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8 de set. de 2013

Transnordestina fora dos trilhos: uma promessa abandonada e inacabada

BRASIL - PAC do Desperdício
Transnordestina fora dos trilhos:
uma promessa abandonada e inacabada*
Em Pernambuco, obra do PAC está parada, e material vem sendo roubado; povo já não tem esperança de ver ferrovia. A repórter Leticia Lins e o fotógrafo Hans Von Manteuffel fizeram uma viagem de 1500 km e se defrontaram com paralisação das duas maiores obras do Nordeste, ambas tocadas com verbas do PAC. Não viram um só operário nos canteiros da Transnordestina, nem da Transposição

Foto: O Globo / Hans von Manteuffel

Em Custódia (PE), viaduto inacabado da Transnordestina Encontro da obra de transposição do Rio São Francisco com a ferrovia Transnordestina, no município de Custódia (PE): no lugar dos esperados trens e água, apenas caprinos

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Letícia Lins
Fonte: O Globo, O Globo – Fotos de Hans von Manteuffel

Não bastasse o atraso nas obras de transposição do Rio São Francisco, os sertanejos convivem também com a paralisação de outra empreitada, igualmente anunciada com pompa e circunstância pelo governo federal, dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): a ferrovia Transnordestina. Prevista para ter 1.728 quilômetros de extensão, ela já deveria estar interligando o sertão ao litoral.

— Eu penso que, mesmo que meus netos morram velhos, não verão nem transposição nem ferrovia — diz o produtor rural Luiz Carlos de Lira.

A equipe do GLOBO viajou mais de 1.500 quilômetros pelo sertão sem observar um só operário em ação nos dois empreendimentos que se cruzam em diversas localidades, como ocorre no povoado de Malhadinha, no município de Custódia, a 335 quilômetros de Recife. Ali, um viaduto da Transnordestina passa por cima de um canal do Eixo Norte da transposição, cujas paredes, na falta de água que as conservem, já ostentam remendos nas rachaduras no concreto provocadas pelo sol.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Canal de Transposição e viaduto da Transnordestina

Os canais não receberam uma só gota do Velho Chico. E o viaduto, com as cabeceiras desconectadas, é um esqueleto de concreto que liga o nada a lugar nenhum. Com cerca de 50 metros de extensão, ele não tem brita, dormentes nem trilhos.

Mais dez quilômetros de estrada barrenta no meio da caatinga, dessa vez no vilarejo de Cacimbinha, e as duas obras se cruzam novamente. É água que não chega e o trem que ninguém sabe quando vai passar: a ponte sobre o Rio Marrecas com escadas improvisadas e cabeceiras desconectadas virou antro de ladrões. Moradora do povoado, Maria Rita Virgínio Freire, de 60 anos, para o carro de mão em que leva milho para os bichos. E o faz para reclamar:

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Agricultora Maria Rita Virgínia, de 60 anos, denuncia: "Estão roubando o que sobrou e quem vem buscar os ferros leva também nossos cabritos"

— Não tem nada terminado de nada. É só cutucada em todo canto. Essas duas obras só trouxeram desassossego. Aqui a vida acabou.

Antes recolhida à tranquilidade do seu sítio, ela chega a desafiar os ladrões que costumam acorrer ao local para roubar brita, ferro, blocos de concreto, cercas e material abandonado pela empreiteira que era encarregada da obra e que abandonou os seus canteiros.

Ela afirma que às vezes acorda assustada, à noite, com o barulho dos ferros sendo jogados ponte abaixo, no leito seco do rio. De lá, são transportados em camionetes para o mercado negro.

— Tem uns que, para fingir que são empregados, vêm de roupa amarela (cor usada pelos operários que trabalharam na obra). Quando eu reclamo, eles dizem que podem roubar, que o material é do governo — conta.

Ela teme que as encostas abertas às margens da ferrovia desabem com as chuvas. Sem proteção que contenha a erosão, as marcas do fenômeno já são visíveis até para os leigos. E os desabamentos tanto podem ocorrer sobre os trilhos, quanto ao lado deles, onde há pedras imensas rolando.

Na última quinta-feira, o agricultor João Bosco Amorim, de 63 anos, residente no mesmo vilarejo, já tinha cavalgado mais de doze quilômetros em busca das cabras perdidas na caatinga.

— Perdi um “móio” de cabras. Umas cinquenta sumiram — afirma o agricultor, que teve sua propriedade dividida em três pedaços, dificultando o controle dos bichos no pasto.

Ele recebeu R$ 900 de indenização pela transposição e R$ 5 mil pelas terras perdidas para a ferrovia. Mas diz que o prejuízo foi muito maior, inclusive porque não pôde vender madeiras que caíram com o desmatamento da caatinga no sítio.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Entrada de Custódia, no sertão de Pernambuco: obras paradas de ferrovia

ACORDOS COM MORADORES NÃO CUMPRIDOS

Reclamações também tem o produtor Pedro Neumar Henrique de Souza, de 57 anos, um dos donos da Fazenda Samambainha, a 18 quilômetros do centro de Custódia. Ele foi procurado por um preposto da empreiteira, que lhe pediu para utilizar a água do açude de sua propriedade. Em troca, a empresa lhe cederia máquinas para aumentar a profundidade do reservatório.

Souza mostra documentos que comprovariam que, por seis meses, cem caminhões pipa diários de 20 mil litros cada foram utilizados para abastecer as obras. No entanto, quando a Transnordestina desandou, a obra prometida não foi realizada, e o açude secou, deixando 50 bovinos e 200 caprinos com sede. Agora, o fazendeiro briga na Justiça por indenização de R$ 6 mil por dia pela água que saiu de graça para a empreiteira, pelo acordo não cumprido (de ampliar o açude) e pelas 15 toneladas de peixe perdido.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Parada final de trilho. A partir deste ponto, intervalo de 80 km sem ferrovia

Problema semelhante teve Luiz Carlos de Lira, que também responde pela Diretoria de Obras da Prefeitura de Custódia. Apesar de habituado à burocracia do serviço público, deixou o costume sertanejo de fazer acordos verbais falar mais forte. Permitiu a retirada de água do Rio Malhadinha, que corta sua propriedade, em troca de melhoria e ampliação do açude para resistir à seca.

Foram 80 caminhões pipa de 20 mil litros por mais de mês. Quando viu o rio reduzido a um fio de água, impediu a retirada, e o contrato de boca acabou. Hoje, estuda forma de exigir os seus direitos na Justiça.

— Não foi só ele e eu não. Foi um monte de gente que cedeu água para a Transnordestina em troca de ampliação de seus açudes, mas a construtora Odebrecht não cumpriu o prometido — diz Leite.

Perto dali, José Carlos Pereira, de 26 anos, amarga o desemprego. Ele trabalhou na construção da ferrovia. Depois de desligado, foi para São Paulo, e depois foi parar em Alagoas, cortando cana. Sem tradição nos canaviais, não conseguiu seguir o ritmo dos colegas, que chegavam a cortar 15 toneladas diárias de cana, e foi demitido.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Ponte abandonada

NA ÁREA URBANA, DEPOIS DO BOOM, COMERCIANTES AMARGAM PREJUÍZOS

Não são só os homens da caatinga que reclamam dos efeitos da paralisação de obras como a transposição do Rio São Francisco e, agora, da Transnordestina. Na área urbana das cidades sertanejas, a reclamação é uma só: a queda no movimento da economia.

Em Custódia, em 2010, o mercado imobiliário teve um boom, o comércio floresceu e a indústria hoteleira foi ampliada. O movimento terminou por trazer de volta moradores que migraram em busca de oportunidade no Sul do país.

Entre 2010 e 2011, mais de 5.500 operários, engenheiros e operadores de máquinas, entre outros, circulavam pelas ruas do município de 34 mil habitantes. Surgiram novos loteamentos, os aluguéis ficaram dez vezes mais caros e a construção civil explodiu.

Hoje, no entanto, já são 300 as casas vazias na cidade. Quem vendia 200 terrenos por ano, viu o movimento reduzido à metade, como o empresário José Samuel Marinho, dono do loteamento São José.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Cruzamento da Transposição do Rio São Francisco com a Transnordestina: nem trens nem água, apenas caprinos

Proprietário de 80 casas, Rolnei Pinto Barbalho também amarga prejuízo. Tem hoje 25 casas fechadas. Marinho é também dono do principal supermercado da cidade. Em 2010, ele contratou empregados, aumentou o número de caixas e chegou a vender 31 mil quilos de frango. Este ano, no entanto, no primeiro semestre, vendeu pouco mais de nove mil quilos. O comércio também tem sofrido: entre 2010 e 2013, o movimento caiu 40%, segundo o Clube de Diretores Lojistas.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Área por onde deveria passar os trilhos da ferrovia

Em Salgueiro, a 518 quilômetros de Recife, o empresário Francisco Ailton de Sá, à frente do Hotel Imperador, um dos mais tradicionais da cidade, comprou mais um hotel e ainda construiu uma pousada.

— Era 100% de acomodação e ainda rejeitava hóspede. A transposição sempre foi meio devagar, mas a Transnordestina nos trouxe muitos lucros — lembra. É uma pena toda essa gastança de dinheiro. Agora, a gente vê tudo parado.

Foto: Hans Von Manteuffel / O Globo

Trem usado para auxiliar a construção da ferrovia está parado

A paralisação da Transnordestina preocupa o governo de Pernambuco, que tem a interiorização do desenvolvimento como uma das prioridades.

— A gente foi surpreendido. A ferrovia é uma obra estruturadora e o estado tem investido fortemente em função dela. Ainda não sabemos quem vai retomar (a obra), pois é um trabalho de grande envergadura — afirma Márcio Stefanini, secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco: — Estamos muito preocupados com o nível de emprego na região. O governo de Pernambuco pede que acelerem a construção.


* "Fora dos trilhos: Transnordestina, promessa ainda inacabada"
- é o título original desta reportagem

27 de mar. de 2011

OPINIÃO: Jirau foi só o começo - Carlos Tautz

OPINIÃO
Jirau foi só o começo
Sem licença do IBAMA, sem respeitar as populações indígenas, nem examinar as possibilidades de pacto ambiental, algumas obras do PAC, as mais grandiosas, sofrem reveses previstos por ambientalistas. Um misto de corrupção governamental e sindical e ganância das empreiteiras, transformaram os canteiros de obras em áreas de tensões explosivas.

Foto: Arquivo

VISTA AÉREA DA HIDRELETRICA DE JIRAU: - Más condições de trabalho e alojamento, diferença de tratamento entre os trabalhadores, parte dos quais não tem direito a benefícios oferecidos aos demais, e salários insuficientes, entre outros problemas, alimentaram a intranquilidade nos canteiros das grandes obras brasileiras.

Carlos Tautz
Fonte: Blog do Noblat

De uma hora para outra, o Brasil descobre que a construção da hidrelétrica Jirau, a maior obra em andamento do PAC, juntava 20 mil trabalhadores em uma espécie de campo de concentração perto de Porto Velho (RO). Sem condições adequadas de alojamento e ganhando salários de miséria, eles tocam fogo nos seus abrigos e só a intervenção da Força Nacional de Segurança, como sempre polícia para reprimir quem trabalha, suspendeu os protestos. Mais preocupado em começar logo a gerar energia para faturar, o consórcio que ganhou a concessão para construir a usina tratava de acelerar a obra. A qualquer preço.

Na mesma semana, descobre-se que outros projetos do PAC também enfrentam problemas de descumprimento da legislação trabalhista. É o caso das obras dos complexos portuários de Suape (PE) e Pecém (CE), além da usina São Domingos (MT). No Brasil, seriam pelo menos 82 mil trabalhadores em greve contra projetos privilegiados pelo dinheiro fácil e barato do BNDES. Uma equipe do banco visitou Jirau 20 dias antes dos conflitos, mas conseguiu não ver qualquer irregularidade.

Imediatamente, sindicalistas oficiais, os mesmos que há três anos defendiam Jirau e que há 15 dias foram entronizados em polpudos conselhos de estatais pela Presidenta da República, correm para amortecer a situação e propõem a criação de “conselhos de fábrica” (sic), aquela forma tradicional de se cooptarem mais sindicalistas oficiais. Outro sindicalista, que também é deputado federal, reconhece que as centrais não sabem lidar com... massas de trabalhadores!

Apesar de surpreendente, a situação de Jirau e das demais obras era esperável. No caso da usina rondoniense, o próprio IBAMA recusava-se a emitir licenças devido à fragilidade dos estudos de impacto social e ambiental. Lula demitiu diretores do órgão para conseguir os documentos e agora se vê exatamente o que os técnicos previam e que o ex-presidente negava: dispararam os índices de violência em Rondônia devido à chegada de milhares de pessoas oriundas de outras regiões, sem que tenham sido criadas as mínimas condições de moradia, acesso a serviços de saúde, saneamento etc. Além, é claro, do pagamento de salários de fome, porque o consórcio tem pressa para concluir Jirau.

Como se isso não bastasse, a área em que Jirau está sendo erguida é contígua à pelo menos quatro terras de indígenas que sequer foram contatados. Não se sabe de qualquer ação da FUNAI para atenuar os impactos da proximidade dessa massa de gente com os indígenas. Entretanto, ao que tudo indica, Jirau foi apenas o começo e o pior ainda está por vir.

Outra central sindical oficial, daquelas que não sabem lidar com trabalhadores, estima que no auge das construções para a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016 cerca de um milhão de operários estejam envolvidos em obras que têm tudo para repetir o grau de açodamento e irresponsabilidade do governo e das empreiteiras.

O esquema, já se sabe, será o mesmo: muito dinheiro público subsidiando a festa das construtoras e regras de concessão amolecidas - como já se diz que fará a Autoridade Olímpica, a ser presidida pelo esportivo ex-presidente do BC Henrique Meirelles. E o melhor (para os empreiteiros, lógico): prazos como sempre estourados, porque assim é que se constroem obras três, quatro vezes mais caras do que o previsto e com pouca ou nenhuma transparência.


Carlos Tautz é jornalista
*Acrescentamos subtitulo, foto e legenda ao texto original