo massacre de Munique, onde 11 atletas israelenses foram assassinados durante as Olimpíadas de 1972.

    Nos últimos 11 anos, por ter adotado uma política externa sem agressões diretas, começou a ser aceito pela lentamente pela comunidade internacional. Havia ficado livre das sanções que lhe haviam sido impostas tanto pela ONU, quanto pelos Estados Unidos.

    Agora Kadafi sente o hálito da multidão no seu cangote autoritário e reage como um leão enfurecido.

    Nesta segunda-feira surgiram especulações de que Khadafi havia deixado Trípoli.O chanceler britânico, William Hague, disse ter informações sobre uma possível ida de Khadafi à Venezuela, o que foi negado pelo governo venezuelano e depois pelo próprio Kadafi, que fez uma breve aparição na TV estatal, para dá fim aos rumores:

    "Eu quero mostrar que estou em Trípoli e não na Venezuela", disse Kadafi, para cameras. Aproveitou para chamar os proprietários dos canais de notícias que haviam informado sua fuga do país, de "cães vadios".

    O correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne relata que Khadafi aparentemente perdeu o apoio da maioria dos setores da sociedade.

    Foto: Seth Wenig/Associated Press

    Abdurrahman Mohamed Shalgham, o chefe da delegação da Líbia, na ONU, um dos poucos diplomatas que continua fiel a Kadafi, de quem se diz amigo de infância: "Eu posso criticá-lo, mas não posso atacá-lo."

    Nesta segunda-feira, em ato de rompimento com o líder, membros da delegação de diplomatas da Líbia na Organização das Nações Unidas pediram uma intervenção internacional contra a onda de violência no país.

    O vice-embaixador da Líbia, na ONU, Omar Al-Dabbashi, fez um apelo por proteção aos cidadãos, alegando que está em curso um "genocídio" patrocinado pelo governo líbio contra manifestantes.

    O embaixador da Líbia nos Estados Unidos, Ali Aujali, renunciou e pediu a saída de Muamar Kadafi do poder, junta-se a outros embaixadores da Índia, China e Austrália, que decidiram deixar o cargo em protesto contra o uso da violência. De acordo com o jornal “Quryna”, o ministro da Justiça, Mustafa Abdal Khalil, também renunciou pelo mesmo motivo.

    Al Manara, um site Web da oposição, informou que um alto oficial militar, o coronel Abdel Fattah Younes em Benghazi, resignado, o jornal Asharq al-Awsat informou que o coronel Kadafi havia ordenado que um dos seus principais generais, Abu Bakr Younes, ser colocado sob prisão domiciliar depois de desobedecer uma ordem para usar força contra manifestantes em várias cidades.

    Foto: Reuters

    Um dos pilotos líbios deixa o Mirage da Força Aérea da Líbia, em Malta. Os militares fugiram do país por negarem-se a obedecendo ordens de Kadafi de atirar nos manifestantes

    Dois pilotos de caça da Líbia ordenou a bombardear os manifestantes mudaram de curso e, em vez desertou para Malta, de acordo com funcionários do governo maltês citado pela Reuters.

    O governo líbio tem tentado impor um blecaute de informação do país. Os jornalistas estrangeiros não podem entrar. acesso à Internet foi quase totalmente cortado, apesar de alguns manifestantes parecem estar usando conexões via satélite. muitas novidades sobre o que está acontecendo veio a partir de entrevistas por telefone com as pessoas dentro do país. Vários moradores relataram que o serviço de telefonia celular foi para baixo, e até mesmo serviço de telefone fixo esporádicos.

    "Há mortos nas ruas, você não pode mesmo buscá-los", disse ele por e-mail. "O Exército está atirando em todo mundo. Isso não impediu as pessoas de continuar. "

    Embora o resultado da batalha é impossível determinar, alguns manifestantes disseram que o derramamento de sangue em Tripoli apenas redobrou sua determinação.

    "Ele nunca vai abandonar seu poder", disse um deles, Abdel Rahman. "Este é um ditador, um imperador. Ele vai morrer num estalar de dedos. Já não estamos com medo. Estamos prontos para morrer depois do que vimos. "