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27 de jan. de 2014

Duas agendas, Dilma e Joaquim. Ou a velha prática e a esperança do novo

BRASIL - Opinião
Duas agendas, Dilma e Joaquim.
Ou a velha prática e a esperança do novo
O correspondente de Veja, em Paris compara o comportamento da fausta comitiva presidencial de Dilma e o solitária, pouco glamourosa e profícua passagem de Joaquim Barbosa, pela Europa. Destaca que a negativa de Lewandowski em decretar a prisão de João Paulo Cunha, só contribui sobremaneira para percepção no Brasil baseada na mais forte das evidências, os fatos, de que sem Joaquim Barbosa peixe graúdo não vai para cadeia.

Fotos: Keyston/AP

Dilma em Davos, Barbosa em Paris

Postado por Toinho de Passira
Texto de Antonio Ribeiro de Paris, para a Veja
Fonte: Blog do Antonio Ribeiro

De Davos rumo a Havana, a presidente da República Dilma Rousseff e sua comitiva de enrubescer o Rei Sol Luiz XIV fizeram uma “escala técnica” em Lisboa, segundo a Aeronáutica. Enquanto o Airbus presidencial tomava querosene, o séquito presidencial não teve outra alternativa senão esperar em 30 suítes no Ritz Four Seasons e Tivoli, duas a maiores constelações hoteleiras da capital portuguesa. A despesa com diárias foi mais de 71 mil surreais. No entanto, os hospedes tiveram o privilégio de sair pelas porta dos fundos para evitar olhares indiscretos. O contribuinte brasileiro pode se tranquilizar. Cada centavo subtraído dos seus rendimentos, via impostos, teve contrapartida consequente na escala lusitana.

Na bucólica terra da ¡Pátria o Muerte Venceremos! — os menos românticos chamam de Fazendinha dos Irmãos Castro — Dilma vai se inscrever de forma permanente na história da ilha. A presidente inaugura parte de um porto no balneário de Mariel, 40 quilômetros a oeste de Havana, na Província de Artemisa. Lá a obra saiu do papel, 71% da empreitada recebeu financiamento do BNDES — 682 milhões de dólares. A última grande exportação de Mariel aconteceu em 1980. Mais 125 mil refugiados cubanos debandaram para os Estados Unidos. Espera-se que o pós-Dilma insular, a infraestrutura possa contribuir para melhorar o ordenamento. Contudo será necessário cumprir antes uma pequena formalidade, produzir algo mais que gente descontente, charuto, açúcar e desafeto, os principais produtos de exportação.

Por sua vez, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, deixou Paris em direção a Londres, cruzando Canal da Mancha em avião de carreira. Na capital britânica, dará seqüência as suas palestras acadêmicas no Safra Lecture Theatre, do King’s College. Barbosa falará sobre as mudanças aconteceram no STF das últimas décadas, evidenciando os julgamentos mais emblemáticos. O presidente do Supremo será também sabatinado pelo jornalista Stephen Sackur no mais importante programa de entrevista da BBC, o HARDtalk. Antes dele, apenas dois brasileiros foram entrevistados no programa, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

Entretanto, espera-se que Joaquim Barbosa não contraia nenhuma epidemia viral grave do inverno europeu e, em consequência, os médicos do Velho Continente venham aconselha-lo semanas de repouso. Isso porque no raciocínio obtuso do ministro Ricardo Lewandowski, o presidente interino do STF, só Barbosa poderá dar sequência a algo que Barbosa já decidiu antes de viajar, a prisão do ex-presidente da Câmara, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), condenado por envolvimento no mensalão. Teria-se, portanto que aguardar as melhorar da saúde do relator para a Justiça seguir seu curso. Desta forma, Lewandowski contribui sobremaneira para percepção no Brasil baseada na mais forte das evidências, os fatos, de que sem Joaquim Barbosa peixe graúdo não vai para cadeia.

Neste ponto, o leitor pode supor que o Blog de Paris decidiu tratar de agendas de dois candidatos sonhados por muitos brasileiros como protagonistas do embate ideal no segundo turno da próxima eleição presidencial. Em conversa com o Blog de Paris, o presidente do STF descartou qualquer possibilidade de vir a se candidatar-se. Até porque não se identifica com nenhum partido político no Brasil, enlameados por casos de corrupção e de pouco compromisso com a ética. Ademais, Barbosa tem apenas 59 anos. Há tempo mesmo para experimentar antes a passagem por um Ministério da Justiça ou Relações Exteriores, alguma experiência administrativa.

No entanto, Barbosa vem acompanhando com interesse novas iniciativas que eventualmente possam se aproximar em tempos modernos do conceito descrito pelo filósofo político inglês Edmund Burke, “um grupo unido para promover através do esforço comum o interesse nacional, baseado em princípios que todos compartilham”. Os partidos atuais, tais como os sindicados, defendem mais o interesse pessoal de seus membros do que um programa ou ideário. Neste sentido, no Brasil, o movimento que desperta mais curiosidade no presidente do STF e isso não significa nenhuma propensão de engajamento é a rede Marina Silva.

9 de out. de 2012

Homenagem à derrota , por Antonio Ribeiro, para Veja

FRANÇA – Opinião
Homenagem à derrota
O blogueiro estacionado em Paris, faz um paralelo entre o monumento, recentemente instalado em frente ao Centro Georges Pompidou, o Museu Nacional de Arte Moderna, na capital francesa, congelando a agressão do jogador da seleção francesa Zidade ao zagueiro italiano Marco Materazzi durante prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006 e a atual crise econômica, que desempregou 3 milhões de franceses

Foto: Blog do Antônio Ribeiro

Postado por Toinho de Passira
Texto de Por Antonio Ribeiro
Fontes: Blog do Antônio Ribeiro - de Paris, para a Veja

Nem todos presentes viram a cabeçada no Estádio Olímpico de Berlim. A maioria estava com os olhos fixos na disputa da bola, do ouro lado do gramado. Mas o mundo inteiro viu porque a TV mostrou o replay de um dos momentos mais infames do futebol. Quem passar em frente ao Centro Georges Pompidou, o Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, não corre o risco perder o lance.

O artista plástico argelino Adel Abdessemed recriou em tamanho monumental – 5 metros de altura – o instante em que o atacante francês de origem cabila Zinedine Zidade agrediu o zagueiro italiano Marco Materazzi durante prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006. O escultor diz que fez uma “ode à derrota”. A criação vai no sentido contrário dos monumentos que celebram a glória. O Arco do Triunfo, por exemplo.

Trata-se de uma triste lembrança com 2 toneladas de bronze para os franceses. Isso em um momento em que, no meio da maior crise econômica do país desde a Segunda Guerra Mundial, eles andam azedando o humor com o acúmulo recente de notícias ruins. Esta semana, por exemplo, o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE, na sigla em francês) revelou que a França ultrapassou a marca simbólica de 3 milhões de desempregados.

A cabeçada histórica na prorrogação da partida final da Copa do Mundo de 2006
Grandes empresas como é o caso das Sanofi, AcelorMittal e Petroplus. As empresas estão na iminência de anunciar “planos sociais”. Todos juntos, eles significam a perda de 5.000 empregos a curto prazo. O governo do socialista François “Normal” Hollande cujo índice de aprovação despencou para 43% – nenhum presidente da Quinta República teve queda tão rápida seguida à posse – promete aumento de impostos que totalizam 20 bilhões de euros a menos no poder aquisitivo dos contribuintes individuais e nos recursos das empresas privadas. Menos poder aquisitivo, menos consumo. Menos recursos, menos investimento e criação de empregos.

A expectativa otimista de crescimento da França em 2013, segundo o governo, gira em torno de medíocres 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Economistas independentes prevêem a metade disso. Para criar empregos o país cuja dívida pública acumulada está prevista para chegar a 91,3 do PIB este ano, precisa crescer, no mínimo, 1%. E 1,5% se quiser diminuir o desemprego. Neste contexto, ganha corpo entre os ministros do governo desrespeitar a promessa de cumprir uma regra de ouro da União Européia, a de manter o déficit público anual em 3% do PIB. Na França, ele representa 4,5% do PIB – 83,6 bilhões de euros.

Faltando 10 minutos para fim de sua brilhante carreira, Zidane deu a famosa cabeçada no peito de Materazzi. O presidente da França Hollande vem dando cabeçadas contra a realidade desde o dia em que assumiu o governo. No orçamento deste ano de 37 bilhões de euros, por exemplo, apenas 10% representam redução nas despesas do governo. O resto vem de impostos. Serão criados mais 6 000 postos de trabalho na eduçação, polícia e Justiça. Evidentemente. pagos com dinheiro do contribuinte inclusive a aposentadoria. A tendência da redução do funcinários públicos se inverteu pela primeira vez desde 2003. Talvez não seja o fim de uma “brilhante carreira”, certamente não merece monumento comemorativo, mas em breve, muitos farão “odes à derrota”.