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18 de fev. de 2015

O escândalo das conversas impróprias do ministro da Justiça prometendo implodir Operação Lava Jato

BRASIL – Petrolão
O escândalo das conversas impróprias do ministro da Justiça prometendo implodir Operação Lava Jato
Em encontro com advogados, das empreiteiras que ameaçavam trazer Lula e Dilma para a cena do crime, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, cotado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, tranquilizou a todos prometendo que investigações da Lava-Jato sofrerão uma reviravolta logo depois do Carnaval.

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

MAU CHEIRO - José Eduardo Cardozo diz que se encontrou casualmente com o advogado Sérgio Renalt, que tem contrato com a UTC e trabalhou com Thomaz Bastos no governo Lula. As empreiteiras, porém, gostaram do resultado da reunião

Postado por Toinho de Passira

Fonte: Veja

Desde a morte do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos no ano passado, o PT perdeu seu grande estrategista em momentos de crise. Chamado carinhosamente de “God” (Deus, em inglês) pelos amigos, o onipresente MTB foi convocado para coordenar a defesa das empreiteiras tão logo deflagrada a Operação Lava-Jato. Ele tinha uma meta clara: livrar seus clientes de penas pesadas na Justiça e, de quebra, o governo petista da acusação de patrocinar um novo esquema de corrupção para remunerar sua base aliada no Congresso.

Negociador nato, Thomaz Bastos se dedicava a convencer o Ministério Público Federal de que a roubalheira na Petrobras não passava de um cartel entre empresas -- e que, como tal, deveria ser punido e superado com o pagamento de uma multa bilionária. Nada além disso. A morte tirou o criminalista cerebral da mesa de negociação. MTB deixou um vácuo.

O governo perdeu sua ponte preferencial com as empreiteiras, o diálogo entre as partes foi interrompido, e as ameaças passaram a dominar as conversas reservadas. Foi nesse clima de ebulição que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, assumiu o papel de bombeiro.

Ex-deputado pelo PT e candidato há anos a uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cardozo se lançou numa ofensiva para acalmar as construtoras acusadas de envolvimento no petrolão, que, conforme VEJA revelou, ameaçam implicar a presidente Dilma Rousseff e o antecessor Lula no caso se não forem socorridas.

Há duas semanas, o ministro recebeu em seu gabinete, em Brasília, o advogado Sérgio Renault, defensor da UTC, que estava acompanhado do ex-deputado petista Sigmaringa Seixas.

O relato da conversa percorreu os gabinetes de Brasília e os escritórios de advocacia como um sopro de esperança para políticos e empresários acusados de se beneficiar do dinheiro desviado da Petrobras.

Não sem razão. Na reunião, que não constou da agenda oficial, Cardozo disse a Renault que a Operação Lava-Jato mudaria de rumo radicalmente, aliviando as agruras dos suspeitos de crimes como corrupção e lavagem de dinheiro.

O ministro afirmou ainda que as investigações do caso envolveriam nomes de oposicionistas, o que, segundo a tradição da política nacional, facilitaria a costura de um acordo para que todos se safem.

Depois disso, Cardozo fez algumas considerações sobre os próximos passos e, concluindo, desaconselhou a UTC a fechar um acordo de delação premiada. Era tudo o que os outros convivas queriam ouvir.

Para defender a UTC, segundo documentos apreendidos pela polícia, o escritório de Renault receberá 2 milhões de reais. Além disso, se conseguir anular as provas e as delações premiadas que complicam a vida de seu cliente, amealharia mais 1,5 milhão de reais.

Renault esgrime a tese de que a Lava-jato está apinhada de irregularidades, como a coação de investigados. No encontro, Cardozo disse o mesmo ao advogado, ecoando uma análise jurídica repetida como mantra pelos líderes petistas.

Depois da reunião no ministério, representantes de UTC e Camargo Corrêa recuaram nas conversas com o Ministério Público para um acordo de delação premiada. A OAS manteve-se distante da mesa de negociação.

“Na quarta-feira (um dia depois do encontro em Brasília), fomos orientados a suspender as conversas com os procuradores”, confidencia um dos advogados do caso. Cardozo não operou esse milagre sozinho.

“Chegou o recado de que o Lula entrará para valer no caso e assumirá a linha de frente. Isso aumentou a esperança de que o governo não deixe as empresas na mão”, diz outro advogado de uma empreiteira.

Procurados por VEJA, Cardozo, Renault e Sigmaringa tropeçaram nas próprias contradições ao tentar esclarecer a reunião no Ministério da Justiça, classificada por eles como um mero bate-papo entre amigos sobre assuntos banais.

Cardozo disse inicialmente que não se reuniu com Renault. Depois, admitiu o encontro. A primeira reação de Sigmaringa também foi negar a audiência com Renault no gabinete do ministro, para, em seguida, recuar.

Os amigos compartilham, como se vê, do mesmo problema de memória. Na versão de Cardozo, a reunião teria sido obra do acaso. Sigmaringa, um “amigo de longa data”, teria ido visitá-lo.

Renault, que estava em Brasília e tinha um almoço marcado com o ex-deputado, decidiu se encontrar com Sigmaringa também no ministério. Pimba!

Por uma conjunção cósmica, o advogado da UTC, empresa investigada pela Polícia Federal, acabou no gabinete de José Eduardo Cardozo.

31 de jan. de 2015

Executivos de empreiteiras, presos na operação lava-jato, sugerem que delação premiada alcançará Lula e Dilma

BRASIL – Petrolão
Executivos de empreiteiras, presos na operação lava-jato, sugerem que delação premiada alcançará Lula e Dilma
Na Veja desta semana, jornalista contam que com os processos da Operação Lava-Jato a caminho das sentenças, as empreiteiras, através dos seus executivos encarcerados, articulam-se para exibir, via delação premiada, provas de que Lula e Dilma estavam entres os beneficiários do petrolão

Foto: AFP/VEJA

SEM SAÍDA – Presos desde novembro do ano passado, os empreiteiros do 'petrolão' negociam acordos de delação premiada com a justiça.

Postado por Toinho de Passira
Reportagem: Rodrigo Rangel, Robson Bonin, Bela Megaele, Daniel Pereira e Hugo Marques
Fonte: Veja

Há quinze dias, os quatro executivos da construtora OAS, presos durante a Operação Lava-Jato, tiveram uma conversa capital na carceragem da polícia em Curitiba. Sentados frente a frente, numa sala destinada a reuniões reservadas com advogados, o presidente da OAS, Léo Pinheiro, e os executivos Mateus Coutinho, Agenor Medeiros e José Ricardo Breghirolli discutiam o futuro com raro desapego.

Os pedidos de liberdade rejeitados pela Justiça, as fracassadas tentativas de desqualificar as investigações, o Natal, o réveillon e a perspectiva real de passar o resto da vida no cárcere levaram-nos a um diagnóstico fatalista.

Réus por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa, era chegada a hora de jogar a última cartada, e, segundo eles, isso significa trazer para a cena do crime, com nomes e sobrenomes, o topo da cadeia de comando do petrolão. Com 66 anos de idade, Agenor Medeiros, diretor internacional da empresa, era o mais exaltado:

“Se tiver de morrer aqui dentro, não morro sozinho”.

A estratégia dos executivos da OAS, discutida também pelas demais empresas envolvidas no escândalo da Petrobras, é considerada a última tentativa de salvação. E por uma razão elementar: as empreiteiras podem identificar e apresentar provas contra os verdadeiros comandantes do esquema, os grandes beneficiados, os mentores da engrenagem que funcionava com o objetivo de desviar dinheiro da Petrobras para os bolsos de políticos aliados do governo e campanhas eleitorais dos candidatos ligados ao governo.

É um poderoso trunfo que, em um eventual acordo de delação com a Justiça, pode poupar muitos anos de cadeia aos envolvidos.

Foto: Dida Sampaio/Estadão

“Vocês acham que eu ia atrás desses caras (os políticos) para oferecer grana a eles?”, disparou, ressentido, o presidente da OAS, Léo Pinheiro. Amigo pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos tempos de bonança. Ele descobriu na cadeia que as amizades nascidas do poder valem pouco atrás das grades.

Na conversa com os colegas presos e os advogados da empreiteira, ele reclamou, em particular, da indiferença de Lula, de quem esperava um esforço maior para neutralizar os riscos da condenação e salvar os contratos de sua empresa. Léo Pinheiro reclama que Lula lhe virou as costas. E foi dessa mágoa que surgiu a primeira decisão concreta do grupo: se houver acordo com a Justiça, o delator será Ricardo Breghirolli, encarregado de fazer os pagamentos de propina a partidos e políticos corruptos.

As empreiteiras sabem que novas delações só serão admitidas se revelarem fatos novos ou o envolvimento de personagens importantes que ainda se mantêm longe das investigações. Por isso, o alvo é o topo da cadeia de comando, em que, segundo afirmam reservadamente e insinuam abertamente, se encontram o ex-presidente Lula e Dilma Rousseff.

26 de jan. de 2015

Dossiê Venina, a mulher que foi punida, por denunciar o petrolão, conta o que sabe

BRASIL – Petrolão
Dossiê Venina, a mulher que foi punida, por
denunciar o petrolão, conta o que sabe
A ex-gerente relata que operador usava a área de Comunicação da Petrobras para captar dinheiro para as campanhas eleitorais do PT na Bahia. Faziam pagamentos vultosos, com dinheiro da estatal, sem contratos formais. Descoberto o esquema a fonte secou, não sem antes, haver uma história de chantagem e o envolvimento do presidente Lula, ordenando o pagamento da extorsão para evitar que o caso viesse à tona.


Ao descobrir e interromper ainda em 2009 uma série de pagamentos irregulares da diretoria, Venina, sem saber, emperrou uma das engrenagens do bilionário esquema de corrupção

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Robson Bonin e Hugo Marques
Fonte: Veja

Em meados de novembro do ano passado, a ex-gerente da Petrobras Venina Velosa da Fonseca estava mergulhada em um drama pessoal. Depois de servir a Petrobras por mais de duas décadas, sem nenhuma mácula no currículo, ela aguardava o desfecho de uma sindicância que ameaçava responsabilizá-la por graves irregularidades na estatal.

Venina se sentia perseguida, temia ser punida por desmandos que ela mesma tentara denunciar. Entre sentimentos de angústia e revolta, pegou o telefone e discou para o diretor de Abastecimento da Petrobras, José Carlos Cosenza.

Na conversa, fez um desabafo. "Você me conhece há muito tempo, você sabe o que eu passei naquela comissão de Comunicação, que hoje tem aí a Muranno associada com o Lula. Tá lá no meio daquele pacote. Eu me recusei a pagar, o pagamento foi feito por fora", disse a ex-gerente.

Cosenza e Venina foram colegas de trabalho no período em que o engenheiro Paulo Roberto Costa, preso por operar o petrolão na estatal, ditava as regras na diretoria. Hoje decodificada, a frase da ex-gerente ao diretor não poderia ser mais cristalina.

Ao descobrir e interromper ainda em 2009 uma série de pagamentos irregulares da diretoria, Venina, sem saber, emperrou uma das engrenagens do bilionário esquema de corrupção que viria a ser desmontado pela Polícia Federal cinco anos depois. Ao tentar denunciar a bandalheira internamente, ela se colocou no caminho dos corruptos e de poderosos interesses políticos.

Os mesmos interesses que, no momento do desabafo, agiam para provocar sua demissão da estatal. Era o que Venina tentava dizer ao colega no telefonema. Cosenza, no entanto, ouviu os apelos num obsequioso silêncio.

Braço-direito de Paulo Roberto na diretoria de Abastecimento durante anos, a ex-gerente da Petrobras deixou o anonimato pouco depois da conversa telefônica com Cosenza, quando decidiu contar às autoridades tudo o que sabia sobre a corrupção na Petrobras.

POR FORA – Geovane de Morais, ex-gerente da Petrobras, disse que pagamentos irregulares teriam sido feitos por determinação do presidente Lula. (foto: Facebook)

A partir de 2009, após perceber que suas denúncias eram estranhamente ignoradas — e até mesmo criticadas — por integrantes da cúpula da Petrobras, como o então presidente da estatal. Sergio Gabrielli. E a atual presidente. Graça Foster, Venina passou a reunir mensagens de e-mail, memorandos sigilosos, gravações telefônicas e registros de conversas privadas que manteve com personagens de proa do petrolão.

VEJA teve acesso a um memorial de oito páginas que podem deixar outras figuras importantes do PT em maus lençóis.

No documento, ela narra em detalhes a história do sindicalista Geovane de Morais na Petrobras. Redigido pelo advogado de Venina a partir do relato da ex-gerente e de outros servidores da companhia, o texto mostra que Geovane, um aliado fiel de petistas como Gabrielli e o atual ministro da Defesa, Jaques Wagner, chegou à Petrobras como operador financeiro do PT da Bahia.

Na gerência de Comunicação, ele tinha a missão de desviar recursos para alimentar o caixa eleitoral do petismo baiano. Geovane simulava a contratação de serviços junto a empresas ligadas aos petistas. Para não deixarem rastros, os negócios eram acertados e pagos sem nenhum contrato formal. Para atuar com tamanha liberdade, o operador contaria com a proteção de petistas influentes como Gabrielli e do próprio Palácio do Planalto.

Segundo Venina, todos os gastos de comunicação da Petrobras tinham de ser aprovados pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República antes de executados. Geovane de Morais, no entanto, atuava com extrema autoridade. Em 2008, ele acertou um negócio milionário com a Muranno Brasil. Sem nenhum registro legal, a empresa receberia 13 milhões de dólares da Petrobras para divulgar a marca estatal em provas da Fórmula Indy. Foi ao descobrir tramóias como essa que Venina, sem saber, trilhou seu destino na companhia.

VEJA revelou que o doleiro Alberto Youssef contou em sua delação premiada ter sido procurado por Paulo Roberto Costa em 2010 para desarmar uma bomba. Segundo o doleiro, depois de pagar propina ao esquema, a Muranno teve os pagamentos suspensos. Sentindo-se enganado, o dono da empresa, o empresário Ricardo Marcelo Villani, ameaçava denunciar o esquema de corrupção. O caso, segundo o doleiro, chegou ao Palácio do Planalto.

A ordem para comprar o silêncio do empresário teria sido dada pelo próprio Lula a Gabrielli, que repassou a missão a Paulo Roberto, que acionou Youssef, que foi buscar o dinheiro nas empreiteiras envolvidas no escândalo.

O trabalho de Venina, portanto, poderia implodir o petrolão.

Em depoimento à Polícia Federal, Villani admitiu que tratou dos pagamentos cancelados com Paulo Roberto e que, depois dessa conversa, Youssef lhe transferiu quase 2 milhões de reais. O dinheiro foi pago por meio da Sanko Sider, uma das empresas do petrolão, exatamente como narrou o doleiro em sua delação premiada.

Villani, no entanto, nega a chantagem.

Foto: Reprodução

DUPLA - Gabrielle e Lula, inseparáveis

Procurado por VEJA, Sergio Gabrielli reagiu com irritação ao ouvir o nome de Geovane. "O processo foi iniciado por mim e ele foi demitido", esbravejou.

Mas a história contada por Venina não é exatamente essa. Após a ex-gerente cobrar a investigação do operador petista, Gabrielli ordenou que a sindicância contra Geovane fosse realizada diretamente na presidência da Petrobras, sob os cuidados de alguém de sua confiança, e passou a tentar proteger o operador.

Ela afirma que funcionários da estatal foram pressionados a assinar um parecer isentando Geovane de irregularidades. No decorrer das investigações, Geovane de Morais, que foi demitido, prestou um depoimento sobre o caso. Nas mais de quatro horas de interrogatório, ele citou nominalmente Lula, Paulo Roberto e o próprio Gabrielli.

Segundo o operador, por ordem de Lula e por pressão dos bicheiros cariocas, a Petrobras distribuiu milhões de reais a escolas de samba do Rio de Janeiro de maneira irregular. Os trechos que comprometiam o presidente da República foram suprimidos do depoimento, segundo relatou o jornal Valor Econômico.

Nos documentos de Venina, estão listadas empresas que, assim como a Muranno, foram "contratadas" sem contrato algum. Duas delas prestaram serviços à campanha eleitoral de Jaques Wagner ao governo da Bahia.

Através de sua assessoria, o ministro da Defesa informou que defende a ampla apuração dos fatos.

"Não sei de esquema nenhum"

"Não sei de esquema nenhum"

O caso da agência Muranno é emblemático. Ela foi "contratada" sem nenhum registro formal para divulgara marca da estatal nas corridas de Fórmula Indy. A irregularidade foi descoberta e os repasses, suspensos. Depois disso, o dono da empresa, , ameaçou denunciar o que seria um grande esquema de corrupção, segundo o doleiro Alberto Youssef. Em troca do silêncio, Villani recebeu do doleiro quase 2 milhões de reais. A suspeita agora é que as empresas tenham sido usadas para facilitar desvios de dinheiro da estatal para campanhas políticas e viabilizar o pagamento de propina.

Como foi que o senhor passou a prestar serviços à Petrobras?

O Sillas (o ex-gerente de Comércio de Álcool e Oxigenados da Petrobras Sillas Oliva Filho) me convidou. Eu o conheci numa competição de automobilismo. Ele me apresentou ao Geovane, e começamos a tocar esse projeto de marketing de relacionamento na Fórmula Indy. Eu locava espaços, fazia os hospitality centers nas corridas, levava pessoas que pudessem ser de interesse da Petrobras.

Por que não havia contrato?

Quem sou eu para dizer: "Ô Petrobras, sem assinar contrato não faço". Fazer um negócio sem contrato foi um erro. Descobri isso apenas quando suspenderam os pagamentos. Eu prestava o serviço e recebia o dinheiro diretamente na minha conta. Nunca emiti nenhuma duplicata. Levei um calote de 3,5 milhões.

E o que o senhor fez?

Foi a única vez que eu pedi por favor para o Paulo Roberto (Costa, ex-diretor de Abastecimento). Fui à sala dele e falei: "Cara, estou quebrando, me ajuda". Ele disse: "Ah, isso eu posso resolver". Passado um tempo, esse Youssef me procurou. Como foi esse encontro? Ele se apresentou como assessor do Paulo Roberto Costa, num café, em São Paulo. Não sabia que era doleiro, achei que era funcionário da Petrobras. Dias depois, depositaram na minha conta algo em torno de 2 milhões, 1,8 milhão de reais.

0 senhor ameaçou delatar o esquema?

Esquema? Não sei de esquema nenhum. Eu perdi dinheiro com a Petrobras. Então não tem o menor fundamento o que o Youssef falou. Como é que eu pressionaria o presidente Lula? O cara "viajou".

O senhor dividia ou repartia esse dinheiro com alguém?

Uma vez, lá na Petrobras, um rapaz, que nem conheço, disse: "Oi, Ricardo, você está fazendo o projeto da Indy, vamos conversar, talvez você possa dar uma ajuda ao partido".

Era funcionário da Petrobras?

Não sei te dizer.

O senhor declara ser dono de duas empresas.

Sim. A Muranno é de comunicação. A outra, a Foster, é de marketing. O nome foi uma homenagem ao meu cachorro.

17 de jan. de 2015

Petrobras, a corrupção continua - Merval Pereira

BRASIL – Opinião
Petrobras, a corrupção continua
Não importa o argumento do Ministro das Minas e Energia Eduardo Braga de que não há nenhuma acusação contra a atual presidente da Petrobras ou diretores, pois a responsabilidade dos dirigentes da Petrobras é muito clara, e se eles são incapazes de controlar os desvios já denunciados e comprovados, não podem continuar onde estão.

Charge: Paixão - 'Gazeta do Povo' (CE)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

A denúncia dos Procuradores da Operação Lava Jato sobre indícios de que a corrupção não foi estancada na Petrobras, mesmo depois de todas as prisões realizadas e de todas as investigações que estão sendo feitas, é a mais grave que poderia surgir a esta altura dos acontecimentos, e justificaria a demissão sumária de toda a diretoria atual da estatal, a começar pela presidente Graça Foster.

Não importa o argumento do Ministro das Minas e Energia Eduardo Braga de que não há nenhuma acusação contra a atual presidente da Petrobras ou diretores, pois a responsabilidade dos dirigentes da Petrobras é muito clara, e se eles são incapazes de controlar os desvios já denunciados e comprovados, não podem continuar onde estão.

Outra coisa é a bobagem dita pelo advogado de Nestor Cerveró, que quis comparar a situação de seu cliente com a do presidente Graça Foster, que também transferiu seus bens para familiares. A prisão preventiva é uma medida cautelar necessária para conter o arroubo do Cerveró em se livrar dos bens. Mas Graça Foster não está sequer sendo investigada, portanto, não há nenhum impedimento legal para que ela aliene os seus bens, o que não impede o Ministério Público, havendo indícios de improbidade administrativa, de pedir ao Judiciário a anulação das alienações, notadamente as doações.

O termo “estancado” usado pelos Procuradores parece ser uma resposta direta à presidente Dilma que em setembro do ano passado, depois de definir como “estarrecedor” esquema criminoso da Petrobrás, saiu-se com essa: “Se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas, vamos dizer assim, as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas”. Foi a primeira vez em que ela admitiu que poderia ter havido “sangrias” na Petrobras. E arrematou a declaração com uma confissão surpreendente para quem, há 12 anos atua na área, tendo sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras: “Eu não tinha a menor idéia de que isso ocorria dentro da empresa”.

Em artigo em um site especializado em Direito, o Migalhas, Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa, professor de Direito Comercial da Faculdade de Direito da USP, analisa a responsabilidade do controlador de uma empresa estatal como a Petrobras, de economia mista. Ele cita o artigo 117 da Lei das Sociedades Anônimas, que define que ele responde pelos danos causados por atos praticados com abuso de poder, dos quais o dispositivo no seu parágrafo 1º dá alguns exemplos, entre tantas situações que podem ocorrer:

a) orientar a companhia para fim estranho ao objeto social ou lesivo ao interesse nacional, ou levá-la a favorecer outra sociedade, brasileira ou estrangeira, em prejuízo da participação dos acionistas minoritários nos lucros ou no acervo da companhia, ou da economia nacional. Ele enquadra nesse item o porto em Cuba e a compra da refinaria de Pasadena.

e) induzir, ou tentar induzir, administrador ou fiscal a praticar ato ilegal, ou, descumprindo seus deveres definidos nesta Lei e no estatuto, promover, contra o interesse da companhia, sua ratificação pela assembleia-geral.

Os dirigentes das empresas e os membros de seu Conselho de Administração têm também o dever de diligência, ressalta o professor, pelo qual o administrador da companhia deve empregar, no exercício de suas funções, o cuidado e diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração dos seus próprios negócios.

A própria palavra diligência, diz ele, mostra que o papel do administrador é ativo e não passivo. “Ele não pode ficar sentado atrás da sua mesa esperando tomar conhecimento do que acontece na sociedade que gere e exercer a sua função na medida em que cheguem papéis para a sua assinatura. Principalmente no que diz respeito ao conselheiro de administração essa diligência envolve estar sempre atento e não somente isto, ele deve sair atrás de informações e não apenas aguardar que elas cheguem. Para tanto ele tem todos os poderes necessários”.

Para deixar clara a responsabilidade dos dirigentes e conselheiros de uma empresa de economia mista, Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa pergunta aos diretores e conselheiros: “Cadê os relatórios críticos e sua discordância expressa em relação ao grande baile da Ilha Fiscal? (...) onde estão os seus votos divergentes, seus pareceres contrários, sua inconformidade, afinal de contas?
*Alteramos o título, acrescentamos subtítulo e charge à publicação original

14 de jan. de 2015

Polícia Federal prende, Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional da Petrobras, no aeroporto Tom Jobim

BRASIL – Petrolão
Polícia Federal prende, Nestor Cerveró, ex-diretor da área Internacional da Petrobras, no aeroporto Tom Jobim
O bandido regressava de Londres, na primeira classe, onde recebeu a desagradável visita de agentes da PF, que sem muita reverência deram-lhe voz de prisão. Severó, denunciado pelo Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro e corrupção ativa, foi flagrado tentando transferir bens conseguidos no trambique, para filhos e parentes

Foto: Jorge William / Agência O Globo

O ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró durante seu depoimento, no Congresso, em Brasília, sobre a polêmica compra da refinaria de Pasadena

Postado por Toinho de Passira
Fonte: O Globo

O ex-diretor da área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró foi preso pela Polícia Federal, pouco depois da 0h30m desta quarta-feira, no Aeroporto Internacional Tom Jobim, vindo de Londres. Após ser retirado de dentro de uma aeronave que vinha de Londres para o Rio, ele foi encaminhado para uma sala da Polícia Federal no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Rio, de onde foi encaminhado para a delegacia da PF de Curitiba, onde estão presos os outros investigados na Operação Lava Jato.

No aeroporto, passageiros que estavam na mesma aeronave que Ceveró relataram que o ex-diretor da Petrobras estava na primeira classe e foi detido antes de desembarcar. Em nota divulgada nesta madrugada, o Ministério Público Federal (MPF) informou que foi cumprido um mandado de prisão preventiva, já que "há indícios de que o ex-diretor continua a praticar crimes e se ocultará da Justiça"

A nota do MPF relata que nesta terça-feira foram cumpridos mandados de busca e apreensão na casa de Cerveró e de parentes, "em função de seu envolvimento em novos fatos ilícitos relacionados os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro que foram denunciados recentemente, como a ocultação do produto e proveito do crime no exterior, e pela transferência de bens (valores e imóveis) para familiares". Além disso, diz o MPF, há evidências de que ele tentará frustrar o cumprimento de penalidades futuras.

O Ministério Público Federal assegura ter obtido informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) de que logo após o recebimento da denúncia e durante o recesso do Judiciário, que o ex-diretor tentou transferir para sua filha meio milhão de reais - mesmo considerando que com tal operação haveria uma perda de mais de 20% da aplicação financeira. Cerveró também transferiu recentemente, conforme noticiou o GLOBO, três apartamentos adquiridos com recursos de origem duvidosa, em valores nitidamente subfaturados: há evidências de que os imóveis possuem valor de mais de R$ 7 milhões, sendo que a operação foi declarada por apenas R$ 560 mil.

O MPF encerra a nota justificando que "a custódia cautelar é necessária, também, para resguardar as ordens pública e econômica, diante da dimensão dos crimes e de sua continuidade até o presente momento, o que tem amparo em circunstâncias e provas concretas do caso".

O advogado de defesa de Nestor Cerveró, Edson Ribeiro, disse em entrevista à GloboNews 'estranhar' a decisão da Justiça de prender seu cliente, já que, segundo ele, Cerveró havia combinado com o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro que prestaria depoimento na quinta-feira e seria citado na sexta-feira. De acordo com o advogado, Cerveró havia informado ao MPF-RJ e à Justiça Federal que faria uma viagem para Londres. Irritado, declarou que a prisão foi um ato desnecessário e que entrará com um pedido de Habeas Corpus exigindo a soltura imediata do trambiqueiro.

Nestor Cerveró se tornou réu no processo da Operação Lava Jato em dezembro, quando foi denunciado pelo Ministério Público Federal do Paraná (MPF) por lavagem de dinheiro e corrupção ativa. Além dele, foram denunciados Fernando Antonio Falcão Soares, conhecido por Fernando Baiano, o doleiro Alberto Youssef e o empresário Julio Gerin de Almeida Carmargo, da Setal Engenharia.

Cerveró é suspeito de participar de um grande esquema de corrupção na Petrobras, desviando recursos de contratos da área Internacional para abastecer políticos do PMDB, que o indicaram para o cargo. O operador do esquema na área seria Fernando Baiano e o doleiro Youssef, que lavavam até 3% de todos os contratos do setor, repassando o dinheiro para campanhas políticas do PMDB.

Segundo o Ministério Público Federal, Cerveró recebeu R$ 40 milhões de propina, em dois contratos para construção de navios sonda, usados em perfurações em águas profundas. O pagamento foi relatado pelo executivo Julio Camargo, da Toyo Setal, que fez acordo de colaboração com a Justiça.

O ex-diretor da abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também citou Cerveró, no acordo de delação premiada. Em depoimento à Justiça Federal do Paraná, em outubro, Paulo Roberto disse que Cerveró recebeu propina na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

Segundo o Tribunal de Contas da União, o negócio gerou prejuízos de US$ 792 milhões. Durante uma acareação com o ex-diretor de abastecimento, na CPI mista, em dezembro, Cerveró negou as acusações.

Diante dessa prisão o pessoal do Palácio do Planalto, Dilma e Lula, estão em alerta máximo. "Torando aço", como diria o pessoal da Besta Fubana. Ainda respirando o ar da liberdade, o ex-diretor, tem segurado a onda, e não entregou ninguém até agora, engolindo inclusive o comentário de Dilma Rousseff, de que, como presidente do conselho da Petrobras, votara a favor da superfaturada compra da refinaria de Passadena, devido um relatório incompleto feito por ele.

Vendo o sol nascer quadrado e sem chance de se livrar da cana, Cerveró pode optar pela delação premiada. Se o ex-diretor, arquivo vivo de toda ladroagem do petrolão, abrir a boca, vai ser o dia do juízo final, para a Lula, Dilma e sua turma.

Vai ser lindo!

21 de dez. de 2014

O drama da Petrobras e de Dilma Rouseff e Graça Foster

BRASIL – Operação Lava Jato
O drama da Petrobras de Dilma Rouseff e Graça Foster
“Se a culpa é minha, boto em quem eu quiser.” O governo usa a máxima de Homer Simpson para lidar com a crise na Petrobras. A Petrobras perdeu R$ 600 bilhões em valor de mercado nos últimos seis anos.

Foto: Diego Nigro/JC Imagem

AMIGAS - Graça Foster com Dilma Rousseff. A presidente encontra dificuldades para demitir uma auxiliar de confiança

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Murilo Ramos com Flávia Tavares e Filipe Coutinho
Fonte: Época

O que vale mais: uma sandália de borracha ou uma ação da Petrobras? Um CD no camelô ou uma ação da Petrobras? Um McLanche Feliz (um cheeseburger, um refrigerante pequeno, uma batata frita pequena e um brinquedo), com sobremesa – ou duas ações da Petrobras?

A resposta parece inacreditável. Infelizmente, não é piada. As ações da empresa, que já foi a maior do Brasil, passaram a valer menos de R$ 10 na semana passada. E não param de cair, cair, cair... O patamar é o menor em dez anos.

A Petrobras perdeu R$ 600 bilhões em valor de mercado nos últimos seis anos. Se cédulas de R$ 100 fossem colocadas lado a lado, seria possível dar 23 voltas ao mundo com a dinheirama da Petrobras que evaporou.

O valor corresponde ao PIB da Finlândia, próspero país escandinavo, ou metade do PIB da Bélgica.

Ganha uma sandália de borracha, um CD de camelô ou até um McLanche Feliz quem adivinhar quanto tempo ainda dura no cargo a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster.

Foi preciso que a situação da Petrobras se deteriorasse ao tragicômico para que a presidente Dilma Rousseff finalmente se convencesse de que a melhor solução para a crise é demitir Graça e a atual diretoria – informação confirmada por quatro pessoas com conhecimento do assunto. Isso depois de Graça pedir três vezes demissão e imolar-se em público ao pedir para ser investigada. A saída de Graça é questão de dias, ou semanas.

A parolagem do governo para se eximir da administração desastrosa da estatal é antiga. Para Dilma, a culpa é dos outros – no caso, da baixa acentuada no preço do petróleo no mercado mundial. Como já disse Homer Simpson: “Se a culpa é minha, eu a boto em quem eu quiser”. O princípio Homer vale para a Petrobras, para a economia (a culpa é da crise lá fora) e para as perenes dificuldades políticas do governo (a culpa é do Congresso).

No caso da Petrobras, fica ainda mais difícil recorrer ao princípio Homer. Dilma é, desde o primeiro mandato do governo Lula, a principal responsável pela Petrobras – na prática e no papel. Foi presidente do Conselho e dava ordens expressas, no segundo mandato de Lula, ao então presidente da empresa, José Sergio Gabrielli. Quando se elegeu presidente da República, escolheu os diretores e a estratégia de curto e longo prazo da empresa. Em termos econômicos e operacionais, a Petrobras deve seu Natal miserável a Dilma. Ao que ela fez antes – e ao que ela deixa de fazer agora.

O princípio Homer não explica a crise na Petrobras. Basta comparar a queda das ações da Petrobras nos últimos seis meses, desde que o preço do petróleo começou a cair, à desvalorização das ações de outras grandes petroleiras. As ações da Petrobras caíram 45%. As da Exxon, 11%; as da Chevron, 17%; e as da British Petroleum, 27%. A queda no preço do petróleo atinge todas as petroleiras – mas atinge muito mais a Petrobras. Ao contrário das maiores petroleiras do mundo, conhecidas como “supermajors”, ela não se preparou para o cenário de queda do petróleo. Também, ao contrário delas, demora a agir para se adaptar à nova realidade do mercado de petróleo.

A PETROBRAS É A EMPRESA MAIS ENDIVIDADA DO PLANETA, COM PAPAGAIOS NO VALOR DE US$ 135 BILHÕES

O despreparo da Petrobras para enfrentar esse momento ruim deve-se, como em qualquer outra empresa, ao despreparo dos executivos escolhidos para comandar a Petrobras. A equipe que a dirige não foi escolhida por reunir os melhores dentre os excelentes quadros da empresa. Foi escolhida por afinidades pessoais e ideológicas com Dilma – e, até outro dia, por atender às demandas dos partidos da base aliada. Quando o aparelhamento político se uniu à ideologia nacionalista do PT, em 2004, o destino da Petrobras estava traçado.

Na prática, transformar a exploração do pré-sal em obsessão empresarial (a ideologia nacionalista) e traçar cenários pouco realistas foram os principais erros cometidos nos últimos anos. Os planos de investimentos da Petrobras tomaram por base o barril do petróleo no patamar de US$ 100. O valor, hoje, está na casa dos US$ 60. A principal razão para a desvalorização do petróleo é o desequilíbrio entre a oferta e a demanda. Estados Unidos e Líbia passaram a produzir muito mais petróleo. Ao mesmo tempo, a desaceleração da economia mundial levou a maioria dos países ricos e emergentes (sobretudo a China) a consumir menos. Há outros fatores mais complexos em jogo. Tudo no mercado de petróleo é complexo e exige um grau de planejamento incomum em nenhuma outra área.

Para persistir em seus ambiciosos planos de investimento, a Petrobras passou a vender ativos no exterior com grande potencial de crescimento. Para financiar a exploração do pré-sal, como revelou ÉPOCA no ano passado, ela desfez-se, em condições desvantajosas, de plataformas e refinarias na Argentina e em países africanos. Para completar, a Petrobras foi usada indiscriminadamente como instrumento de política econômica do governo. Em tempos de alta no preço do petróleo, congelava os preços nas bombas para segurar a inflação. Na baixa, não repassa a queda aos consumidores finais. Hoje, os consumidores brasileiros pagam pelo litro de gasolina um preço 40% acima do praticado em outros países. “Em um momento, a Petrobras subsidia o consumidor. No seguinte, o consumidor subsidia a Petrobras”, afirma o consultor de energia Adriano Pires.

Foto: Fotos: Felipe Dana/AP e Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

DENÚNCIAS - A empresa holandesa SBM disse que ganhou US$ 25 milhões para apressar a inauguração de uma obra da Petrobras

O problema atual da Petrobras é, sobretudo, de confiança. Ela ostenta o nada honroso título de empresa mais endividada do planeta. Sua dívida alcança US$ 135 bilhões. Desse total, 80% em moedas estrangeiras, que têm se valorizado ante o real nos últimos meses.

Já seria difícil para a Petrobras conseguir contrair novos empréstimos para levar adiante seu plano de investimentos. Nas condições atuais, é impossível: ela adiou indefinidamente a publicação do balanço do terceiro trimestre de 2014. É por meio desse documento que os bancos analisam as condições da empresa e decidem se devem ou não emprestar a ela,

Na quarta-feira passada, num tom de lamento, Graça disse que ela e todos os diretores da Petrobras precisavam ser investigados. Está claro que Graça não tem mais condições de conduzir a empresa pelos próximos anos. Por que a demora em substituí-la? Um dos motivos é que a saída de Graça representaria o afastamento de uma das poucas pessoas em quem a presidente Dilma confia.

Elas se conhecem desde os anos 1990, quando Dilma era secretária de Energia do Rio Grande do Sul, e Graça, já na Petrobras, era uma das gerentes responsáveis pela construção do gasoduto que liga a Bolívia ao Brasil. Com a chegada de Dilma ao governo federal, Graça passou a ocupar postos importantes. Entre eles, a Secretaria de Gás e Petróleo do Ministério de Minas e Energia e a presidência da BR Distribuidora. Para os padrões de Dilma, Graça sempre correspondeu a suas expectativas.


Venina Fonseca (acima), subordinada de Paulo Roberto Costa, afirmou que alertara Graça Foster sobre a corrupção na Petrobras
A Operação Lava Jato abalou o prestígio de Graça e obrigou a presidente Dilma a procurar substitutos. “A escolha tem de ter o mesmo impacto que teve a indicação do Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda”, diz um ministro do governo. Até agora, o nome mais cotado é Murilo Ferreira, que preside a Vale desde 2011.

O governo também deverá indicar um novo diretor financeiro para ajudar o futuro presidente. A tendência é que os outros diretores sejam funcionários de carreira.

A soma do endividamento com a pilhagem transformou a Petrobras num mico mundial. Para piorar, as revelações de roubalheira sucedem-se com a mesma rapidez da queda na Bolsa. Na última semana, o jornal Valor Econômico revelou que Venina Fonseca, uma subordinada de Paulo Roberto Costa, alertara Graça para as evidências de corrupção na diretoria ocupada por ele. Foi despachada para Cingapura.

O jornal O Globo mostrou que a empresa holandesa SBM, ré confessa na corrupção na Petrobras, ganhou US$ 25 milhões a mais para que Lula e Dilma inaugurassem apressadamente, durante a campanha de 2010, a plataforma P-57, construída pela SBM.

As más notícias criminais não pararão. Em 2015, a força-tarefa da Polícia Federal e do Ministério Público que investiga os múltiplos ramos da corrupção na Petrobras incluirão mais empreiteiras, dirigentes da Petrobras e políticos no escândalo – os deputados, senadores, ministros e governadores que, segundo os depoimentos de Paulo Roberto e do doleiro Alberto Youssef, participaram do petrolão.

Listas extraoficiais já começam a circular, como a divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira passada. No começo de fevereiro, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedirá ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito contra eles. Antes, Janot e sua equipe analisam as provas que pesam contra os políticos. A mera citação nos depoimentos de Paulo Roberto ou de Youssef não significa que eles tenham participado do esquema.

“Paulo Roberto estava tão desesperado que citou até quem passou para tomar um cafezinho com ele”, diz um dos procuradores do caso, brincando – mas nem tanto. É preciso cautela antes de julgar quem foi meramente citado pelos delatores. Isolada, a palavra deles vale tanto quanto uma ação da Petrobras.

20 de dez. de 2014

Petrolão: A vez dos políticos - Merval Pereira

BRASIL – Opinião
Petrolão: A vez dos políticos
A homologação da delação premiada, pelo ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), significa que o magistrado considerou consistente o depoimento do doleiro Alberto Youssef. Ou seja, o delatou apresentou provas e evidências dos atos de corrupção que envolve os nomes de 30 deputados e 6 senadores.

Charge: Aroeira

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

O ministro Teori Zavascki, relator da Operação LavaJato no Supremo Tribunal Federal (STF), homologou hoje, 19, último dia antes do recesso da Justiça, a delação premiada do doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do esquema de fraudes na Petrobras. E pode surpreender determinando a imediata abertura do inquérito contra os parlamentares envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras.

Isso significa que ele considerou consistente o depoimento do doleiro, que já lhe foi enviado pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot juntamente com o relato das fraudes e a lista de políticos, empreiteiros e funcionários públicos, na maioria da Petrobras, envolvidos no esquema. A lista dos políticos tem 30 deputados e 6 senadores, todos com foro privilegiado no momento. Os que não se reelegeram ou não concorreram nas últimas eleições serão enviados para a primeira instância da Justiça Federal em Curitiba, onde atua o juiz Sergio Moro, que coordena a Operaçâo Lava Jato.

O Supremo Tribunal Federal confirmou recentemente que o foro adequado para os envolvidos no processo sobre o esquema de corrupção da Petrobras que não têm prerrogativa de função é a Justiça Federal no Paraná, sob a coordenação do juiz Moro, um especialista em processos sobre lavagem de dinheiro que advogados de muitos dos executivos das empreiteiras envolvidos no escândalo queriam evitar, transferindo o processo para o Rio Ou São Paulo, alegando que a sede das empresas deveria ser o foro escolhido.

O juiz Sérgio Moro já atuou no processo do mensalão como assessor da ministra do STF Rosa Weber, e ganhou experiência nesse tipo de caso. Ao contrário do que aconteceu no julgamento do mensalão, neste processo os casos serão separados, com os acusados que não têm foro privilegiado sendo tratados pela justiça de primeira instância no Paraná.

A partir da decisão de Zavascki de pedir a abertura do inquérito os nomes dos parlamentares envolvidos poderão ser divulgados. O fato de o ministro Teori Zavascki homologar a delação premiada poucos dias depois de tê-la recebido do Procurador-Geral da República, e talvez até mesmo já abrir o inquérito, indica que todos os passos do processo estão sendo dados com a maior cautela e, ao mesmo tempo, os que dele cuidam na Justiça estão empenhados em dar velocidade às apurações.

O ministro Zavascki poderia ter deixado para fevereiro, na volta do recesso, para homologar a delação de Youssef, mas aceitando-a no último dia de trabalho da Justiça antes do recesso está dando uma sinalização de que pretende que o caso seja tocado com a rapidez possível em nosso sistema judicial.

Além disso, homologar a delação premiada significa que a Justiça considerou comprovadas as denúncias apresentadas, e o delator poderá com isso ser liberado do regime fechado e passar ao de prisão domiciliar, como já acontece com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. A Justiça tem também condições de cruzar as informações dos diversos envolvidos que aderiram à delação premiada para constatar a veracidade das acusações.

A função do relator que o ministro Teori Zavascki exerce no processo é, na definição de um de seus colegas, como se ele fosse delegado e juiz ao mesmo tempo. ELe pode, a partir da abertura do inquérito, determinar quebra de sigilos bancários e telefônicos, interceptação de mensagens telefônicas. Aceitando a denúncia do Procurador-Geral da República, o ministro Zavascki vai oficiar a Polícia Federal para que inicie a investigação.

Provavelmente, essa decisão e seus fundamentos serão públicos. No curso das investigações, a Polícia Federal vai instaurar inquérito contra aqueles em relação aos quais há indícios de que crimes foram cometidos. O inquérito poderá começar mesmo no recesso da Justiça.
*Alteramos o título, atualizamos, acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

14 de dez. de 2014

PETROBRAS: começar de novo - Merval Pereira

BRASIL – Opinião
PETROBRAS: começar de novo
As queixas dos investidores internacionais que estão processando a Petrobras nos Estados Unidos: a empresa não respeita seus acionistas minoritários, sonegando-lhes informações sobre casos de corrupção que acabaram derrubando a cotação de suas ações no Brasil e nas bolsas internacionais

Baseado em foto de Vanderlei Almeida/AFP/VEJA

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fontes: Blog do Merval

A coisa na Petrobras está tão feia que até mesmo quando um diretor é erroneamente acusado de ter sido beneficiário do esquema de corrupção, como aconteceu com José Carlos Cosenza, ele acaba sendo envolvido em outros casos relacionados, e o pedido de desculpas da Polícia Federal acaba sendo neutralizado pelas novas descobertas.

A denúncia de que a gerente Venina Velosa da Fonseca enviou e-mails à atual presidente Graça Foster e a outros superiores, incluindo Cosenza e o seu antecessor, o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, para apontar desvios em vários setores da empresa, mostra que muito antes da Operação Lava Jato a atual diretoria já tinha conhecimento dos esquemas de corrupção.

As medidas tomadas, como a demissão do responsável pela área de comunicação, ligado ao PT baiano do ex-governador Jacques Wagner e ao ex-presidente da Petrobras José Gabrielli, devido ao pagamento de R$ 58 milhões para serviços que não foram realizados em 2008, não tiveram efeito prático, pois o funcionário saiu de licença e permaneceu mais de cinco anos na empresa.

Já naquela época a gerente denunciava superfaturamento nos custos da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e nada foi feito. Em outra ponta, a Controladoria Geral da União (CGU) anunciou que investiga o aumento do patrimônio do ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque e dos ex-diretores da Área Internacional Nestor Cerveró e Jorge Zelada, em processos administrativos que apuram suposta participação dos três no esquema de pagamento de propina pela empresa holandesa SBM Offshore.

Esse caso é exemplar de como as coisas não funcionam na Petrobras. A revista Veja denunciou, e a estatal tratou de desmentir, alegando que uma comissão interna nada encontrara. Agora, que a empresa holandesa confessou ter dado o suborno, a presidente Graça Foster admitiu que soubera da confirmação dias antes. Só que, como em outras ocasiões, a questão fora abafada e a diretoria da Petrobras somente comentou o assunto por que foi confirmado na imprensa no exterior.

Essa é uma das queixas dos investidores internacionais que estão processando a Petrobras nos Estados Unidos: a empresa não respeita seus acionistas minoritários, sonegando-lhes informações sobre casos de corrupção que acabaram derrubando a cotação de suas ações no Brasil e nas bolsas internacionais. E, para culminar, quem chefia a Comissão Interna de Apuração de desvios na estatal é o mesmo José Carlos Cosenza.

Os fatos mostram que não haverá solução sem que, como sugeriu o Procurador-Geral da República e a oposição agora exige, toda a diretoria seja mudada e a estatal comece da estaca zero sua reorganização.
*Alteramos o título, acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

12 de dez. de 2014

Gerente da Petrobras comprova que alertou os três últimos presidentes sobre os desvios na empresa

BRASIL – Lava Jato
Gerente da Petrobras comprova que alertou os três últimos presidentes sobre os desvios na empresa
Desde 2008, a gerente Venina Velosa da Fonseca, desconfiou de desvios na empresa, e enviou diversos emails alertando, sem obter retorno, tanto aos então presidentes Gabrielli e Jaques Wagner, como a atual Graça Foster. Segundo conta, a funcionária incômoda, perdeu poder, foi ameaçada e acabou sendo transferida para Singapura, onde encontrou outras irregularidades

Foto: Divulgação

Gerente, Venina Velosa, já convocada, apresentará ao Ministério Público Federal, em Curitiba, emails e documentos que comprovam alertas ignorados pela direção da estatal

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Juliano Basile
Fontes: Valor Economico, Folha de São Paulo,

Defendida pela presidente Dilma Rousseff, a atual diretoria da Petrobras recebeu diversos alertas de irregularidades em contratos da estatal muito antes do início da Operação Lava-Jato, em março deste ano, e não apenas deixou de agir para conter desvios que ultrapassaram bilhões de reais como destituiu os cargos daqueles que trabalharam para investigar as ilicitudes e chegou a mandar uma denunciante para fora do país.

As irregularidades foram comprovadas através de centenas de documentos internos da estatal a que teve acesso o jornalista Juliano Basile, do jornal Valor Econômico. Elas envolvem o pagamento de R$ 58 milhões para serviços que não foram realizados na área de comunicação, em 2008, passam por uma escalada de preços que elevou de US$ 4 bilhões para mais de US$ 18 bilhões os custos da Refinaria Abreu e Lima e atingem contratações atuais de fornecedores de óleo combustível das unidades da Petrobras no exterior que subiram em até 15% os custos.

As constatações de problemas nessas áreas foram comunicadas para a presidente da estatal, Graça Foster, e para José Carlos Cosenza, que substituiu o delator Paulo Roberto Costa na Diretoria de Abastecimento e é, 'ironicamente', responsável pela Comissão Interna de Apuração de desvios na estatal.

Para Graça foram enviados e-mails e documentos comunicando irregularidades ocorridas tanto antes de ela assumir a presidência, em 2012, quanto depois. A presidente foi informada a respeito de contratações irregulares na área de comunicação da Diretoria de Abastecimento, sob o comando de Paulo Roberto Costa, e de aditivos na Abreu e Lima, envolvendo o "pool" de empreiteiras da Operação Lava-Jato. Em 2014, foram remetidas a Graça denúncias envolvendo os escritórios da estatal no exterior. Nenhuma providência foi tomada com relação a esse último caso, ocorrido sob a sua presidência.

Cosenza, que em depoimento à CPI mista da Petrobras, em 29 de outubro passado, declarou nunca ter ouvido falar em desvios de recursos na estatal em seus 34 anos na empresa, também recebeu, nos últimos cinco anos, diversos e-mails e documentos com alertas a respeito dos mesmos problemas.

As advertências de que os cofres da Petrobras estavam sendo assaltados partiram de uma gerente que foi transferida para a Ásia. Venina Velosa da Fonseca está na estatal desde 1990, onde ocupou diversos cargos. Ela começou a apresentar denúncias quando era subordinada a Paulo Roberto como gerente executiva da Diretoria de Abastecimento, entre novembro de 2005 e outubro de 20009. Afastada da estatal, em 19 de novembro, Venina vai depor ao Ministério Público, em Curitiba, onde tramita o processo da Lava-Jato.

As suspeitas da geóloga tiveram início em 2008, quando ela verificou que os contratos de pequenos serviços - chamados de ZPQES no jargão da estatal - atingiram R$ 133 milhões entre janeiro e 17 de novembro daquele ano. O valor ultrapassou em muito os R$ 39 milhões previstos para 2008 e a gerente procurou Costa para reclamar dos contratos que eram lançados em diferentes centros de custos, o que dificultava o rastreamento.

Segundo ela, o então diretor de Abastecimento apontou o dedo para o retrato do presidente Lula e perguntou se ela queria "derrubar todo mundo". Em seguida, Costa disse que a gerente deveria procurar o diretor de comunicação, Geovanne de Morais, que cuidava desses contratos.

Venina encaminhou a denúncia ao então presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli. Ele instalou comissão sob a presidência de Rosemberg Pinto para apurar o caso. Assim como Geovanne, Gabrielli e Rosemberg são do PT da Bahia. Esse último foi eleito deputado estadual pelo partido. O relatório da comissão apurou que foram pagos R$ 58 milhões em contratos de comunicação para serviços não realizados. Além disso, foram identificadas notas fiscais com o mesmo número para diversos serviços, totalizando R$ 44 milhões. Dois fornecedores de serviços tinham o mesmo endereço. São as empresas R. A. Brandão Produções Artísticas e Guanumbi Promoções e Eventos. Ambas na rua Guanumbi, 628, em Jacarepaguá, no Rio.

O caso foi remetido para a Auditoria. Geovanne foi demitido, mas entrou em licença médica, o que evitou que fosse desligado imediatamente da Petrobras, onde permaneceu por mais cinco anos.

Em 3 de abril de 2009, Venina enviou um e-mail para Graça Foster pedindo ajuda para concluir um texto sobre problemas identificados na estatal. Na época, Graça era Diretora de Gás e Energia.

Paralelamente aos problemas na área de comunicação com contratos milionários sem execução de serviços, Venina verificou uma escalada nos preços para as obras em Abreu e Lima que elevou os custos para US$ 18 bilhões e fomentou dezenas de aditivos para empreiteiras. Os contratos para as obras na refinaria continham cláusulas pelas quais a Petrobras assumia os riscos por eventuais problemas nas obras e arcava com custos extras. Para executá-las, eram feitos aditivos e as empreiteiras suspeitas de cartel no setor venceram boa parte das concorrências.

Apenas na fase 2 das obras da refinaria havia a previsão de contratações de US$ 4 bilhões junto a empreiteiras. Num ofício de 4 de maio de 2009, Venina criticou a forma de contratação que, em pelo menos quatro vezes naquela etapa, dispensou as licitações e, em várias ocasiões, beneficiou as empresas da Associação Brasileira de Engenharia Industrial (Abemi), entidade que tem firmas acusadas na Lava-Jato como associadas, como a UTC Engenharia e a Toyo Setal. "Entendemos que não devemos mitigar o problema, mas resolvê-lo pela adoção de medidas corretas, ou seja, com o início das licitações em Abreu e Lima", disse a gerente.

Presidente Dilma e Graça Foster, em Suape, num dos eventos de assinatura de contratos para a construção da Refinaria Abreu e Lima
Documento interno da Petrobras de 2009 mostra que Venina fez 107 Solicitações de Modificação de Projetos (SMPs), o que resultaria numa economia de R$ 947,7 milhões nas obras da refinaria. Mas as sugestões da gerente não foram aceitas.

Outra sugestão não atendida foi a de acrescentar uma cláusula chamada "single point responsibility" nos contratos pela qual a construtora se tornaria responsável por eventuais problemas nas obras da refinaria, devendo arcar com os gastos. Mas a área de Serviços, comandada, na época, por Renato Duque, manteve os contratos no formato antigo, sem essa cláusula, transferindo os ônus para a estatal. Duque foi preso pela Polícia Federal na Lava-Jato e Pedro Barusco, seu ex-subordinado na estatal, que também é citado em vários documentos, fez um acordo de delação premiada para devolver US$ 97 milhões obtidos no esquema.

As obras de terraplanagem da refinaria levaram a gastos exponenciais. Elas foram contratadas, em junho de 2007, por R$ 429 milhões junto a um consórcio formado por Camargo Corrêa, Galvão Engenharia, Construtora Queiroz Galvão e Construtora Norberto Odebrecht. Em seguida, vários aditivos foram autorizados pela Diretoria de Engenharia da Petrobras e assinados por Cosenza, presidente do Conselho da Refinaria. Um e-mail mostra que ele foi alertado sobre o aumento nos custos das obras de terraplanagem em Abreu e Lima.

O desgaste de fazer as denúncias e não obter respostas fez com que Venina deixasse o cargo de gerente de Paulo Roberto, em outubro de 2009. No mês seguinte, a fase 3 de Abreu e Lima foi autorizada. Em fevereiro de 2010, a geóloga foi enviada para trabalhar na unidade da Petrobras em Cingapura. Chegando lá, lhe pediram que não trabalhasse e foi orientada a fazer um curso de especialização.

Em 7 de outubro de 2011, Venina escreveu para Graça Foster, na época, diretora de Gás e Energia: "Do imenso orgulho que eu tinha pela minha empresa passei a sentir vergonha". "Diretores passam a se intitular e a agir como deuses e a tratar pessoas como animais. O que aconteceu dentro da Abast (Diretoria de Abastecimento) na área de comunicação e obras foi um verdadeiro absurdo. Técnicos brigavam por formas novas de contratação, processos novos de monitoramento das obras, melhorias nos contratos e o que acontecia era o esquartejamento do projeto e licitações sem aparente eficiência".

Na mensagem, Venina diz que, após não ver mais alternativas para mudar a situação, iria buscar outros meios e sugere apresentar a documentação que possui a Graça. "Parte dela eu sei que você já conhece. Gostaria de te ouvir antes de dar o próximo passo", completa, dirigindo-se à então diretora de Energia e Gás.

Em 2012, a geóloga voltou ao Rio, onde ficou por cinco meses sem nenhuma atribuição. A alternativa foi retornar a Cingapura, agora, como chefe do escritório.

Em 25 de março de 2014, Venina encaminhou um e-mail a Cosenza sobre perdas financeiras em operações internacionais da estatal que ela identificou a partir do trabalho em Cingapura. A Petrobras comercializa combustível para navios, denominados bunkers. As unidades da estatal no exterior recebem óleo combustível feito no Brasil e fazem a mistura com outros componentes para atender à exigências de qualidade para vendê-los a outros países. As perdas ocorrem quando previsões no ponto de carga não refletem o que foi descarregado.

Copias dos emails da gerente
Além desse problema de medição das quantidades de combustível, Venina verificou outro fato ainda mais grave. Negociadores de bunkers estavam utilizando padrões anormais para a venda à estatal. Eles compravam bunkers a um preço e revendiam a valores muito maiores para a Petrobras. A geóloga contratou um escritório em Cingapura que obteve cópias das mensagens das tratativas entre os bunkers com "fortes evidências" de desvios. Mesmo após a denúncia dessas práticas, esses negociadores não foram descredenciados. Pelo contrário, eles mantiveram privilégios junto à estatal, como garantia de vendas para a Petrobras mesmo quando estavam ausentes ou em férias.

Esses problemas da Petrobras no exterior foram comunicados em outro e-mail a Cosenza, em 10 de abril de 2014. Nele, está escrito que as perdas podem chegar a 15% do valor da carga de petróleo e óleo combustível. Esse percentual equivale a milhões de dólares, considerando que apenas o escritório de Cingapura pagou dividendos de US$ 200 milhões, em 2013. O lucro líquido da unidade atingiu US$ 122 milhões até outubro deste ano. Novamente, não houve resposta por parte do diretor sobre o que fazer com relação a perdas de milhões de dólares.

Na tentativa de obter uma orientação da direção da estatal, Venina fez, em 27 de maio, uma apresentação na sede da Petrobras, no Rio, sobre as perdas envolvendo a comercialização de combustível no exterior. Nela, foi alertado que a prática se disseminou pelas unidades da estatal, atingindo vários países. Em junho, Venina propôs a criação de uma área de controle de perdas nos escritórios da empresa no exterior. Nada foi feito.

Uma última mensagem sobre o assunto foi enviada em 17 de novembro. Dois dias depois, a direção da Petrobras afastou Venina do cargo. Após fazer centenas de alertas e recomendações sobre desvios na empresa, ela foi destituída pela atual diretoria, sem saber qual a razão, ao lado de vários funcionários suspeitos na Operação Lava-Jato. A notícia lhe chegou pela imprensa, em 19 de novembro.

Um dia depois, a geóloga escreveu um e-mail para Graça Foster. "Desde 2008, minha vida se tornou um inferno, me deparei com um esquema inicial de desvio de dinheiro, no âmbito da Comunicação do Abastecimento. Ao lutar contra isso, fui ameaçada e assediada. Até arma na minha cabeça e ameaça às minhas filhas eu tive." A geóloga não detalhou no e-mail para Graça o que aconteceu, mas teve a arma apontada para si, no bairro do Catete. Não lhe levaram um tostão, mas houve a recomendação de que ficasse quieta.

"Tenho comigo toda a documentação do caso, que nunca ofereci à imprensa em respeito à Petrobras, apesar de todas as tentativas de contato de jornalistas. Levei o assunto às autoridades competentes da empresa, inclusive o Jurídico e a Auditoria, o que foi em vão", continuou.

Em seguida, ela reitera que se opôs ao esquema de aditivos na Abreu e Lima. "Novamente, fui exposta a todo tipo de assédio. Ao deixar a função, eu fui expatriada, e o diretor, hoje preso, levantou um brinde, apesar de dizer ser pena não poder me exilar por toda a vida", disse, referindo-se a Costa.

"Agora, em Cingapura, me deparei com outros problemas, tais como processos envolvendo a área de bunker e perdas, e mais uma vez agi em favor da empresa (...). Não chegaram ao meu conhecimento ações tomadas no segundo exemplo citado, dando a entender que houve omissão daqueles que foram informados e poderiam agir." A geóloga termina a mensagem fornecendo seu telefone a Graça, que jamais ligou.

O Valor Econômico conclui a reportagem dizendo que perguntou à Petrobras quais providências foram tomadas com relação às denúncias, mas a estatal não respondeu.

9 de dez. de 2014

Camargo Corrêa pagou R$ 886 mil a empresa de Dirceu, antes de fechar contrato bilionário com a Petrobras

BRASIL – Lava Jato
Camargo Corrêa pagou R$ 886 mil a empresa de Dirceu, antes de fechar contrato bilionário com a Petrobras
Uma empresa do ex-ministro José Dirceu (PT) recebeu R$ 886,5 mil da empreiteira Camargo Corrêa entre maio de 2010 e fevereiro de 2011. No mesmo mês em que o acordo entre as duas companhias foi firmado, a Camargo Corrêa fechou dois contratos com a Petrobras, que somam R$ 4,7 bilhões, para prestar serviços na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Foto: André Coelho / O Globo

Em busca e apreensão na sede da empreiteira, há três semanas, a PF encontrou um contrato confidencial de "consultoria", fechado em 2010, com a empresa do mensaleiro José Dirceu.

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Diego Escosteguy
Fontes: Época, O Globo

Uma empresa do petista José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, condenado por corrupção no escândalo do mensalão e político mais influente na Petrobras nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva, recebeu R$ 886 mil da empreiteira Camargo Corrêa entre 2010 e 2011. Na época, ele já era réu no processo mensalão e exercia influência na Petrobras. No mesmo mês em que assinou o contrato com a empresa de Dirceu, a Camargo obteve dois contratos com a Petrobras para prestar serviços na refinaria Abreu e Lima. Os contratos somam R$ 4,7 bilhões e, segundo os depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, foram fechados mediante pagamento de propina ao PT e ao PP.

Embora negue, foi Dirceu quem indicou Renato Duque, então diretor de Serviços da estatal e responsável pelos contratos da Camargo, acusado por Costa, Youssef e por um empreiteiro de cobrar propina para o PT.

As provas da relação secreta entre Dirceu e a Camargo foram descobertas pela PF há três semanas, durante buscas na sede da Camargo. No mesmo dia, apelidado pelos investigadores de "Juízo Final", houve buscas em outras oito empreiteiras, nas casas de executivos dessas empresas e em escritórios de lobistas.

São milhares e milhares de páginas, que se somam às já dezenas de milhares de documentos apreendidos desde o começo da operação Lava Jato, em março. Elas expõem a relação promíscua entre as grandes empreiteiras do país e os políticos que detêm influência em estatais como a Petrobras. Reforçam, com fortes evidências, a acusação de que essas empreiteiras formavam um cartel para assegurar os maiores contratos da Petrobras.

Apontam novos casos de corrupção em outros órgãos do governo - e até no exterior. Nos próximos dias, fundamentados em larga medida nesses documentos apreendidos, os procuradores da força-tarefa da Lava Jato denunciarão à Justiça os empreiteiros acusados de montar o cartel.

O contrato entre a Camargo e a empresa de Dirceu, chamada JD Assessoria, foi assinado em 21 de fevereiro de 2010. Não tinha um objeto claro. Previa apenas que Dirceu faria análise de “aspectos sociológicos e políticos do Brasil” e prestaria "assessoria na Integração dos países da América do Sul”.

Dirceu também deveria, de acordo com o contrato, divulgar o nome da Camargo na comunidade nacional e internacional, além de fazer palestras e seminários em assuntos de interesse dela. O contrato é marcado como sigiloso. Dirceu deveria receber R$ 75 mil por mês. Durante dez meses, segundo os comprovantes encontrados, recebeu mesmo. Entre maio de 2010 e fevereiro de 2011, o mensaleiro faturou R$ 886.500 com base no contrato. O primeiro pagamento foi retroativo e abarcou três meses de "consultoria".

Foto: Época

Cópia do contrato da Camargo Corrêa com a JD Consultoria, apreendido pela Polícia Federal. O ex-ministro José Dirceu foi contratado para prestar consultoria à empreiteira em ano de campanha eleitoral

Não se sabe por que um gigante como a Camargo precisava da capacidade de divulgação de Dirceu no Brasil e na América do Sul. Nem o valor de suas análises políticas e sociológicas. Sabe-se, porém, que Dirceu exercia forte influência na Petrobras, mesmo após deixar o governo Lula, no auge do mensalão, em 2005.

Indicara Duque para a Diretoria de Serviços e mantinha petistas em cargos estratégicos da estatal. Sabe-se, também, que, no mesmo mês em que Dirceu assinou o contrato com a Camargo, o Consórcio CNCC, de que a Camargo faz parte, ganhou dois contratos para fazer "serviços de implantação de unidade de coqueamento" na refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Eles somam R$ 4,7 bilhões.

Com base nas evidências documentais e nos depoimentos de testemunhas e delatores, os procuradores e a Polícia Federal suspeitam que os contratos da Abreu e Lima tenham sido superfaturados e fechados à base de propina.

Por meio de sua assessoria, a José Dirceu afirma que " prestou consultoria na área internacional à Camargo Corrêa, entre maio de 2010 e fevereiro de 2011”. “Por razões de confidencialidade contratual, a JDA não pode se manifestar sobre a natureza nem os resultados dos serviços prestados", diz a assessoria da JD. A Camargo Corrêa confirmou a “existência do contrato”, mas não quis fazer comentário a respeito.

Foto: Época

Tabela de pagamentos da Camargo Corrêa para a JD Consultoria.
A empreiteira pagou R$ 886.500 para Dirceu em dez meses

Tubos ‘Xing Ling’ comprometem segurança e futuro da Refinaria Abreu e Lima

BRASIL – Corrupção
Tubos ‘Xing Ling’ comprometem segurança e futuro
da Refinaria Abreu e Lima
A turma do petrolao, visando mais lucro na propina, pode ter autorizado a compra de tubos ‘meia boca’ para serem usados na refinaria pernambucana

Foto: Luciana Ourique

Tribunal de Contas da União aponta irregularidades em Abreu e Lima desde 2008

Postado por Toinho de Passira
Fontes: G1, Diário do Poder, Petronotícias

A Petrobras iniciou neste sábado (6) a produção de derivados de petróleo na superfaturada Refinaria Abreu e Lima, localizada em Pernambuco, uma das obras utilizada para desvio de verbas no escândalo do petrolão, localizada em Pernambuco, cujos custos de construção saíram bem acima do inicialmente estimado. Em nota divulgada neste sábado (6), a companhia informou que os derivados de petróleo já produzidos foram enviados para armazenamento em tanques e esferas da refinaria.

Mas nem tudo é motivo de comemoração, no site Diário do Poder, o jornalista Cláudio Humberto denuncia que há forte indicio de que a refinaria Abreu e Lima pode estar operando com tubos falsificados, e corre risco até de explosão.

A obra era responsabilidade do ex-diretor Paulo Roberta Costa, que relatou diversas fraudes em delação premiada ao juiz federal Sergio Moro, do Paraná. O site especializado Petronotícias suspeita que o material vem da China, sem a devida certificação.

O consórcio liderado pela Camargo Corrêa teria comprado os tubos da Sanko Side, que nega a denúncia, mas não diz de quem comprou.

A Sanko Sider já esteve envolvida em outras denúncias. Seu presidente, Márcio Bonilho, não é um nome estranho para a Polícia Federal. Na semana passada, em depoimento à CPI da Petrobrás, ele admitiu ter pagado 37 milhões de reais em comissões para conseguir contratos com a estatal. Além disso, já foi ouvido pela Polícia Federal algumas vezes, como no caso da venda fraudada de tubos para atender ao contrato de complementação da Adutora do Rio São Francisco, que também envolveu políticos, em 2008.

Mesmo tendo amplo conhecimento de todos estes problemas, a estatal manteve a Sanko Sider no cadastro de fornecedores da companhia, culminando com a compra milionária no valor de R$ 187 milhões de reais, para a Abreu e Lima.

Contra o risco de vazamento e até de explosão, os tubos devem ter certificado do API (EUA), mas fraudadores falsificam o certificado,

Com a operação da refinaria, a primeira a ser construída no Brasil desde 1980, a Petrobras poderá elevar a produção nacional de combustível, diminuindo a necessidade de importações de diesel, o seu principal produto.

Desde que a presidente Dilma Rousseff aprovou a construção da refinaria no Nordeste, no período em que foi presidente do Conselho de Administração da empresa (2003-2010), seu custo mais do que quadruplicou, a cerca de 18,5 bilhões de dólares, o que gerou uma série de investigações de diversas autoridades. As obras da polêmica refinaria são, inclusive, foco da operação Lava Jato, da Polícia Federal.

6 de dez. de 2014

VEJA: O PT treme de novo

BRASIL – Petrolão
O PT treme de novo
Em 2005, Duda Mendonça confessou ter recebido do PT 5 milhões de dólares por debaixo do pano, dinheiro depositado em contas bancárias no exterior. Era o começo do mensalão. Agora, empresários admitem ter pago 150 milhões de reais em propina ao PT e a aliados. É o início do petrolão

Foto: Leo Pinheiro/Valor/VEJA.com

Augusto Ribeiro de Mendonça Neto: ele confessou à PF ter pago 150 milhões de reais de propina para manter contratos com a Petrobras – e disse que parte desse dinheiro foi abastecer o caixa eleitoral do PT"

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Robson Bonin e Alexandre Hisayasu
Fontes: Veja

O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o primeiro a fazer acordo, revelou como funcionava a quadrilha dentro da estatal, as vinculações partidárias dos criminosos e a identidade dos empreiteiros envolvidos.

Depois dele, foi a vez de o doleiro Alberto Youssef apresentar o nome de aproximadamente cinquenta políticos que receberam propina, entre deputados, senadores, governadores e ministros.

O mosaico do golpe bilionário aplicado contra a Petrobras começou a ganhar forma a partir das informações, das pistas e das provas fornecidas pelos dois delatores.

Na semana passada, o juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, divulgou um conjunto de depoimentos prestados por executivos da empresa Toyo Setal, uma das fornecedoras de serviços à Petrobras, que acrescentam ao caso ingredientes com imenso potencial de destruição.

Segundo esses relatos, o PT não só é apresentado como o responsável pela montagem e pela operação do esquema de corrupção na estatal como também se nutriu dele. E ainda mais grave: dinheiro da corrupção pode inclusive ter ajudado a eleger a presidente Dilma Rousseff.

Em 2005, o marqueteiro Duda Mendonça assombrou o país ao revelar a uma CPI do Congresso os detalhes da engenharia criminosa montada pelo PT para pagar as dívidas da campanha presidencial de Lula. Contratado pelo partido para cuidar da propaganda eleitoral de 2002, Duda recebeu parte do pagamento — 5 milhões de dólares — em depósitos clandestinos no exterior. Era o início do até então maior escândalo de corrupção da história.

Sob os holofotes do Congresso, Duda mostrou extratos, ditou o nome dos bancos estrangeiros e os valores ocultos pagos lá fora. A história do partido mudaria para sempre desde então. Seus líderes — definidos pelos ministros do Supremo Tribunal Federal como “profanadores da República” — foram julgados, condenados e enviados à cadeia.

No auge da crise, o PT temeu sucumbir à gravidade dos seus pecados, mas resistiu, reelegeu Lula, elegeu e reelegeu Dilma Rousseff, mas, ao que parece, não aprendeu nada com o susto do mensalão.

Em acordo de delação premiada, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, um dos executivos da japonesa Toyo Setal, confirmou que participava de um cartel de empresas que comandava as obras da Petrobras e, em contrapartida, entregava uma parte de seus ganhos aos partidos do governo — exatamente como disseram o ex-diretor Paulo Roberto e o doleiro Youssef.

No caso da empresa japonesa, o “acerto” era feito com o diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque. Militante petista, Duque foi alçado ao posto por indicação do mensaleiro José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, atualmente cumprindo pena de prisão por corrupção.

Duque seria o responsável por coletar a parte do PT junto às empreiteiras que integravam o chamado “clube” do bilhão. Era ele também que decidia os valores que deveriam ser repassados diretamente ao partido.

“Os pagamentos se deram de três formas: parcelas em dinheiro, remessas a contas indicadas no exterior e doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores”, declarou o empresário.

Definidos os porcentuais e a metodologia de distribuição, os detalhes eram combinados com o tesoureiro do PT, João Vaccari.

É desse trecho do depoimento que eclode uma constatação de estremecer: o delator confirmou que a Toyo Setal enviou parte do dinheiro roubado da Petrobras ao caixa eleitoral do PT, simulando uma doação legal.

24 de nov. de 2014

E a grana da Petrobras? As formigas comeram! - Ricardo Noblat, para O Globo

BRASIL – Opinião
E a grana da Petrobras? As formigas comeram!
Dilma não viu com a antecedência desejável um dos piores negócios feitos pela empresa


A empreiteira Mendes Júnior, por exemplo, recebeu um adicional de R$ 65 milhões pagos pela Petrobras por causa da saúva-preta, que teria atrasado uma obra em 15 dias.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Ricardo Noblat
Fontes: Blog do Noblat

Há muitas perguntas sobre o escândalo da Petrobras que suplicam por respostas.

A mais óbvia: é possível que Dilma ignorasse o mar de lama capaz de afogar a empresa que ela sempre controlou desde o primeiro governo do presidente Lula?

Pois antes de suceder José Dirceu na chefia da Casa Civil, Dilma foi ministra das Minas e Energia. Presidiu o Conselho de Administração da Petrobras entre 2003 e 2010.

Nada de relevante se faz na Petrobras sem autorização prévia do Conselho.

Ao deixar o Conselho em março de 2010 para concorrer à presidência da República, Dilma comentou que se sentia feliz pelo que fizera.

“É um orgulho passar pelo Conselho de Administração da Petrobras, e maior ainda presidi-lo”, disse. “Você tem uma nova visão do Brasil. Vê a riqueza do Brasil”.

De fato, ela viu. O que não viu, como diria mais tarde, foi por culpa dos outros. Ela é inocente. Completamente.

Não viu com a antecedência desejável um dos piores negócios feitos pela Petrobras – a compra da refinaria Pasadena, nos Estados Unidos.

Ela pertencia à empresa belga Astra Oil, que a comprara em 2005 por US$ 42,5 milhões.

Um ano depois, a Petrobras pagou US$ 360 milhões. E só por 50% da refinaria. Três anos depois, pagou mais US$ 639 milhões pelos outros 50%. Demais, não?

Os jornais belgas celebraram a venda da Pasadena à Petrobras como o negócio do século. Para a Astra Oil, é claro.

Dilma alegou no ano passado que se baseara em “informações incompletas” e em um parecer técnico “falho” para aprovar a compra da primeira metade da refinaria.

E nós com isso?

O Procurador Geral da República aceitou a alegação e culpou a diretoria da Petrobras pelo mau negócio. O Tribunal de Contas da União (TCU) também livrou a cara de Dilma.

Foi Lula quem disse que Dilma era melhor gestora do que ele. Imagine!

No dia 29 de setembro de 2009, segundo a edição mais recente da revista VEJA, Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da Petrobras, informou a Dilma por e-mail que o TCU havia recomendado ao Congresso a paralisação das obras das refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e Getúlio Vargas, no Paraná, e de um terminal petrolífero no Espírito Santo.

Esquisito comportamento, o de Paulo Roberto. Por que se dirigiu a Dilma se era subordinado a José Sérgio Gabrielle, presidente da Petrobras?

No dia seguinte, Dilma reclamou de público da determinação do TCU de paralisar obras do governo federal: “É impossível a paralisação. Os custos são grandes”. Lula deu-lhe razão.

Quase quatro meses depois, Lula vetou uma decisão do Congresso que suspendia a execução de quatro obras da Petrobras salpicadas de fortes indícios de corrupção apontados pelo TCU.

Em momento algum, Lula falou em corrupção. Ao justificar seu veto, preferiu se referir vagamente a “pendências”, informa o jornal O Estado de S. Paulo.

O veto acabou mantido pelo Congresso de folgada e bovina maioria governista.

Graças à decisão de Lula, a Petrobras injetou mais de R$ 13 bilhões nas refinarias de Abreu e Lima e Getúlio Vargas, e em complexos petroquímicos do Rio de Janeiro e de Barra do Riacho, no Espírito Santo.

As quatro obras foram superfaturadas. A de Abreu e Lima começou custando R$ 2 bilhões. Está por R$ 20 bilhões.

Nos governos de Lula e Dilma, a Petrobras virou o maior cliente das empreiteiras cujos donos e principais executivos acabaram presos há 10 dias.

Por sinal, Lula viaja pelo mundo à custa das empreiteiras e na condição de lobista delas.

O TCU calcula que a Petrobras nos últimos quatro anos fechou negócios no valor de R$ 70 bilhões. Desse total, cerca de 60% não dependeram de licitação. De nenhuma licitação. A lei permite que a Petrobras proceda assim.

Um negócio no Espírito Santo, por exemplo, rendeu à empreiteira Mendes Júnior o adicional de R$ 65 milhões pagos pela Petrobras por causa da saúva-preta, uma espécie de formiga em extinção cuja descoberta teria atrasado a obra em 15 dias.