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21 de fev. de 2015

Quem se importa com o dinheiro manchado de sangue que deu à Beija-Flor o título de campeã? - Ricardo Noblat

BRASIL – Opinião
Quem se importa com o dinheiro manchado de sangue que deu à Beija-Flor o título de campeã?
Reportagem de Mariana Sanches publicada pelo O Globo, registrou a reação ao episódio de o principal defensor dos direitos humanos da Guiné Equatorial, Tutu Alicante, que vive exilado nos Estados Unidos:
- O carnaval da Beija-Flor é um insulto para o povo da Guiné Equatorial.

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Ricardo Noblat
Fonte: Blog do Noblat



Um Estado permissivo e uma sociedade tolerante por natureza ajudam a entender por que foi possível a uma das ditaduras mais sangrentas do mundo, a da Guiné Equatorial, se associar à escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, 13 vezes campeã do carnaval do Rio de Janeiro, a que mais coleciona títulos na Era do Sambódromo.

Uma vez perguntaram ao prefeito Eduardo Paes o que ele achava das ligações entre as escolas de samba e os chefes do jogo do bicho, proibido por lei. Cito de memória a resposta dele:

- É chato, não é? Mas o que posso fazer? Acabar com o carnaval do Rio?

Os antecessores de Paes devem ter pensado assim, bem como ex-chefes de polícia, ex-governadores, juízes, desembargadores, empresários, socialites, artistas, e parte do distinto público acostumado a fazer sua fezinha no bicho. Se nem o Estado nem a iniciativa privada bancavam as escolas por que não os bicheiros?

Quantas vezes eles não desfilaram a frente de suas escolas, festejados por notáveis que os admiravam e tiravam vantagens de sua amizade?

Quantas vezes não foram ovacionados pelos que lotavam camarotes, frisas e arquibancadas do Sambódromo?

Quantos favores não prestaram? E a quantos não beneficiaram?

Depois que os mais importantes bicheiros foram presos em janeiro de 1993 por ordem da juíza Denise Frossard, presos novamente em 2007, dessa vez pela Polícia Federal, e condenados em 2012 pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, poucos entre eles se arriscaram a ser vistos novamente na Sapucaí. A morte tirou vários de circulação.

Mas na última segunda-feira, no desfile do Grupo Especial, uma das cabeças da máfia do jogo do bicho passeou sem constrangimento no Sambódromo pilotando um carro elétrico – o contraventor Anísio Abrahão, presidente de honra da Beija-Flor. A televisão mostrou.

Foi dele a última palavra que fechou a parceria da ditadura da Guiné Equatorial com a escola.

Mariana Sanches, em reportagem publicada, hoje, pelo O Globo, registrou a reação ao episódio de o principal defensor dos direitos humanos da Guiné Equatorial, Tutu Alicante, que vive exilado nos Estados Unidos:

- O carnaval da Beija-Flor é um insulto para o povo da Guiné Equatorial.

Alicante explicou a razão. Cerca de 75% da população de 1,6 milhão de pessoas do seu país vivem com apenas dois dólares por dia e não têm acesso à água limpa ou à saúde.

“Nada disso foi para a avenida na madrugada de terça-feira, quando a escola desfilou as “belezas” da Guiné Equatorial”, acusa.

Mônica perguntou se as pessoas por lá já sabem o que aconteceu. Resposta de Alicante:

- Não há jornais lá. Não existe imprensa livre na Guiné. As pessoas não sabem o que está acontecendo nem oficial nem extraoficialmente. Não existe nenhuma rádio ou emissora de televisão livres. O Facebook é bloqueado, assim como a maior parte dos sites de informação.

E um cidadão médio do país? Como vive? Alicante:

- Obiang [ditador há 35 anos] tem pelo menos 17 palácios. 75% da população não têm onde morar, não estuda, não têm água limpa. Se ficar doente, morre. Medicamentos básicos são inacessíveis. Há uma única universidade no país, sem alunos. Nos últimos dois ou três anos, pelo menos 60 mil pessoas foram sequestradas, executadas ou torturadas na Guiné.

Quem por aqui se importa verdadeiramente com isso?

8 de fev. de 2015

O custo da corrupção

BRASIL – Opinião
O custo da corrupção
Se todo o dinheiro fosse recuperado, se fosse possível encontrar um valor exato do que foi subtraído da Petrobras, ainda assim não seria o custo total da corrupção. Ela é muito mais cara. A Petrobras e o Brasil perderam reputação. Tente calcular o custo de reconstrução da imagem do país que permitiu que sua maior empresa fosse assaltada para beneficiar o partido governista e aliados.

Charge: Nani

Postado por Toinho de Passira
Opinião de Miriam Leitão
Fonte: O Globo

Qual o custo da corrupção? Pergunta difícil de responder em números exatos. Hoje, o Brasil já sabe que o preço é intolerável: a maior empresa do país à beira de um precipício, o custo Brasil subindo, o aprofundamento da recessão, risco de contágio de inúmeras empresas. Apesar disso, o governo decidiu abrir a temporada de loteamento de cargos nas estatais e no segundo escalão.

Naquele terreno fugidio entre a economia e a política, as notícias passam e, às vezes, as pessoas nem somam o que acontece nos dois lados. Na política, a presidente está fraca porque foi derrotada na eleição para a Câmara dos Deputados. Além disso, sua articulação política conseguiu a proeza de não ter nenhum petista na mesa da Casa.

Na economia, a maior empresa do país corre perigo pelo saque comandado pelos indicados políticos. A presidente, então, para se fortalecer na política, manda seus articuladores dizerem que fará a distribuição dos cargos do segundo escalão e das empresas públicas em troca de apoio político. Mas se a maior crise do país vem justamente como efeito colateral do loteamento, como se pode falar em mais distribuição de cargos por esse mesmo critério?

Do ponto de vista contábil, os auditores tentam medir a corrupção e têm tido problemas. No demonstrativo financeiro da Petrobras foi dito que pode ser alguma coisa entre R$ 4,06 bilhões e R$ 88,6 bi. O primeiro número foi encontrado através de uma conta simples: 3% do valor dos contratos que pagaram comissão, segundo depoimento de Paulo Roberto Costa.

O outro, a diferença entre o valor justo e o valor contábil de 31 dos 52 ativos analisados. Nem tudo é corrupção. Parte desse sobrepreço pode ser resultado de outras ineficiências. Mesmo assim se sabe que a corrupção leva à ineficiência. Para que um contratante, que teve que pagar propina para ganhar uma concorrência, terá interesse em ser eficiente? E o funcionário corrupto, que interesse terá em que o valor sobre o qual incide seu percentual seja menor? Os preços e custos vão para cima e para o alto sempre, em ambiente corroído pelo veneno da corrupção.

Não é trivial fazer o que a Petrobras está tentando junto com seus auditores e com a orientação técnica da CVM e da SEC: saber exatamente como calcular um custo que, pela sua natureza, foge à contabilidade. Nessa direção é que a Petrobras vinha trabalhando desde novembro do ano passado com a PricewaterhouseCoopers (PwC). Agora, a auditoria vai trabalhar com Aldemir Bendine e seus diretores. Qualquer que seja o compromisso que Bendine assumiu de reduzir o valor do abatimento nos ativos, ele terá que seguir normas técnicas dos órgãos reguladores.

Mas, quando houver o número exato da baixa contábil, ainda assim não será o custo da corrupção. O que impressiona neste caso revelado pela Operação Lava-Jato é que foi montado um conglomerado de corrupção. Havia uma holding e depois centros subsidiários de exploração, extração, refino e distribuição de propina. Portanto, a busca do dinheiro perdido é necessária, mas nunca estará completa.

Se todo o dinheiro fosse recuperado, se fosse possível encontrar um valor exato do que foi subtraído da Petrobras, ainda assim não seria o custo total da corrupção. Ela é muito mais cara. A Petrobras e o Brasil perderam reputação. Tente calcular o custo de reconstrução da imagem do país que permitiu que sua maior empresa fosse assaltada para que fossem instalados dinheirodutos para os partidos governistas. O Brasil precisará lutar contra a convicção de que é um país de corrupção endêmica, porque isso afasta investidores.

Se ainda assim fosse possível quantificar o dinheiro tirado da Petrobras, os sobrepreços causados direta ou indiretamente pelo ambiente de corrupção que se instalou na empresa, a deterioração da imagem da empresa e do país, o custo da piora do risco Brasil, não seria o preço total da corrupção.

Seria preciso contabilizar também o intangível custo da depreciação do ativo maior: a confiança na democracia. Como evitar que os brasileiros comecem a perder a fé na democracia? O que se vê são os intestinos de um esquema que transformou a mais mítica das empresas brasileiras em local de botim do partido que nos governa e seus aliados. Esse ataque à Petrobras nos tem tirado mais do que podemos calcular.

2 de fev. de 2015

Dilma prova o gosto amargo da derrota - Ricardo Noblat para O Globo

BRASIL – Opinião
Dilma prova o gosto amargo da derrota
Dilma não precisava ter colhido na Câmara uma derrota tão amarga no início do seu segundo governo, enquanto só faz esquentar o escândalo da Petrobras. Mas o que mais apavorava o governo: é atribuição do presidente da Câmara de receber ou ignorar pedidos de impeachment do presidente da República. Dilma detesta Eduardo. Sempre o tratou mal. Lula sugeriu que ela fizesse um acordo com Eduardo ou se mantivesse distante da eleição na Câmara. Ela não ouviu e se deu mal.

Foto: Arquivo

Dilma Rousseff contabilizando problemas

Postado por Toinho de Passira
Opinião Ricardo Noblat
Fonte: O Globo

O governo da presidente Dilma Rousseff amanheceu ontem sem dispor de uma resposta satisfatória para a indagação que corria de boca em boca entre ministros de Estado e líderes do PT desde o início da semana passada.

A saber: O que seria pior? Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se eleger presidente da Câmara dos Deputados para um mandato de dois anos? Ou ser derrotado e permanecer como líder do seu partido na Câmara?

O presidente da Câmara é o segundo na linha de sucessão do presidente da República. Em caso de ausência simultânea do presidente e do vice, é ele quem assume.

No comando de 513 deputados e de um orçamento de R$ 5,1 bilhão, cabe a ele definir que projetos serão votados, e quando serão votados.

Instalação de CPIs depende dele, que pode arquivar ou dar seguimento a pedidos de cassação de mandatos por quebra de decoro.

Agora, o que mais apavorava o governo: é atribuição do presidente da Câmara receber ou ignorar pedidos de impeachment do presidente da República.

Dilma detesta Eduardo. Sempre o tratou mal. Considera Eduardo um dos deputados mais fisiológicos da Câmara.

Não o perdoa por ter contribuído para derrotas do governo em votações importantes. E não quis pagar preço algum para tentar convertê-lo em aliado.

Se tivesse ouvido Lula, ela teria procedido de outra forma. Ou teria feito um acordo com Eduardo ou se mantido distante da eleição na Câmara.

Mas, não. Dilma mobilizou a máquina do governo para derrotar Eduardo. E acabou conferindo-lhe o rótulo de candidato da oposição – embora a oposição propriamente dita apoiasse a candidatura a presidente do deputado Júlio Delgado (PSB-MG).

Dilma imaginou eleger um candidato do PT – e perdeu.

Ao cair da noite do domingo, só havia uma duvida: contra Arlindo Chinaglia (SP), candidato do PT a presidente, o PSDB de Aécio Neves ajudaria a eleger Eduardo logo no primeiro ou no segundo turno?

A oposição dava como certa a derrota de Júlio. E estava disposta em votar em Eduardo para vencer o PT e o governo. Foi o que fez.

No Senado, tentara impedir a reeleição de Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidente. Em vão.

Donos e executivos de empreiteiras presos em Curitiba cansaram de esperar um sinal dela ou de Lula de que há vontade de socorrê-los.

Não querem mofar na cadeia, destino reservado ao ex-publicitário mineiro Marcos Valério, um dos cérebros do mensalão.

De fato, eles só têm uma saída: em troca de penas menores, contar tudo o que sabem sobre o esquema de desvio de dinheiro da Petrobras para financiar a base de sustentação do governo no Congresso e abastecer o Caixa 2 dos partidos.

O caso deverá chegar em Lula. E em Dilma. Foi Lula que nomeou o delator Paulo Roberto Costa para diretor da Petrobras. Ali, ele pintou o diabo. Dilma conviveu amistosamente com Paulo Roberto durante anos a fio.

Por ora, não convidem Lula e Dilma para a mesma mesa.

Lula está certo que Dilma nada faz para salvá-lo, além de não levar em conta seus conselhos.

De sua parte, Dilma não se conforma em ter herdado dele a brutal enrascada da da Petrobras. Mantém Graça Foster na presidência da empresa para que ela siga limpando a cena do crime e apanhando no seu lugar.

Para aflição de Dilma e Lula, é no meio desse imbróglio que se encaixará o novo e poderoso presidente da Câmara dos Deputados. Bom dia, Eduardo!

17 de jan. de 2015

Petrobras, a corrupção continua - Merval Pereira

BRASIL – Opinião
Petrobras, a corrupção continua
Não importa o argumento do Ministro das Minas e Energia Eduardo Braga de que não há nenhuma acusação contra a atual presidente da Petrobras ou diretores, pois a responsabilidade dos dirigentes da Petrobras é muito clara, e se eles são incapazes de controlar os desvios já denunciados e comprovados, não podem continuar onde estão.

Charge: Paixão - 'Gazeta do Povo' (CE)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

A denúncia dos Procuradores da Operação Lava Jato sobre indícios de que a corrupção não foi estancada na Petrobras, mesmo depois de todas as prisões realizadas e de todas as investigações que estão sendo feitas, é a mais grave que poderia surgir a esta altura dos acontecimentos, e justificaria a demissão sumária de toda a diretoria atual da estatal, a começar pela presidente Graça Foster.

Não importa o argumento do Ministro das Minas e Energia Eduardo Braga de que não há nenhuma acusação contra a atual presidente da Petrobras ou diretores, pois a responsabilidade dos dirigentes da Petrobras é muito clara, e se eles são incapazes de controlar os desvios já denunciados e comprovados, não podem continuar onde estão.

Outra coisa é a bobagem dita pelo advogado de Nestor Cerveró, que quis comparar a situação de seu cliente com a do presidente Graça Foster, que também transferiu seus bens para familiares. A prisão preventiva é uma medida cautelar necessária para conter o arroubo do Cerveró em se livrar dos bens. Mas Graça Foster não está sequer sendo investigada, portanto, não há nenhum impedimento legal para que ela aliene os seus bens, o que não impede o Ministério Público, havendo indícios de improbidade administrativa, de pedir ao Judiciário a anulação das alienações, notadamente as doações.

O termo “estancado” usado pelos Procuradores parece ser uma resposta direta à presidente Dilma que em setembro do ano passado, depois de definir como “estarrecedor” esquema criminoso da Petrobrás, saiu-se com essa: “Se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, eu posso garantir que todas, vamos dizer assim, as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas”. Foi a primeira vez em que ela admitiu que poderia ter havido “sangrias” na Petrobras. E arrematou a declaração com uma confissão surpreendente para quem, há 12 anos atua na área, tendo sido presidente do Conselho de Administração da Petrobras: “Eu não tinha a menor idéia de que isso ocorria dentro da empresa”.

Em artigo em um site especializado em Direito, o Migalhas, Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa, professor de Direito Comercial da Faculdade de Direito da USP, analisa a responsabilidade do controlador de uma empresa estatal como a Petrobras, de economia mista. Ele cita o artigo 117 da Lei das Sociedades Anônimas, que define que ele responde pelos danos causados por atos praticados com abuso de poder, dos quais o dispositivo no seu parágrafo 1º dá alguns exemplos, entre tantas situações que podem ocorrer:

a) orientar a companhia para fim estranho ao objeto social ou lesivo ao interesse nacional, ou levá-la a favorecer outra sociedade, brasileira ou estrangeira, em prejuízo da participação dos acionistas minoritários nos lucros ou no acervo da companhia, ou da economia nacional. Ele enquadra nesse item o porto em Cuba e a compra da refinaria de Pasadena.

e) induzir, ou tentar induzir, administrador ou fiscal a praticar ato ilegal, ou, descumprindo seus deveres definidos nesta Lei e no estatuto, promover, contra o interesse da companhia, sua ratificação pela assembleia-geral.

Os dirigentes das empresas e os membros de seu Conselho de Administração têm também o dever de diligência, ressalta o professor, pelo qual o administrador da companhia deve empregar, no exercício de suas funções, o cuidado e diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração dos seus próprios negócios.

A própria palavra diligência, diz ele, mostra que o papel do administrador é ativo e não passivo. “Ele não pode ficar sentado atrás da sua mesa esperando tomar conhecimento do que acontece na sociedade que gere e exercer a sua função na medida em que cheguem papéis para a sua assinatura. Principalmente no que diz respeito ao conselheiro de administração essa diligência envolve estar sempre atento e não somente isto, ele deve sair atrás de informações e não apenas aguardar que elas cheguem. Para tanto ele tem todos os poderes necessários”.

Para deixar clara a responsabilidade dos dirigentes e conselheiros de uma empresa de economia mista, Haroldo Malheiros Duclerc Verçosa pergunta aos diretores e conselheiros: “Cadê os relatórios críticos e sua discordância expressa em relação ao grande baile da Ilha Fiscal? (...) onde estão os seus votos divergentes, seus pareceres contrários, sua inconformidade, afinal de contas?
*Alteramos o título, acrescentamos subtítulo e charge à publicação original

13 de jan. de 2015

Golpe baixo, a quem interessa envolver os tucanos no petrolão?

BRASIL – Opinião
Golpe baixo,
a quem interessa envolver os tucanos no petrolão?
Não é a primeira vez que o doleiro Yousseff é usado para culpar o PSDB. Em outubro do ano passado, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial, Leonardo Meirelles, tido como testa de ferro do doleiro nas indústrias farmacêuticas Labogen, afirmou que Yousseff mantinha negócios com o PSDB e com ex-presidente nacional do partido senador Sérgio Guerra (PE), morto em março daquele ano.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fontes: Blog do Merval

A informação do advogado Antônio Figueiredo Basto, responsável pela defesa do doleiro Alberto Youssef, de que seu cliente nunca enviou dinheiro nem para o ex-governador de Minas e atual senador Antonio Anastasia, nem para o deputado federal Eduardo Cunha, mais do que inocentar os dois parlamentares nesse caso, traz à tona novamente a utilização política do processo do petrolão.

Quem induziu o policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca, a denunciar os dois parlamentares tinha objetivos claros: inviabilizar a candidatura de Cunha à presidência da Câmara, e atingir o presidente do PSDB, senador Aécio Neves. Os dois movimentos têm um beneficiário direto, o Palácio do Planalto, que de uma cajadada matava dois coelhos. Tirava do páreo o favorito para presidir a Câmara contra sua vontade, e atingia o senador Aécio, a principal liderança oposicionista no momento, depois de ter saído da disputa presidencial com uma votação consagradora.

Essa não é a primeira vez que o doleiro Yousseff é usado para culpar o PSDB. Em outubro do ano passado, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial, Leonardo Meirelles, tido como testa de ferro do doleiro nas indústrias farmacêuticas Labogen, afirmou que Yousseff mantinha negócios com o PSDB e com ex-presidente nacional do partido senador Sérgio Guerra (PE), morto em março daquele ano.

Da mesma forma que está fazendo agora, o criminalista Antônio Figueiredo Basto negou a veracidade do depoimento e pediu sua impugnação. Não se pense que Yousseff tem algum interesse especial em defender o PSDB, tanto que ele também isentou neste caso o deputado do PMDB Eduardo Cunha. O que o doleiro teme é que seu acordo de delação premiada seja colocado em dúvida pelo Ministério Público que investiga a operação Lava Jato sob a coordenação do juiz do Paraná Sérgio Moro.

A delação de Yousseff foi homologada, no fim do ano passado, pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, e isso significa que tudo o que ele contou à Justiça foi provado verdadeiro, ou pelo menos deu pistas verdadeiras para as investigações avançarem. Se não citou nem Cunha nem Anastasia, e agora surge a versão do policial Jayme Careca, que era um dos entregadores do dinheiro para o doleiro, o mínimo que se poderia imaginar é que Yousseff protegeu alguns clientes especiais em seu depoimento.

Careca, ao contrário, prestou depoimento e foi solto, não estando sob as condições da delação premiada. Sua denúncia não precisa necessariamente ser verdadeira na integralidade, pelo menos para efeitos de benefícios posteriores, como sucede na delação premiada. Agora, será preciso saber a quem ele estava servindo ao colocar entre os recebedores de dinheiro de Yousseff dois adversários da hora do Palácio do Planalto.

A utilização política do caso só cessará quando a Procuradoria-Geral da República apresentar a lista oficial dos que considera envolvidos de fato no escândalo do petrolão. Até lá, os políticos estarão sujeitos a efeitos colaterais como jogadas sujas como essa.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

Lula está nas mãos de Dilma- Ricardo Noblat, para O Globo

BRASIL – Opinião
Papeis invertidos: Lula está nas mãos de Dilma.
Ex-presidente depende mais da presidente do que ela dele.Lula quis suceder Dilma a partir deste ano. Dilma não deixou, e se reelegeu. Uma parte do PT, possivelmente a maior, quer Lula candidato à vaga de Dilma na eleição presidencial de 2018. Dependerá outra vez de Dilma.

Foto: Divulgação

Lula chorando o leite derramado?

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Ricardo Noblat
Fonte: Blog do Noblat

Nem sempre o ano novo começa em 1º de janeiro. O ano político de 2015 começou, de fato, ontem, com a entrevista da senadora Martha Suplicy à jornalista Eliane Cantanhede, de O Estado de S. Paulo.

É necessário digeri-la bem para acompanhar a luta surda entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula pelo controle não só do PT como dos seus principais aliados com vistas à eleição de 2018.

Lula quis suceder Dilma a partir deste ano. Dilma não deixou, e se reelegeu. Uma parte do PT, possivelmente a maior, quer Lula candidato à vaga de Dilma na eleição presidencial de 2018. Dependerá outra vez de Dilma.

Na montagem do seu novo governo, ela deu um chega para lá em nomes indicados por Lula ou a ele ligados. Por ora, Aloizio Mercadante, chefe da Casa Civil da presidência da República, parece contar com a preferência de Dilma para sucedê-la.

Lula a tudo observa sem adiantar suas pretensões.

Lula precisa mais de Dilma do que ela, no momento, precisa dele. Precisa que ela seja bem-sucedida. Se não for, a conta do seu fracasso lhe será debitada. E com razão.

Não foi Lula que inventou a história de Dilma, “a excepcional gestora?” Uma gestora até melhor do que ele? Não foi Lula que pregou: “Votem na mulher”? E não foi a ideia da “mulher de Lula” que atraiu os milhões de votos que em 2010 elegeram Dilma e derrotaram José Serra, do PSDB?

E então? Não bastará que ela governe bem. É preciso também que o apoie.

Agamenon Magalhães, governador de Pernambuco nos anos 50 do século passado, dizia que “ninguém governa governador”. Ninguém preside presidente. A não ser que ele seja um “banana”.

Dilma pode ser tudo, mas uma banana não é. Foi capaz de se impor a Lula e barrar seus passos no caminho de volta à presidência. Resistiu à pressão de Lula para que mudasse sua equipe econômica no segundo semestre de 2013.

Se tivesse cedido, Lula poderia tê-la atropelado, saindo candidato. Mudou a equipe agora. E escalou quem quis.

Dilma só precisará de Lula se por acaso for mal e enfrentar problemas com as ruas. “Lula está fora, totalmente fora”, comentou Martha. Mas ele ainda é o dono da chave dos movimentos sociais, todos dependentes dos favores do governo.

E é Lula, Dilma não, quem melhor transita entre os partidos que sustentam o governo dentro do Congresso. A insatisfação deles com a repartição de poder feita por Dilma só perde para a do PT lulista.

Se Dilma fracassar, Lula fracassará com ela pela absoluta impossibilidade de se desmarcar de sua criatura. Quem está, portanto, numa sinuca de bico é Lula e não Dilma.

O sucesso dela não será obrigatoriamente o sucesso dele. Mas o fracasso será, sim.

Enquanto isso, Mercadante espreita tudo de perto. E dá-se ao luxo de dizer que seu candidato à vaga de Dilma é Lula. Martha desmente que seja.

Lula acha que Mercadante sequestrou o governo. Martha detesta Mercadante, despreza Dilma e está magoada com o PT.

“Mercadante é inimigo. Rui Falcão, presidente do PT, traiu o partido. E o partido se acovardou ao recusar o debate sobre quem era o melhor [candidato] para o país, mesmo sabendo das limitações de Dilma”, espicaça Martha. “Já no primeiro dia [do segundo governo Dilma] vimos um ministério cujo critério foi a exclusão de todos que eram próximos de Lula”.

A senadora sente-se marginalizada dentro de um partido “cada vez mais isolado e que luta apenas pela manutenção do poder”. Pensa em deixá-lo. Talvez em breve.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

4 de jan. de 2015

A foto é o fato - Miriam Leitão

BRASIL – Opinião
A foto é o fato
A presidente fez um discurso propondo um pacto de combate à corrupção e há pessoas na sua foto oficial envolvidas em casos nebulosos. Há os que dizem que assim ela garante a “governabilidade” e o apoio no Congresso, mas um novo escândalo a fragilizará, por isso teria sido mais prudente ter maior rigor na nomeação dos seus ministros.


Dilma e seu enorme e fraco ministério

Postado por Toinho de Passira
Texto de Miriam Leitão
Fonte: Blog da Miriam Leitão

A presidente Dilma escolheu um ministério fraco, no geral, e quis fortalecer a economia. O maior sinal da contradição entre o anúncio de ajuste fiscal e seu desejo de nada ajustar está na foto do Ministério. Olha-se para a foto da posse e o que se vê é um Ministério inchado, com o extravagante número de 39 titulares. Austeridade não combina com aquele grupo mastodôntico.

O ministro Nelson Barbosa, na sua posse ontem, falou de um tabu: mudar a fórmula de calcular o salário mínimo. Teve o cuidado de garantir que ele vai continuar aumentando acima da inflação, mas essa será uma dura batalha. O atual governo criou a fórmula de dupla indexação do mínimo, à inflação e ao crescimento. Isso faz subir o salário e elevar o gasto da Previdência. Mas como mexer nisso se a presidente fala em fazer ajuste e não revogar direitos? Mesmo se conseguir fazer o ajuste que está começando a anunciar, a equipe econômica não fará milagres sozinha.

A presidente fez um discurso propondo um pacto de combate à corrupção e há pessoas na sua foto oficial envolvidas em casos nebulosos. Há os que dizem que assim ela garante a “governabilidade” e o apoio no Congresso, mas um novo escândalo a fragilizará, por isso teria sido mais prudente ter maior rigor na nomeação dos seus ministros.

Outros ministros são apenas escolhas das quais não se espera muito, ainda que seja possível torcer para que eles surpreendam. O novo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, está nesse grupo. Ele chefiou a missão em Washington sem conseguir melhorar as relações comerciais e políticas bilaterais. Por um desses atalhos que a burocracia permite, ou talvez por sorte, Mauro Vieira foi poupado de postos menos importantes. Já foi logo nomeado para Buenos Aires e depois Washington, que são considerados os melhores lugares da diplomacia brasileira.

Difícil lembrar marca importante que ele tenha deixado na passagem pelas duas embaixadas. A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos tem sido deficitária para nós, não há qualquer avanço notável em acordos, setoriais que seja, e nenhum dos ruídos entre os dois países foi removido. É torcer para que ele surpreenda.

Na categoria persistir no erro está a ministra Izabella Teixeira. Ela é avaliada pelos ambientalistas como a ocupante do cargo nos governos petistas que teve o pior desempenho. Em seu período, houve redução do tamanho das áreas de conservação, o menor índice de criação de novas áreas desde o governo militar e uma inversão da curva de desmatamento.

A escolha de Aldo Rebelo para o Ministério da Ciência e Tecnologia será um atraso em áreas em que estamos atrasadíssimos, como ciência, tecnologia e inovação. Ele pode ter se arrependido do projeto de proibir inovações que reduzissem emprego, mas é recente sua declaração pública de não acreditar que as mudanças climáticas sejam, como sustentam os cientistas da ONU, resultado da ação humana. Juntos, Rebelo e Izabella podem levar o Brasil a uma situação constrangedora em Paris, no fim do ano, quando o mundo terá a mais decisiva reunião do clima.

Na Controladoria-Geral da União, a presidente optou por Valdir Simão, que era braço direito do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante. Deveria ter buscado alguém independente que pudesse confirmar a ideia de que Dilma combaterá a corrupção. Ficou o temor de que a Controladoria será controlada pelo governo.

O Ministério é enorme e fraco. A área econômica para fazer o ajuste fiscal terá que tocar em temas sensíveis. Estará cercada de colegas que não têm qualquer compromisso com esse ajuste. Missão difícil.

1 de jan. de 2015

Dilma sob ataques - Merval Pereira, O Globo

BRASIL – Opinião
Dilma sob ataques
A esquerda do PT está se sentindo afastada da composição desse 2º Ministério, e acha que a direita tomou conta do governo. Há setores da esquerda, dentro e fora do PT, que não apoiam Dilma por tomar medidas que criticava nos seus adversários na campanha, e este é um fato que denota a incongruência de um governo que tem de abandonar crenças ideológicas na economia para reverter situação desastrosa que ele mesmo criou.

Charge: Lailson

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

A questão central é que mexer em valores importantes para trabalhadores e sindicalistas dá a sensação de que o governo está traindo seus eleitores, ao mesmo tempo que dá margem a que o PSDB assuma um modo petista de fazer oposição.

Mas na verdade o governo está fazendo o que tinha de fazer mesmo, há distorções no seguro-desemprego, no sistema de pensões, e em diversos outros mecanismos de benefícios sociais; é necessário, mas desgastante, dar uma controlada nisso. A ideia é economizar cerca de R$ 18 bilhões/ano, o que não é pouca coisa para um país que está precisando desesperadamente cortar custos.

Mas mexe com interesses de sindicalistas, que já estão muito agitados, e com políticos também. Até setores do PMDB estão questionando as medidas, chamando a atenção para o fato de que o governo começa a cortar custos pelos trabalhadores, e não pelos gastos excessivos da máquina governamental.

A esquerda do PT está se sentindo afastada da composição desse 2º Ministério, e acha que a direita tomou conta do governo. Há setores da esquerda, dentro e fora do PT, que não apoiam Dilma por tomar medidas que criticava nos seus adversários na campanha, e este é um fato que denota a incongruência de um governo que tem de abandonar crenças ideológicas na economia para reverter situação desastrosa que ele mesmo criou.

Dilma está tomando medidas que mudam a direção que apontou nos discursos na campanha eleitoral, mas não são medidas “de direita”, como equivocadamente apontam seus críticos internos, mas medidas necessárias para recuperar o equilíbrio das contas públicas.

Ao que tudo indica, teremos pela primeira vez um déficit fiscal ao final deste 2014, pois, para chegarmos a um superávit de R$ 10 bilhões anunciado pelo (ainda) ministro Guido Mantega, teríamos que ter um superávit de quase R$ 30 bilhões em dezembro, o que é inviável a esta altura, pelo menos sem malabarismos fiscais.

Dilma já anunciou que vai abrir o capital da Caixa para investimentos privados e precisa fazer isso mesmo, pois o governo não tem dinheiro. O problema é que ela não terá o apoio nem do PT, já liberado por Lula para críticas, nem dos movimentos sociais, que, ao contrário, estarão mobilizados em ação conjunta de Lula com líderes sindicais para ir às ruas defender os interesses da esquerda.

Isso quer dizer que, a pretexto de defender o governo do ataque da “direita”, esses movimentos sociais estarão indo contra setores encastelados no Ministério de Dilma, como Gilberto Kassab (PSD), que nas Cidades terá que dialogar Guilherme Boulos, do Movimento dos Sem Teto, o novo enfant terrible da esquerda brasileira.

A futura ministra da Agricultura, Kátia Abreu, também terá que se confrontar com João Pedro Stédile e o MST, que prometeu guerra nas ruas caso Aécio Neves vencesse a eleição, e vê a presidente da Confederação Nacional da Agricultura como uma inimiga tão grande quanto o candidato tucano, com o agravante de estar dentro do governo.

Ao lado disso, o governo não contará com o apoio da oposição, ao contrário do que aconteceu no início do primeiro governo Lula. A Força Sindical, que apoiou Aécio na eleição, vai se juntar aos demais sindicatos ligados ao PT para combater as mudanças nas regras de concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários, que considera nocivas aos trabalhadores.

A Força Sindical toca num ponto nevrálgico: o país vive expectativa de aumento de desemprego, de inflação e dos juros, e as novas medidas serão adotadas nesse novo ambiente econômico de crise.

O PSDB está disposto a ser oposição até mesmo a Joaquim Levy, que veio de suas hostes. O deputado Antonio Imbassahy já deu a direção ao dizer que as medidas representam o “neoliberalismo petista, que provocará desemprego e prejudicará os trabalhadores”.

O próprio presidente do PSDB, senador Aécio Neves, soltou uma nota afirmando que a presidente “faz agora o impensável: coloca em prática as suas medidas impopulares, prejudicando aqueles que deveriam ser alvo da defesa intransigente do seu governo: os trabalhadores e os estudantes”.

O embate será duro e incessante, e a presidente Dilma não parece estar equipada politicamente para enfrentá-lo.

A presidente Dilma terá grandes problemas pela frente porque a esquerda do PT e os sindicalistas já começam a se movimentar tanto contra Joaquim Levy quanto contra as medidas de contenção de custos dos benefícios sociais. Ao mesmo tempo, também o PSDB saiu ao ataque contra as novas medidas de contenção, acusando o governo de estar traindo seus eleitores e classificando de “neoliberalismo petista” as medidas anunciadas.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

2014 e o debate perdido - Miriam Leitão, para O Globo

BRASIL – Opinião
2014 e o debate perdido
Perdemos o melhor ano para discutir novos avanços. A vitória do governo foi construída em cima de mentiras. A inflação está alta demais; o crescimento não tem força; por mais que o BNDES empreste, o investimento não aumenta; o país está perdendo mercados para suas exportações; a maior empresa do país está mergulhada na mais assustadora crise da sua história.

Charge: Clayton - O Povo (CE)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Miriam Leitão
Fonte: O Globo

Este foi o ano do debate perdido. A economia piorou um pouco a cada dia, as previsões de crescimento murcharam, e as mais pessimistas projeções de déficit fiscal foram suplantadas pela realidade. Por ser época de eleições, 2014 poderia ter sido a oportunidade de discutir os rumos do país, olhar os erros e gargalos com sinceridade e se comprometer com as correções.

Foi impossível conversar a sério sobre os vários dilemas. Como reduzir gastos? Por que o país não cresce? O que está errado na política econômica? De que forma combater a inflação? Como aumentar a poupança e o investimento? Com que armas proteger o país da corrupção?

O governo impediu que o debate ocorresse. Foi dele, a culpa. A oposição tentou de diversas formas. A campanha para a reeleição da presidente Dilma será lembrada como uma violenta estratégia de desqualificar adversários, ideias e programas. E de dissimular a verdade.

Todos os candidatos treinam com seus marqueteiros. É do jogo. Mas a campanha oficial levou as respostas pré-fabricadas a extremos. A presidente negou veementemente os fatos que estavam diante de todos. Algumas agências governamentais aceitaram adiar más notícias.

Perdemos o melhor ano para discutir novos avanços. A vitória do governo não foi ruim, mas sim a vitória construída em cima de mentiras. A inflação está alta demais; o crescimento não tem força; por mais que o BNDES empreste, o investimento não aumenta; o país está perdendo mercados para suas exportações; a maior empresa do país está mergulhada na mais assustadora crise da sua história.

Será demorado tirar a Petrobras da zona de turbulência e ela tem um efeito multiplicador na economia. A empresa está cercada de perigos: as nebulosas transações feitas por alguns dos seus diretores e gerentes, as dúvidas dos investidores, o risco do rebaixamento, o endividamento muito alto, a queda do preço do petróleo.

Na gestão da água, os governos erraram. Ano de seca grave no Nordeste e Sudeste. Erros foram cometidos pelo governo de São Paulo que, também por razões eleitorais, deixou de tomar as medidas sensatas que o momento exigia. Preferiu ir buscando água cada vez mais fundo, em vez de assumir o racionamento.

Os reservatórios das hidrelétricas baixaram durante todo o ano, e o governo preferiu também adiar as medidas necessárias de racionamento. Se adotado em tempo, menor risco haveria no futuro. Chega-se ao fim do ano com menos água em reservatórios do que no ano do apagão. Se houvesse indução à redução do consumo, haveria menos necessidade de uso das térmicas e, portanto, menor seria a conta a ser paga pelos consumidores em 2015.

O mundo está instável e com um crescimento desigual. Estados Unidos em recuperação forte, e a Europa, sofrendo os efeitos das punições que ela mesma aplicou ao governo da Rússia. Moscou, por sua vez, continuou na sua aventura bélica que lhe custou a desordem em que está neste momento, com recessão, inflação, desabastecimento e fuga de capitais. Nossos vizinhos maiores da América do Sul aprofundaram seus erros e receberam uma conta amarga. Rússia, Argentina e Venezuela provaram que, em economia, aqui se faz, aqui se paga. Não foi o pior ano da crise que começou em 2008 e não explica a nossa conjuntura. Perdeu-se a chance de discutir que tipo de relação queremos ter com o mundo.

Na democracia, o debate direto que permite correção dos erros e novos avanços deveria ser a regra em eleições. Não foi possível, desta vez, mas recomeçar sempre dá esperança. Por isso, Feliz Ano Novo para todos nós.
*Alteramos título, acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

20 de dez. de 2014

Petrolão: A vez dos políticos - Merval Pereira

BRASIL – Opinião
Petrolão: A vez dos políticos
A homologação da delação premiada, pelo ministro Teori Zavascki, relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), significa que o magistrado considerou consistente o depoimento do doleiro Alberto Youssef. Ou seja, o delatou apresentou provas e evidências dos atos de corrupção que envolve os nomes de 30 deputados e 6 senadores.

Charge: Aroeira

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

O ministro Teori Zavascki, relator da Operação LavaJato no Supremo Tribunal Federal (STF), homologou hoje, 19, último dia antes do recesso da Justiça, a delação premiada do doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do esquema de fraudes na Petrobras. E pode surpreender determinando a imediata abertura do inquérito contra os parlamentares envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras.

Isso significa que ele considerou consistente o depoimento do doleiro, que já lhe foi enviado pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot juntamente com o relato das fraudes e a lista de políticos, empreiteiros e funcionários públicos, na maioria da Petrobras, envolvidos no esquema. A lista dos políticos tem 30 deputados e 6 senadores, todos com foro privilegiado no momento. Os que não se reelegeram ou não concorreram nas últimas eleições serão enviados para a primeira instância da Justiça Federal em Curitiba, onde atua o juiz Sergio Moro, que coordena a Operaçâo Lava Jato.

O Supremo Tribunal Federal confirmou recentemente que o foro adequado para os envolvidos no processo sobre o esquema de corrupção da Petrobras que não têm prerrogativa de função é a Justiça Federal no Paraná, sob a coordenação do juiz Moro, um especialista em processos sobre lavagem de dinheiro que advogados de muitos dos executivos das empreiteiras envolvidos no escândalo queriam evitar, transferindo o processo para o Rio Ou São Paulo, alegando que a sede das empresas deveria ser o foro escolhido.

O juiz Sérgio Moro já atuou no processo do mensalão como assessor da ministra do STF Rosa Weber, e ganhou experiência nesse tipo de caso. Ao contrário do que aconteceu no julgamento do mensalão, neste processo os casos serão separados, com os acusados que não têm foro privilegiado sendo tratados pela justiça de primeira instância no Paraná.

A partir da decisão de Zavascki de pedir a abertura do inquérito os nomes dos parlamentares envolvidos poderão ser divulgados. O fato de o ministro Teori Zavascki homologar a delação premiada poucos dias depois de tê-la recebido do Procurador-Geral da República, e talvez até mesmo já abrir o inquérito, indica que todos os passos do processo estão sendo dados com a maior cautela e, ao mesmo tempo, os que dele cuidam na Justiça estão empenhados em dar velocidade às apurações.

O ministro Zavascki poderia ter deixado para fevereiro, na volta do recesso, para homologar a delação de Youssef, mas aceitando-a no último dia de trabalho da Justiça antes do recesso está dando uma sinalização de que pretende que o caso seja tocado com a rapidez possível em nosso sistema judicial.

Além disso, homologar a delação premiada significa que a Justiça considerou comprovadas as denúncias apresentadas, e o delator poderá com isso ser liberado do regime fechado e passar ao de prisão domiciliar, como já acontece com o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa. A Justiça tem também condições de cruzar as informações dos diversos envolvidos que aderiram à delação premiada para constatar a veracidade das acusações.

A função do relator que o ministro Teori Zavascki exerce no processo é, na definição de um de seus colegas, como se ele fosse delegado e juiz ao mesmo tempo. ELe pode, a partir da abertura do inquérito, determinar quebra de sigilos bancários e telefônicos, interceptação de mensagens telefônicas. Aceitando a denúncia do Procurador-Geral da República, o ministro Zavascki vai oficiar a Polícia Federal para que inicie a investigação.

Provavelmente, essa decisão e seus fundamentos serão públicos. No curso das investigações, a Polícia Federal vai instaurar inquérito contra aqueles em relação aos quais há indícios de que crimes foram cometidos. O inquérito poderá começar mesmo no recesso da Justiça.
*Alteramos o título, atualizamos, acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

14 de dez. de 2014

Chumbo grosso, cabeça fria - Nelson Motta

BRASIL – Opinião
Chumbo grosso, cabeça fria
O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão poderosos. Como diria Paulo Maluf com sua voz anasalada e a crueza de um quibe cru: “Não adianta trocar as moscas, precisamos é sair da merda.”

Postado por Toinho de Passira
Texto de Nelsinho Motta
Fonte: Coluna do Nelson Motta

A emoção serve para ganhar eleição, mas para governar o que vale é a razão. Mas parece cada vez mais difícil, justo num momento muito difícil para o país, estabelecer-se um debate racional e qualificado sobre os graves problemas que todos conhecem. Ninguém, nenhuma corporação, nenhum partido tem força política, popular, econômica e moral para mudar nada sozinho. É hora de negociar soluções para os impasses que atrasam e empobrecem o país, sem ser mais rigoroso com os outros e mais complacente com os seus.

Mas, quando se fala em negociar, qualquer brasileiro logo associa a falcatruas, vantagens indevidas, propinas e outros crimes corriqueiros no cotidiano nacional, em todos os níveis da administração pública. Sim, existem negociações legítimas e possíveis, dependendo dos interlocutores, de sua credibilidade e, principalmente, de boa vontade e tolerância, que, longe de serem sinais de fraqueza, representam superioridade moral.

Na negociação que levou Joaquim Levy ao comando da economia, a razão venceu a emoção. Mas sobre o aparelhamento das estatais, um dos fatores geradores da corrupção, ninguém fala. Não basta trocar de nomes, é preciso mudar conceitos e valores. Ou, como diria Paulo Maluf com sua voz anasalada e a crueza de um quibe cru: “Não adianta trocar as moscas, precisamos é sair da merda.”

Cheios de razão, milhares de funcionários e ex-diretores corretos, eficientes e dedicados da Petrobras, e de outras estatais, a imensa maioria que construiu com seu trabalho a grandeza das empresas, estão indignados com a tática defensiva dos delinquentes de dizer que todos fazem, que sempre foi assim, jogando no mesmo saco de lixo os melhores e os piores para dar a ideia que todos são iguais e, por isso, a culpa deve ser diluída, e ninguém condenado. Como se fossem todos óleo do mesmo barril, querem que a mancha se espalhe no mar do esquecimento e tudo mude para nada mudar.

O mau-caráter, o desonesto, o sem-vergonha, o corrupto nasceram com o homem, mas nunca na história deste país eles foram tantos e tão poderosos, ao mesmo tempo: nada é mais organizado do que o crime no Brasil.

4 de dez. de 2014

Os sem noção - Merval Pereira, para O Globo

BRASIL – Opinião
Os sem noção
As primeiras nomeações do segundo governo Dilma estão provocando grande decepção e divisões na esquerda, que constatam com pesar que, reeleita, a presidente leu com mais pragmatismo o resultado das urnas e foi buscar nas hostes adversárias o homem adequado para estabilizar a economia que ela conseguiu desestabilizar nos primeiros quatro anos.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fontes: Blog do Merval

Certos setores da esquerda estão convencidos de que os mais de 54 milhões de brasileiros que reelegeram a presidente Dilma Rousseff são de esquerda, e que a vitória significou uma autorização para aprofundamento de um programa socializante no país, com uma Constituinte convocada por "plebiscito popular" (como se fosse possível outro tipo de plebiscito, palavra originada do latim plebiscitu - decreto da plebe) para realizar uma reforma política, instituição de mecanismos de participação popular - já derrotado no Congresso - e a inevitável "democratização dos meios de comunicação", que nada mais é do que o controle pelo governo dos órgãos independentes de informação.

Por isso, as primeiras nomeações do segundo governo Dilma estão provocando grande decepção e divisões na esquerda, que constatam com pesar que, reeleita, a presidente leu com mais pragmatismo o resultado das urnas e foi buscar nas hostes adversárias o homem adequado para estabilizar a economia que ela conseguiu desestabilizar nos primeiros quatro anos.

A nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda está sendo digerida com muito custo, mas as pressões maiores estão voltadas para os novos ministros da Agricultura, Katia Abreu, e para o do Desenvolvimento, Armando Monteiro, dois dirigentes de associações patronais. Politicamente mais frágeis, tornaram-se exemplares de como o ministério tem uma tendência nada revolucionária, que poderia bem ter sido escolhido pelo candidato da oposição Aécio Neves.

A análise está correta, mas a ignorância que essa esquerda demonstra das raízes profundas que ancoram as nomeações mostra que um governo que se guiasse por suas obsessões não teria muito futuro. Foi assim também no primeiro governo Lula, que nomeou Roberto Rodrigues para a Agricultura e Luiz Fernando Furlan para o Desenvolvimento, além de colocar o banqueiro internacional e deputado federal tucano Henrique Meirelles no Banco Central.

Dilma repete a dose, claramente influenciada pela experiência de seu tutor Lula, mas com diferenças contra si importantes. A começar por que quem estava no comando era Lula, a única liderança incontrastável no PT. Quem ousou confrontá-lo, como Cristovão Buarque ou Suplicy, ou saiu do partido ou ficou nele sem importância. Sem falar que os tempos econômicos no mundo são outros, muito adversos.

Na economia, Lula tinha um petista de alta estirpe no comando da equipe, Antonio Palocci, e estava portanto blindada a movimentação conservadora da nova política econômica para colocar as contas nos trilhos. Para melhorar a situação, Palocci convenceu-se mesmo de que o caminho ortodoxo era o único possível para o crescimento do país, depois de longas trocas de ideias com Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central que o PT demonizou na eleição presidencial passada.

Mas foi para Arminio que Joaquim Levy telefonou antes de aceitar a proposta de trabalho petista, pois ele integrou a equipe que preparava o programa econômico para um eventual governo do PSDB.

Os economistas que Palocci acolheu em sua equipe foram permanentemente perseguidos por setores petistas que não se conformavam com as novas orientações. Marcos Lisboa, Murilo Portugal, o próprio Levy, só permaneceram no ministério enquanto Palocci lhes dava respaldo. Com sua saída, no segundo governo Lula, abriu-se espaço para que a dupla Dilma Rousseff no Gabinete Civil e Guido Mantega na Fazenda fosse desmontando as conquistas feitas pelos "conservadores", preparando a derrocada que seria o primeiro governo Dilma.

Nem mesmo os fatos negativos produzidos nos últimos quatro anos são suficientes para convencer esses grupos esquerdistas que sua receita de aumento de gastos sem base na arrecadação, gerando déficit primário em vez de superávit; aumento da dívida bruta com a utilização dos bancos públicos como biombos; descontrole da inflação; balança de pagamentos negativa, levou o país a uma situação de descontrole que só mesmo um salto triplo carpado como o dado por Dilma poderia mudar a perspectiva futura do país.

Eles ainda acreditam que os eleitores da classe média emergente e os pobres que recebem o Bolsa Família votaram em Dilma ideologicamente, e não entendem que o que esses eleitores fizeram foi votar a favor do conservadorismo, acreditando erradamente que estavam ajudando a manutenção do emprego e do salário. A permanecer essa disputa ideológica contra a realidade que se impõe, vai ser muito difícil Joaquim Levy levar adiante seu projeto. E o escorpião, fiel à sua natureza, vai ferrar quem poderia levá-lo a atravessar o rio a salvo da correnteza.

30 de nov. de 2014

O problema econômico é da doutora - Elio Gaspari, para O Globo

BRASIL – Opinião
O problema econômico é da doutora
Terminou o mandarinato do ministro Guido Mantega, resta saber se ele teve algo a ver com isso

Charge: Aroeira - O Dia (RJ)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Elio Gaspari*
Fonte: O Globo

A maior injustiça que se pode cometer com Guido Mantega é atribuir-lhe alguma participação no mau estado da economia nacional. Desde a implosão de Antonio Palocci, em 2006, esse cargo foi ocupado por Dilma Rousseff. Primeiro ela foi uma poderosa chefe da Casa Civil. Depois, acumulou o ministério com as funções de presidente da República. Como ela mesma anunciou em sua campanha, “governo novo, ideias novas”. Quais são as ideias, não se sabe direito, mas, se ela não tiver ministro da Fazenda, o que vem por aí será mais do mesmo.

Pode-se deixar de lado as grandes decisões de política econômica, pois quem foi eleita foi ela. Antes dos macroproblemas há outro, simples e essencial. O presidente preside e o ministro segue suas decisões. Se aquilo que o ministro quer fazer não confere com os desejos do presidente, ele é mandado embora. Se o mandam fazer o contrário do que foi combinado, é ele quem pede o chapéu. Desde que Pedro Malan deixou o Ministério da Fazenda essa escrita foi rompida. Detonado numa breve polêmica com a doutora, Antonio Palocci foi ficando, até que acabou perdendo o cargo por motivos estranhos ao desempenho econômico do governo. Guido Mantega substituiu-o e também foi ficando.

Durante os oito anos em que Pedro Malan foi ministro da Fazenda, toureou divergências internas do tucanato com uma bala de prata encostada na têmpora e o dedo no gatilho. Em diversas ocasiões mostrou ao presidente Fernando Henrique Cardoso que podia ir embora. Um desses episódios mostra como o tempo passa e a discussão é a mesma. Malan era conhecido pela sua retranca e o ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho, disse num evento público que “desenvolvimento tem que se traduzir em renda e emprego”. Mais: “O ministro Malan concorda comigo. Dá, sim, para arriscar mais, para ousar mais. (...) Apressar o passo na retomada do crescimento não trará o apocalipse. E o excesso de cautela, a essa altura, será outro nome para a covardia.”

Malan estava na cena e ouviu calado. Dois dias depois Carvalho foi mandado embora. Se ele não fosse, Malan iria. Em outras ocasiões, até mesmo em episódios menores, porém demarcadores de território, Malan mostrou a bala de prata a FH.

Olhando-se para a biografia de Malan, sabe-se que é um homem frio e elegante. Jamais sairia batendo a porta, mas também não ficaria ficando. O mérito da sua permanência no ministério esteve no fato de que Fernando Henrique era presidente da República e estava entre as suas atribuições a administração de divergências na equipe. Tendo sido ministro da Fazenda, desencarnou.

Um ministro que trabalhe com um olho nas contas e outro no comissário Aloizio Mercadante ou nos conselheiros avulsos do Alvorada é receita certa para o desastre. No caso atual, essa dificuldade se agrava. Quem viu nas palavras de Clóvis Carvalho alguma semelhança com o que disse a doutora Dilma durante a campanha não deve achar que está diante de uma coincidência. O pensamento é o mesmo, pode ter variado apenas a sinceridade.

Se Dilma Rousseff assumir a Presidência, dispensando-se das funções de ministra da Fazenda, algo de bom pode acontecer. Do contrário, no fim do ano que vem é possível que haja gente com saudades de Guido Mantega.
*Elio Gaspari é jornalista

19 de nov. de 2014

Operação Lava-Jato, na trilha do dinheiro - Merval Pereira, para O Globo

BRASIL – Opinião
Operação Lava-Jato, na trilha do dinheiro
O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco concordou em devolver cerca de US$ 100 milhões desviados da companhia, ele era o sub de Renato Duque, o ex-diretor da Petrobras preso. Se o subordinado tem condições de devolver tanto dinheiro, quanto não terá desviado o chefe, que era o diretor diretamente nomeado pelo PT, indicado pelo então todo poderoso o ex-ministro José Dirceu.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira, para O Globo
Fonte: Blog do Merval

Há pelo menos duas situações nessa operação Lava-Jato que chamam a atenção do cidadão comum, uma causando genuíno espanto, outra esperança de que o processo venha a ser bem sucedido ao seu final, seguindo os passos do mensalão, de cujo enredo o petrolão é sequência lógica. Que o diga o juiz Sérgio Moro, que assessorou a ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão.

Causa espanto em todas as rodas o volume de dinheiro desviado por esse esquema criminoso instalado dentro da Petrobras. O que definiu o tamanho do escândalo foi a notícia de que o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco concordou em devolver cerca de US$ 100 milhões desviados da companhia.

Ele era o sub de Renato Duque, ex-diretor da Petrobras preso na Operação Lava-Jato da Polícia Federal, e fez acordo de delação premiada. Embora tenha seu nome mencionado no relatório do Ministério Público Federal, Barusco não foi preso por ter feito o acordo, e é apontado por vários dirigentes de empresas como o responsável por operacionalizar a propina que era paga ao ex-diretor.

Parte do dinheiro já foi apreendida administrativamente, como US$ 20 milhões em nome de Barusco na Suíça. Se o subordinado tem condições de devolver tanto dinheiro, quanto não terá desviado o chefe, que era o diretor diretamente nomeado pelo PT, indicado pelo ex-ministro José Dirceu no tempo em que era o capitão do time de Lula. Não é à toa, portanto, que Duque é dos poucos presos que não está disposto a aderir à delação premiada, pelo menos por enquanto. A prorrogação de sua prisão tem o objetivo de levá-lo a falar.

Já parecem pouco os U$ 23 milhões que o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa prometeu devolver, no primeiro gesto de desapego estimulado pelas regras de delação premiada. Fora o tamanho do dinheiro envolvido nas diversas operações, está chamando a atenção o profissionalismo com que o Ministério Público e a Polícia Federal estão agindo, sob a coordenação do juiz Sérgio Moro que, como especialista em lavagem de dinheiro, está seguindo normas estritas para identificar o caminho do dinheiro, até chegar aos corruptores e aos corruptos. Está seguindo o conselho que o Deep Throat nunca deu aos repórteres do Washington Post, mas ficou célebre: "Follow the money" ( Sigam o dinheiro).

O Juiz está tomando também todos os cuidados, desde o primeiro momento, para evitar desvios que possam impugnar as provas do processo, mas tem sido rigoroso no cumprimento da lei. As empreiteiras haviam proposto, na semana da prisão em massa, um acordo conjunto para pagarem uma multa bilionária que zeraria o processo para um recomeço dentro de novas regras.

O acordo não foi aceito, pois ele implicaria a falta de punição dos corruptores. A partir da decisão do juiz, que mandou prender donos e altos executivos das empreiteiras, as empresas estão tentando um acordo de repactuação com a Corregedoria Geral da União, o que tem o respaldo do Tribunal de Contas da União (TCU).

A ideia é não paralisar as obras das empreiteiras espalhadas por todo o país. A repactuação implica a redução dos custos superfaturados e a devolução do sobrepreço já pago pela Petrobras, mas não evitará que os executivos implicados sejam incluídos no processo.

Além disso, os promotores encarregados do caso estão deixando para tratar dos políticos envolvidos na corrupção da Petrobras por último, justamente para não criar um ambiente que dificulte as investigações.

Mesmo figuras que não têm mandato, como o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, hoje secretário do governo da Bahia, e João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT, ainda não foram incluídos na lista dos que serão arrolados para depoimentos na Polícia Federal. Ambos, e outros ainda, têm laços políticos fortes e poderiam criam embaraços para as investigações.

Não divulgando a lista de políticos e assemelhados envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras, o juiz Sérgio Moro ganha também tempo para consolidar na opinião pública a imagem de independência e imparcialidade com que a operação está sendo conduzida, impedindo sua partidarização.
*Alteramos título, acrescentamos subtítulo e ilustração à publicação original

16 de nov. de 2014

Corrupção sistêmica - Merval Pereira, para O Globo

BRASIL – Opinião
Corrupção sistêmica
O importante é que o sistema que está sendo revelado mostra que toda sustentação política dos governos petistas é montada na base da corrupção, os partidos indicando diretores de órgãos estatais simplesmente para deles retirar dinheiro para financiar suas campanhas. É evidente que essa maneira de fazer política, foi aprofundada absurdamente nos anos petistas.

Charge: Paixão - Gazeta do Povo (PR)

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

O escândalo da Petrobras está produzindo reações curiosas no governo, alguns até mesmo engraçados, se o momento não fosse trágico. Anuncia-se que o PT pretende questionar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a escolha, por sorteio, do ministro Gilmar Mendes para relator das contas da campanha presidencial do partido em 2014. Por sorteio, ressalte-se, e a mando do presidente do TSE, ministro Dias Toffoli, o mais próximo ao PT de todos os integrantes do Supremo Tribunal Federal. Nunca vi tamanha confissão de culpa.

Também o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo deitou falação sobre a politização das investigações, insinuando que a oposição está querendo ter um terceiro turno da eleição que perdeu. Logo quem, o mesmo que acabara de dizer que a presidente Dilma havia determinado que as investigações prosseguissem, doam a quem doer. Como se a presidente tivesse o poder de mandar parar as investigações se quisesse.

Além do mais, Cardozo abriu uma investigação para punir delegados envolvidos na Operação Lava-Jato por terem expressado opiniões pessoais de crítica ao governo e apoio à candidatura oposicionista em uma página do Facebook fechada ao público.

Com isso, os petistas mais afoitos querem identificar razões partidárias para os vazamentos de partes dos depoimentos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Yousseff. Tanto os membros do Ministério Público quanto o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações, saíram em defesa dos delegados da Polícia Federal, e não fariam isso se vissem no comportamento de algum deles desvios que pudessem prejudicar as investigações.

O importante é que o sistema que está sendo revelado mostra que toda sustentação política dos governos petistas é montada na base da corrupção, os partidos indicando diretores de órgãos estatais simplesmente para deles retirar dinheiro para financiar suas campanhas, e claro que os benefícios pessoais se impõem. Então dividem os órgãos estatais e os ministérios por partidos, e cada um que é nomeado sabe exatamente por que está sendo nomeado, para que e o que tem que fazer. E a investigação já mostrou que o mesmo esquema existe em outras áreas do governo, que ainda serão investigadas.

É evidente que essa maneira de fazer política, que foi aprofundada absurdamente nos anos petistas, tem que parar, não há país que aguente uma situação dessas por tanto tempo. Esse sistema de distribuição de ministérios para partidos, de divisão de diretorias de empresas públicas para partidos para montagem de governo está falido.

Não apenas isso, prejudica a imagem do país no exterior e afugenta os investidores sérios, prejudica a economia do país e prejudica sobretudo os mais pobres pois monta-se um governo disfuncional. É preciso mudar, e a crueza dos fatos vai se encarregar dessa mudança. Provavelmente no próximo mês, ou no máximo no início do próximo ano vamos ter uma relação de 70 a 100 políticos desfilando diante da opinião pública como implicados nesses desvios de dinheiro da Petrobras.

Serão governadores, senadores, deputados, ex-governadores, ex-senadores, ex-deputados, a maior parte será indiciada e julgada pelos tribunais superiores. Estamos na verdade passando por um processo que está em curso desde o mensalão. Um processo que está sendo construído, depurado, e a consequência dessa depuração deve ser a mudança de nosso sistema político-eleitoral.

É muito difícil fazer uma reforma dessa profundidade com o Congresso, pois em tempos normais os deputados e senadores querem manter o sistema que os elegeu. Mas numa crise como a que estamos passando, e ainda vai piorar, é o momento da oportunidade para mudar. O PT não inventou a corrupção, mas inventou um método sistêmico de corrupção que perpassa todo o organismo governamental. Isso nunca houve.

Havia esquemas de corrupção localizados, pessoas corruptas atuando, mas nunca houve um esquema desse porte organizado pelo governo. A ideia de que é tudo igual ajuda a quem está envolvido com essas denúncias. Não é todo mundo igual, nunca houve um partido que tenha chegado ao poder e que tenha montado um esquema dessa amplitude.

Além do mais, esse esquema de corrupção que o PT montou nesses 12 anos faz com que o país não tenha condições de se desenvolver. Uma estrutura de 40 ministérios para financiar sua base eleitoral inviabiliza qualquer governo, perdemos competitividade, perdemos produtividade. Além de todas as decisões de cunho econômico equivocadas, temos um governo disfuncional.
*Acrescentamos subtítulo e charge de Paixão da Gazeta do Povo (PR)foto e legenda à publicação original

15 de nov. de 2014

Economia na polícia – Miriam Leitão, para O Globo

BRASIL – Opinião
Economia na polícia
Em má hora a Petrobras passa a integrar, de forma constante, a crônica policial. Ela está com um alto endividamento, principalmente no exterior. As ações tiveram novas quedas nos últimos dias. Os bônus no exterior também estão em queda. A empresa recebeu rebaixamento pela Standard & Poor’s e pela Moody's e está a um degrau de perder o grau de investimento. A dívida, pós-capitalização, era de R$ 57 bilhões, e no segundo trimestre de 2014 já havia disparado para R$ 241 bilhões.

Charge: Lailson

Postado por Toinho de Passira
Texto de Miriam Leitão
Fonte: Blog de Miriam Leitão

O dia do juízo final, como definiu um policial federal, começou com prisão de outro ex-diretor da Petrobras, mas ficou realmente diferente quando avançou sobre as maiores empreiteiras do país, com ordens de prisão ou de busca e apreensão. Era previsível, porque elas foram citadas nos depoimentos do acusado Alberto Youssef. Imprevisível é a dimensão que vai chegar esse escândalo.

É como uma mancha de um grande vazamento de petróleo que ainda não foi controlado: ninguém sabe até onde se espalhará. Mas há uma esperança de ser parte da operação de extração do tumor que hoje liga grandes fornecedores da Petrobras aos principais negócios da companhia. Youssef disse no depoimento que recebia dessas empresas o dinheiro para pagar os “comissionamentos dos agentes políticos”. Portanto, ontem foi um dia de tensão na economia e na política por razões policiais.

O desdobramento econômico de tudo isso pode ser enorme. As empresas que estavam ontem no foco da Polícia Federal estão nas principais obras públicas do país, nos maiores projetos de investimento, das hidrelétricas aos aeroportos, passando pelas refinarias, evidentemente.

O ambiente econômico também foi afetado pela crise da Petrobras em si, que não conseguiu divulgar seu balanço trimestral pela falta de aprovação da PwC, a empresa de auditoria. No espaço de 13 horas, a petrolífera conseguiu divulgar um fato relevante de adiamento do balanço, e outra comunicação entendida como sendo segunda-feira o dia da divulgação dos resultados, mesmo sem a aprovação dos auditores. A BM&F adiou a abertura do pregão com as ações até entender melhor. Uma confusão completa.

Em má hora a Petrobras passa a integrar, de forma constante, a crônica policial. Ela está com um alto endividamento, principalmente no exterior. As ações tiveram novas quedas nos últimos dias. Os bônus no exterior também estão em queda. A empresa recebeu rebaixamento pela Standard & Poor’s e pela Moody's e está a um degrau de perder o grau de investimento. A dívida, pós-capitalização, era de R$ 57 bilhões, e no segundo trimestre de 2014 já havia disparado para R$ 241 bilhões. Cerca de 80% do endividamento da companhia é em moeda estrangeira. A perda do grau de investimento provocará um aumento forte do custo desse endividamento e uma forçada redução de investimentos.

Se havia a expectativa de que passadas as eleições presidenciais a economia pudesse voltar a trilhar um caminho de crescimento e normalidade, o que se vê até aqui é o prolongamento da crise. As vendas do varejo ampliado, divulgadas ontem pelo IBGE, entraram para o terreno negativo na taxa em 12 meses, saindo de 0,6% em agosto para -0,1% em setembro. Para se ter uma ideia do tamanho dessa freada, em setembro de 2013, o crescimento em 12 meses era de 4,9%. O Caged apontou fechamento de 30 mil vagas formais em outubro, resultado que surpreendeu negativamente. Enquanto isso, a presidente Dilma segue em viagem à cúpula do G-20 sem a definição de nomes para a equipe econômica.

O juízo que se pode fazer do dia de ontem é que o país entrou numa nova fronteira dessa investigação de corrupção: chegou às grandes empreiteiras, que são, ao mesmo tempo, importantes doadoras de campanha. As doações legais e declaradas pelos partidos não são problema. Elas passam agora a ser investigadas pela suspeita de pagamento de propina que pode ter se transformado em comissões para os partidos políticos. Se alguns desses executivos decidirem seguir o caminho da delação premiada, que trilham com sucesso Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, o círculo se fechará cada vez mais sobre os beneficiários.

*Acrescentamos subtítulo e charge de Lailson à publicação original

10 de nov. de 2014

Do outro lado do espelho (Ou o começo do governo Aécio)

BRASIL – Governo Aécio?
Do outro lado do espelho
(Ou o começo do governo Aécio)
Engulam o choro, levianos! Podia ser pior. Ricardo Noblat supõe o que aconteceria se Aécio ganhasse a eleição e começasse a fazer o que Dilma anda fazendo.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Ricardo Noblat
Fonte: Blog do Noblat

Os adversários de Aécio Neves passaram as últimas semanas de campanha alertando que ele faria no governo o que negava que fosse fazer. Nem por isso Aécio escreveu uma Carta ao Povo Brasileiro.

Uma vez eleito, contudo, esqueceu tudo o que disse, mas não escreveu, que não é bobo como foi Fernando Henrique. Ao cabo, avalizou o saco de maldades desembrulhado de imediato por seus auxiliares. Confira.

Armínio Fraga, ministro da Fazenda, aumentou a miséria extrema. Gente que vive com até R$ 70,00 mensais passou de 3,6% para 4% da população – mais 371 mil pessoas. Agora, os miseráveis são 10,5 milhões de brasileiros e brasileiras.

Na campanha, Aécio lembrou que a FAO havia tirado o Brasil do mapa da fome. Bobagem, claro, mas a FAO, órgão da ONU, é comandada por um companheiro dele e deu uma mãozinha.

No Banco Central, Neca Setúbal, a banqueira de Marina Silva e herdeira do Itaú, subiu a taxa de juro para 11,25% - o maior juro real do mundo. Com isso, a comida sumiu do prato das famílias mais pobres e as letrinhas dos livros escolares.

A PetrobraX aumentou os preços da gasolina e do diesel. Considerando que o frete é 30% do custo da comida, os preços no supermercado crescerão mais. Melhor substituir o ovo por alguma promoção de miojo com prazo de validade perto de vencer.

Aécio afirmou que vai “fazer a lição de casa” e combater a inflação - embora na campanha tenha dito que a inflação estava sob controle, mas era mentira só para ganhar a eleição, bobinhos.

Armínio mandou cortar gastos do governo, encolher os bancos públicos, conter benefícios sociais e aumentar o desemprego. Sim, porque vocês também lembram que Aécio observou na campanha que se baixasse a inflação o desemprego aumentaria.

A ANAEEL, aparelhada pelo PSDB, autorizou aumentos na conta de luz. Para os ricos do Rio, aumento de 20%; para os pobres do Norte, tipo Roraima, de 54%.

Quem mandou acreditar que a adversária é que faria tarifaço, não é? Deviam ter aprendido com o Collor, que disse na eleição de 1989 que Lula confiscaria a poupança. Deu no que deu. Daqui até 2018, tomem memoriol, queridos!

O Operador Nacional do Sistema do governo Aécio avisôôô, avisôôô, avisôôô que vai rolar racionamento de energia no verão, vai rolar! É que seca é seca e mané é mané: não chove na Cantareira do Alckmin, mas também não chove nos reservatórios das hidrelétricas. E reservatórios vazios não movem turbinas.

Sim, o desmatamento da Amazônia que Aécio dizia estar sob controle, disparou em agosto e setembro: devastados 1.626 km², aumento de 122%.

Mais herança maldita para azucrinar Aécio: devemos os tubos e conexões. As contas públicas de setembro tiveram o pior resultado da história com rombo de R$ 25,5 bilhões. É muito, mas não é. Na PetrobraX, surrupiaram sem contabilizar uns R$ 10 bilhões.

A balança comercial de outubro foi a pior desde 1998. Aécio acha, segundo Armínio, que a culpa é do povo que enricou e pegou mania de fazer as compras do mês em Miami. Por enquanto, era isso. Beijinho no ombro, caros leitores.

PS: Engulam o choro, levianos! Podia ser pior.

A vitória deles – aqueles “eles” lá do outro lado – seria um “retrocesso neoliberal”. Inclusive, o chefe da seita deles comanda sessões de “machismo, racismo, preconceito, ódio, intolerância e nostalgia da ditadura militar”, segundo recente resolução partidária.

Dizem até que degola bodes, mas aí já acho que é maldade dos nossos blogueiros progressistas.

8 de nov. de 2014

Ver para crer - Merval Pereira, para O Globo

BRASIL – Opinião
Ver para crer, a presidenta enfrenta o Brasil real
Dilma Rousseff e todo mundo sabe que não haverá medida indolor para recolocar a economia no lugar.


A opinião do PT é a opinião do partido, não me influencia. Eu represento o país, não sou presidente do PT, sou presidente dos brasileiros - disse a presidenta. Será?

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira
Fontes: Blog do Merval

A presidente Dilma saiu da propaganda eleitoral e caiu na realidade, admitindo que a inflação não está sob controle e que é preciso fazer corte nas despesas. Desceu do palanque para enfrentar a dura tarefa que tem pela frente antes mesmo de iniciar seu segundo mandato, que só não começará com cara de envelhecido se ela fizer um salto triplo carpado e apresentar uma novidade para a condução da economia.

Dilma saiu do palanque fisicamente, admitindo em público o que já ficara evidente pelas medidas represadas que liberou assim que as urnas se fecharam. Saiu o aumento da gasolina, ainda em nível menor do que o necessário. Antes, já haviam sido anunciados aumentos nas tarifas de energia de até 54% em alguns estados, e dados ruins da economia foram finalmente divulgados.

Confirmou-se o que era dito à boca pequena: a desigualdade voltou a crescer depois de dez anos, por culpa da alta da inflação e do crescimento baixo dos últimos quatro anos.

O veto a Henrique Meirelles ou coisa do gênero para a Fazenda explicita o verdadeiro dilema de Dilma: a presidente reeleita não gostaria de colocar na Fazenda alguém que ela não possa demitir sem criar uma convulsão nos mercados financeiros. Seria refém de um ministro, assim como, aliás, Lula foi de Meirelles no Banco Central.

No final do segundo mandato, quando se sentiu em condições de tirá-lo do Banco Central, Lula chegou a conversar com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, mas foi atropelado pelo grau de investimento que o país recebeu das agências internacionais, e teve que recuar.

A situação é simples: ninguém acredita quando a presidente Dilma diz que vai fazer o dever de casa, e que sempre há onde cortar, porque simplesmente ela se recusa a tocar no tamanho do Ministério, ou seja, do Estado.

Ao dizer que não agirá como "aquela maluquice do choque de gestão da oposição", Dilma Rousseff reduz o impacto positivo que sua primeira frase poderia causar, pois todo mundo sabe que não haverá medida indolor para recolocar a economia no lugar.

A presidente Dilma parece querer se livrar da canga que o PT quer lhe colocar, mas não tem muito para onde ir. Apareceram em seu socorro dois aliados de polos distintos: o governador Cid Gomes quer formar um partido de esquerda para apoiar o segundo governo Dilma, e o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab oferece-lhe o PSD pela direita, mas no meio deles está o PMDB, cada vez mais arredio.

Não apenas pela péssima relação que tem com o PT, mas, sobretudo, devido à tendência majoritária de se afastar de um governo que já começou com cara de velho e que pode se desgastar à medida que os problemas econômicos ficarem evidentes.

O tamanho do desgaste poderá ser medido pela força que o deputado Eduardo Cunha demonstrar na sua caminhada rumo à presidência da Câmara, contra a vontade do Palácio do Planalto e contra um acordo tácito com o PT de divisão de poderes no Congresso, que parece já ter ido pelo ralo.

O PT, diante das novas dificuldades, resolveu dobrar sua aposta em um governo mais à esquerda, e reivindica maior participação nos ministérios e órgãos públicos, como se o aparelhamento do Estado já não fosse uma realidade. Dilma se desvencilha de suas pregações radicais afirmando que na Presidência da República não representa o PT, mas os brasileiros. Será preciso ver para crer.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original