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21 de mai. de 2013

A revolução e o papel higiênico

VENEZUELA – Opinião
A revolução e o papel higiênico
“La revolución, na Venezuela, boicota a iniciativa privada e demoniza o modo de produção capitalista. Tudo bem se houvesse algo para pôr no lugar. Não há.”

Postado por Toinho de Passira
Texto de Roberto Pompeu de Toledo , para a Veja
Fonte: Veja - 20/05/2013

A revolução falou grosso, na semana passada, na Venezuela. O ministro do Comércio, Alejandro Fleming, cobriu-se da mais heróica das faces, ajustou a mais resoluta das vozes, e anunciou: "A revolução trará ao país o equivalente a 50 milhões de rolos de papel higiênico!" Depois do açúcar, dos laticínios, das carnes, da farinha de milho (com a qual se faz a sagrada arepa, o pão de cada dia na mesa do venezuelano), do sabonete e da pasta de dentes, a crise de desabastecimento que assola o país chegara ao vaso sanitário. Não se alvorocem os imprudentes, porém. La revolución, enérgica e vigilante, fará chover papel higiênico, abarrotará com ele as prateleiras, fartará o mais exigente intestino, "para que nosso povo se tranquilize" — acrescentou o ministro — "e compreenda que não se deve deixar manipular pela campanha mediática de que há escassez". Faltar papel higiênico não é de chamar atenção, na quadra que atravessa a Venezuela. Também não surpreendem nem o anúncio de que haverá importação do produto, nem o vezo de negar o desabastecimento. Digno de nota é o ministro invocar o santo nome da "revolução". Não é o simples e reles "governo" que vai importar papel higiênico. É la revolución!

Já faz dois séculos e meio que a palavra "revolução" paira, como sonho ou como pesadelo, sobre os processos políticos, mundo afora. Os eventos fundadores do fenômeno são a Revolução Americana e, principalmente, a Francesa. Com os franceses, "revolução" virou sinônimo de refundação do mundo. Tanto eles acreditaram nisso que revogaram o antigo calendário e instituíram um novo. Impunha-se que o tempo começasse de novo, do zero. O caráter refundador da "revolução" radicalizou-se com as revoluções comunistas, no século XX, a começar da Bolchevique. E ganhou acentos místicos com a promessa de criação de um mundo novo, marcado pela paz, pela generosidade e pela fraternidade, e povoado por um "homem novo". "Revolução" passava a equivaler a purgação dos pecados e renascimento. O marxismo ateu irmanava-se às religiões ao prometer um futuro de bem-aventurança, e ganhava delas ao localizá-lo não no Céu, mas na Terra mesmo.

O problema é que as revoluções, segundo indicaram os fatos, nestes últimos dois séculos e meio, abrigam em si o germe da destruição. Não demorou e os franceses retornaram ao velho e bom calendário gregoriano. Era o reengate com o tempo antigo. Dali para frente, a história da França é uma contínua demonstração de que a força da continuidade supera a da ruptura. Nas décadas finais do século XX veio o colapso dos regimes comunistas, expondo a fragilidade das revoluções que prometiam. Avançaram de modo mais consistente, inclusive na direção da igualdade, regimes que, em vez de prometer uma nova aurora, operaram na rotina realista das miudezas do dia a dia e das medidas tópicas, no quadro favorável que só o respeito à lei e a solidez das instituições proporcionam.

Para voltar à ideia de calendário, o germe que destrói as revoluções é a ambição de atalhar o tempo. As revoluções socialistas, ao se proporem a revogar o capitalismo, investem contra um tempo histórico que é o do capitalismo. Não é de admirar que o "processo revolucionário" da Venezuela, assim como outros, antes dele, tenha resultado em desabastecimento. Produção de bens é algo que o capitalismo sabe fazer. O socialismo, como o comprova o legado dos países que o experimentaram, não sabe. La revolución, na Venezuela, boicota a iniciativa privada e demoniza o modo de produção capitalista. Tudo bem se houvesse algo para pôr no lugar. Não há.

Por essas e outras o conceito de "revolução" soçobra, neste século XXI. Menos na América Latina, e em especial nesta Venezuela surrealista, onde os pajariios trazem recados dos mortos. O ministro do Comércio informou que o consumo mensal de papel higiênico no país é de 125 milhões de rolos. Não há "deficiência na produção", acrescentou, mas sim um momento de "sobre demanda" que, para ser satisfeita, exige "uns 40 milhões adicionais". Impressiona o rigor estatístico, num país em que poucas estatísticas funcionam, mas o ministro não esclarece o que teria determinado a tal "sobredemanda". Uma súbita aceleração dos processos digestivos do povo venezuelano? Seja como for, la revolución cuidará disso. E assim o conceito de revolução, graças à contribuição venezuelana, passa de um sentido a outro, tão diferentes, da palavra "escatologia" — do sentido de aurora de um profético tempo novo ao de estudo dos excrementos.
*Acrescentamos subtítulo e ilustração a publicação original

15 de mai. de 2012

Cabrais e Cavendishes - Roberto Pompeu de Toledo

OPINIÃO
Cabrais e Cavendishes


Há Cabrais e Cabrais.

Roberto Pompeu de Toledo
Fonte: Veja - 14/05/2012

Entre o primeiro Cabral (o Pedro Álvares, descobridor do Brasil) e o segundo (o Sérgio, governador do Rio de Janeiro) medeiam cinco séculos, mas algo os une: ambos se tornaram célebres pelas viagens. A bem da verdade, a viagem do primeiro Cabral tomou-o célebre já faz tempo, enquanto as do segundo só recentemente se impuseram com a evidência merecida. Isso não impede que o segundo, assim como o primeiro, entre para a história por força delas.

O primeiro Cabral deslumbrou-se com o mundo com que deparou. Araras, índios nus enfeitados com penas e índias que vão mostrar as vergonhas “têm tanta inocência como em mostrar os rostos”, conforme registro do escrivão Pero Vaz de Caminha, fizeram o espanto e a alegria da comitiva. O segundo igualmente se deslumbrou. Miçangas como finos restaurantes e sapatos para senhoras, segundo imagens captadas nos locais visitados, proporcionaram à sua comitiva alegria que não ficou a dever à distante antecessora. A comitiva do primeiro Cabral observou, curiosa, como os índios "andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros”. A comitiva do segundo Cabral tratou ela própria de exibir seu exotismo, os homens dançando e folgando com guardanapos na cabeça.

Sérgio Cabral passou 128 dias no exterior desde que assumiu o governo do estado, em 2007, segundo contabilizou o jornal O Estado de S. Paulo, com base em informações do Palácio Guanabara. O total o estabelece como um viajante de respeito. Ainda mais que nele não se incluem as viagens particulares; só as ditas "oficiais". Pedro Álvares Cabral gastou 44 dias em sua penosa viagem de Lisboa até o local hoje conhecido como Brasil - um terço do que gastou em suas perambulações o homônimo de cinco séculos depois. O destino preferencial de Sérgio Cabral foi Paris, onde esteve cinco vezes; quatro vezes esteve em Londres, e outras quatro em Nova York. A Pedro Álvares, na viagem à Índia que encetou em seqüência à breve passagem pelo Brasil, couberam destinos como Melinde e Calicute. Não parece, mas na época eram lugares igualmente glamourosos. Pena que até chegar a eles mais da metade dos navios foi destroçada nas tempestades e a tripulação foi dizimada.


Há Cavendishes e Cavendishes

Entre o primeiro Cavendish (Thomas, navegador inglês) e o segundo (Fernando, até outro dia dono da construtora Delta) há igualmente cinco séculos de distância, mas também pontos em comum: a busca da riqueza, para começar; os vaivéns da sorte, em seguida. O primeiro Cavendish poderia ter entrado na história pela glória de, entre os anos de 1585 e 1588, ter repetido a proeza de Fernão de Magalhães ao circunavegar o globo. Na história do Brasil, entrou na qualidade de pirata. O segundo Cavendish poderia ter se destacado como empresário que em poucos anos conduz a pequena empreiteira herdada do pai ao posto de uma das maiores do país. Acabou enredado na teia das operações do bicheiro Carlos Cachoeira.

Fernando Cavendish começou pequeno, virou grande e ameaça acabar em nada. Thomas Cavendish conheceu também os altos e baixos. Na viagem de circunavegação, amealhou fortuna saqueando navios e portos das colônias espanholas da América, numa época em que a Espanha estava em guerra com a Inglaterra. Tal foi seu sucesso que recebeu da rainha Elizabeth I o título de “sir”. Esbanjou a fortuna, no entanto, e na tentativa de refazê-la fez-se de novo ao mar, desta vez tendo por alvo os portos brasileiros. No dia de Natal de 1591, chega a Santos. Para sua sorte, praticamente toda a população da cidade se encontrava na igreja, celebrando a data. Foi fácil mantê-la ali dentro, presa, enquanto a vila era saqueada.

Fernando Cavendish, amigo íntimo de Sérgio Cabral, seu vizinho nas casas de veraneio de Mangaratiba e companheiro de estripulias em Paris, é um dos integrantes da agora famosa roda do guardanapo. Seu distante homônimo também gostava de festividades. Apesar de não passar de um “franco ladrão dos mares”, nas palavras de um historiador, “sabia dar às suas façanhas e depredações uma cor de elegância cavalheiresca, tomando-se popular, e sendo aplaudido, em vez de renegado, pela própria aristocracia europeia” (Rocha Pombo). Terminou mal, no entanto. Ao voltar a Santos, para um segundo assalto, foi repelido, assim como o seria em seguida no Espírito Santo, perdendo na aventura a frota e o grosso de seus homens. Morreu no mar, sem conseguir voltar à Inglaterra, “provavelmente ralado pelo remorso”, segundo outro historiador (Varnhagen).


*Acrescentamos fotos e ilustrações a publicação original