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15 de set. de 2014

Marina - Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - Opinião
Marina
Acho difícil que ela sobreviva a todas as suas contradições e chegue lá, mas no Brasil, decididamente, você nunca pode dizer que já viu tudo. Temos uma certa volúpia pelo excêntrico.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

A comparação da Marina com o Jânio e o Collor é gratuita, mas, se ela for eleita, entrará na lista dos nossos presidentes exóticos — o que não significa que terá o mesmo destino dos outros.

Mulher, negra, com uma história pessoal de superação da sua origem mais admirável até do que a do Lula, ela seria, no governo, no mínimo uma curiosidade internacional, e talvez uma surpresa.

Acho difícil que sobreviva a todas as suas contradições e chegue lá, mas no Brasil, decididamente, você nunca pode dizer que já viu tudo. Temos uma certa volúpia pelo excêntrico.

A influência da religião numa hipotética administração Marina é discutível. Não se imagina que o bispo Malafaia e outros bispos evangélicos teriam o mesmo poder no governo que tiveram sobre a redação dos princípios da candidata, obrigada a mudar alguns para não desagradá-los.

E o que significaria termos um governo evangélico em vez de um governo católico ou umbandista? Obscurantismo por obscurantismo, daria no mesmo. Outra excentricidade do momento — sob a rubrica “Só no Brasil” — é o fato de a candidata mais revolucionária nestas eleições ser ao mesmo tempo a mais conservadora.

A aprovação quase universal do casamento gay está tornando esta questão obsoleta, para não dizer aborrecida, mas outras questões em choque com princípios religiosos, como a da liberação do aborto e a pesquisa com células-tronco, afetam a vida e a morte de milhões de pessoas.

É impossível saber quantas mulheres já morreram em abortos clandestinos por culpa direta da proibição do uso de preservativos pelo Vaticano, por exemplo.

Não faz a menor diferença para mim, para você e para o nosso cotidiano se Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo porque nem Ele era de ferro, ou se a humanidade descende de macacos.

Eu mesmo adotei uma crença mista a respeito: acredito que todos os antepassados da nossa espécie eram filhos de macacos menos os meus, que foram adotados. Mas a oposição à pesquisa com células-tronco que pode levar à cura de várias doenças hoje mortais não é brincadeira. É criminosa.

Acho a Marina uma mulher extraordinária. Mas, como alguém que está na fila para receber os eventuais benefícios de pesquisas com células-tronco, voto no meu coração.

31 de mar. de 2014

Más notícias, de Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - Humor
Más notícias
As rugas realçarão seu caráter. E se um queixo já enfatiza sua masculinidade, imagine dois.

Ilustração Paulo Frade - Oléo sobre tela

Você terá que evitar carnes brancas, morenas e mulatas, principalmente depois das refeições

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

Um dia você se olhará no espelho e terá uma revelação estarrecedora. Sua mulher está dormindo com outro homem! Depois descobrirá que o que vê no espelho não é outro, é você mesmo. Só que, por uma razão inexplicável, você está mais velho.

Os espelhos são de uma franqueza brutal. Na era das relações públicas, é inadmissível que a sua imagem trate você com tanta crueza. É inaceitável que o espelho lhe diga “Você está com 50 (ou 60 ou, meu Deus, 70) anos assim, na cara, mesmo que quem diga seja a sua própria cara. E de manhã, na hora em que, ainda amarrotado pelo sono e antes de botar o rosto que usará durante o dia, você está mais vulnerável.

Se a cena pudesse ser confiada a um profissional da comunicação, seria diferente. Infelizmente, as piores notícias são sempre dadas por amadores. Num mundo mais justo, sua imagem no espelho poderia ser apresentada por um especialista em marketing e, em vez da sua cara no espelho revelador, você veria, por exemplo, a Patrícia Poeta.

— Patrícia! Você por aqui?

— Vim para lhe dizer que você ficará muito bem, com cabelo grisalho. Aumentará sua credibilidade. Será ótimo para os negócios.

— Eu acho que estou perdendo cabelos.

— E daí? Cabelo demais é desperdício. Os fios que ficam são os melhores.

— Será?

— As rugas realçarão seu caráter. E se um queixo já enfatiza sua masculinidade, imagine dois.

— Patrícia. Cabelos grisalhos, rugas, queixo duplo... Você quer me dizer que eu estou ficando... Velho?

- Maduro.

Ou então você deveria poder mergulhar de ponta-cabeça no espelho para descobrir como seria sua vida do outro lado dos 50 (ou 60 ou, meu Deus, 70). E se consolar com o fato de que ela não será muito diferente da vida que você leva hoje — com alguns reajustes. Você terá que evitar carnes brancas, morenas e mulatas, principalmente depois das refeições. E deixar de frequentar motéis com escadaria. Fora isso... Que venham as rugas!
Luis Fernando Veríssimo é escritor

9 de set. de 2013

“Os fantasmas” de Luis Fernando Verissimo, para O Estadão

BRASIL - Crônica
OS FANTASMAS

Foto: Divulgação

A casa de Sarah Winchester, em San Jose, Califórnia, 160 quartos para driblar os fantasmas

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fontes: Estadão

Armas químicas são produtos do engenho humano, como qualquer outra arma. São mais repugnantes porque associamos química à vida e não à morte, apesar de todos os venenos que ela produz. Mas o universo moralmente neutro e sem remorsos em que elas são desenvolvidas e usadas é o mesmo.

Mikhail Kalashnikov criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Não sei se já morreu, mas vivia uma aposentadoria tranquila nos Urais, cercado pelas filhas. Fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com nenhuma sequela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso. Orgulhava-se do que tinha feito pela pátria.

A simplicidade e a eficiência do AK-14 foram responsáveis pela sua adoção universal depois do aparecimento do primeiro protótipo, e ele chegou a ser o produto mais exportado da União Soviética. Se foi usado em guerras sujas, massacres e assassinatos em todo o mundo, inclusive na Rússia, isso não era da conta de Mikhail, que só fez o seu trabalho. Nenhum fantasma shakesperiano perturbou o seu sono nos Urais, como os fantasmas que visitaram Ricardo III antes da sua batalha final para lhe dizer “Desespere e morra”.

J.Robert Oppenheimer foi visitado por milhares de fantasmas. Depois do triunfo do programa do qual ele era o diretor científico, com as explosões atômicas bem sucedidas em Hiroshima e Nagasaki, ele festejou alegremente com sua equipe. Depois teve uma crise de consciência e uma transformação.

Ele e a equipe não tinham apenas feito seu trabalho e criado uma arma eficientíssima, com brilhantismo. Tinham dado à luz um monstro inédito no mundo e provocado a mais radical intervenção da ciência na vida humana desde que esta existia. Isto e os mortos assombraram o resto da vida de Oppenheimer. Ele se opôs à construção da bomba de hidrogênio e foi considerado um pouco penitente e filosófico demais para continuar à frente do programa nuclear americano, sendo substituído pelo mais pragmático Edward Teller. “Let me sit heavy in thy soul”, que eu pese na sua alma, diziam os fantasmas vingativos de Ricardo. O maior feito da ciência na História pesou na alma de Oppenheimer até o fim.

Sarah Winchester conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, “o rifle que conquistou o Oeste”. Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester – uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov – chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.

Sarah e William tiveram uma filha, Annie, que morreu ainda bebê, começando o que Sarah identificou como uma danação sobre a sua família. Pouco depois, William também morreu, de tuberculose, confirmando para Sarah que o nome Winchester vinha carregado de pragas e maus presságios. Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espíritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente.

Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas – sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria. Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San Jose, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte e a casa – que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San Jose – chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espíritos enraivecidos.

Sarah era sua própria arquiteta. Construiu corredores que levam a lugar nenhum, escadas para o nada, portas que dão no espaço e dezenas de quartos. Dormia num quarto diferente à cada noite, para enganar os espíritos. Pode-se imaginar uma horda variada de fantasmas abatidos pelo Winchester – soldados, bandidos, índios, mexicanos, tantos quanto os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki – perdida no casarão atrás de Sarah, que conseguiu ludibriá-los até os 85 anos, quando morreu.

2 de set. de 2013

O náufrago, de Luis Fernando Verissimo

BRASIL - Crônica
O náufrago

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Estadão

Um náufrago é resgatado de uma ilha deserta. Não consegue dizer quanto tempo passou na ilha. Perdeu a noção do tempo. Pelo seu aspecto ao ser encontrado - a barba quase no umbigo, as roupas reduzidas a fiapos, a pele curtida pelo sol e o sal - foram muitos anos. Mas quantos? Ele não se lembra do naufrágio. Não se lembra do nome do navio, do tipo do navio, do que fazia a bordo... Não se lembra nem de onde é.

Que língua eu estou falando?

Inglês. Mas com sotaque.

Sotaque de onde?

É difícil dizer...

Estranho. Não me ocorre nenhuma outra língua além do inglês, embora eu sinta que não é a minha língua materna. Talvez seja por causa de Pamela...

Pamela?

A mulher que eu fiz, de areia.

Você fez uma mulher de areia?

Você não sabe o que é a solidão numa ilha deserta.

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Ele precisava de companhia humana. No princípio, só precisava de sexo.

Fizera um buraco na areia. Mas, com o tempo, sentira que precisava de mais do que apenas um buraco. Construí um corpo de mulher em torno do buraco. Seios, grandes seios. Quadris, uma cintura delgada, coxas longas. Sempre gostara de coxas longas. Mas logo sentira que ainda faltava algo. E fizera uma cabeça para sua mulher de areia. Um rosto, com feições, nariz, boca. Um rosto bonito, cuidadosamente esculpido, e que ele retocava constantemente, consertando os estragos feitos pelos caranguejos e o vento. O rosto de uma mulher satisfeita. O rosto de uma mulher que o amava, que mal podia esperar pelas noites de paixão sob as estrelas, com ele. Mas...

- Mas o quê?

- O corpo desmentia o rosto. O corpo era estático e sem vida. Não se mexia, não acompanhava o meu ardor, permanecia ausente e frio. O corpo negava o brilho faiscante das conchas azuis que eram os olhos de Pamela.

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Por que "Pamela"?

Porque decidi que, fria daquele jeito, só podia ser inglesa. Eu tinha feito uma inglesa! Deve ser por isso que conservei o meu inglês. Era a língua com a qual eu fazia declarações de amor a Pamela e tentava despertar no seu corpo a calidez que o rosto prometia. Ela não reagia. Ela não me respondia. Ficava muda e distante. Também não respondeu quando eu comecei a gritar com ela, e a xingá-la, e acusá-la.

Acusá-la de quê?

De me trair. Pamela estava me enganando.

A mulher de areia estava enganando você?

Estava!

Com quem?

Não tenho a menor ideia. Eu só não tinha dúvida de que, com o outro, ou com os outros, ela se mexia. Uma loucura, eu sei. Mas eu tinha pedido aquilo. Eu tinha criado o meu próprio tormento. Não se tem companhia humana impunemente. Onde há um outro, há confusão, há conflito, há desgosto. E há traição.

O que você fez?

Um dia, destruí a Pamela a pontapés. Só deixei o buraco no chão. Mas no dia seguinte a reconstruí, os grandes seios, as longas coxas, pedindo perdão, jurando que aquilo nunca mais aconteceria. E no dia seguinte a destruí a pontapés outra vez.

Grego.

Hein?

O seu sotaque. Pode ser grego.

Hmmm. Grego. É possível. Me sinto muito antigo.

Qual é a última lembrança que você tem do mundo, antes de naufragar?

Deixa ver... Rita Pavone. Não tinha uma Rita Pavone?

Decidiram não contar nada ao náufrago sobre o 11/9 e a Rita Pavone até ele estar completamente recuperado. E o resgataram, apesar da sua insistência em levar o buraco junto.

29 de ago. de 2013

Um rio do Éden, de Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - Crônica
Um rio do Éden

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

O meu relógio biológico é um Rolex. Não, brincadeira. Nós todos temos um relógio dentro de nós que sempre “sabe” exatamente que horas são, embora nem todo mundo saiba que ele sabe, ou confie nele.

O relógio biológico funciona mais ou menos como uma portaria de hotel, à qual você pede para ser acordado a certa hora. Ou como um despertador, que você marca para acordá-lo. O relógio interior pode falhar — as portarias de hotel e os despertadores também falham —, mas sempre que não acreditei no meu me arrependi.

O que aconteceu mais de uma vez foi que o relógio biológico me acordou e fiquei na cama, aflito para saber se a portaria iria se lembrar ou o despertador funcionar, e acabei me atrasando. E minha tese é que quando o relógio biológico não nos acorda é porque, no fundo, não queremos acordar. Algum outro instrumento instintivo que carregamos sem saber prevaleceu e neutralizou o relógio.

É fascinante essa ideia de que trazemos nos genes recursos, impulsos, fobias e encargos dos quais não nos damos conta, como relógios embutidos ligados a alguma fonte inimaginavelmente precisa de tempo certo.

Somos portadores de mensagens cifradas que não conhecemos, e não entenderíamos se conhecêssemos. Há uma teoria segundo a qual o pavor universal de cobras vem de um resquício do passado reptiliano que ficou num dos cantos primitivos do nosso cérebro.

E a mais nobre e misteriosa missão que nossos genes realizam à nossa revelia é a de trazer nosso DNA desde as origens da espécie humana até agora. Ninguém nos contratou, mas nossa função no mundo é transportar DNA.

O famoso biólogo darwinista Richard Dawkins deu um título poético a um dos seus livros: “River out of Eden”. Tirado de Genese 2:10: “E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia.” O rio do Éden de Dawkins e de DNA, e passa por todos nós.
Luis Fernando Veríssimo é escritor.

2 de ago. de 2013

Compensações, de Luis Fernando Veríssimo, para O Estado de S. Paulo

BRASIL - Opinião
Compensações
Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro Guernica, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: "Ah, foi você que fez isso, não foi?". Ao que Picasso teria respondido: "Não, foram VOCÊS que fizeram isso".

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo, para O Estado de S. Paulo
Fontes: Estadão

Perguntaram ao escritor sulista americano William Faulkner como ele explicava o florescimento literário havido no Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil e sua resposta foi sucinta: "Nós perdemos". A humilhação da derrota e o fim de um tipo de vida explicavam a literatura, que misturava nostalgia, decadência, romantismo sombrio e um certo preciosismo "faisandé". O estilo perdurou até autores modernos como Truman Capote, Carson McCullers, Flannery O'Connor, Tennessee Williams e o próprio Faulkner, e ganhou um nome: "gótico sulista". O Sul perdeu a guerra, mas criou um gênero.

Quando o Homero disse (se é que disse mesmo, nada que se sabe de Homero é cem por cento certo, nem a sua existência) que as guerras aconteciam para serem cantadas pelos poetas, não queria dizer que a arte compensava tudo. Ou queria? Contam que um grupo de oficiais nazistas foi visitar o atelier do Picasso durante a ocupação de Paris e, vendo uma reprodução do seu quadro Guernica, a dramática recriação da destruição daquela pequena cidade pelos alemães na Guerra Civil espanhola, um deles comentou: "Ah, foi você que fez isso, não foi?". Ao que Picasso teria respondido: "Não, foram VOCÊS que fizeram isso". Por um tortuoso raciocínio homérico se poderia concluir que os alemães foram coautores da pintura. Pelo mesmo raciocínio, louve-se a perseguição fascista na Europa pelo exílio de tantas mentes superiores e tanto talento na América, louve-se a escravatura pela nossa rica cultura negra e louve-se as agruras do nosso agreste pelos bons escritores e artistas nordestinos.

Tudo isso foi sintetizado naquela célebre fala que deram para o Orson Welles (há quem diga que a fala foi escrita pelo próprio Welles) no filme O Terceiro Homem, adaptado de um romance do Graham Greene. Para justificar seu mau caráter, Welles compara a conturbada história da Itália antes da unificação com a milenar placidez da Suíça. Enquanto a Itália, junto com conspiradores, corruptos e canalhas tinha produzido alguns dos maiores gênios da humanidade, a bem-comportada Suíça só produzira - o relógio cuco.

Mas a ideia de que a arte compensa qualquer barbaridade é perigosa. Melhor dizer que os eventuais benefícios de crimes históricos não os absolvem. São efeitos acidentais, como certos queijos que descendem do leite estragado. E você, prefere a paz que só produz o relógio cuco ou a confusão que produz dois, três, muitos leonardos da vinci?

25 de jul. de 2013

Heróis e História, de Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - Opinião
Heróis e História
São os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia?

Foto: Martin Meissner/ Associated Press

O ex-Presidente Sul-Africano Nelson Mandela e sua esposa Graça Machel, final da Copa do Mundo de Futebol FIFA, 11 de julho de 2010, Joanesburgo, África do Sul

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

Velha questão: são os homens providenciais que fazem a História ou é a História que os providencia? Estou pensando no Mandela. Ele sem dúvida fez história, mas o apartheid teria se mantido mesmo sem a resistência dramatizada na sua prisão e no seu sacrifício? Provavelmente não.

Martin Luther King simbolizou a luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, empolgou e inspirou muita gente, mas a injustiça flagrante da segregação racial estaria condenada mesmo sem seus discursos e seu exemplo.

Frequentei uma high school americana durante três anos e todos os dias, antes de começarem as aulas, botava a mão sobre o coração e prometia lealdade à bandeira aos Estados Unidos da América a à republica que ela representava, com liberdade e justiça para todos, e certamente não era só eu que completava, em silêncio, o juramento: “...exceto para os negros.”

Durante anos a democracia americana conviveu com imagens de discriminação racista, linchamentos e outra violência contra negros no Sul do país. Variava apenas o grau de consciência em cada um da hipocrisia desta convivência cega.

O que Martin Luther King fez foi tornar a consciência universal e a hipocrisia visível, e insuportável. Mas a justiça para todos viria — ou virá, ou tomara que venha, numa América ainda dividida pela questão racial, como mostra a revolta pela absolvição recente do assassino daquele garoto negro na Florida — mesmo sem a sua retórica.

Gandhi liderou o movimento de resistência pacifica que ajudou a liberar a Índia do domínio inglês. Há figuras como Gandhi — mais ou menos pacificas — em quase todas as histórias de liberação do jugo colonialista. Mas, por mais atraente que seja a ideia de heróis emancipadores derrotando impérios, a verdade é que eles serviram uma inevitabilidade histórica, independentemente da sua bravura, do seu discurso ou, como Gandhi, do seu apelo espiritual.

O poder da História de fazer acontecer o necessário, à revelia da iniciativa humana, soa como ortodoxia marxista, eu sei, mas consolemo-nos com a ideia de que a História pode nos ignorar, mas está do nosso lado.

E dito tudo isto é preciso dizer que poucas coisas na vida me emocionaram tanto quanto a aparição do Mandela antes do jogo final da Copa do Mundo na África do Sul, ovacionado pela multidão. Consequente ou não, ali estava um herói.

7 de abr. de 2013

Maluquices, de Luis Fernando Veríssimo, para o Blog do Noblat

BRASIL - Crônica
Maluquices

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

O filme “Borat” era um pseudo-documentário mostrando a ida de um maluco do Casaquistão aos Estados Unidos para fazer uma reportagem sobre a vida americana. O personagem “Borat” era fictício, mas todas as pessoas com quem ele interagia e, muitas vezes, escandalizava, na América, eram reais.

Quem se lembra do filme lembra que o único lugar em que ninguém estranha ou repele a maluquice de “Borat” é a assembleia de uma igreja pentecostal, onde estão em curso exorcismos de grupo e curas pelo toque de mãos, e fiéis pulam e correm de um lado para o outro para se livrar dos maus espíritos — porque lá a maluquice de “Borat” não destoa da maluquice ambiente. “Borat” finalmente encontra uma loucura igual à sua. Ou maior, porque não é simulada.

O anarquista Borat teria que se esforçar para igualar, em matéria de irracionalidade e desafios ao bom senso as crenças e os ritos de qualquer religião, não apenas das pentecostais. É curioso como as pessoas condenam o lamentável Marco Feliciano por coisas como a sua interpretação literal da Bíblia e sua evocação de Satanás, mas não estendem a crítica a outros, de outras religiões, que têm a mesma adesão aos dogmas da sua igreja que o lamentável tem aos da sua.

Um católico convicto e praticante também deve suspender conscientemente a razão para aceitar os princípios metafísicos da sua religião, e também acreditar na Bíblia como verdade absoluta e na ação de Satanás no mundo.

Eu sei, eu sei. A grita é contra o fato de o Feliciano, com todos os seus preconceitos e fobias, acabar presidindo uma comissão de direitos humanos. Mas aí não estamos mais tratando dos mistérios da fé, e sim dos mistérios do processo legislativo.

Ninguém me perguntou, mas apoio qualquer movimento e assino qualquer manifesto contra o obscurantismo e o sono da razão, desde que a maluquice condenada seja a de todas as religiões, e de todos os seus deuses e demônios.

No filme, os pastores da tal igreja pentecostal tratam a loucura de “Borat” como uma manifestação de Satanás, e têm os passes e as palavras prontos para curá-lo. Depois o “Borat” — ainda mais louco do que antes, mas quem está ligando? — se abandona à convulsão geral, e também sai pulando.

24 de set. de 2012

Dick Tracy, por Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - Crônica
Dick Tracy
“No fim o que a gente mais sente falta, do passado, é o futuro que ele previa”.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

Se todas as previsões feitas no passado sobre como seria a vida hoje dessem certo, cada um de nós teria um helicóptero — ou coisa parecida — na garagem, e para viagens mais longas só usaríamos aviões supersônicos.

Os Volkswagens voadores não vieram, para não falar nas megalópoles superorganizadas com calçadas rolantes num mundo em paz permanente e sem pragas, mas o Concorde parecia ser um sinal de que pelo menos parte da visão se cumpriria, mesmo com atraso.

O Concorde era um protótipo que, com o tempo, se aperfeiçoaria e se democratizaria. Seus defeitos eram desculpáveis, tratando-se de um protótipo. Fora as críticas irrelevantes (sim, querida, o caviar é Beluga, mas com a granulação errada), o pior que se dizia de uma viagem no estreito Concorde, com suas poltronas apertadas, era parecido com o que aquele inglês da anedota disse do ato sexual: o prazer é fugaz e a posição é ridícula.

Tudo isso seria corrigido com o tempo, inclusive o seu maior defeito, o preço das passagens, só acessível a quem pode distinguir o grão do caviar.

Mas o Concorde acabou antes de se tornar viável. E o que se chora não é o fim de uma máquina muito cara e talvez desnecessária, mas de um sonho: o que seria a vida se todas as possibilidades abertas pela ciência e a tecnologia depois da Primeira Guerra Mundial tivessem dado em outro mundo.

No fim o que a gente mais sente falta, do passado, é o futuro que ele previa. O Concorde podia ser só uma extravagância feita para você poder almoçar em Paris e almoçar de novo em Nova York. Acabou como símbolo do fim prematuro de um século que só ficou na imaginação.

Em compensação, o futuro previsto no passado não incluía uma palavra, uma pista, uma sugestão que fosse da grande revolução que viria e ninguém sabia, a da informática. Quer dizer, o futuro imaginado no passado já era um futuro obsoleto. O único, tênue presságio do que viria era o rádio de pulso do Dick Tracy, lembra? O próprio Tracy não sonhava que um dia ele teria no seu pulso, para combater o crime, um dispositivo que receberia e emitiria imagens e mensagens, calcularia, fotografaria e diria como estava o tempo em qualquer lugar do mundo.


15 de jul. de 2012

Quem não é? por Luis Fernando Veríssimo

OPINIÃO
Quem não é?
”... Nos mesmos jornais que trazem a notícia da denuncia de Havelange e Teixeira e a revelação de que a Fifa nos considera todos corruptos lemos que o suplente do Demóstenes Torres, cassado pelas suas ligações com o Carlinhos Cachoeira, também tem ligações com o Carlinhos Cachoeira...”

Charge : AROEIRA – O Dia (RJ)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

O Tribunal Federal da Suíça afirmou, num documento recém-publicado, que João Havelange e Ricardo Teixeira receberam suborno para influenciar a Fifa na decisão de quem faria a transmissão das Copas do Mundo de 2002 e 2006 e em outros acordos da Fifa e da CBF.

O documento custou a ser publicado porque os advogados da Fifa argumentaram, em defesa de Havelange e Teixeira, que o pagamento de suborno é pratica comum na América do Sul e na África, onde a propina faz parte do salário “da maioria da população”.

Foi publicado agora porque o presidente da Fifa, Joseph Blatter, que deve seu cargo ao Havelange, resolveu usar seu ex-chefe e Teixeira como exemplos de que está combatendo a corrupção. Antes abraçava os dois e seu esquema, agora os apunhala pelas costas com o relatório finalmente liberado da justiça suíça. Gente fina.

Você, eu e a maioria da população brasileira teríamos motivos para nos indignar com a afirmação de que nosso salário é normalmente reforçado por propina, vinda sabe-se lá de onde, e que Havelange e Teixeira só estariam sendo um pouco mais brasileiros do que o normal.

Mas nos mesmos jornais que trazem a notícia da denuncia de Havelange e Teixeira e a revelação de que a Fifa nos considera todos corruptos lemos que o suplente do Demóstenes Torres, cassado pelas suas ligações com o Carlinhos Cachoeira, também tem ligações com o Carlinhos Cachoeira , além de precisar explicar por que deixou de declarar boa parte do seu patrimônio ao fisco. Fica-se com a impressão de que a Fifa tem razão.

Me lembrei do texto que escrevi certa vez sobre a visita de uma comissão a um manicômio. A comissão é recebida por uma recepcionista, que passa a dar instruções desencontradas sobre como chegar ao gabinete do diretor — “Entrem por aquele corredor marchando de costas e cantando a Marselhesa” — até que vem um médico buscá-la, explicando que se trata de uma louca que pensa que é recepcionista. Mas o médico não é médico, também é um louco passando por médico, e que é levado por um segurança. Que não é um segurança, é outro louco que declara ser sobrinho-neto do Hitler, e é levado por um enfermeiro para o seu quarto. Mas o enfermeiro também não é enfermeiro, é um louco que etc, etc. A comissão finalmente chega ao gabinete do diretor — ou alguém que pode ser o diretor ou um louco que se passa pelo diretor. Como saber se é o diretor mesmo?

— Não há como saber — diz o possivel diretor. — Nem eu sei. Mas temos que supor que eu sou o diretor e não outro louco. Senão isto aqui vira um caos!

Temos que supor que nem todos são corruptos, ou afilhados reais ou simbólicos do Carlinhos Cachoeira. Senão isto aqui fica ingovernável.


*Acrescentamos subtítulo e charge a publicação original

28 de jun. de 2012

“Lula e Sombra” - Luis Fernando Veríssimo

BRASIL - HUMOR
Lula e Sombra
Luis Fernando Veríssimo diz que Interpol não acreditou que Lula fosse ter um encontro com Maluf

Charge: SPONHOLZ

Postado por Toinho de Passira
Texto de Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

Todo o mundo sabe que o Paulo Maluf é procurado pela Interpol. O que pouca gente sabe é que o codinome dele na Interpol é Sombra, devido à dificuldade da organização em sequer localizá-lo.

O escritório da Interpol no Brasil tem agentes dedicados exclusivamente a procurar o Maluf, cujos atos de corrupção internacional são notórios e comprovados. Ainda não conseguiram achá-lo, mas, recentemente, chegaram perto. Esta coluna teve acesso a memorandos internos na Interpol que descrevem o episódio.

Um relatório de um dos agentes encarregados de procurar o Sombra revela a existência de rumores nos meios políticos segundo os quais o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá se encontrar com o Maluf, em lugar não especificado, para tratar de assuntos também desconhecidos.

Em resposta ao relatório, o chefe da Interpol pede cautela, em memorando que publicamos na íntegra, só omitindo o nome do agente e do seu chefe para proteger nossas fontes.

“De XXX para X. Confidencial. Assunto: ‘Encontro com Sombra.’ Recomendo extrema cautela. Os rumores de um encontro de Lula com Sombra são obviamente destinados a desmoralizar o ex-presidente e seu partido, o PT. Como já lembrei em outras ocasiões, não devemos nos envolver na política do país. Desconsidere os rumores.”

O agente responde em outro memorando:

“De X para XXX. Confidencial. Assunto: Lula e Sombra. Os rumores parecem estar confirmados. Haverá sim um encontro do Sombra com o ex-presidente, que, sabe-se agora, irá pedir seu apoio para o candidato do PT nas próximas eleições municipais. Peço autorização para iniciar uma operação.”

A resposta do chefe:

“De XXX para X. Confidencial. Assunto: sua insistência. A possibilidade de um encontro de Lula e Sombra é tão inverossímil, levando-se em conta o histórico do PT e as opiniões do Lula sobre o Sombra, que não merece consideração, quanto mais uma operação. Desista, X.”

Volta o agente:

“De X para XXX. Confidencial. Assunto: chance única. Chefe, desculpe a insistência. Mas descobrimos que o encontro Lula/Sombra será na casa do Sombra. Se seguirmos o Lula até o local, não só encontraremos o Sombra como descobriremos onde ele mora. Posso colocar agentes disfarçados de arbustos para flagrar o encontro. É uma chance que não se repetirá!”

Como resposta, XXX ordena que o agente X abandone seu plano, informe-se melhor sobre a história política do Brasil e da próxima vez use o bom-senso, em vez de acreditar em boatos delirantes.

E a Interpol continua procurando o Maluf.


*Acrescentamos subtítulo e charge a publicação original

12 de mar. de 2012

"Instruções da Fifa" - Luis Fernando Veríssimo

CRÔNICA
Instruções da Fifa
“A Fifa aceita que se organizem recepções festivas aos estrangeiros, já que, afinal, eles estarão chegando na terra do carnaval, mas pede moderação”.

Foto: AFP

Joseph Blatter, presidente da FIFA, reverenciando Dilma Rousseff, presidente do Brasil

Luis Fernando Veríssimo
Fonte:Blog do Noblat

Chegaram as instruções da Fifa para como devemos nos comportar durante a Copa do Mundo de 2014. Os brasileiros que não respeitarem as recomendações da Fifa podem ser multados ou, dependendo da natureza da falta, sofrerem sanções mais graves. Tome nota.

Começando pela recepção a autoridades e delegações estrangeiras, nos aeroportos: devemos refrear nossa mania de não apenas apertar a mão como dar uma batidinha no ombro, o que denota uma intimidade que não existe e pode constranger o visitante.

A Fifa aceita que se organizem recepções festivas aos estrangeiros, já que, afinal, eles estarão chegando na terra do carnaval, mas pede moderação.

As baterias de escola de samba devem se apresentar nos aeroportos só com os instrumentos mais leves, que não reverberem tanto, e as mulatas devem cuidar para não ofender os recém-chegados com trajes muito sumários. Quer dizer, nada de bumbo ou tapa-sexo.

Na questão da vestimenta: a Fifa faz restrições ao conjunto bermudas/shortinhos e havaianas. Não o proíbe totalmente mas prefere que ele não seja usado em ocasiões como coquetéis e recepções oficiais, ainda mais que o Blatter estará de gravata.

Saias curtas para mulheres serão toleradas desde que a distância entre cintura e barra da saia não seja menor do que 18 centímetros. Haverá fiscais da Fifa em locais de congraçamento social para fazerem a medida.

Os penteados e as tatuagens também serão controlados e a Fifa recomenda que a nação inteira dedique-se a regimes alimentares e exercícios físicos para emagrecer até 2014, porque do jeito que estamos não dá.

A Fifa observou que os brasileiros falam muito alto em restaurantes. Estabelecerá um limite de decibéis que se for ultrapassado levará ao fechamento do estabelecimento e à internação da clientela em cursos intensivos de locução e etiqueta, pelo menos até o fim da Copa.

A Fifa estuda uma mudança no nosso nome, de República Federativa do Brasil para Estados Unidos do Brasil, ou — levando em conta que a língua mais falada por aqui já é o inglês — Estados Unidos da América Legendado.

Também pensa em mudar as nossas cores, porque verde e amarelo, francamente. Mas isso fica para outra etapa, quando a Fifa reorganizará os estados brasileiros, inclusive suprimindo alguns, e intervirá na nossa taxa de juros.

Finalmente, a Fifa não está contente com o nosso governo. Acha a Dilma muito mandona, mais mandona do que ela, e já está providenciando sua substituição.


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13 de fev. de 2012

'Chutzpah' - Luis Fernando Veríssimo

CRÔNICA
'Chutzpah'
“Se há alguém que não pode xingar ninguém de colonialista é um inglês. Pelo menos não sem corar”.

Luis Fernando Veríssimo
Fonte: Blog do Noblat

Um exemplo extremo do que os judeus chamam de “chutzpah” é o cara que mata o pai e a mãe e no tribunal pede clemência para um pobre órfão.

“Chutzpah” é algo que ultrapassa o cinismo e provoca até uma certa admiração pela audácia. Se houvesse um prêmio para a “Chutzpah do Ano” de 2012 o vencedor já estaria decidido, pois ninguém poderia concebivelmente igualar o primeiro-ministro britânico David Cameron este ano.

Quando Cameron chamou de “colonialista” a pretensão da Argentina de incorporar as Ilhas Malvinas, Falklands para os ingleses, ao seu território, estabeleceu um novo parâmetro para o “chutzpah” que humilha até o do órfão que pede clemência.

As Ilhas Falklands são os últimos farelos do maior sistema colonial que o mundo já conheceu. Um sistema que levou a espoliação comercial, a prepotência e a morte — junto com o parlamentarismo, o críquete e o chá com bolinhos — a todos os limites da Terra, e ainda se apegava aos seus domínios, muitas vezes por puro orgulho imperial, quando outras potências coloniais já tinham desistido.

Se há alguém que não pode xingar ninguém de colonialista é um inglês. Pelo menos não sem corar.

Você não precisa torcer pela Argentina para lamentar os ingleses no caso das Malvinas/Falklands. Ou vice-versa.

As barbaridades de lado a lado se equivalem. A tentativa de tomada das ilhas pelo governo militar argentino de 1982 — decidida, segundo o folclore, durante uma bebedeira do general Galtieri — foi uma aventura desastrada, tornada ainda mais trágica pela desproporção de forças.

As consequências da aventura também se equilibram. A derrota humilhante decretou o fim do regime militar argentino. A vitória fácil decretou a reeleição da Margaret Thatcher na Inglaterra.

Entre os quase mil mortos argentinos e ingleses na rápida guerra, as razões geopolíticas e eleitorais para o seu sacrifício não fizeram nenhum sentido.

Num plebiscito, a população das ilhas certamente escolheria continuar fazendo parte do Reino Unido. Este é o principal argumento inglês para continuar lá. Tudo bem. Mas o David Cameron poderia ter ao menos corado um pouco.
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