2 de jun de 2014

Operação Pega Safado

BRASIL - Corrupção
Operação Pega Safado
Lúcio Batista, um brasileiro revoltado com a corrupção, lançou, há um ano, pela internet, a Operação Pega Safado, destinada a investigar o uso irregular de verbas por parte de parlamentares. Com colaboradores de todo o Brasil, encaminhou o primeiro relatório sobre uso irregular da cota dos parlamentares ao Tribunal de Contas da União (TCU). Auditores do TCU encontraram indícios de veracidade nas denúncias e aprofundaram as investigações.

Foto: Captura de tela

Lúcio Big, incomodando corruptos, com a Operação Pega Safado

Postado por Toinho de Passira
Entrevista concedida a Gabriel Garcia
Fonte: Blog do Noblat

Lúcio Batista, morador de Vicente Pires, cidade localizada a 15 quilômetros de Brasília, é um dos milhares de brasileiros decepcionados com a política no país.

Ao contrário da maioria, ele resolveu fazer algo para combater a corrupção e o desvio de dinheiro público.

Há um ano, Lúcio Big, como passou a ser conhecido, lançou a Operação Pega Safado, rebatizada agora de Operação Política Supervisionada (OPS).

Com a ajuda de 3 mil colaboradores espalhados pelo Brasil, a operação investiga o uso irregular de verbas por parte de deputados e senadores.

Aos 45 anos, Lúcio mergulhou de vez no projeto: fechou um pequeno negócio, vendeu uma casa para se dedicar de forma integral à proposta e faz camisetas para levantar recursos.

Casado, ele estuda montar uma franquia na área de alimentos. “A franquia permitirá que eu continue me dedicando à operação”, diz.

O ativismo de Lúcio não começou no ano passado. Ele vem atuando, há dois anos, em movimentos contra a corrupção.

Após abandonar a vida de comerciante, Lúcio agora afirma ser um blogueiro, profissão que ainda não lhe dá rendimento.

Foi convidado pelo deputado federal Antônio Reguffe (PDT-DF) para disputar as eleições em outubro, mas recusou a proposta temendo perder credibilidade se entrar na política.

Em junho de 2013, Lúcio encaminhou o primeiro relatório sobre uso irregular da cota dos parlamentares ao Tribunal de Contas da União (TCU). Em maio deste ano, entregou o segundo. Os resultados começam a aparecer.

Auditores do TCU encontraram indícios de veracidade nas denúncias e pedem o aprofundamento das investigações. E os parlamentares que se preparem: Lúcio iniciou uma nova pesquisa sobre o mau uso dos recursos públicos.

Quando surgiu a ideia de monitorar os deputados e senadores?

A Operação Pega Safado (OPS) foi no ano passado. Como o nome é muito pesado, mudamos para Operação Política Supervisionada. E mantivemos a sigla OPS.

E quando surgiu a ideia?

Comecei fazendo vídeos para criticar filmes e programas de televisão. Quando conheci o portal da Câmara, descobri que poderia levantar os gastos dos parlamentares. Eu ficava apavorado ao ver a quantidade de dinheiro público destinada à despesa aparentemente ridícula. Então, resolvi vasculhar informações sobre gastos de parlamentares com passagens e publicidade.

A partir daí resolveu criar um tutorial orientando as pessoas que querem ajudar no projeto?

As pessoas perguntavam como eu conseguia as informações. Fiz três vídeos tutoriais ensinando como coletar os dados, o que culminou na abertura da OPS. O tutorial foi batizado de “Pega Safado”. Acabei criando a operação de acompanhamento dos parlamentares.

Quando será apresentada uma atualização da lista de deputados e senadores ao Tribunal de Contas da União?

Em junho do ano passado, foi entregue uma lista com 20 parlamentares ao TCU: 18 deputados federais e dois senadores. Naquela data, já iniciamos o “Dossiê 2”, com 23 deputados federais que, provavelmente, estariam gerindo de maneira incorreta o dinheiro público. Em 6 de maio deste ano, esse dossiê foi entregue ao Tribunal de Contas da União e ao Ministério Público.

Mas será apresentado um novo dossiê?

Estamos trabalhando nisso, mas não há uma data definida. Hoje, nosso alvo é o Congresso Nacional. Infelizmente, o Senado não cumpre a Lei de Acesso à Informação: não fornece cópia de notas fiscais. Nosso objetivo é alcançar Assembleias Legislativas de todo Brasil. Estamos levantando a base de dados das Câmaras Municipais do estado de São Paulo.

Como levanta os dados e comprova a veracidade das informações?

Temos o site http://www.ops.net.br/, que é atualizado semanalmente. Filtramos os dados por deputado, por partido, por período, por tipo de despesa. Quando encontramos quantias altas e gastos seguidos com o mesmo valor, pedimos cópia da nota fiscal à Câmara. Com a nota em mãos, buscamos informações na Receita Federal, confirmamos endereço da empresa e procuramos saber se a empresa realmente desenvolve aquele trabalho emitido na nota.

Que critério adota para definir o parlamentar que será investigado?

Basicamente, eu foco nas despesas com locação de veículo, divulgação da atividade parlamentar e contratação de assessoria técnica. Em cima dessas informações, eu peço a nota fiscal das empresas à Câmara. Depois disso é que vejo se existe algo inconsistente.

Você recebe colaboração do Brasil inteiro. Como saber se a pessoa que envia uma informação não tem interesse político?

Eu nunca considero apenas o envio de imagens de uma única pessoa. Três ou quatro pessoas diferentes precisam mandar a mesma informação.

E como financia esse projeto, já que não há vinculação partidária?

Precisamos de uma fonte de renda para dar continuidade à operação. Eu tinha um comércio em Vicente Pires, que fechei no ano passado. E vendi um imóvel. Desde janeiro, eu vivo com o dinheiro desse imóvel para poder me empenhar na operação. Estou pensando em pegar parte do dinheiro do imóvel e montar uma franquia na área de alimentos. Preciso de uma fonte de renda. A franquia permitirá que eu continue me dedicando à operação

Estamos em ano de eleição. O que fazer para ajudar a esclarecer a população sobre os maus políticos?

Cidadania não é apenas votar e ir embora para casa. O voto é o primeiro passo. A partir dali, o cidadão tem que adotar um parlamentar para supervisionar os gastos dele. A sociedade tem a responsabilidade de correr atrás dessas informações. Queremos esclarecer a maior quantidade de pessoas sobre a necessidade de fiscalizar o gasto público.

Vimos várias vezes no Brasil pessoas que usam a bandeira da ética para se eleger. Realmente não passa pela sua cabeça disputar um cargo eletivo?

Eu fui convidado o ano passado para disputar um cargo de deputado federal. Confesso que cheguei a balançar, mas eu desisti. Eu nem mesmo me filiei a partido. O trabalho feito até agora de combate à corrupção perderia credibilidade. Não pretendo entrar para política.

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