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10 de ago. de 2013

A sombra do PMDB na Petrobras, de Diego Escosteguy, para a Época

BRASIL - Corrupção
A sombra do PMDB na Petrobras
O lobista João Augusto Henriques denunciou à revista Época esquema de propina na Petrobras. Parte do dinheiro arrecadado, pago pela Odebrecht, US$ 8 milhões, foram repassados ao secretário das Finanças do PT, João Vaccari durante a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010. A construtora ganhou um contrato bilionário na área internacional da Petrobras, aprovado pelo então presidente, José Sergio Gabrielli (PT). Estariam envolvidos ainda, Jorge Zelada, diretor internacional da companhia e os pemedebistas, Antonio Andrade, atual ministro da Agricultura, e João Magalhães, presidente da Comissão de Finanças da Câmara.

Foto: Arquivo/Época

Segundo João Augusto, a venda da refinaria de San Lourenzo, na Argentina, ao empresário Cristóbal Lopez, a esquerda ao lado do casal Kirchner e amigos, foi intermediada por propina. Ela foi disfarçada em “taxa de sucesso, de acordo com um contrato.

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Diego Escosteguy
com Flávia Tavares, Marcelo Rocha, Murilo Ramos e Leandro Loyola
Fontes: Época, Blog do Noblat

João Augusto estava em silêncio. Permanecia inclinado à frente, apoiava-¬se na mesa com os antebraços. Batia, sem parar, a colherzinha de café na borda do pires – e mantinha o olhar fixo no interlocutor. Parecia alheio à balbúrdia das outras mesas no Café Severino, nos fundos da Livraria Argumento do Leblon, no Rio de Janeiro, naquela noite de sexta‐feira, dia 2 de agosto.

A xícara dele já estava vazia. O segundo copo de água mineral, também. João Augusto falava havia pouco mais de uma hora. Até então, pouco dissera de relevante sobre o assunto que o obrigara a estar ali: as denúncias de corrupção contra diretores ligados ao PMDB, dentro da Petrobras.

Diante dos documentos e das informações obtidos por ÉPOCA sobre sua participação no esquema, João Augusto respondia evasivamente. Por alguma razão incerta, algo mudara nos últimos minutos. O semblante contraído sumira. Esperei que o silêncio dele terminasse.

– O que você quer saber?, disse ele.

– Sobre os negócios, respondi.

Foi então que João Augusto Rezende Henriques disse, sem abaixar a voz ou olhar para os lados: “Do que eu ganhasse (no contratos intermediados com a Petrobras), eu tinha que dar para o partido (PMDB). Era o combinado, um percentual que depende do negócio”. A colherzinha não tilintava mais.

Iniciava-se, ali, um desabafo motivado pelas denúncias que ÉPOCA investigava havia cerca de um mês. O caso envolvia a Petrobras – maior empresa do país, 25a do mundo, com faturamento anual de R$ 281 bilhões. Começara com apenas uma pista: um contrato assinado em 2009, em Buenos Aires, entre o advogado e ex-¬deputado Sérgio Tourinho e o argentino Jorge Rottemberg.

No documento, previa-se que Tourinho receberia US$ 10 milhões de uma empresa no Uruguai, um conhecido paraíso fiscal, caso a Petrobras vendesse a refinaria de San Lorenzo, avaliada em US$ 110 milhões, ao empresário Cristóbal Lopez, conhecido como czar do jogo na Argentina e amigo da presidente Cristina Kirchner.

primeira vista, o contrato não fazia sentido. Por que um lobista de Buenos Aires se comprometeria a pagar US$ 10 milhões a um advogado brasileiro, de Brasília, caso esse advogado, sem experiência na área de energia, conseguisse fechar a venda de uma refinaria da Petrobras na Argentina?

Foto: Reprodução Época

Contratos disfarçavam a propina com uma cláusula de "taxa de sucesso"

ÉPOCA foi buscar a resposta em entrevistas com partícipes do negócio, parlamentares e funcionários ligados ao PMDB. O advogado Tourinho era sócio dos lobistas do PMDB, que trabalhavam em parceria com Jorge Zelada, diretor internacional da Petrobras desde 2008 e, segundo João Augusto, apadrinhado do PMDB. A operação San Lorenzo, diz ele, não era um caso isolado.

Era mais um dos muitos negócios fechados pelos operadores do PMDB na área internacional da Petrobras. De acordo com João Augusto, todos os contratos na área internacional da Petrobras tinham que passar por ele, João Augusto, que cobrava um pedágio dos empresários interessados.

De acordo com ele, de 60% a 70% do dinheiro arrecadado dos empresários era repassado ao PMDB, sobretudo à bancada mineira do partido na Câmara, principal responsável pela indicação de Zelada à Petrobras. De acordo com João Augusto, o dinheiro servia para pagar campanhas ou para encher os bolsos dos deputados. O restante, diz ele, era repartido entre ele próprio e seus operadores na Petrobras – os responsáveis pelo encaminhamento dos contratos.

Segundo João Augusto e outros quatro lobistas do PMDB, o dinheiro era distribuído a muita gente em Brasília. A maior parte seguia para os dez deputados do partido em Minas, entre eles o atual ministro da Agricultura, Antonio Andrade, e o presidente da Comissão de Finanças da Câmara, João Magalhães.

O dinheiro, de acordo com João Augusto, não ficava apenas com essa turma. Segundo o relato dele e dos outros lobistas, o secretário das Finanças do PT, João Vaccari, recebeu o equivalente a US$ 8 milhões durante a campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2010. João Augusto diz que organizou, pessoalmente e por meio de Vaccari, o repasse para a campanha de Dilma.

O dinheiro, segundo ele, foi pago pela Odebrecht, em razão de um contrato bilionário fechado na área internacional da Petrobras, que dependia de aprovação do então presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, do PT. À Justiça Eleitoral, a campanha de Dilma declarou ter recebido R$ 2,4 milhões da Odebrecht.

As denúncias de João Augusto são contestadas pelos acusados. Vaccari, secretário de finanças do PT, diz que não era responsável pela tesouraria da campanha de Dilma. Afirma ainda que “todas as doações ao PT são feitas dentro do que determina a legislação em vigor e de uma política de transparência do PT”.

Gabrielli diz, por meio de nota, não ter conversado sobre o contrato da Odebrecht com Vaccari. Zelada afirma desconhecer a atuação de João Augusto na intermediação de contratos na Petrobras e nega ter sido indicado pelo PMDB. A Petrobras informou em nota que não comentaria o assunto.

Apesar de todas as contestações, a reportagem de ÉPOCA confirmou, por meio de entrevistas em três cidades, vários pontos do depoimento de João Augusto. Investigações oficiais ainda são necessárias para apurar todas as suas denúncias.

UMA DIRETORIA PARA O PMDB

Em janeiro de 2008, o presidente Lula aceitou entregar a Diretoria Internacional da Petrobras ao PMDB. Mais especificamente, ao grupo que [hoje] comanda o PMDB da Câmara dos Deputados. Engenheiro de carreira da Petrobras, João Augusto fora apresentado à política em meados dos anos 90, quando era diretor da BR Distribuidora, a empresa de combustíveis da Petrobras. Para fazer qualquer operação de relevo na BR, João Augusto precisava do apoio dos demais diretores. No começo, nunca conseguia.

“Não tinha a menor ideia de como as coisas funcionavam”, diz. “Mas aí conheci o Benjamin Steinbruch (dono da CSN), que me explicou como era preciso ter apoio político para fazer as coisas. O Steinbruch ligou para o Tasso Jereissati (do PSDB), que ligou para o Marcelo Alencar (governador do Rio, também do PSDB).

O Alencar avisou o Joel Rennó (então presidente da Petrobras): ‘Ó, o João Augusto está com a gente’”, diz João Augusto. E ri das lembranças. “Eu não tinha ideia do que ‘estar com a gente’ significava... A partir dali, mudou muito. Da água para o vinho. Tudo passava. Você vai mudando. O mundo real é outro, e eu tinha de me adequar a ele.”

Em pouco tempo, João Augusto migrou dos tucanos para o PMDB – segundo ele, por obra do então deputado Michel Temer. Em 1999, João Augusto prosperava na política e nos negócios. Tinha, segundo ele, apoio do PMDB para virar diretor da Petrobras. Mas uma grave hepatite C o impedira. Para sobreviver, foram precisos dois transplantes de fígado e quatro meses num hospital em Londres.

Na volta ao Brasil, João Augusto deixou a Petrobras. “Fui fazer negócios”, diz. Usava, segundo ele, o conhecimento e a rede de contatos acumulado nos anos de Petrobras para ajudar empresários com interesses na empresa. Sabia que técnicos e diretores a procurar, dependendo do assunto – e, sobretudo, que métodos de persuasão aplicar a cada um.

“A Petrobras tem três tipos de caras: o técnico, o político e o carreirista”, diz. “O técnico não vai mudar o que ele pensa porque você diz. O que ele gosta é de visitar obra, viajar em helicóptero, se sentir importante de vez em quando. Ele acha que merece. O carreirista faz o que chefe mandar. Não quer saber o que é. Nem pensa duas vezes. Hoje é cheio de carreirista. E o político é o que observa as coisas dentro da empresa, atende aos amigos, ao pessoal da área dele, aos políticos. Se você errar a abordagem, confundir um com o outro, você quebra a cara. Eu sei fazer essa abordagem.”

Com todas essas credenciais, João Augusto era o nome favorito do PMDB para assumir a diretoria na Petrobras que Lula prometera aos deputados do partido, em janeiro de 2008. Seu nome, porém, foi barrado na Casa Civil: João Augusto fora condenado pelo Tribunal de Contas da União a pagar uma multa de R$ 500 mil, em virtude de irregularidades cometidas quando ele era diretor da BR Distribuidora.

O deputado Fernando Diniz, que comandava a bancada do PMDB de Minas, comunicou-lhe o óbice. E pediu um nome alternativo. João Augusto indicou um de seus melhores amigos na empresa, o engenheiro Zelada, que trabalhava com um dos diretores petistas da estatal. Ao nomear Zelada, João Augusto se tornou, segundo deputados e lobistas, o diretor “de fato” da área internacional.

“A função do Zelada era obedecer às ordens de João Augusto”, diz um lobista do PMDB. Para garantir que as operações do partido correriam como esperado, João Augusto recrutou técnicos de sua confiança na Petrobras. Distribuiu, pela área internacional, seus colegas de turma na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sócrates José virou chefe de gabinete de Zelada. Era o cicerone dos parceiros do grupo que visitavam a sede da Petrobras para fazer reuniões. “Se o projeto fosse bom para a Petrobras, eu levava adiante. Fazia isso por amizade”, diz Sócrates.

Ele também tinha como missão reportar o que via e ouvia a João Augusto.


José Carlos Amigo assumiu a gerência para América Latina. Essa gerência, segundo João Augusto, esteve envolvida na contratação de um navio-¬sonda da empresa Vantage, por US$ 1,6 bilhão – uma operação que, diz ele, rendeu uma comissão de US$ 14,5 milhões, US$ 10 milhões dos quais repassados ao PMDB.

Clóvis Correa virou diretor da Petrobras Argentina, onde a empresa mantinha a refinaria de San Lorenzo. De acordo com João Augusto e os demais envolvidos no negócio, Clóvis participava das reuniões em hotéis e receberia uma parte do “sucesso” de US$ 10 milhões. Fernando Cunha, o único que não estudara com os demais, tornou-‐se gerente para negócios na África.

João Augusto diz que ele participou da compra de um campo na Namíbia, operação encaminhada após ele ter fechado comissão com a empresa que detinha o controle desse campo.

Foto: Divulgação

O subserviente Jorge Luiz Zelada, foi indicado pelo lobista, João Augusto, para a diretor da área internacional da Petrobras

A INCOMPREENSÃO DOS DEPUTADOS

De acordo com os envolvidos, havia uma incompreensão entre os deputados sobre como funcionava a Petrobras e quanto era possível arrecadar por mês. Dois lobistas do PMDB afirmam que fora estipulada uma meta de R$ 150 mil por mês para a bancada. Num almoço na churrascaria Porcão, num domingo de sol no começo de 2009, o deputado Fernando Diniz, ao lado de assessores e de lobistas, reclamou da “performance” de Zelada.

“O‘ Gelada’ não está entregando”, disse aos amigos. Essa percepção é confirmada por João Augusto. “Num primeiro momento, eles (os deputados do PMDB) achavam que tinha um monte de coisa (na Petrobras). Não tinha. Os caras não entendiam. Achavam que estávamos (a dupla João Augusto e Zelada) de má vontade. Não entendiam que a Petrobras tem uma diretoria, um conselho, que não dá para fazer o que quiser”,diz.

A cobrança dos deputados exasperava João Augusto. “Se você não tiver os valores muito enraizados, o cara (político) vem e pega o dinheiro que está na sua carteira”, diz. “Tem que saber lidar. A pior coisa no pedido político é você engavetar. Ou você diz: ‘desse jeito aqui não dá’. Ou diz: ‘posso fazer assim’ (de acordo com os interesses da empresa). Não sou vestal. Gosto de ganhar dinheiro”, diz João Augusto.

“Mas não faço coisa que vai dar prejuízo à Petrobras, como Pasadena (a refinaria nos Estados Unidos na qual a empresa perdeu dinheiro). De zero a dez, numa escala de ética, não sou zero, mas também não sou dez. Bandido eu não sou, não. Sou três ou dois. Tenho que ser reconhecido como um cara técnico, de negócio, mas que não faço m...”

João Augusto faz uma pequena pausa, pede mais uma água mineral e continua: “Quando estava na BR, eu não podia parar o trem. Se tentasse, seria atropelado. Tinha que entrar no trem para levar na direção que eu quisesse. Eu vendia álcool quando era diretor da BR. Você não tem ideia. O Brasil inteiro me procurava. Todo político conhece um usineiro que quer comprar (em melhores condições). O que eu fazia? Fazia uma planilha menor, de coisas que a BR precisava vender mesmo, e deixava separado. Sempre que eu tinha que atender a um pedido político, pegava essa planilha e tentava conciliar o que havia nela, que era interesse da empresa, com o pedido do político.”

O que parece incomodar João Augusto, e talvez tenha contribuído para seu desabafo, seja o desequilíbrio entre os interesses dos políticos, que cobram cada vez mais de operadores como ele, e os interesses da Petrobras. “A Petrobras sempre teve influência política. Mas a decisão era técnica. A política se adequava à técnica. Se, por exemplo, os técnicos decidissem que era preciso ter uma refinaria no Nordeste, os políticos poderiam brigar para escolher em que estado. Mas a refinaria era necessária”, diz.

“De uns tempos para cá, isso se inverteu. Os políticos decidem que haverá uma refinaria no Maranhão ou no Ceará, e os técnicos têm que correr atrás.” Ele credita essa inflexão, como os demais ouvidos nesta reportagem, ao ex¬‐presidente Lula. “O PT aparelhou demais. Gente que não tinha capacidade subiu rápido.”

Foto: Arquivo

Na disputa da propina da venda da Refinaria San Lorenzo, Argentina, segundo José Augusto quem acabou levando foi o diretor Clóvis Correa, hoje assessor da Transpetro, empresa da Petrobras comandada pelo PMDB

O PROJETO ATREU

A venda da refinaria de San Lorenzo era, para o grupo, o começo da venda de todos os bens da Petrobras na Argentina – algo que, conforme revelou ÉPOCA em abril, quase aconteceu. “Quem descobriu a Argentina fui eu”, diz João Augusto. Foi sugerido a ele que contratasse advogados brasileiros.

“‘A gente que vai fazer negócio fora, seria bom receber por advogado aqui. Tudo bonitinho. Topei. Fizemos o contrato para receber tudo por eles (advogados) e cada um ia receber sua parte depois.” (Por meio de nota, o advogado Sérgio Tourinho afirma que foi contratado “para fazer o acompanhamento jurídico” na venda da refinaria San Lorezo. “Em um determinado momento, me passaram que parte dos meus honorários deveria ser repassado a terceiros. Claro que não concordei. E. por isso. tive o contrato rescindido.”)

Se a refinaria fosse vendida a Cristóbal, o amigo de Cristina Kirchner, os lobistas receberiam, segundo João Augusto, US$ 10 milhões. A divisão do “sucesso” demonstra a força do PMDB nos negócios da Petrobras lá fora. Pela conta dele, dos US$ 10 milhões, US$ 6,8 milhões estavam destinados a João Augusto.

“Eu tinha de repassar US$ 5 milhões ao PMDB. A maior parte disso era PMDB de Minas, porque era o Fernando (Diniz). A partir daí, não sei quem eles pagavam, nem quanto. Deputado é f... Você dá para um e, a partir dali, não dá para saber se ele deu para um, se ele deu para meia dúzia, se ele ficou (com o dinheiro)...”

Entre eles, a operação, não se sabe por que motivo, era conhecida como “projeto Atreu”. Em setembro e outubro de 2009, os lobistas reuniram-¬se muitas vezes na sala de reuniões do Hotel Hilton, em Buenos Aires, para avançar nas tratativas. Uma das presenças certas, segundo João Augusto, era o diretor Clóvis Correa. (Hoje, Clóvis é assessor da Transpetro, empresa da Petrobras comandada pelo PMDB, e nega ter participado das negociações para a venda da refinaria de San Lorenzo.)

“O Clóvis estava conosco em todas as reuniões. Como ele havia sido meu colega de faculdade, e eu tinha boas relações com ele, fiquei mais tranquilo”, diz João Augusto. Ele conta que, nas reuniões, combinava com outros lobistas pagamentos em contas no exterior. Uma das contas citadas, segundo um dos lobistas, era identificada como Tiger, na China – uma conta usada por doleiros para fazer pagamentos a partidos como PT e PMDB, conforme afirmou a Polícia Federal, em 2009, na operação Castelo de Areia, que investigou denúncias de pagamento de propina a políticos.

Enquanto a venda da refinaria avançava, o grupo oficializava a união para organizar os futuros negócios na Petrobras. Chegaram a assinar um instrumento particular de parceria, em que se comprometiam a dividir os contratos que cada um obtivesse. A união durou pouco. Era muito dinheiro e pouca confiança entre eles.

João Augusto diz que exigiu aos demais subir sua participação de US$ 6,8 milhões para US$ 8,8 milhões, por causa da pressão do PMDB. “Ele disse que o PMDB precisava fazer caixa para a campanha de 2010”, diz um dos lobistas. Houve briga entre eles, mas o advogado Tourinho aceitou assinar um aditivo ao contrato principal de sucesso, reduzindo a participação dele e dos demais a US$ 1,2 milhão.

João Augusto quis fazer um contrato em separado com os argentinos. Conta que foi até Buenos Aires tentar persuadir Rottemberg, o operador do negócio pelo lado argentino, encarregado pelo amigo de Cristina Kirchner de pagar os brasileiros. Temendo que seus parceiros no PMDB não confiassem em sua palavra, João Augusto levou uma testemunha: Felipe Diniz, filho do deputado Fernando Diniz, que morrera recentemente.

Àquela altura, a pressão do PMDB por resultados era imensa. “Usei o nome do PMDB, até para todo mundo saber que não estava dando calote em mim, estava dando calote no partido”, diz João Augusto. O novo contrato, ele afirma, não deu certo. Em maio de 2010, a Petrobras anunciou a venda da refinaria, por US$ 110 milhões, ao empresário Cristóbal Lopez.

“O negócio saiu, mas não recebi nada. Eles (os outros lobistas) receberam. E o cara em quem eu achava que eu podia confiar, o Clovis, foi o que recebeu mais. Eu tinha compromissos e fiz papel de idiota. A única atitude que pude tomar foi mandar o Zelada tirar o Clovis da Pesa (Petrobras Argentina).”

“RAPAZ, ELES ESTÃO SEMPRE EM CAMPANHA, NÉ?”

Nem todas as operações eram tão difíceis quanto a venda da refinaria de San Lorenzo. No mesmo período, João Augusto conta que fechou um contrato de US$ 1,6 bilhão para que a Petrobras explorasse o navio-sonda Titanium Explorer, da empresa Vantage. O contrato rendeu uma comissão de US$ 14,5 milhões, que deveria ser paga em três parcelas.

Segundo João Augusto, a primeira foi paga ainda no começo de 2009; a segunda, em seguida. A terceira, diz ele, não foi paga, em razão de uma briga societária na Vantage. O sócio que o contratara é hoje processado pelos demais sob a acusação de ter desviado dinheiro da empresa. “Repassei US$ 10 milhões ao PMDB”, diz. Nesse caso, não especificou nomes. “A quem de direito no partido. É a regra.” Era dinheiro para campanha? “Rapaz, eles estão sempre em campanha,né?”, diz.


“(O repasse) era maior do que 50%. Podia ser 60% ou 70%. Dependia do negócio. (...) Na área internacional (da Petrobras), se eu fizer alguma coisa, tem de ajudar o partido. Porque foi o partido quem indicou o Zelada. O mundo é assim. E é assim em qualquer lugar.” Em seguida, afirma: “Se eu fizesse negócio em outra diretoria, não tinha fee (comissão) para o partido. E eu falava para eles: aqui não devo nada”.

João Augusto parecia genuinamente magoado com os parceiros no PMDB. “Depois que você conhece os bastidores, não dorme mais tranquilo. Pensa que é fácil nego te ligando? ‘A campanha tá aí...’ Nego xingando o Zelada porque não vinha dinheiro.” Ao mesmo tempo, ele parecia sentir-¬se culpado por não corresponder às altas expectativas dos deputados: “Os caras me acolheram tão bem... Você sente que tem que ajudar o grupo”.

E quem coordenava o “grupo”, após a morte de Fernando Diniz? “Uma hora foi o (deputado) Mauro Lopes, outra foi o (deputado) João Magalhães.” (Mauro Lopes afirma conhecer João Augusto há mais de vinte anos e diz que sugeriu seu nome para ocupar a diretoria internacional da Petrobras ao então líder da bancada peemedebista de Minas Gerais, Fernando Diniz. E nega ter sido beneficiado com repasses de dinheiro.)

“Não sei como era a divisão: para quem eles davam, se davam certo... Só mandava.” João Augusto desce aos detalhes das transações: “Normalmente, (os deputados) me davam (a conta no exterior) e eu mandava via doleiro.” Ele conta que que sempre recebia reclamações. “Era muita gente (para receber). Uma operação de US$ 5 milhões parece boa, mas (...) eram dez, doze pessoas. No fim, (os deputados) achavam uma m...”.

UMA CPI PARA CÁ, UM CONTRATO PARA LÁ

Ao cabo de duas horas de revelações, João Augusto parece pronto para contar sua maior proeza, de acordo com os outros lobistas do PMDB: o contrato de quase US$ 1 bilhão entre a área internacional da Petrobras e a empreiteira Odebrecht, fechado às vésperas do segundo turno da eleição de 2010. Pelo contrato, a Odebrecht cuidaria da segurança ambiental da Petrobras em dez países.

– E a Odebrecht?

– Odebrecht? Eu montei tudo.

João Augusto diz que, no auge da CPI da Petrobras no Senado, no segundo semestre de 2009, o relator da comissão, senador Romero Jucá, do PMDB, que também era líder do governo, convocou‐o para uma reunião em Brasília. Disse que fizera um acordo com o então presidente da Petrobras, Gabrielli: o PMDB ajudaria a enterrar a CPI, que já estava morna, e, em troca, Gabrielli não criaria dificuldades à aprovação, pela diretoria executiva da Petrobras, do “projeto” Odebrecht.

“Manda o João apresentar”, disse Gabrielli a Jucá, segundo o relato de João Augusto. Logo depois, em dezembro de 2009, Jucá apresentou seu relatório final que isentava a Petrobras de irregularidades. A CPI morria conforme o previsto. (Jucá nega ter chamado João Augusto a Brasília para tratar do contrato entre Petrobras e Odebrecht. “Não houve nenhum tipo de conversa com o Gabrielli sobre qualquer contrato em troca de CPI. Até porque eu era líder do governo, eu estava tratando com seriedade.”)

Para fazer o contrato, João Augusto conta que fez “um grupo de trabalho, técnico, sério”. “Trabalhamos um ano nisso. A Petrobras precisava mesmo consolidar essas operações de meio ambiente lá fora. A empresa não sabia o tamanho do passivo, quem cuidava do quê. Era preciso centralizar”, diz João Augusto. Por que não fazer uma licitação?

“A Odebrecht tinha que ganhar. Foi até ideia minha. Pelo tamanho dela. Pelo padrão”, diz. Segundo João Augusto, a Petrobras convidou formalmente outras empreiteiras. Todas declinaram. Deu Odebrecht. Ouvida a respeito do caso, a Odebrecht nega ter feito contrato com João Augusto Henriques. E afirma, em nota: “A afirmação que a Odebrecht pagou o equivalente a US$ 8 milhões para a campanha de 2010 da presidente Dilma Rousseff, por intermédio do secretário de Finanças do PT, João Vaccari, não procede. A Odebrecht faz suas doações dentro de uma visão republicana e em prol da democracia e do desenvolvimento econômico e social do País, respeitando rigorosamente os limites e condições impostas pela legislação eleitoral”.

No momento em que Gabrielli deveria cumprir sua parte do acordo com Jucá, o PMDB foi traído, diz João Augusto. “Quando ela (a Odebrecht) ganhou, Gabrielli fez de tudo para derrubar na diretoria. A CPI, claro, já tinha passado. Quis f... o negócio. O contrato entrava na pauta da diretoria, mas eles enrolavam.” Com sua experiência política, João Augusto sabia o que fazer. Conta que conversou primeiro com seus parceiros na Odebrecht. Em seguida, procurou Vaccari, também tido como homem do PT na Petrobras. “Avisei a ele: a Odebrecht vai ajudar vocês na campanha. Vai lá e acerta com eles”, diz João Augusto. Qual o valor acertado? “Deram, mais ou menos, o equivalente a US$ 8 milhões para o Vaccari”, afirma.

As dificuldades na diretoria prosseguiram por mais algumas semanas. Em 26 de outubro de 2010, a cinco dias do segundo turno entre Dilma e José Serra, do PSDB, a diretoria da Petrobras aprovou o contrato. “Todo mundo recebeu. O partido, eu e as pessoas que ajudam. Quem ajuda, ganha”, diz João Augusto.

E quem recebeu? Ele não responde. “Pessoas de dentro (da Petrobras) que eu pago.” Quanto o PMDB recebeu? “Foram US$ 10 milhões, ou US$ 11 milhões. Não mexo com dinheiro dos outros. A Odebrecht tem os canais dela com os partidos”, diz ele. E como se dava o pagamento? “A parte deles (PT e PMDB) eu não sei. A minha foi lá fora”, disse. “Todos os contratos são assim.”

O contrato da Odebrecht parece ter sido a última grande operação da turma de João Augusto. Logo depois, no governo Dilma, o aparelhamento diminuiu. Saíram muitos dos diretores ligados ao PT. Zelada foi perdendo poder e pediu demissão em julho do ano passado. João Augusto, porém, continua à cata de negócios na Petrobras. Recentemente, participou da venda da sociedade que a Petrobras tem numa distribuidora de energia na Argentina. “Você não vai acreditar, mas não preciso de políticos para ganhar dinheiro. Ganho mais sem eles”, diz João Augusto, antes de se levantar e ir embora. Paguei a conta.

30 de out. de 2010

ARGENTINA: Corpo de Kirchner é sepultado em Rio Gallegos

ARGENTINA
Corpo de Kirchner é sepultado em Rio Gallegos
"Obrigado a Néstor e Cristina por nos devolverem a dignidade", "Força Cristina", "Cristina coração" eram algumas das frases que a multidão gritava à presidente, muitos chorando inconsoláveis, enquanto desfilavam na frente do caixão exposto na Casa Rosada, em homenagem ao líder peronista Néstor Kirchner que morreu na quarta-feira de enfarte

Foto: La Razon

Milhares de pessoas acompanharam o corpo do presidente desde a Casa Rosada até aeroporto, aplaudindo, entoando cânticos e jogando flores.

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Clarin, Reuters, BBC Brasil, La Razon, La Nacion, Pagina 12, Portal Terra

O ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner foi sepultado nesta sexta-feira no cemitério municipal de Rio Gallegos, na província de Santa Cruz, no sul do país. Como ocorreu durante o velório em Buenos Aires, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre pelas ruas da cidade.

Os simpatizantes de Kirchner ergueram bandeiras e faixas e aplaudiram a passagem do cortejo nos oito quilômetros, entre o aeroporto e o cemitério.

"Olé, olé, olé, olé, Lupo, Lupo!", cantavam, em referência ao apelido do ex-presidente em Rio Gallegos, onde nasceu e fez carreira política até chegar à presidência do país, em 2003. Kirchner foi presidente até 2007 e era o braço forte do governo da esposa e sucessora, a atual presidente Cristina Kirchner, cujo atual mandato termina em dezembro de 2011. DEPOIS DO INFARTO - Depois do primeiro problema cardíaco grave, dele o casal parecia mais unido e romântico.

Foto: Reuters

GENTE HUMILDE - Em Rio Gallegos camponeses comovidos aguardavam com a bandeira da Argentina o corpo de Néstor Kirchner

O enterro foi realizado após 26 horas de velório, na sede da presidência do país, a Casa Rosada, em Buenos Aires. A cerimônia do sepultamento foi acompanhada apenas por poucos familiares, entre eles a presidente, os filhos do casal, Maximo e Florência, ministros, parlamentares da base governista, e o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Foto: Rodrigo Nespolo/LaNacion

DEPOIS DO INFARTO - Após o primeiro problema cardíaco grave, de Kirchner, o casal parecia mais unido, romântico e determinado a continuar no poder na Argentina

Em meio à intensa expectativa sobre como será o governo de Cristina, após a morte do marido, políticos da base governista disseram que ela deverá voltar a trabalhar na segunda-feira

O líder do governo na Câmara dos Deputados, Agustín Rossi, do partido Frente para a Vitória (FPV), disse, na porta do cemitério, que a presidente está pronta para continuar governando. "O povo pode ficar tranqüilo. A presidente é forte, é uma estadista e tudo vai dar certo."

Foto: Reuters

VOLTANDO PARA CASA - Rio Gallegos, uma pequena cidade da província de Santa Cruz, foi o ponto final de Néstor Kirchner, que nas ruas recebeu o carinho de despedidas dos seus conterrâneos.

Já o ministro do Interior, Florencio Randazzo, afirmou que ela conta com "forte apoio dos governadores e dos prefeitos para continuar governando". Cristina não fez declarações a imprensa desde a morte do marido, na quarta-feira, quando ele sofreu uma parada cardiorrespiratória.

Os dois estavam na casa que construíram na cidade de El Calafate, na Patagônia, onde ela deverá passar o fim de semana com os filhos antes de retornar à Casa Rosada.

Foto: El Clarin

O CAIXÃO MONUMENTO: - Cada visitante que passava diante do corpo de Néstor Kirchner, no salão nobre da Casa Rosada, deixava lembranças que foram se acumulando sobre o caixão do ex-presidente falecido, transformado num monumento de carinho dos argentinos

A presidente Cristina Fernández de Kirchner manteve-se durante quase todo tempo junto ao caixão com os restos de companheiro por mais de 35 anos e principal aliado político, enquanto escutava gritos de alento, orações, canções e poemas de simpatizantes dela e de Néstor Kichner

Veja mais no “thePassiranews”: A MORTE DE NESTOR KIRCHNER


28 de out. de 2010

ARGENTINA: A MORTE DE NESTOR KIRCHNER

ARGENTINA
A MORTE DE NESTOR KIRCHNER
Deputado federal, secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unasul), presidente do Partido Justicialista (peronista) e virtual candidato à sucessão de Cristina Kirchner no próximo ano, a morte do ex-presidente argentino Néstor Kirchner, altera sem perspectivas de previsões lógicas o futuro político da Argentina

Foto: Getty Images

ÚLTIMA ELEIÇÃO - O ex-presidente da Argentina Néstor Kirchner cumprimenta eleitores ao sair de uma sessão eleitoral, em Buenos Aires, nas eleições de 28 de junho do ano passado quando concorreu e ganhou uma cadeira de Deputado Federal

Postado por Toinho de Passira
Fontes: Veja - Abril, Veja, Estadão, O Globo, O Globo , O Globo

O corpo do ex-presidente argentino Néstor Kirchner, que morreu na manhã desta quarta-feira vítima de problemas cardíacos está em Buenos Aires, sendo velado na Casa Rosada.

Aos 60 anos, Kirchner, que tinha histórico de problemas no coração, estava na cidade de El Calafate, na Patagônia, com a mulher e presidente do país, Cristina, quando passou mal. Ele chegou a ser levado ao hospital, mas os médicos não conseguiram reanimá-lo.

Foto: Reuters

VELÓRIO - O esquife com Kirshner no salão principal da Casa Rosada, velado por amigos, sua mulher Cristina e sua filha Florencia

Kirchner será o primeiro ex-presidente argentino a ser velado fora do Palácio do Congresso desde sua inauguração, em 1906. O velório na Casa Rosada foi pedido da própria Cristina, que viajou junto ao corpo do marido para a capital.

Florencia, filha do casal, que estava nos Estados Unidos, chegou à Argentina desde a noite dessa quarta feira.

O enterro do político será no sábado na província de Santa Cruz, a mesma onde nasceu e morreu. Inúmeros líderes mundiais, notadamente da América Latina já confirmaram que estarão presentes.

Foto: Getty Images

PIXAÇÕES  - Buenos Aires amanheceu cheio de inscrições em homenagem aos Kirchner

No último ano, Kirchner precisou ser internado de urgência pelo menos duas vezes. Os médicos haviam recomendado uma mudança no seu estilo de vida agitado para evitar mais complicações cardíacas.

Em 11 de setembro, Kirchner foi submetido a uma angioplastia, em hospital de Buenos Aires, tendo alta no dia seguinte. Na ocasião, o ex-presidente recebeu o implante de um stent para melhorar o fluxo sanguíneo. Ele era apontado como um dos favoritos para a eleição presidencial argentina de 2011.

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OS KIRSHNER EM CAMPANHA, 1989 - Os dois namoraram por apenas seis meses e só se separaram, com a morte, 35 anos depois, apesar de mexericos de brigas e infidelidades

Deputado federal, secretário-geral da União das Nações Sul-americanas (Unasul), presidente do Partido Justicialista (peronista) e virtual candidato à sucessão de Cristina Kirchner no ano que vem. Néstor Kirchner acumulava todas essas posições. Ao longo dos últimos sete anos, Kirchner marcou a política argentina com a estratégia de "bater e depois negociar". Era o chamado "Estilo K".

Kirchner utilizou essa fórmula nas negociações com o Fundo Monetário Internacional (FMI), os credores privados, as empresas privatizadas de serviços públicos, militares, ruralistas, mídia, Igreja Católica, partidos da oposição, redes de supermercados, companhias de combustíveis, exportadores de carne bovina e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entre outros.

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APOIO ENLUTADO - Os argentinos agora apóiam Cristina e lamenta a morte de Nestor, apesar do casal, antes da morte dele, está com a popularidade baixíssima

A fórmula lhe rendeu um grande número de inimigos. Mas também lhe permitiu acumular poder e popularidade nos setores da centro-esquerda. A hegemonia kirchnerista foi acompanhada de uma série sem precedentes de escândalos de corrupção. Kirchner foi acusado de enriquecimento ilícito, de favorecer empresários amigos e de negócios obscuros com o governo do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Facilmente irritável com os grupos não alinhados ao seu governo, Kirchner aplicou forte pressão contra a mídia que criticava sua gestão.

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BANDEIRA A MEIO PAU - A Casa Rosada, sede do governo argentino, amanheceu ornada com cartazes com homenagens e apoio a família Kirshner e a bandeira argentina hasteada a meio pau, em sinal de luto

Em 2003 Kirchner foi às urnas no primeiro turno das eleições presidenciais e ficou em segundo lugar, com 22% dos votos. Seu rival, Menem ficou em primeiro, com 24%. No entanto, nas semanas seguintes, durante a campanha para o segundo turno, as pesquisas indicavam que ao redor de 70% dos eleitores votariam em Kirchner como um voto anti-Menem. "El Turco", como Menem era chamado popularmente, desistiu do segundo turno eleitoral.

Dessa forma, com menos de um quarto dos votos, Kirchner foi empossado presidente. Ele foi o presidente menos votado da história argentina. Tudo indicava que ele seria um presidente fraco, sem poder próprio, que dependeria de seu padrinho Duhalde. No entanto, no primeiro ano e meio de seu governo conseguiu desvencilhar-se da imagem de "marionete" ao criar uma esfera própria de poder.

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ÚLTIMO ADEUS - Uma multidão de milhares fazem fila diante da sede do governo argentino, para prestar a última homenagem ao ex-presidente Néstor Kirshner

Em 2007, "El Pinguino" (o Pinguim), como era chamado, estava no auge de seu poder. Ele tinha a obediência de 19 dos 23 governadores, controlava o Senado, a Câmara de Deputados, tinha influência na Corte Suprema de Justiça e contava com o respaldo da maior parte da mídia argentina. Com o poder no apogeu, tomou a decisão inédita no mundo de colocar sua própria mulher como candidata à sucessão presidencial. Com seu respaldo e toda a máquina do governo, elegeu Cristina Kirchner.

Nos primeiros meses de 2008, diversos setores começaram a exibir resistência à política dos Kirchners. Primeiro foram os ruralistas, que deslancharam uma série de greves. Depois foi o próprio vice de Cristina, Julio Cobos, que rompeu com os Kirchners e se transformou em presidenciável. Na sequência, Kirchner intensificou seus ataques aos meios de comunicação e deflagrou uma guerra pessoal contra o Grupo Clarín, a maior holding multimídia da Argentina.

No ano passado, Kirchner sofreu uma derrota histórica ao perder as eleições parlamentares na Província de Buenos Aires para o empresário Francisco De Narváez, um novato na política.

A morte do político argentino é resumida pelo professor de relações internacionais, da USP, Alberto Pfeifer, como “equivalente a um terremoto no cenário político! Argentino.

”Era de conhecimento geral a influência dele sobre a sua esposa, Cristina, e também em outras instâncias da administração. Era ele que articulava a base de apoio ao governo.”

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PASSAGEM DO BASTÃO PRESIDENCIAL - Em julho de 2008, segundo a escritora argentina Sylvina Walger, Néstor Kirchner tentou obrigar a mulher a renunciar. Cristina negou-se e, por sua rebeldia, parou num hostpital por ter levado um soco na cara desferido pelo marido.

“A saída de Néstor Kirchner de cena transforma Cristina em uma interrogação muito grande. Ela deve ter bastante dificuldade. Além do impacto emocional, vai perder o seu conselheiro político. O casal foi colecionando inimigos, se livrando de assessores ao longo do tempo. Foi realmente um golpe muito grande para ela: perdeu o esposo, o companheiro e também a pessoa que a ajudava”.

”Era ele que organizava a gestão de Cristina. Ajudava ou mesmo definia as medidas e toda agenda política do governo. Decidia também quais seriam os aliados em torno da presidente. A presidente era quase um títere: um boneco que ocupa um posto para seguir as linhas ditadas por outro. Ela não era política, não tinha nenhuma expressão e só foi alçada à presidência por causa dele. A carreira política de Cristina sempre foi à sombra do marido. Ela havia sido senadora, mas também por causa da influência dele.”

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FRIA PATAGÔNIA - O casal residia por opção na fria província de Santa Cruz, terra natal de Kirchner, em plena patagônia

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“A morte dele altera todo o cenário político para as eleições de 2011. Candidato ou não, ele seria determinante nesta escolha. Pode até ser que a percepção popular sobre a Cristina não mude, já que o casal era especialista em mau governo. Porém, o mais provável é que ela se enfraqueça, abrindo espaço para que outras correntes dentro do Partido Justicialista se apropriem desse espólio. A tendência é surgir outra força dentro da legenda”.

”A oposição, provavelmente, terá cuidado porque qualquer movimento agora pode ser entendido como oportunismo. Sempre que uma pessoa morre é assim. Os opositores vão ter de passar um período de luto antes de atacar Cristina. Agora ela estará protegida por esta “dor de viúva” - concluiu o professor Alberto Pfeifer.


25 de abr. de 2010

Os Kirchner e Chávez criam Mercosul da propina

ARGENTINA - VENEZUELA
Os Kirchner e Chávez criam Mercosul da propina
Um ex-embaixador argentino, que ficou muitos anos em Caracas, denunciou a tramóia que revela um MERCOSUL da corrupção, com uma carteira de propina de comércio exterior administrada pelos dois países. . Lula esta magoado por não haver sido convidado.

Foto: Associated Press

Os laços que ligam o casal presidencial argentino e o coronel presidente venezuelano estão repletos de história suspeitas, intimidades que ultrapassam o bom gosto diplomatico e grandes somas de dinheiro.

Toinho de Passira
Fontes: Estadão, El Nacional, El Nacional, O Globo

Eduardo Sadous, o diplomata que denunciou
O ex-embaixador argentino em Caracas, Eduardo Sadous, prestou declarações formais na justiça argentina, debaixo de juramento e advertido de riscos de ser processado por calúnia, que integrantes dos governos venezuelano e argentino por vários anos exigiram aos exportadores de ambos os países o pagamento de propinas de 15% a 20%.

Sadous também acusou os dois governos de manipular de forma irregular o fundo fiduciário (conta conjunta) argentino-venezuelano. O novo escândalo que liga o governo da presidente argentina, Cristina Kirchner, ao venezuelano Hugo Chávez, também envolve o poderoso ministro do Planejamento, Julio De Vido.

Foto: Reuters

De Vido, principal negociador dos acordos comerciais com a Venezuela, sendo recebido pelo presidente Hugo Chávez no Palácio Miraflores, em fevereiro passado

Segundo a deputada opositora Elisa Carrió as propinas eram de 25% - 15% ficavam para os venezuelanos e 10%, para os argentinos.

O novo escândalo também envolve um antigo aliado de De Vido - Claudio Uberti, acusado em 2007 de participação do "caso da maleta", um escândalo que escancarou o financiamento de Chávez à campanha presidencial de Cristina. Diretor do departamento de pedágios rodoviários, Uberti era considerado o "embaixador paralelo", em Caracas.

Irregularidades. Sadous diz que empresários argentinos do setor de alimentos e máquinas agrícolas que não pagaram as propinas foram prejudicados. ele também afirma que, durante seu período à frente da missão em Caracas, de 2002 a 2005, ele avisou Buenos Aires dos problemas no fundo conjunto.

Em uma mensagem interna, Sadous teria informado o Palácio San Martín - sede da diplomacia argentina - que a Venezuela não havia depositado os US$ 90 milhões que devia. A resposta veio de outro ministério, o do Planejamento: "Somos nós que lidamos com esse assunto."

Segundo o ex-embaixador, os US$ 80 milhões depositados pelo governo Chávez no fundo, em Nova York desapareciam durante alguns dias, pois voltavam à Venezuela para serem vendidos no mercado negro. Na sequência, de acordo com Sadous, eles eram usados para "comprar dólares no câmbio oficial e alguém ficava com os US$ 13 milhões de diferença".

Estranhamos a falta de alguns personagens falando português nessa história.