17 de jan de 2015

Briga de cachorro grande: Lula e José Dirceu se desentendem por causa do petrolão

BRASIL – Petrolão
Briga de cachorro grande: Lula e José Dirceu se desentendem por causa do petrolão
Os dois capos - chefes mafiosos - históricos do PT não conversaram desde que o escândalo ganhou corpo. "Vocês me abandonaram há tempos", diz Dirceu que deixou vazar o desentendimento, mostrando que, na iminência de virá ré novamente, está disposto a jogar no ventilador, quem sabe optando por uma delação premiada?

Foto original: Reuters

DIGITAIS – Dirceu, apontado como padrinho do diretor da Petrobras envolvido no esquema, queria combinar com Lula uma estratégia de defesa, mas Lula o driblou e tirou o seu da reta. Dirceu irado pode trazer o do chefe para o centro do ringue

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Veja

Na reportagem de Daniel Pereira, na Veja desta semana, fica claro que faz tempo que o escândalo de corrupção na Petrobras serve de combustível para o fogo amigo dentro do PT. No ano passado, petistas que comandavam o movimento “Volta, Lula” criticaram a presidente Dilma Rousseff por admitir que aprovara a compra da refinaria de Pasadena com base num relatório falho.

Com o gesto de sinceridade, Dilma teria levado a crise para dentro do Palácio do Planalto, segundo seus adversários internos, e demonstrado uma ingenuidade e um amadorismo capazes de pôr em risco a permanência do partido no poder.

No afã de tirá-la da corrida eleitoral, aliados de Lula também acusaram a presidente de traição ao responsabilizar a antiga diretoria da Petrobras, nomeada pelo antecessor, pelos desfalques bilionários nos cofres da companhia.

Como o “Volta, Lula” não decolava e a sucessão presidencial se anunciava acirrada, os petistas selaram um armistício até a eleição. Mas, com Dilma reeleita, retomaram a disputa fratricida. O motivo é simples: estrelas do PT serão punidas novamente — agora no petrolão. Resta saber quem pagará a conta. Com as prisões do mensalão ainda frescas na memória, ninguém está disposto a ir para o sacrifício.

A tensão decorrente das investigações e do julgamento do esquema de corrupção na Petrobras colocou em trincheiras opostas as duas mais importantes lideranças históricas do PT: Lula e seu ex-ministro José Dirceu.

Conta a Veja, através de fontes do partido, que tão logo os delatores do petrolão disseram que o ex¬-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque recolhia propina para o partido, Dirceu, o padrinho político de Duque, ligou para o Instituto Lula e pediu uma conversa com o ex-presidente.

O objetivo era se dizer à disposição para ajudar os companheiros a rebater as acusações e azeitar a estratégia de defesa. Conhecido por deixar soldados feridos pelo caminho, Lula não ligou de volta. Em vez disso, mandou Paulo Okamotto, seu fiel escudeiro, telefonar para Dirceu.

Assim foi feito. “Do que você está precisando, Zé?”, questionou Okamotto. Dirceu interpretou a pergunta como uma tentativa do interlocutor de mercadejar o seu silêncio. À mágoa com Lula, que o teria abandonado durante o ano em que passou na cadeia, Dirceu acrescentou pitadas de ira: “Você acha que vou ligar para pedir alguma coisa? Vocês me abandonaram há tempos”, respondeu. E fim de papo.

Diretor do Instituto Lula, Okamotto é frequentemente convocado pelo ex¬-presidente para cumprir missões espinhosas. Ele atuou, por exemplo, para impedir que as investigações sobre o mensalão chegassem ao chefe. Em depoimento ao Ministério Público Federal (MPF), o empresário Marcos Valério disse ter sido ameaçado de morte por Okamotto. O recado foi claro: ou Valério se mantinha em silêncio ou pagaria caro por enredar Lula na trama.

O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Valério, o operador do mensalão, a 37 anos e cinco meses de prisão. Logo depois de as primeiras penas serem anunciadas, Valério declarou ao MPF que Lula se beneficiara pessoalmente do esquema.

No mesmo processo, Dirceu foi condenado por corrupção a sete anos e onze meses de prisão. O petista já deixou a cadeia e, por decisão da Justiça, cumpre o resto da pena em regime domiciliar. Ao telefonar a Lula, ele quis deixar claro a necessidade de o governo e o PT organizarem uma sólida estratégia de defesa no petrolão. A preocupação tem razão de ser.

Delatores do petrolão disseram às autoridades que Renato Duque recolhia 3% dos contratos da diretoria de Serviços da Petrobras para o PT. No âmbito de um acordo de delação premiada, Pedro Barusco, que era o adjunto de Duque, disse que o ex-diretor recolheu propina em pelo menos sessenta contratos.

Barusco também implicou o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, na coleta de dinheiro roubado dos cofres da Petrobras. Outros delatores, como empreiteiros, afirmaram que a dinheirama surrupiada financiou campanhas petistas. Há provas fartas contra o partido. É certo que haverá punições. E é justamente isso que faz a briga interna arder em fogo alto.

Dilma mantém o discurso de que nada tem a ver com a roubalheira. Executivos nomeados por Lula e demitidos por sua sucessora, como o ex¬-presidente da Petrobras Sergio Gabrielli e o ex-diretor Nestor Cerveró, não aceitam ser responsabilizados. O mesmo vale para Dirceu, que não quer correr o risco de voltar à Papuda.

Se condenado e outra vez por envolvimento em corrupção, Dirceu não terá as mesmas prerrogativas de que foi merecedor após a condenação do Julgamento do Mensalão. Não sendo mais réu primário, a dosimetria da pena ficará mais severa, sem as atenuantes de que nunca havia sido condenado e com a agravante de ser reincidente específico - novamente envolvido num caso de corrupção.

Com uma pena maior nas costas, sem direitos aos benefícios do réu primário pode sim passar, de verdade, uma boa temporada na cadeia. Inclusive, teria as prerrogativas atuais canceladas e passar a cumprir a pena atual, de quase oito anos, em regime fechado.

Dirceu convive com outra má notícia: como não é mais parlamentar e delinquiu quando já estava na planície, sua condenação pode vir a ser aplicada pelo juiz paranaense, Sergio Moro, conhecido pela agilidade em julgar processo e em ter uma caneta pesada na hora de aplicar penas contra corruptos.

Velho, desprestigiado e sem grandes perspectivas, diante desse futuro nebuloso, com a cadeia a sua espera, José Dirceu estará diante de um “trilema”: ou aceita o seu destino de presidiário, ou foge para Cuba sem chances de voltar ao Brasil, ou faz um acordo de delação premiada e explode a republica petista de vez.

O Brasil sairá ganhando em qualquer uma das hipóteses.

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