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27 de ago. de 2013

Mesmo morto, Niemeyer desenha cada vez melhor

BRASIL - Arquitetura
Mesmo morto, Niemeyer desenha cada vez melhor
O arquiteto morreu em dezembro do ano passado. Mas seus herdeiros continuam usando a grife ilustre para ganhar projetos públicos sem concorrência

Foto: Associated Press

Praticamente cego, nos últimos anos, Niemeyer não fazia mais os croquis, apenas discutia os projetos e dava sugestões finais apalpando as maquetes ou tentando enxergar as plantas numa mesa iluminada.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Marcelo Bortoloti, para a revista Época
Fontes:  Época

A importância da obra de Oscar Niemeyer (1907-2012) para o Brasil e para o mundo é indiscutível. A inovação e o arrojo técnico são características que se destacam em seu trabalho desde os experimentos com concreto armado na Igreja da Pampulha. Nos últimos anos de vida, Niemeyer foi perdendo o vigor e produziu mais polêmicas que obras-primas. O uso constante da prerrogativa de dispensa de licitação para obras públicas era malvisto por colegas, que o acusavam de monopólio. Até os 104 anos de idade, Niemeyer continuou assinando contratos com a União, Estados e municípios, sempre com base na lei que permite a isenção de concorrência para profissionais reconhecidos como ele. Com a morte de Niemeyer, em dezembro passado, a discussão parecia ter chegado ao fim. Mas a grife de Niemeyer continua produzindo novos projetos - e a prerrogativa de fazer negócios com o poder público sem participar de licitação foi, ao que parece, estendida a seus herdeiros.

Desde dezembro do ano passado, mês da morte de Niemeyer, sua neta Ana Elisa Niemeyer, de 62 anos, e o sócio Jair Valera já foram contratados para elaborar pelo menos três projetos com dispensa de concorrência pública, no valor global de R$ 3,5 milhões. Os projetos serão desenvolvidos para os Estados de Rondônia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a partir de desenhos deixados por Niemeyer - ou mesmo sem nenhum traço do mestre. É o caso do contrato para elaborar projetos de caminhos e abrigos de ônibus em Belo Horizonte, assinado entre o governo de Minas Gerais e o escritório Ana Niemeyer Arquitetura e Consultoria, de propriedade dela. Tal qual na velha piada argentina - segundo a qual, na ausência de novos ídolos musicais, Carlos Gardel canta cada vez melhor -, é como se Niemeyer, depois de morto, continuasse desenhando. E cada vez melhor.

Esboço de Projetos de Niemeyer - Brasília

Niemeyer foi dispensado de licitação para projetar Brasília, foi escolhido pessoalmente presidente Juscelino Kubitschek

Niemeyer foi o arquiteto brasileiro que menos entrou em concorrência para elaborar projetos públicos. Para construir Brasília, Niemeyer foi escolhido pelo presidente Juscelino Kubitschek, enquanto Lúcio Costa teve de enfrentar outros 25 concorrentes num certame para desenvolver o plano urbanístico do Distrito Federal. Com a Lei de Licitações, de 1993, seu escritório passou a ser enquadrado no artigo que dispensa a concorrência para profissionais com notório conhecimento. Nos últimos 12 anos de vida, seu escritório recebeu R$ 33 milhões somente do governo federal. Assinou contratos com Estados e municípios de todo o país, com projetos que vão de Campina Grande, na Paraíba, até Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

"Niemeyer tinha um talento excepcional, não era um arquiteto qualquer. O Brasil teve a sorte de contar com ele, e é positivo que a lei dê esse espaço para casos assim" diz o presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Sérgio Magalhães. "Mas a dispensa é para um profissional, não para um currículo associado a esse nome." A neta de Niemever, Ana Elisa, pensa diferente. "A lei não foi feita para meu avô. Qualquer um com longa experiência como a nossa tem o mesmo direito" diz. Além dela, trabalhavam direta ou indiretamente com Niemeyer outros três netos, três bisnetos e um sobrinho. A Fundação Oscar Niemeyer tem em arquivo 151 projetos inéditos, em estágios diferentes de elaboração. Alguns são apenas croquis, outros têm até maquete. Também existem projetos nas mãos de colaboradores e familiares. Boa parte tem potencial para se transformar em obras reais - possivelmente, com dispensa de licitação - e há muitos gestores públicos interessados.

Foto: Divulgação

Aquário Público de Maricá – obra póstuma?

Na semana passada, o prefeito de Maricá, Rio de Janeiro, Washington Quaquá, contratou sem concorrência o escritório de Niemeyer para desenvolver um desses projetos de gaveta. É um aquário público, desenhado em 2008 para Salvador, mas que não saiu do papel. Ana Elisa e Valera adaptaram o projeto para Maricá, acrescentando uma escola e um anfiteatro. As plantas estruturais, o projeto legal e de urbanismo custarão ao município R$ 2,4 milhões. Projetos como esse, da fase tardia de Niemeyer, não são 100% dele.

Depois de 2006, quando sofreu uma queda em casa e fraturou o quadril, sua saúde se complicou bastante. Ele passou a usar cadeira de rodas, não tinha mais firmeza nas mãos para desenhar e começou a desenvolver uma degeneração macular senil, que o deixou praticamente cego. Nos últimos anos, não fazia mais os croquis, apenas discutia os projetos e dava sugestões finais apalpando as maquetes ou tentando enxergar as plantas numa mesa iluminada. O desenvolvimento era feito por seus familiares ou colaboradores.

"O escritório poderia ter a presença dele, mas certamente os projetos não tinham mais sua cara", diz Carlos Magalhães da Silveira, que foi genro de Niemeyer e dirigiu o escritório por mais de dez anos. Ele se afastou dos negócios por discordar da maneira como a família conduziu seus últimos projetos. "Oscar não tinha mais controle. O escritório passou a produzir em série, como uma fábrica. Para mim, esses projetos não são mais dele", afirma Magalhães.

O sistema de trabalho não mudou muito com a morte de Niemeyer. Em janeiro deste ano, o escritório foi contratado por R$ 910 mil para elaborar o projeto de construção de um campus da Fundação Oswaldo Cruz, em Rondônia. Niemeyer fizera alguns esboços para o projeto na década de 1990, mas o dinheiro só apareceu agora. Com o contrato assinado, Valera desenvolveu o projeto dos edifícios principais, que já haviam sido esboçados, e desenhará por conta própria os demais. O campus é chamado de primeiro grande projeto de Niemeyer para a Região Norte.

Foto: Divulgação

Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves em Minas Gerais

Para Valera, que trabalhou por 30 anos com Niemeyer, os inúmeros projetos desenvolvidos em conjunto permitiram assimilar suas linhas mestras. Ele acredita que a dispensa de licitação continua legítima. "O notório saber era do escritório", afirma. Com essa prerrogativa, os sócios assinaram, em maio deste ano, um contrato no valor de R$ 265 mil para elaborar os projetos de caminhos e abrigos de ônibus na Cidade Administrativa, uma obra de Niemeyer em Belo Horizonte. Segundo o governo de Minas, não houve licitação porque a neta é a única que detém um termo de cessão deixado por Niemeyer, que permite realizar acréscimos em seus projetos. Na opinião do procurador do Ministério Público Federal Marinus Marsico, não há justificativa para que a dispensa de concorrência seja transferida aos herdeiros. "A prerrogativa deve ir para o túmulo com o arquiteto. Se não for assim, vira uma coisa cartorial", diz.

Ele critica a legislação atual que versa sobre o tema. "Essa notória especialização é um mecanismo infeliz, que dá margem a diversos tipos de manobras. São raríssimos os casos em que deveria ser utilizada", diz. A lei permite dispensa de licitação tanto para empresas como para profissionais com notório conhecimento. No caso de Niemeyer, segundo o especialista em licitação Inaldo Vasconcelos, não há dúvidas de que a prerrogativa estava relacionada à pessoa física, não à jurídica. "A referência era em cima do nome do profissional, e não se pode contratar quem já morreu", diz. Nenhum órgão fiscalizador se debruçou ainda sobre o caso. Em 2010, com Niemeyer vivo, o Tribunal de Contas da União emitiu um acórdão" definindo que seu escritório não poderia mais ser dispensado de licitação para serviços de engenharia, também contemplados nos contratos.

Mesmo assim, Niemeyer continuou elaborando sem concorrência projetos de arquitetura e engenharia, como a nova sede do Ministério do Desenvolvimento Social, assinado dois meses depois do acórdão e não investigado. Não é estranho, portanto, que seus herdeiros considerem a dispensa de licitação como um legado de Niemeyer.

7 de dez. de 2012

A morte antecipada de Niemeyer

BRASIL
A morte antecipada de Niemeyer
Como funciona a produção de obituários pré-fabricados

Caricatura : Fernandes

Postado por Toinho de Passira
Texto de (Luís Antônio Giron , para a Revista Época
Fontes: Época

A morte do arquiteto Oscar Niemeyer era a notícia mais antiga do Brasil. Os obituários agora publicados foram escritos havia muitos anos, até mesmo por gente que veio a morrer antes de Niemeyer. Quem trabalha em redação sabe que as celebridades com mais de 60 anos ou até menos devem ganhar um obituário por antecipação, para que o redator não seja pego de surpresa quando alguma delas venha a morrer. Os necrológios de Niemeyer são produzidos há mais de 20 anos. Bem mais. Em 1994, o crítico e professor Teixeira Coelho publicou o livro Niemeyer: um romance. Narra as angústias de um biógrafo amador que espera a morte de Oscar Niemeyer para escrever a biografia “definitiva” do arquiteto. Mas, como Niemeyer não morre, o biógrafo fica à mercê do biografado, preso ao dia-a-dia opressor, curvado às decisões de sua mulher controladora, Beatriz B. Há onze anos, o livro ganhou uma segunda edição. Agora merece ser republicado, porque a tristeza do biógrafo de Niemeyer recebeu um sopro de dramaticidade. Até porque o personagem se foi bem antes de Niemeyer, 18 anos antes, sem poder concluir a sonhada obra, fracassado no ensaísmo e no casamento. A crítica disse que o personagem é um alter ego do próprio Teixeira Coelho, que sempre sonhou em escrever a biografia de Niemeyer. Chegou a hora, professor. Já para os jornalistas, a hora da morte precisa ser antecipada. A morte de Niemeyer era aguardada e sua vida, devidamente redigida.

Muita gente famosa sabe disso. Celebridades são entrevistadas e, quando não veem nada publicado, se dão conta de que deram um depoimento à posteridade. Devem sentir calafrios ao pensar nisso. Em geral, os vivos célebres que um dia vão morrer não são nem mesmo consultados. É preciso ser previdente: gente que nunca morreu sempre morrerá pela primeira vez e precisará de um texto de preferência elogioso. A sensação de que alguém está escrevendo o seu obituário neste momento deve ser pouco agradável, salvo para aqueles que, tomados pelo egocentrismo, sentem-se confortáveis com a eternidade; entendem que as reticências do texto precisarão ser preenchidas tão logo partam. Devem sentir como ninguém o significado do verso do poema “Um lance de dados”, de Stéphane Mallarmé, que preconiza o “ulterior demônio imemorial” (“ultérieur démon immémorial”), a noção da morte que o poeta deve possuir, para seguir seu trabalho no ossuário de outros poetas. Autobiografias são uma espécie de obituários premonitórios escritos por autores que querem dar a palavra final em tudo, até mesmo em sua posteridade. Infelizmente, o mundo e a posteridade se encarregam de contrariá-lo.

Dessa forma, a exigência do necrológio adiantado cria algumas distorções. A pior delas é que não existem praticamente obituários puros, escritos no calor da hora. Eles poderiam trazer alguma emoção. Um texto dramático sobre alguém que morre de repente é sempre mais interessante que uma peça pré-fabricada. Obituário é o gênero literário que mais evita a imprevisibilidade; daí ser difícil praticá-lo com alguma elegância. Geralmente, os textos dos obituários ostentam o tom frio e distante – quando não alegre. Isso porque quem o está redigindo não se encontra no momento da escritura envolvido emocionalmente com o assunto. Em geral, o redator encarregado do serviço fica de mau humor e costuma varrer a vida e a obra da celebridade em questão da forma mais burocrática possível, para assim se livrar rapidamente da tarefa desagradável. Este é um dos temas do romance Afirma Pereira (1994), do italiano Antonio Tabucchi, que foi levado ao cinema em 1996, com Marcello Mastroianni no papel de Pereira. O editor de um diário de Lisboa no tempo da ditadura de Salazar contrata um jovem jornalista para redigir obituários de escritores famosos ainda vivos. Ele se chama Pereira, e é só o começo de uma aventura política. O obituarista serve apenas como um mote para um enredo maior. Na redação, Pereira sua para escrever obituários de seus autores favoritos ainda vivos. E, se algumas vezes ri da situação, acha tudo aquilo horrível. Até porque existe uma superstição segundo a qual redigir obituários dá azar. Quem o faz corre o risco de morrer antes do morto futuro. E isso acontece de fato.

Em abril de 2005, a revista Época publicou o elogio fúnebre de João Paulo II, escrito pelo famoso jornalista polonês Tad Szulc, que havia morrido quatro anos antes. Um texto comovente e repleto de detalhes escrito por um compatriota – que estava na gaveta da redação havia anos. Os leitores aplaudiram a iniciativa. O caso se repete agora. O jornal londrino The Guardian publicou ontem, na noite da morte de Niemeyer, um brilhante obituário escrito pelo crítico de arquitetura Martin Pawley – que morreu em 2008. Ele deixou as reticências para serem completadas com os dados da morte do morto. O redator anônimo do Guardian que completou o texto ciosamente citou os prédios de Niemeyer construídos muitos anos depois da morte do autor do necrológio. Pawley ganhou, em março de 2008, um obituário de seu colega David Jenkins, que ainda vive. Mas não consigo deixar de pensar em uma história em que Jenkins já havia escrito o obituário de Pawley, e morrido antes dele.

Essa corrente de obituários que se unem a outros obituários novos e antigos me leva a pensar que não faz diferença se um morto é analisado por um vivo ou por outro morto. Aliás, um morto recente abordado por um morto mais velho fornece respeitabilidade ainda maior ao conteúdo do texto. Soa como se o redator fizesse o papel de anfitrião do seu biografado nos portões do Paraíso – e o recebesse por lá como um especialista em sua obra e contribuição à humanidade. Ninguém melhor credenciado que um morto para falar de outro. Mais ainda um morto antigo que trata do morto recém-chegado ao outro mundo. Imagino que Pawley tenha aberto ontem um sorriso para recepcionar Oscar Niemeyer no céu. Os dois devem estar rindo das penosas tarefas dos vivos, uma delas a dos redatores eternamente obrigados a viver antecipando a morte alheia.
Veja o obituário de Oscar Niemeyer, na Revista Época:
Oscar Niemeyer morre aos 104 anos no Rio de Janeiro