14 de mar de 2015

ISTOÉ: Dilma sob pressão das ruas

BRASIL – CRISE
Dilma sob pressão das ruas
Onda de manifestações contra a presidente varre o País, leva a crise política para um novo patamar e impõe ao governo um cenário de incertezas

Postado por Toinho de Passira
Reportagem de Claudio Dantas Sequeira
Fonte: IstoÉ

Quando foi reeleita por uma margem apertada, em outubro do ano passado, a presidente Dilma Rousseff sabia que não teria vida fácil pela frente. Passados menos de 100 dias do início de seu segundo mandato, Dilma descobriu que tudo seria ainda muito pior. Em um período incrivelmente curto, a economia desmoronou, o escândalo do petrolão fez da corrupção o grande tema nacional, o Congresso decidiu ser oposição e até antigos aliados andaram açoitando as tentativas de correção de rumo anunciadas pelo governo. Nos últimos dias, a crise sem fim enfrentada por Dilma atingiu um novo patamar.

As ruas resolveram gritar – e fizeram um barulho danado. A revolta começou com o panelaço do domingo 8, continuou nas vaias endereçadas à presidente em eventos oficiais, avançou pelos protestos da sexta-feira 13 e deve ganhar ímpeto extra nas manifestações generalizadas programadas para o domingo 15. A despeito do tamanho que os protestos possam vir a ter – e tudo indica que eles serão muitos –, a presidente terá daqui por diante que enfrentar seu desafio mais incômodo: a voz estrondosa de um contingente enorme de brasileiros.

A nova onda de manifestações tem uma característica diferente dos protestos que tomaram o Brasil em junho de 2013. Daquela vez, a revolta começou com o aumento da tarifa do transporte público, que é responsabilidade dos governos estaduais e municipais. Depois, ela ganhou a adesão de tantos grupos que defendiam bandeiras tão opostas que acabaria se tornando difusa demais, a ponto de ser difícil identificar qual era o ponto que as unia. Agora, a situação é outra. O clamor popular tem dois alvos únicos e bem específicos. O primeiro atende pelo nome de Dilma Rousseff. O segundo, pela sigla PT. Uma amostra disso foi o panelaço em reação ao pronunciamento da presidenta no domingo 8, quando se comemorava o Dia Internacional da Mulher. Tão logo Dilma começou o discurso, no qual pediu “paciência” com o fraco desempenho da economia e a alta inflação, milhares de pessoas em ao menos 12 capitais foram às janelas de suas casas com colheres e panelas. O batuque feito com utensílios de cozinha foi reforçado por buzinas, vaias e xingamentos.

Ao contrário do que aconteceu em junho de 2013, desta vez Dilma não tem com quem dividir responsabilidades. Ela é o foco. Não é preciso muito esforço para calcular os riscos inerentes a processos desse tipo. Depois que as manifestações populares começam, elas tendem a aumentar e ninguém sabe ao certo onde vão parar. Não é à toa que são chamadas de “ondas de protestos.” Pois funcionam exatamente como ondas, varrendo tudo e se tornando cada vez maiores e mais influentes.

As marchas atuais contra Dilma surgiram de forma espontânea na internet no fim de fevereiro, no rastro das greves nacionais de caminhoneiros e professores, e ganharam força depois da tentativa do PT de convocar um ato em “defesa da Petrobras”. O chamado petista teve efeito adverso e fez lembrar o erro cometido por Fernando Collor em 1992. Alvejado por uma série de denúncias, Collor pediu que “os patriotas de verdade” saíssem à rua de verde e amarelo, num sinal de apoio ao governo. Os brasileiros fizeram o oposto. Milhões deles – a maioria jovens – varreram o País vestidos de preto e com os rostos pintados. Os protestos dos caras pintadas só terminaram com o impeachment de Collor. Desta vez, o pedido do PT despertou a massa virtual. Em resposta, começaram a circular nas redes sociais mensagens clamando as pessoas para ir às ruas. A reação foi catalisada por grupos como o “Vem Pra Rua”, o “Movimento Brasil Livre” (MBL) e os “Legalistas”, que têm em comum o discurso anti-PT (leia reportagem à pág.44). Os protestos deste domingo, porém, não se restringem a eles. Profissionais liberais, estudantes, famílias inteiras e gente sem nenhuma filiação partidária se organizaram de forma autônoma para engrossar o caldo social.

Acuado, o governo tem defendido a tese do golpismo. Na semana passada, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, atribuiu o panelaço a uma iniciativa orquestrada pela oposição. “No Brasil, só tem dois turnos, não tem terceiro. A eleição acaba quando alguém vence, e nós vencemos”, afirmou. Mercadante chegou a dizer que os protestos estavam restritos a bairros onde Dilma havia perdido a eleição. A declaração foi acompanhada de nota do secretário nacional de Comunicação do PT, Alberto Cantalice, que classificou o episódio de “orquestração golpista” dos “principais setores da burguesia e da classe média alta”.

A tese petista parece desconectada da realidade e só serviu para ampliar o coro dos insatisfeitos. O discurso de luta de classes, que o PT gosta tanto de explorar, foi logo desmontado com a divulgação na internet de vídeos caseiros do panelaço feitos por pessoas de diferentes faixas de renda, oriundas tanto de bairros pobres como de regiões ricas das grandes cidades. Ao tentar emendar as declarações de Mercadante e Cantalice, Dilma deu outra bola fora, relacionando a tese do “terceiro turno” com um suposto rompimento da ordem democrática. Nos dias seguintes, as redes sociais foram novamente tomadas de críticas e protestos. Os números de postagens associando o nome Dilma a termos como “impeachment” e “panelaço” dispararam e menções negativas à presidente chegaram a representar 87% de todo o tráfego digital, segundo levantamento da empresa Scup, especializada no monitoramento e análise de mídias sociais.

No dia seguinte ao panelaço, cerca de 150 empresários e representantes de todas as centrais sindicais se reuniram na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Antes do encontro, o tema das conversas foi o impacto das manifestações na popularidade de Dilma. Num ambiente majoritário de eleitores de Aécio Neves, o sentimento era um misto de insatisfação política com temor econômico. “Entendemos a revolta da população com o ajuste fiscal. Mas se essa fogueira pegar, iremos todos nos queimar”, disse Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). Após duas horas, empresários e sindicalistas se uniram em torno de três bandeiras: contra os juros altos, a elevação de impostos e o excesso de gastos públicos. A redução dos subsídios fiscais às empresas foi lembrada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf. “Não somos contra o ajuste fiscal, mas não abrimos mão da desoneração da folha de pagamentos”, disse.

Na terça-feira 10, como se ainda desdenhasse do panelaço, Dilma foi surpreendida com vaias e gritos de “fora PT” por parte de expositores e funcionários da Feicon-Batimat, a maior feira de construção civil da América Latina, realizada no Anhembi, em São Paulo. No momento em que chegou, não havia público – apenas expositores estavam lá –, o que certamente evitou um constrangimento maior. Graças à acolhida nada cortês, a presidente encurtou o discurso para executivos do setor. Repetiu sua defesa do ajuste fiscal e fez referências ao crescimento da construção civil – no governo Lula. A tendência é que Dilma seja mais cautelosa nos próximos dias. Ciente da gravidade da situação, ela cancelou sua agenda e passará o domingo recolhida no Palácio do Alvorada. Uma equipe formada pelos ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), José Eduardo Cardozo (Justiça), Jaques Wagner (Defesa) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), além de Thomas Traumann (Comunicação Social), fará o monitoramento dos protestos e passará relatórios sobre os desdobramentos.

No campo político, a tese do impeachment tem sido defendida por partidos de oposição, como DEM e Solidariedade (leia reportagem à pág. 48). O deputado federal Paulinho da Força (SDD/SP) espera colher assinaturas de 1 milhão de pessoas em prol da saída da presidente. “Estamos convencidos de que Dilma não tem mais condições de tocar o Brasil”, diz Paulinho. Para embasar o pedido de afastamento , ele está reunindo pareceres de um grupo de juristas. Foram consultados nomes como Adilson Dallari, Cássio Mesquita Barros, Sérgio Ferraz e Modesto Carvalhosa. Uma petição disponibilizada no site do partido acusa Dilma de “omissão culposa” na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, que teria ocasionado um prejuízo à Petrobras de US$ 800 milhões. Na ocasião, ela presidia o Conselho de Administração da estatal.

Principal legenda da oposição, o PSDB evita falar em impeachment, mas declara apoio irrestrito às manifestações. “O que nós combatemos é o estelionato eleitoral de um governo que agora toma medidas no campo oposto daquelas que defendia durante a campanha eleitoral”, afirma o senador tucano Aécio Neves (MG). Ele lembra que, em dois meses, houve três aumentos consecutivos de combustíveis, a inflação acumulada extrapolou o teto da meta e o dólar disparou acima de R$ 3. Para tentar conter a escalada inflacionária, o Banco Central elevou as taxas de juros, o que reduz a oferta de crédito. “O clamor social é um aviso. Os políticos enxergam as manifestações como um termômetro”, avalia o cientista político Gaudêncio Torquato.

A desconfiança do eleitorado sobre a real capacidade de Dilma na recondução do País ao crescimento tem sido reforçada pela forma atabalhoada com que administra a economia. A falta de traquejo no trato com o Legislativo e os desdobramentos do escândalo do petrolão – que arrastaram o PT e sua base para o banco dos réus – completam o cenário desolador. Agora, o rosário de desculpas do governo está esgotando. O PT parece ignorar que Dilma foi eleita com 51,64% dos votos, o que por si só indica um cenário político polarizado. A última pesquisa do Datafolha mostrou que a popularidade da presidente despencou, enquanto sua rejeição subiu. Cerca de 60% dos entrevistados acham que Dilma mentiu na campanha, 47% a consideram desonesta e 54%, falsa. Outros 50% avaliam a chefe da nação como “indecisa”.

Para tentar reverter a agenda negativa, Dilma voltou a se aconselhar com Lula, que recomendou mudanças na articulação política. A pupila dessa vez cumpriu o combinado, deixando Mercadante apenas com assuntos da Casa Civil e entregando a relação com o Congresso aos ministros Gilberto Kassab (Cidades), Aldo Rebelo (Ciência e Tecnologia) e Eliseu Padilha (Aviação Civil), além de Pepe Vargas (Relações Institucionais), que já figurava como responsável pelas negociações políticas. A equipe do Planalto armou estratégias de defesa. Uma delas consiste em programar viagens da presidente para regiões onde desfruta de apoio popular. O primeiro teste foi no Acre, na semana passada. Nos próximos dias, as sedes regionais do PT serão responsáveis por organizar caravanas de recepção para a presidente. O Palácio do Planalto decidiu também aumentar a equipe que monitora as redes sociais para evitar surpresas e protestos inesperados, além de iniciar uma reaproximação com entidades e movimentos sociais. Parece pouco diante da avalanche que pode vir por aí.


* Com reportagem de Izabelle Torres e Ludmilla Amaral Fotos: Orlando Brito; Bruno Stock, Alberto Wu/Futura Press/Folhapress, Masao Goto Filho/Ag. Istoé; Clayton de Souza/Estadão Conteúdo; Movimento Xingu Vivo; Marcelo D’sants/Frame/Ag. o Globo

8 de mar de 2015

Discurso inaugural de Deus a Eva - Millor Fernandes

BRASIL – Dia Internacional da Mulher
Discurso inaugural de Deus a Eva
Deus maravilhado com a própria criação, disse, de improviso, algumas sábias palavras, a primeira mulher no instante exato em que a lançava no paraíso.

Postado por Toinho de Passira
Texto de Millôr Fernandes

"... Eva, de repente, descobrindo uma bela cascata, resolveu tomar um banho de rio. A criação inteira veio então espiar aquela coisa linda que ninguém conhecia. E quando Eva saiu do banho, toda molhada, naquele mundo inaugural, naquela manhã primaveril, estava realmente tão maravilhosa que os anjos, arcanjos e querubins, ao verem a primeira mulher nua sobre a Terra, não se contiveram, começaram a bater palmas e a gritar, entusiasmados: "O AUTOR! O AUTOR! O AUTOR!".

"P.S. - Este discurso do Todo-Poderoso está sendo divulgado pela primeira vez em todos os tempos, aqui neste livro. Nunca foi publicado antes, nem mesmo pelo seu órgão oficial, A BÍBLIA."

"Minha cara,

eu te criei porque o mundo estava meio vazio, e o homem, solitário. O Paraíso era perfeito e, portanto, sem futuro. As árvores, ninguém para criticá-las; os jardins, ninguém para modificá-los; as cobras, ninguém para ouvi-las. Foi por isso que eu te fiz. Ele nem percebeu e custará os séculos para percebê-lo. É lento, o homenzinho. Mas, hás de compreender, foi a primeira criatura humana que fiz em toda a minha vida. Tive que usar argila, material precário, embora maleável.

Já em ti usei a cartilagem de Adão, matéria mais difícil de trabalhar, mais teimosa, porém mais nobre. Caprichei em tuas cordas vocais, poderás falar mais, e mais suavemente. Teu corpo é mais bem acabado, mais liso, mais redondo, mais móvel, e nele coloquei alguns detalhes que, penso, vão fazer muito sucesso pelos tempos a fora.

Olha Adão enquanto dorme; é teu. Ele pensara que és dele. Tu o dominarás sempre. Como escrava, como mãe, como mulher, concubina, vizinha, mulher do vizinho.

Os deuses, meus descendentes; os profetas, meus public-relations, os legisladores, meus advogados; proibir-te-ão como luxúria, como adultério, como crime, e até como atentado ao pudor! Mas eles próprios não resistirão e chorarão como santos depois de pecarem contigo; como hereges, depois de, nos teus braços, negarem as próprias crenças; como traidores, depois de modificarem a Lei para servir-te. E tu, só de meneios, viverás.

Nasces sábia, na certeza de todos os teus recursos, enquanto o Homem, rude e primário, terá que se esforçar a vida inteira para adquirir um pouco de bens que depositará humildemente no teu leito.

Vai! Quando perguntei a ele se queria uma Mulher, e lhe expliquei que era um prazer acima de todos os outros, ele perguntou se era um banho de rio ainda melhor. Eu ri. O homem e um simplório. Ou um cínico. Ainda não o entendi bem, eu que o fiz, imagina agora os seus semelhantes.

Olha, ele acorda. Vai. Dá-me um beijo e vai. Hmmmm, eu não pensava que fosse tão bom. Hmmmm, ótimo! Vai, vai! Não é a mim que você deve tentar, menina! Vai, ele acorda. Vem vindo para cá. Olha a cara de espanto que faz. Sorri!

Ah, eu vou me divertir muito nestes próximos séculos!"

* Texto extraído do livro "Esta é a verdadeira história do Paraíso", Livraria Francisco Alves Editora - Rio de Janeiro, 1972.

7 de mar de 2015

'Seria salvar o que não deve ser salvo',
diz Fernando Henrique ao rejeitar pacto com Dilma

BRASIL – Crise
'Seria salvar o que não deve ser salvo',
diz Fernando Henrique ao rejeitar pacto com Dilma
O ex-presidente dá um chega para lá nas especulações de que estaria conversando com interlocutores do governo em busca de um pacto de governabilidade

Foto: Raquel Cunha/Folhapress

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso participando de evento em São Paulo

Postado por Toinho de Passira
Fonte: Folha de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou nota neste sábado (7) em que rejeita a tese de promover um pacto pela governabilidade com aliados da presidente Dilma Rousseff (PT). No texto, o tucano diz que “qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo” A nota é uma resposta a reportagem publicada pela Folha de S. Paulo neste sábado que mostra que, assediado por governistas, o ex-presidente tem admitido a aliados a hipótese de uma aproximação com a presidente petista, na tentativa de ajudar a achar uma saída para as crises política e econômica.

FHC tem se reunido com interlocutores do Planalto e discutido os efeitos da Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras. Em sua resposta, FHC diz que “o momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo. Este quer antes de mais nada que se passe a limpo o caso do Petrolão”.

O ex-presidente diz ainda que “cabe sim que as forças sociais, econômicas e políticas se organizem e dialoguem sobre como corrigir os desmandos do lulo-petismo que levaram o país à crise moral e a economia à recessão.”

Leia abaixo a íntegra da nota de Fernando Henrique Cardoso:

NOTA

O momento não é para a busca de aproximações com o governo, mas sim com o povo. Este quer antes de mais nada que se passe a limpo o caso do Petrolão: quer ver responsabilidades definidas e contas prestadas à Justiça.

Qualquer conversa não pública com o governo pareceria conchavo na tentativa de salvar o que não deve ser salvo.

Cabe sim que as forças sociais, econômicas e políticas se organizem e dialoguem sobre como corrigir os desmandos do lulo-petismo que levaram o país à crise moral e a economia à recessão.

Fernando Henrique Cardoso

Dilma não pode ser investigada? Há controvérsias.

BRASIL – Opinião
Dilma não pode ser investigada? Há controvérsias.
A decisão do Procurador-Geral da República de não investigar a presidente se baseia em jurisprudência do próprio Supremo Tribunal Federal, mas há ministros, como Marco Aurélio de Mello, que têm dúvidas sobre o tema. Ele acha que se fosse confrontado com o tema, o plenário do STF teria que debater o assunto, pois nunca houve uma situação concreta para ser julgada.

Postado por Toinho de Passira
Baseado no texto de Merval Pereira
Fonte: Blog do Merval

A presidente Dilma Rousseff é citada como tendo recebido uma doação de R$ 2 milhões da parte do PP no desvio de verbas da Petrobras. O pedido teria sido feito pelo ex-ministro Antonio Palocci, que na ocasião fazia parte da coordenação da campanha presidencial de Dilma.

A denúncia, no entanto, não é conclusiva, pois enquanto o ex-diretor Paulo Roberto Costa diz que recebeu o pedido de Palocci e mandou o doleiro Yousseff entregar o dinheiro, Yousseff nega que tenha feito isso. O Procurador-Geral Rodrigo Janot enviou para a primeira instância em Curitiba, a cargo do Juiz Sérgio Moro, a investigação sobre o caso, pois Palocci não tem foro privilegiado.

Quanto à presidente Dilma, ele alega que existe uma vedação constitucional para investigá-la, por força do disposto no artigo 86, § 4º, da Constituição da República, que diz que o presidente da República não pode ser processado por atos anteriores ao seu mandato. Mesmo que na investigação sobre o caso o ex-ministro Antonio Palocci venha a ser condenado, a eleição presidencial de 2010 não sofrerá nenhuma conseqüência formal.

A presidente Dilma e o vice-presidente Michel Temer, nesse caso, poderão ser processados após o término de seus mandatos atuais, mas não sofrerão conseqüências eleitorais.

No decorrer das investigações do Lava-Jato, se surgirem novos fatos relativos à mesma prática na eleição de 2014, quando o esquema do petrolão ainda estava em vigor, poderá haver conseqüências políticas mais graves para a chapa vitoriosa, mesmo que o Tribunal Superior Eleitoral já tenha encerrado o período de análise das contas.

Mas, da mesma maneira, a presidente não poderá ser processada criminalmente, pois ainda não havia iniciado seu novo mandato. A situação política, porém, mesmo no caso da eleição de 2010, ficaria insustentável se a conclusão do inquérito sobre propinas desviadas da Petrobras for dada ainda no mandato atual da presidente Dilma, com a condenação do ex-ministro Palocci.

A decisão do Procurador-Geral da República de não investigar a presidente se baseia em jurisprudência do próprio Supremo Tribunal Federal, mas há ministros, como Marco Aurélio de Mello, que têm dúvidas sobre o tema. Ele acha que se fosse confrontado com o tema, o plenário do STF teria que debater o assunto, pois nunca houve uma situação concreta para ser julgada.

Há advogados, como Cosmo Ferreira, criminalista, ex-promotor de Justiça do Rio e procurador regional da República aposentado, que consideram que o presidente da República pode sim ser investigado, independentemente dos fatos serem estranhos ou não às suas funções. O que o aludido dispositivo constitucional proíbe, diz ele, é que o Presidente seja responsabilizado, isto é, que seja processado por fatos que não digam respeito às atribuições presidenciais.

Quem está sendo investigado num inquérito policial, não está sendo processado. Inquérito policial não é processo, mas um procedimento de natureza administrativa destinado ao Ministério Público, para que este possa formar opinião. Segundo essa interpretação, a Constituição não exige a autorização da Câmara dos Deputados para que o Presidente possa ser investigado, exige sim, para que seja processado.
*Transcrevemos parcialmente o texto, alteramos o título, acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original

Gestão Dilma é uma velha com 66 dias de vida - Josias de Souza

BRASIL – Opinião
Gestão Dilma é uma velha com 66 dias de vida
Sem agenda, sua prioridade é consertar os erros de Dilma 1, uma ex-presidente que fez o pior o melhor que pôde

Postado por Toinho de Passira
Texto de Josias de Souza
Fontes:  Blog do Josias de Souza

A isso chegamos: o país novamente à beira do precipício, uma conjunção de crise econômica com escândalo de corrupção, o Legislativo apodrecido, o Executivo carcomido e o Judiciário intimado a providenciar a necropsia. Há no noticiário cadáveres demais esperando para acontecer. Já produzem um fedor lancinante. Como em toda grande tragédia, a contagem das vítimas do petrolão será lenta. A lista, que já é imensa, vai crescer. Há novas apurações e delações em curso.

O excesso de mortos-vivos leva muita gente a passar batida pelo moribundo mais ilustre em cena: o governo Dilma Rousseff. A segunda gestão de madame é, hoje, uma velha com 66 dias de existência. Embora só tenha dois meses de idade, sua cara estampa 12 anos de biografia.

Na plenitude de sua velhice precoce, a administração de Dilma 2 não tem mais ambições, só memórias. Sem agenda, sua prioridade é consertar os erros de Dilma 1, uma ex-presidente que fez o pior o melhor que pôde. Na economia, a Dilma atual é refém de Joaquim Levy. Se o ministro da Fazenda pedir para sair, a velha de 66 dias morrerá. E, suprema desgraça, não irá para o céu.

Na política, a jovem anciã comanda uma coligação de aliados 100% feita de adversários. Na iminência de dar com os burros n’água, Dilma precisa se abraçar aos burros secos. Mas olha ao redor e não os encontra. No mês passado, ajudou a reeleger Renan Calheiros à presidência do Senado. Imaginou que vitaminava um velho faz-tudo do governo. Em verdade, alimentava o novo líder da oposição. O tucanato de Aécio Neves nunca foi tão desnecessário.

Noutros tempos, a falta de traquejo de madame era compensada pela presença de espírito de Lula. Hoje, o padrinho político de Dilma prefere exercitar a ausência de corpo. Continua falando mal. Mas só pelas costas. De raro em raro, faz um discuso para atacar a mídia golpista e a oposição pró-impeachment. Mas isso também tornou-se desnecessário.

Dilma ainda não notou, mas seu governo carrega as infecções oportunistas do poder longevo. Seu segundo mandato, como a vida, é uma doença incurável. Madame não será arrancada do Planalto. Ela terá alta

1 de mar de 2015

Crise do fim do mundo - Eliane Cantanhêde, para o Estado de S. Paulo

BRASIL – Opinião
Crise do fim do mundo
Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

Charge: J. Robson - Jornal da Manhã (PR)

Toinho de Passira
Opinião de Eliane Cantanhêde
Fontes: Estadão

O 15 de março vem aí, com péssimas condições de tempo e temperatura, o governo fazendo barbeiragens e a oposição instigando as manifestações, mas desautorizando o "Fora, Dilma". E ironizando o "Foi o FHC".

Na economia, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, acerta ao entregar um superávit de R$ 21 bilhões em janeiro, mas erra feio ao criticar e chamar de "brincadeira" as desonerações feitas pela chefe Dilma Rousseff no primeiro mandato. Não se cutuca a onça com vara curta.

E... o aumento de até 150% nos impostos da indústria vem numa hora de pânico do setor produtivo e não é nada promissor para crescimento, inflação e empregos, que já começam a tremelicar.

Na política, as ameaças ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Entraram na casa dele e isso virou justificativa para seu encontro com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um mês depois, justamente às vésperas do anúncio da lista de políticos do PT e do PMDB na Lava Jato. Pior: em 48 horas, o procurador desiste da denúncia de políticos e segue pelo desvio de abrir inquérito. Leia-se: jogar tudo para as calendas.

Janot pode estar enveredando pelo pior dos caminhos: aquele que estanca um basta na corrupção sistêmica, dá na impunidade dos responsáveis pela maior roubalheira descoberta na República e, atenção, pode respingar na sua própria biografia.

Já o ministro da Justiça se encontra com o advogado da UTC, por acaso, ali na porta ao lado do seu gabinete, diz "Oi!, como está você?" e vira as costas. Também recebe a turma da Odebrecht e registra em ata que vai ver direitinho como foi o pedido de dados na Suíça, o que pode resultar em anulação de provas contra as empreiteiras. Depois se reúne com o procurador à noite, numa semana decisiva, para discutir um arrombamento desses que ocorrem às centenas, ou milhares, por dia.

Enquanto a política econômica dá um cavalo de pau, as versões do governo para sua ação na Lava Jato parecem sem pé nem cabeça e a sociedade se move, as investigações do esquemão na Petrobrás avançam. Só não se sabe para onde.

Já eram esperadas as delações premiadas de dois executivos da Camargo Corrêa, o presidente, Dalton Avancini, e o vice, Eduardo Leite (em choque com a própria companhia), que devem reforçar a tese de cartel contra a de esquema político para eternizar o PT no poder.

É o que o governo quer, mas não o que interessa à Odebrecht, onde habitam os maiores amigos de Lula e Dilma no setor. A empresa é a única que não tem nenhum executivo na cadeia e ficou fora da lista que vai pagar multa de R$ 4,5 bilhões, porque seus meandros de financiamento de campanha são muito mais complexos, não se encaixam nas investigações. Mas, se prevalecer a confissão conjunta de "cartel", ela entra na dança.

É mais um choque de interesses, mas o foco continua sendo no grande personagem das investigações: Ricardo Pessoa, o homem bomba da UTC. Tudo depende agora do fator emocional. Digamos que é uma questão de tempo.

Tem-se, assim, que a economia está como está, os ajustes são amargos num momento já de tanta amargura, o PMDB acaba de ir à TV se descolando do governo, cresce a sensação de que o procurador-geral está nas mãos de Dilma e Cardozo e o desfecho da Lava Jato é incerto, depois de tantas revelações escabrosas.

Pois é... e o 15 de março vem aí. Fernando Henrique Cardoso reuniu seus generais na sexta e o recado é: manifestações, sim; incitar o impeachment, não. Lula também reuniu sua tropa e avisou: se necessário, põe nas ruas a "tropa do Stédile" (ou seja, MST e movimentos sociais).

O que talvez os dos dois lados não estejam entendendo é que, desta vez, não se trata de PT versus PSDB. O momento é grave, a situação é complexa e a dinâmica é a de junho de 2013. As manifestações não são de partidos, de governo ou de oposição. São principalmente contra Dilma, mas contra todos eles.


*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda à publicação original