28 de fev de 2013

Bento XVI, após renúncia, tornar-se Papa emérito

VATICANO-
Bento XVI, após renúncia, tornar-se Papa emérito
Hoje, 28 de fevereiro de 2013, estritamente dentro do protocolo e na hora prevista, o Papa, que havia renunciado desde o dia 11, deixou o Vaticano o cargo de Sumo Pontífice da Igreja Católica, retirando-se da vida pública, iniciando um retiro espiritual no Castel Gandolfo, a residência de verão dos Papas, onde deverá permanecer por 60 dias. Depois será transferido para um convento no Vaticano, onde deverá permanecer em oração enclausurada até o fim da vida. Nas suas últimas declarações oficiais como líder da Igreja Católica, antecipou sua obediência incondicional ao novo Papa.

Foto:Alessandro Bianchi / Reuters

O helicóptero que levou o Papa Bento XVI do Vaticano sobrevoou Roma, na tarde quinta-feira. O Santo Padre apreciou do alto a cidade pela último vez como o líder máximo da Igreja Católica. Desde às 20 horas, desta quinta-feira, será "apenas – segundo ele - um peregrino que entra na derradeira fase da sua peregrinação na terra."

Postado por Toinho de Passira

Fontes: L'Osservatore Romano, Veja, BBC Brasil, Stern, Paris Match, The Telegraph, The New York Times, Reuters

O papa Bento 16 encerrou seu pontificado de oito anos nesta quinta-feira, tornando-se o primeiro pontífice em seis séculos a renunciar em vez de deixar o posto após a morte.

O papado tornou-se oficialmente vago às 20h (16h em Brasília), de acordo com o desejo do papa ao anunciar sua decisão de renúncia em 11 de fevereiro.

A bandeira papal amarela e branca foi abaixada e os sentinelas da Guarda Suíça deixaram a entrada da residência papal de verão ao sul de Roma, para onde o agora "papa emérito" voou de helicóptero menos de três horas antes do fim de seu pontificado.

- O papa Bento 16 deixou o Vaticano nesta quinta-feira e prometeu obediência incondicional a quem lhe suceder para guiar a Igreja Católica em um dos períodos mais assolados por crises nos 2.000 anos de história.

Foto: AFP/Getty Images

O papa Bento 16 encerrou seu pontificado de oito anos nesta quinta-feira, tornando-se o primeiro pontífice em seis séculos a renunciar em vez de deixar o posto após a morte.

O primeiro papa a renunciar em seis séculos, Bento voou em um helicóptero branco da força aérea italiana para a vila papal de verão ao sul da capital, onde ele vai morar temporariamente.

Os sinos badalaram na Basílica de São Pedro e em igrejas por toda Roma enquanto o helicóptero circulava a Cidade do Vaticano, sobrevoava o Coliseu e outros monumentos para dar ao pontífice uma última visão da cidade onde ele também é bispo.

Foto: Michael Kappeler/DPA



Falando aos fiéis pela última vez, da janela diante da Praça da pequena Castel Gandolfo

"Como vocês sabem, hoje é um dia diferente dos outros. Eu serei o supremo pontífice da Igreja Católica até as 20h (16h de Brasília)", disse ele a uma multidão emocionada e eufórica na pequena cidade de Castel Gandolfo, da janela da edificação em seu último comentário público como Papa. "Depois disso, serei apenas um peregrino que está começando a última fase de sua peregrinação nesta Terra."

Ele se virou e entrou na vila, para nunca mais ser visto como papa.

Em um adeus emocionado aos cardeais na manhã de quinta-feira, na Sala Clementina repleta de afrescos do Vaticano, Bento apareceu para enviar uma forte mensagem ao escalão superior da Igreja e aos fiéis para que permaneçam unidos em torno de seu sucessor, seja ele quem for.

"Vou continuar a estar perto de vocês em oração, especialmente nos próximos dias, de modo que vocês aceitem plenamente a ação do Espírito Santo na eleição do novo papa", disse ele aos cardeais na sala Clementina do Vaticano.

"Que o Senhor possa mostrá-los o que Ele quer. Entre vocês, há o futuro papa, a quem hoje declaro minha reverência e obediência incondicional", afirmou.

Foto: Osservatore Romano/Reuters

Antes de partir, o "papa emérito", como passa a ser chamado, prometeu, perante os cardeais católicos, "obediência e reverência" a seu sucessor.

A promessa, feita antes do conclave a portas fechadas em que os cardeais elegerão o novo papa, foi importante porque, pela primeira vez na história, haverá um papa reinante e um ex-papa vivendo lado a lado no Vaticano.

Bento parecia estar enviando uma forte mensagem aos escalões superiores da Igreja, bem como aos fiéis, para permanecerem unidos em apoio a seu sucessor, seja ele quem for.

Alguns estudiosos da Igreja temem que se o próximo papa desfizer algumas das políticas de Bento 16 enquanto seu antecessor ainda estiver vivo, Bento poderia atuar como um para-raios para os conservadores e polarizar a Igreja de 1,2 bilhão de membros.

Antes de subir no helicóptero, o papa Bento disse adeus a monsenhores, freiras, empregados do Vaticano e a guarda suíça no pátio San Damaso do palácio apostólico da Santa Sé. Muitos de seus funcionários tinham lágrimas nos olhos quando o helicóptero partiu.

Enquanto o helicóptero decolava, ele enviou sua última mensagem no Twitter: "Obrigado por seu amor e apoio. Que vocês sempre experimentem a alegria que advém de colocar Cristo no centro de suas vidas".

Bento vai passar os primeiros meses de sua aposentadoria na residência de verão papal, Castel Gandolfo, um complexo de vilas com jardins exuberantes, uma fazenda e paisagens deslumbrantes do Lago Albano na cratera vulcânica abaixo da cidade.

Às 20h (16h no Brasil), o papado ficou oficialmente vago quando os dois Guardas Suíços que cerimoniosamente vigiam a vila de verão partiram para não mais voltar até que outro Papa seja eleito e para lá se dirija. O Papa Emérito Bento XVI, oficialmente não tem direito de ser protegido pela Guarda Suíça, privilégio destinado exclusivamente ao Papa em exercício. A partir de agora a polícia italiana assume a responsabilidade da segurança de Bento XVI.

O Papa Emérito ficara em Castel Gandolfo até abril, quando a reforma estiver completa em um convento no Vaticano que será sua nova casa.

PROBLEMAS PAPAIS

Junto aos cardeais Bento, vestindo a batina branca papal e a capa vermelha que ele deixará de usar após a oficialização da renúncia, insistiu que a Igreja se esforce para ser "profundamente unida".

Amante da música clássica, ele comparou a hierarquia da Igreja a uma orquestra com muitos instrumentos que devem sempre procurar ser harmoniosos. Bento toca piano e gosta de fazê-lo como hobby.

"Vamos permanecer unidos, queridos irmãos", disse Bento 16, que fez alusão aos escândalos e relatos de disputas internas entre seus assessores mais próximos.

"Nesses últimos oito anos temos vivido com fé momentos bonitos de luz radiante no caminho da Igreja, bem como momentos em que algumas nuvens escureceram o céu", declarou ele.

O papa disse que "tentou servir a Cristo e à sua Igreja com amor profundo e total".

NOVO PAPA PARA A PÁSCOA

Assim que a cadeira de São Pedro estiver vaga, cardeais de vários países do mundo vão começar a planejar o conclave que vai eleger o próximo papa.

Uma das primeiras perguntas que estes "príncipes da Igreja" enfrentam é quando os 115 cardeais eleitores devem entrar na Capela Sistina para a votação. Eles vão realizar uma primeira reunião na sexta-feira, mas a decisão não deve ocorrer até a próxima semana.

O Vaticano parece ter como objetivo uma eleição até meados de março para que o novo papa possa ser empossado antes do Domingo de Ramos, em 24 de março, e conduzir os serviços da Semana Santa que culminam na Páscoa no domingo seguinte.

Com a eleição do próximo papa ocorrendo na esteira de escândalos de abuso sexual, vazamentos de documentos privados do papa, queda no número de fiéis e exigências de um papel maior para as mulheres, muitos na Igreja acreditam que seria benéfico uma cara nova vinda de um país fora da Europa.

Alguns cardeais de países em desenvolvimento, incluindo o brasileiro dom Odilo Scherer, Peter Turkson, de Gana, e Antonio Tagle, das Filipinas, são nomes frequentemente citados como principais candidatos do mundo em desenvolvimento.

Não existem candidatos oficiais, nenhuma campanha aberta e nenhum claro favorito ao posto. Cardeais apontados como favoritos por observadores do Vaticano incluem também o canadense Marc Ouellet, o italiano Angelo Scola e o norte-americano Timothy Dolan.

Há quem aposte também no Cardeal brasileiro,Dom João Braz de Aviz, 66 anos, atual prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólicano Vaticano e Arcebispo-emérito de Brasília, consagrado Cardeal em 18 de fevereiro de 2012 recebeu o barrete cardinalício, na Basílica de São Pedro, das mãos do então Papa Bento XIV.


26 de fev de 2013

Festa do Oscar 2013

ESTADOS UNIDOS -Entretenimento
A festa do Oscar 2013
A grande surpresa da noite ficou por canto da apresentadora do Oscar de melhor filme, que foi a primeira-dama Michelle Obama, que anunciou o vitorioso - ”Argo”, de Ben Affleck - diretamente da Casa Branca. A estatueta de melhor diretor foi para o Ang Lee de “As Aventuras de Pi” . A Academia pulverizou seus prêmios para os melhores de 2012. O campeão de troféus, “Pi”, ganhou quatro das 11 estatuetas para as quais foi indicado. Houve um grande derrotado: Steven Spielberg

Foto: Mario Anzuoni/Reuters

Ben Affleck recebendo o Oscar por ”Argo”, o melhor filme do ano

Postado por Toinho de Passira

Fontes: Veja, Época, O Globo, Radar Cultural - Estadão, The New York Times, Stern, The Atlantic Wire, Paris Match

Com poucas surpresas e prêmios bem distribuídos entre os principais indicados, o Oscar 2013 consagrou ”Argo” como o melhor filme de 2012. O longa de Ben Affleck levou três dos sete prêmios ao qual estava indicado. Além do mais importante da noite, Argo também ganhou nas categorias de melhor edição e melhor roteiro adaptado.

”Lincoln”, que era outro forte candidato a melhor longa, saiu da festa com duas estatuetas apenas, a de design de produção e de melhor ator para Daniel Day-Lewis, que entra para a história da Academia de Hollywood como o primeiro a ganhar três vezes na categoria de melhor ator.

Foto: Reuters




Jennifer Lawrence, chegada deslumbrante, queda ao subir no palco e vitória do Oscar de melhor atriz

Entre as atrizes, a estatueta ficou com Jennifer Lawrence, de ”O Lado Bom da Vida” . Talentosa, ela já havia concorrido em 2011 com a produção Inverno da Alma, quando chamou a atenção pela pouca idade – na época tinha 20 anos, dois a menos que agora. Se a sua premiação não foi uma surpresa, o tombo que levou a caminho do palco, onde receberia a estatueta e faria um bem-humorado discurso de agradecimento, foi com certeza um susto.

Outra favorita confirmada foi Anne Hathaway, que ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante com seu papel em ”Os Miseráveis” . Anne, que faz o tipo fofa desencanada, fez um discurso emocionado dizendo que espera um futuro no qual a triste história de pessoas como sua personagem Fantine não seja mais realidade, somente ficção.

As surpresas ficaram por conta de Ang Lee, que bateu Steven Spielberg, como melhor diretor pelo filme ”As Aventuras de Pi”. E também com Christoph Waltz, pela segunda vez vencedor na categoria de melhor ator coadjuvante por seu papel em ”Django Livre” – a primeira vitória foi com outro longa de Tarantino, Bastardos Inglórios (2009).

Aliás, a premiação começou com a entrega do prêmio para Waltz, e aí já parecia anunciar que esta seria uma festa sem concentração de estatuetas. Sob o comando do comediante Seth MacFarlane, que exceto por dois ou três comentários não alcançou a expectativa de ser um apresentador ácido e divertido, a festa entregou pelo menos um prêmio para cada um de seus principais indicados. O único a não levar nada, mas que já deve comemorar o fato de estar entre os indicados da Academia de Hollywood, foi a produção independente ”Indomável Sonhadora”, de Benh Zeitlin.

Nas categorias de animação, a Disney abocanhou os prêmios de melhor curta e melhor longa animado, para Paperman e Valente, respectivamente. Logo em seguida, As Aventuras de Pi ganhou nas categorias técnicas de melhor fotografia e melhores efeitos visuais. De todos os indicados, o filme de Ang Lee foi o que mais levou estatuetas na noite, com quatro no total de 11 indicações. Depois dele, ”Argo” e ”Os Miseráveis” levaram três prêmios. E ”Django Livre”, ”Lincoln” e ”007: Operação Skyfall” dois cada.

Com o sucesso de ”Os Miseráveis”, os musicais ganharam uma homenagem especial na noite. Catherine Zeta-Jones foi a primeira a subir ao palco para relembrar seu papel em ”Chicago” . Em seguida, Jennifer Hudson cantou a música ”And I Am Telling You I'm Not Going” de ”Dreamgirls” . Por fim, o elenco de Os Miseráveis acompanhou Hugh Jackman em uma apresentação confusa e mal ensaiada. Entre todos, a melhor performance da noite ficou com a belíssima Adele, que cantou com segurança a música Skyfall antes de levar o prêmio de melhor canção original.

O aclamado Quentin Tarantino teve seus minutos de glória ao ganhar na categoria melhor roteiro original com Django Livre. Em seu discurso, Tarantino exaltou seu elenco e disse que espera ser conhecido no futuro pelos personagens que criou e pelas boas escolhas que fez dos atores para vivê-los. Outro diretor que também teve seu momento foi o austríaco Michael Haneke, que levou o prêmio de melhor filme estrangeiro com seu drama Amor.

Quem ficou sem momento algum e mal foi filmada pelas câmeras foi a diretora Kathryn Bigelow, de ”A Hora Mais Escura” . Ao contrário de Argo, que mesmo sendo uma ode ao americanismo não poupa criticas à política externa do país, A Hora Mais Escura foi motivo de controvérsias desde o anúncio das indicações – sua diretora ficou de fora – e também enfrentou séria resistência por divulgar a prática de tortura feita por soldados americanos no intuito de encontrar Osama bin Laden. Sendo assim, não é de se admirar que o filme tenha passado quase despercebido pelo evento, levando apenas um prêmio de edição de som, o qual ainda foi divido em um empate com o filme ”. 007: Operação Skyfall”.

Foto: Reuters

Michelle Obama apareceu no Oscar para anunciar prêmio de melhor filme para 'Argo'

Por fim, a engraçada figura de Jack Nicholson subiu ao palco para apresentar o prêmio mais importante da noite. Ele invoca a presença de Michelle Obama no telão para ajudá-lo. Direto da Casa Branca, a primeira-dama elogiou a produção cinematográfica do país e teve a honra de abrir o envelope secreto que anunciaria Argo como o grande ganhador da noite.

O diretor Ben Affleck subiu ao palco com Grant Heslov e George Clooney e, emocionado, agradeceu a sua equipe e família, principalmente à esposa e também atriz Jennifer Garner que estava na plateia. Chamou Steven Spielberg de gênio, enalteceu todos os indicados a melhor filme e relembrou o apoio que teve de diversos profissionais do cinema durante sua carreira.

“Há 15 anos eu subi aqui e não tinha ideia do que estava fazendo, eu era só uma criança. Nunca pensei que estaria de volta, mas estou por causa de vocês, por causa de pessoas maravilhosas no cinema que confiaram em mim”, finalizou relembrando seu primeiro Oscar em 1998 pelo roteiro do filme Gênio Indomável”.


25 de fev de 2013

Lula-luz e o poste, de Mary Zaidan

BRASIL – Opinião
Lula-luz e o poste
”É certo que Lula anda menos falante. Tem preferido palcos sob medida, com claque garantida, sem chance de ser questionado sobre a sua auxiliar Rose-tudo-pode ou sobre as denúncias de Marco Valério de que o ex-presidente teria usufruído de dinheiro do mensalão. (...) De jornalistas não oficiais, quer distância..”



Lula sabe que “se a economia - que já patina – piorar (...) e Aécio pode crescer e Campos torna-se realmente um perigo.”

Postado por Toinho de Passira
Texto de Mary Zaidan, para o Blog do Noblat
Fonte: Blog do Noblat

Dilma Rousseff é a presidente com o maior índice de aprovação que o País já teve. É alguém que obedece tão fielmente às instruções de seu marqueteiro que tem coragem de, sem qualquer constrangimento, bater no peito e anunciar a data do fim da miséria. É “o poste que está iluminando o Brasil”, como disse Lula ao lançá-la candidata à reeleição na festa dos 33 anos do PT e do decênio do partido no poder.

Então, por que Lula e o PT andam tão aflitos? Por que gastar quase dois anos de um mandato seguro, popularíssimo, para tentar garantir o próximo?

Com o batido discurso do "nós x eles", em que o eles é Fernando Henrique Cardoso, a mídia golpista, os que não suportam um operário ter chegado ao poder e toda essa ladainha, Lula consegue trazer o debate para o seu campo de conforto.

É certo que Lula anda menos falante. Tem preferido palcos sob medida, com claque garantida, sem chance de ser questionado sobre a sua auxiliar Rose-tudo-pode ou sobre as denúncias de Marco Valério de que o ex-presidente teria usufruído de dinheiro do mensalão.

De jornalistas não oficiais, quer distância.

Ainda assim, se mantém no topo do noticiário, como o grande articulador, o imbatível. Aquele que conseguirá, mais uma vez, trazer a vitória das urnas.

As chances são grandes.

Mas, ao contrário do que Lula quer fazer crer, sua preocupação do momento não é o governador do Pernambuco Eduardo Campos (PSB), muito menos o senador tucano Aécio Neves (MG). Eles só vão incomodar se a economia - que já patina - piorar. Aí, Aécio pode crescer e Campos torna-se realmente um perigo.

Ao insistir no lengalenga populista, no “nunca antes neste País”, Lula redirecionou e personalizou o debate. É ele x FHC. É ele x Campos. É ele x qualquer um.

Com isso, divide as atenções, dá um refresco nas críticas mais afiadas contra ele, seu governo, sua pupila e os seus.

Substitui as manchetes sobre a inflação, que começa a corroer os ganhos dos mais pobres. Tira o fiasco da Petrobrás das primeiras páginas. E com sua fala de efeito, ocupa todos os espaços com articulações mirabolantes – como a de oferecer a candidatura ao governo de São Paulo a Michel Temer (PMDB) e a vaga de vice a Campos.

Safo como ele só, Lula é capaz até de culpar a oposição pela incompetência do poste que escolheu para a cadeira do Planalto. De atribuir os reveses da economia à elite, a mesma que lhe garantiu e lhe assegura o trono.

Há tempos reservou para si o papel da luz.

Joga ciente de que, se ao fim e ao cabo a economia fraquejar, será ele, Lula, o ungido. Não dá para saber quem torce mais para esse curto-circuito: se o PT ou Lula. Ou ambos.


Mary Zaidan é jornalista. Trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa.
*Acrescentamos subtítulo e legenda na foto, da publicação original

Arte e análises velhas, de Míriam Leitão, para O Globo

BRASIL – Opinião
Arte e análises velhas
”Os redatores da cartilha não conseguem provar a tese de que um período concentrou renda e o outro distribuiu. Nos números que contrapõe, admite que houve redução da desigualdade, medida pelo Índice Gini, nos dois períodos. Houve mais redução no governo Lula, mas o processo virtuoso começou após a estabilização da moeda. Só é possível fazer políticas sociais eficientes quando há inflação sob controle.”



A capa da cartilha do PT “evoca a idolatria personalista de regimes autoritários.”

Postado por Toinho de Passira
Texto de Míriam Leitão, para O Globo
Fonte: Blog de Miriam Leitão

A arte da capa do folheto e dos cartazes comemorativos dos 10 anos do PT foi comparada à estética gráfica dos regimes totalitários de direita e de esquerda. Parece mesmo. Aquelas fotos enormes das duas cabeças em um corpo, e um povo miúdo em comemoração, evoca a idolatria personalista de regimes autoritários. O texto é ainda mais discutível.

A versão de que a virtude absoluta está de um lado, e toda a maldade se concentra nos adversários, é bizarra. Hoje, após quase três décadas de democracia, o país foi exposto ao contraditório, teve decepções, aprendeu nuances, vê com espírito crítico mesmo aqueles nos quais vota.

É fazer pouco da inteligência dos brasileiros. Eles não são adoradores infantilizados de líderes macrocéfalos, mas cidadãos capazes de pensar criticamente.

A história democrática recente não está dividida em dois períodos — os anos desastrosos e os anos gloriosos. É uma simplificação grosseira, só aceitável em regimes que controlam a opinião pública, o que é impossível na democracia. Há nuances, virtudes e defeitos nos dois períodos de governo. Há diferenças até dentro de um mesmo período presidencial. O período Palocci é diferente da gestão Mantega, por exemplo, com superioridade para o primeiro, que preservou a estabilidade da moeda, conquistada no governo anterior. O segundo tem tomado decisões perigosas na área fiscal e monetária.

No texto, há um trecho que diz: “A teoria do bolo, de que somente após a economia crescer seria possível distribuir, se tornou uma referência a não ser questionada.” Tal teoria do bolo não foi invenção de nenhum adversário do PT, mas do seu neoamigo Delfim Netto.

Os redatores da cartilha não conseguem provar a tese de que um período concentrou renda e o outro distribuiu. Nos números que contrapõe, admite que houve redução da desigualdade, medida pelo Índice Gini, nos dois períodos. Houve mais redução no governo Lula, mas o processo virtuoso começou após a estabilização da moeda. Só é possível fazer políticas sociais eficientes quando há inflação sob controle.

O PT tem erros a omitir e virtudes a exibir. Fiquemos na segunda parte: a ampliação da rede de proteção social. Mas os dados do próprio governo mostram que o programa anterior estava transferindo R$ 4 bilhões no fim do governo Fernando Henrique. No governo Lula, R$ 15 bilhões, e agora, R$ 23 bilhões. O programa mudou de nome e foi ampliado e aperfeiçoado. Omite-se que a ideia original da campanha de 2002 era distribuir vales para trocar por alimentos. Felizmente, a ideia obsoleta foi abandonada.

O texto alega que nos anos petistas foi feita a organização das finanças públicas, o que na verdade foi um trabalhoso esforço que consumiu anos até se chegar à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso tem sido ameaçado pela alquimia contábil. Em dado momento da cartilha, eles dizem que nos anos petistas o crescimento do PIB por habitante foi de 2,2%. No final desta semana, será confirmado que em 2012 o PIB per capita teve crescimento zero.

Peça de propaganda publicitária não é para dialogar com sinceridade, mas para construir uma versão a ser vendida ao eleitorado. O problema é que faltam 18 meses para o período oficial da campanha eleitoral e o governo precisa governar.

Explicações maniqueístas têm um defeito básico: elas anulam o espaço para a conversa inteligente. O início extemporâneo de campanha põe em risco a ação sóbria do governo para corrigir o rumo na direção do que o país quer, seja quem for que o governe: desenvolvimento com moeda estável.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original

18 de fev de 2013

Duas experiências de poder: a de Bento XVI e a de Chávez I…, de Reinaldo Azevedo, para a Veja

BRASIL – Opinião
Duas experiências de poder:
a de Bento XVI e a de Chávez I…
Enquanto a dita autoritária Igreja Católica vive esse processo, (renuncia de Bento XVI) assistimos na América Latina ao espetáculo grotesco de ditadores e semiditadores que recorrem às urnas para solapar a democracia e para se eternizar — ou a seus partidos — no poder.

Charge : Boopo

Postado por Toinho de Passira
Texto de Reinaldo Azevedo
para a Veja
Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo

Curioso, não? O cardeal Joseph Ratzinger foi eleito para ser Bento 16 até o fim da vida. Era essa a expectativa. O colégio que o elegeu e a comunidade da Igreja concedem-lhe o privilégio da infalibilidade no que diz respeito à condução da Igreja e aos assuntos de fé. Mesmo assim, ele renunciou a tudo isso. Ainda que a Igreja Católica tenha a pretensão de ser “universal” (e essa universalidade tem de ser conquistada pelo convencimento e pela adesão espontânea), ela tem consciência de que não é um poder público — assim, não está obrigada moralmente a ser “democrática”, certo? Não obstante, seu líder máximo abre mão do poder que tem porque entende ser o melhor para os fiéis. Nestes dias que se seguiram à renúncia, “progressistas” e esquerdistas do mundo inteiro — incluindo os nossos, claro! — hostilizaram Bento XVI abertamente, apontando a sua suposta obsolescência e das teses da Igreja, que estariam vencidas etc.

Enquanto a dita autoritária Igreja Católica vive esse processo, assistimos na América Latina ao espetáculo grotesco de ditadores e semiditadores que recorrem às urnas para solapar a democracia e para se eternizar — ou a seus partidos — no poder. Aquela mesma escória intelectual que vaia o papa aplaude como exemplo de democracia os novos — e ao menos dois velhos — gorilas do continente. Uma charge de autoria de Boopo capta com graça ferina a ironia da coisa. É a imagem que abre este post.

Chávez

Muito bem! Chávez anuncia que está de volta à Venezuela. Ele o fez pelo Twitter. Assim como as novas ditaduras recorrem a práticas consagradas pela democracia para se instalar, também apelam às modernas tecnologias para exercer o velho vício do mando.

O Superior Tribunal de Justiça da Venezuela diz estar pronto para realizar a cerimônia de juramento do cargo por Hugo Chávez. Segundo uma fonte judicial citada pela agência France Presse, a posse pode ser realizada “a qualquer momento” e o tribunal espera apenas “a decisão do presidente e de sua equipe médica”, que determinará se o evento será público ou privado e onde será realizado.

Reeleito em outubro passado para seu quarto mandato consecutivo, Chávez, de 58 anos, não tomou posse no dia 10 de janeiro, como previsto na Constituição venezuelana, por estar internado em Cuba, onde foi submetido no dia 11 de dezembro, a uma cirurgia para combater um câncer. A oposição defendeu que fosse declarada ausência do mandatário, o que poderia abrir caminho para novas eleições. O STJ, contudo, ratificou a tese chavista e manteve o coronel no poder, mesmo sem tomar posse, sob a alegação de que há “continuidade administrativa” no país. Desta forma, os ministros e o vice-presidente – que não é eleito, mas nomeado – também permaneceram em suas funções.

Em janeiro, o jornal espanhol ABC publicou reportagem afirmando que os médicos que atendiam Chávez em Havana estavam sendo pressionados para estabilizar a situação do ditador para possibilitar sua transferência para o Hospital Militar de Caracas, onde ele continuaria internado. A transferência, mesmo com os riscos, permitiria que o juramento fosse realizado.

No início da madrugada desta segunda-feira, Chávez anunciou pelo Twitter seu retorno à Venezuela. “Chegamos de novo à pátria venezuelana. Graças a Deus! Graças ao povo amado! Aqui continuaremos o tratamento”, diz o post publicado no microblog, que estava inativo desde novembro do ano passado. O anúncio foi feito depois de mais de dois meses de internação na ilha.

O anúncio sobre o retorno foi feito pouco depois de o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Elías Jaua, dizer que não é possível negar que o mandatário está enfrentando uma situação “complexa e difícil”. Na sexta-feira, o governo venezuelano divulgou as primeiras imagens do coronel, ao lado das filhas, em Havana.

Preparativos

O chefe da Assembleia Nacional e vice-presidente do partigo governista Psuv, Diosdado Cabello, disse que Chávez deu instruções à sua equipe sobre seu retorno à Venezuela há dois dias. Segundo ele, sabendo o impacto que seu regresso causaria, o caudilho esperou chegar ao Hospital Militar para publicar as mensagens sobre sua chegada, informou o jornal El Universal. Segundo Cabello, um espaço nos arredores do hospital será preparado para que as pessoas que queiram visitar Chávez possam chegar perto sem interromper o serviço do hospital.

Cubana Yoani Sánchez, autorizada a viajar, escolheu o Brasil como primeiro destino

BRASIL - CUBA
Cubana Yoani Sánchez, autorizada a viajar,
escolheu o Brasil como primeiro destino
Chegou ao Brasil, nesta manhã, pelo aeroporto dos Guararapes em Recife, a famosa dissidente cubana, escritora, jornalista e blogueira, que faz oposição ao governo de Cuba. Essa é a primeira vez que ela foi autorizada pelas autoridades do seu país a deixar a ilha. Reportagem em VEJA desta semana mostra o envolvimento de militantes petistas - e até de um funcionário do Palácio do Planalto - numa conspiração do governo cubano para tentar desmoralizar a blogueira durante sua visita ao Brasil

Foto:Edmar Mello/EFE

“Durante seis longos anos tentei quase 20 vezes sair do meu país, de modo temporário, e recebi sempre a mesma resposta, ‘a senhora não está autorizada a viajar’. Agora, finalmente as fronteiras da ilha se abriram para mim, e tenho esperanças que possam se abrir também para muitos outros colegas”.

Postado por Toinho de Passira

Fontes: G1- Pernambuco, Época, Veja

A dissidente cubana Yoani Sánchez chegou na madrugada desta segunda-feira (18) ao Brasil, primeira etapa de uma viagem de 80 dias que a levará a uma dezena de países da América e da Europa. Yoani chegou em um voo procedente de Cidade do Panamá ao aeroporto internacional Guararapes, da cidade de Recife, onde era esperada vários amigos, entre eles o cineasta Dado Galvão, seu anfitrião no Brasil.

Yoani foi recebida também com protestos. Um grupo de manifestantes a acusou de receber dinheiro dos Estados Unidos para ser revolucionária.

Na noite desta segunda-feira, Yoani será a convidada especial de uma sessão na qual será projetado o documentário Conexão Cuba-Honduras, produzido por Galvão e no qual ela é uma das entrevistadas. A projeção acontece em Feira de Santana, na Bahia, para onde Yoani se deslocou após ter seguido de inicialmente em avião para Salvador, e de lá irá de carro até Feira de Santana, cidade de 557 mil habitantes, situada a 116 quilômetros da capital baiana.

A viagem de Yoani, uma das vozes mais críticas da ilha, foi possível devido à reforma migratória vigente desde o dia 14 de janeiro em Cuba e após ter recebido negativas durante os últimos cinco anos do Governo de Havana para sair do país. Em 2012, ela tentou visitar o Brasil para participar da apresentação do documentário, mas as autoridades cubanas negaram a permissão de saída do país.

Foto: Edmar Melo/EFE

A turma convocada pela embaixada cubana no Brasil, petistas, integrantes da CUT e similares, fizeram sua primeira aparição no aeroporto do Recife, protestando contra a presença de Yoani Sánchez em território brasileiro.

A blogueira terá no Brasil uma intensa agenda que inclui sua participação em conferências e debates sobre liberdade de expressão e direitos humanos, mas ela também quer "conhecer os brasileiros e seu modo de vida".

Além de assistir à exibição do documentário, Yoani dará na terça-feira (18) uma entrevista coletiva em Feira de Santana, terá uma sessão de autógrafos de seu livro De Cuba, com Carinhoe participará de um debate sobre liberdade de expressão e direitos humanos. Na quarta-feira (19) fará turismo em Salvador e depois partirá rumo a São Paulo, onde suas atividades se prolongarão até sábado.

A viagem de Yaoni também inclui México, Peru, Estados Unidos, República Tcheca, Alemanha, Suécia, Suíça, Itália e Espanha, onde entre outros eventos participará na cidade de Burgos de um congresso sobre internet entre 6 e 8 de março.

Foto:Helia Scheppa/Reuter

Yoani Sánchez diz que escolheu o Brasil como primeiro destino, porque os brasileiros insistiram sempre em convidá-la, inúmeras vezes, mesmo quando não havia nenhuma esperança de que o regime deixasse que ela saísse de Havana

Segundo a Veja, um dos motivos da viagem da blogueira Yoani Sánchez é divulgar o livro ”De Cuba, com Carinho”, uma coletânea de seus textos sobre o triste cotidiano do povo cubano sob a ditadura dos irmãos Fidel e Raúl Castro. O trabalho rendeu à dissidente uma perseguição implacável. Ela foi sequestrada, torturada e, durante anos, impedida de deixar o país. É rotulada de mercenária pelos comunistas da ilha e acusada de trair os princípios revolucionários.

O que Yoani não sabe, diz a Veja, é que, apesar da distância que separa o Brasil de Cuba - 5 000 quilômetros -, ela não estará livre dos olhos e muito menos dos tentáculos do regime autoritário.

Para os sete dias em que permanecerá no Brasil, o governo cubano escalou um grupo de agentes para vigiá-la e recrutou outro com a missão de desqualificá-la a partir de um patético dossiê. Uma conspirata oficial em território estrangeiro contra quem quer que seja é uma monumental afronta à soberania de qualquer nação.

Esse caso, porém, envolve uma inquietante parceria. O plano para espionar e constranger Yoani Sánchez foi elaborado pelo governo cubano, mas será executado com o conhecimento e o apoio do PT, de militantes do partido e de pelo menos um funcionário da Presidência da República.

O conselheiro político da embaixada de Cuba em Brasília, Rafael Hidalgo, organizou uma reunião no dia 6 de fevereiro com militantes do PT, do PCdoB e integrantes da CUT para que fosse montada uma operação de desqualificação de Yoani Sánchez. Entre os participantes do encontro estava Ricardo Poppi Martins, coordenador-geral de Novas Mídias da Secretaria-geral da Presidência e subordinado ao ministro Gilberto Carvalho.

A estratégia de desqualificação da ativista cubana, informada pelo embaixador Rodríguez na reunião, incluía uma ofensiva de “contrainformação” por meio da divulgação de um dossiê com dados distorcidos sobre a vida dela. Para sustentar a tese de que Yoani teria uma vida de luxo, os presentes à reunião receberam fotos em que ela é retratada bebendo cerveja, comendo banana ou tomando sol na praia.

O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) protocolou nesta segunda-feira na Mesa Diretora do Senado requerimento para que os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria-geral da Presidência) e Antonio Patriota (Relações Exteriores) prestem esclarecimentos aos parlamentares sobre a informação, contida na reportagem da Veja, de que dirigentes partidários, integrantes do corpo diplomático e pelo menos um representante da Presidência da República participaram de uma negociação para desqualificar a blogueira cubana Yoani Sánchez.

O senador tucano também oficializou convite para que o embaixador cubano no Brasil, Carlos Zamora Rodríguez, esclareça a perseguição que emissários do governo de Raúl Castro pretendem fazer à ativista.

Nós do “thepassiranews”, damos as boas vindas a nossa parceira Yoani Sánchez, de quem sempre transcrevemos artigos, e ficamos felizes e honrados por ela ter ficado algumas horas em Recife, Pernambuco.


14 de fev de 2013

PAPA MÓVEL

BRASIL -
PAPA MÓVEL
Guardada as devidas proporções

Foto:Alessandro Di Meo / EPA

Raio atinge basílica de São Pedro, durante uma tempestade na Cidade do Vaticano em 11 de fevereiro de 2013, o mesmo dia o Papa Bento XVI anunciou sua renúncia

Postado por Toinho de Passira
Texto de Fernando Verissimo
Fonte: Blog do Noblat

Eu não sabia que Papa podia pedir demissão. Aparentemente, Bento não será o primeiro, houve outros, há muito tempo.

Uma questão: Papa aposentado continua infalível ou esta qualidade é do cargo e não do homem?

A situação do novo Papa pode ser parecida com a da Dilma com relação ao Lula, que mesmo afastado continua dando palpite. Guardadas, claro, as devidas proporções.

6 de fev de 2013

Clima de desconfiança entre PT e PMDB após eleição de Henrique Alves para presidência da Câmara

BRASIL - Conchavos
Clima de desconfiança entre PT e PMDB após eleição de Henrique Alves para presidência da Câmara
Peemedebistas, na figura do deputado Henrique Eduardo Alves ganharam o cargo de presidente da Câmara, mas a vitória acabou revelando que o PT não estava de tudo unido no apoio prometido. Por outro lado, para turvar as aguas vazou que Lula sugeriu a Dilma, a substituição de Michel Temer, por Eduardo Campos, como vice, na hora da reeleição.

Foto: Jose Cruz/ABr

Vitória menor do que a esperada, recado de petistas, ameaça de socialistas

Postado por Toinho de Passira
baseado no texto de Fernanda Krakovics, para O Globo
Fontes: O Globo, G1

A baixa votação obtida pelo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), eleito presidente da Câmara com apenas 22 votos além do necessário, azedou ainda mais o clima entre PT e PMDB rumo a 2014.

Os peemedebistas atribuem grande parte da responsabilidade pelo desempenho considerado ruim a traições de petistas, apesar do acordo entre os dois partidos para que Alves fosse o presidente da Casa, e relacionam esse comportamento à próxima disputa presidencial.

Embora a relação sempre tenha sido de desconfiança, o mal-estar entre PT e PMDB se instalou quando o ex-presidente Lula sugeriu à presidente Dilma Rousseff, no último dia 25, que ceda sua vaga de vice em 2014 para Eduardo Campos (PSB). Esse assunto dominou parte da reunião da bancada do PMDB na Câmara, nos últimos dias.

O tom predominante dos debates foi de beligerância em relação ao PT e ao governo, com reclamações sobretudo quanto ao espaço do partido na administração Dilma e à liberação de emendas parlamentares. O novo líder do PMDB, deputado Eduardo Cunha (RJ), reforçou o recado de que não haverá alinhamento automático. A cúpula do partido evita expor a insatisfação, mas ela é verbalizada pela base do partido.

— Nossos amigos do PT nos acham os companheiros necessários, mas indesejáveis. Lá no placar do Henrique estava escrito que o vice para a próxima eleição, se possível, não será nosso.

Parte dos votos do Júlio Delgado (PSB) é um recado para nós — disse aos colegas o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS).
Foto: José Cruz/ABr
Júlio Delgado (PSB-MG), o objeto da discordia entre PTxPMDB, abençoado ou não por Eduardo Campos
Mesmo com 271 Henrique Eduardo Alves, sentiu-se desprestigiado pela maciça votação do candidato oposicionista na campanha do socialista Júlio Delgado (PSB-MG), que teve 165 votos. Apesar de não ter o apoio explícito do presidente do partido, o Governador Eduardo Campos, todo mundo sabe que Delgado só saiu candidato com a benção tácita do pernambucano, que não deixa acontecer nada dentro do seu partido, sem a sua permissão e participação.

A grita foi geral, mesmo deputados considerados sem expressão não se furtaram a ecoar na reunião a insatisfação da cúpula do PMDB com o PT e a preocupação com o futuro da aliança em 2014.

— Quero falar da preocupação com os 271 votos de Henrique. Eu tinha certeza que seriam de 380 a 400. Temos que fazer uma reflexão se houve uma jogada por trás para desmanchar a chapa em 2014 de Dilma e Michel (Temer) — afirmou o deputado Celso Maldaner (PMDB-SC).

A articulação de Lula tem o intuito de tirar Eduardo Campos da disputa pela Presidência da República em 2014 fora do campo governista. Nos planos do ex-presidente, o PT apoiaria a candidatura do deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) para o governo de São Paulo, como compensação aos peemedebistas pela perda da Vice-Presidência. Esse desenho, no entanto, encontra resistência nos dois partidos.

Quando a conversa entre Lula e Dilma vazou, a presidente apressou-se em ligar para o vice-presidente Michel Temer para dizer que isso não estava em seus planos e que pretendia repetir a aliança em 2014. Já Lula ficou calado e não procurou a cúpula do PMDB.

Temer não quer abrir mão da vaga de vice, e essa troca não é considerada vantajosa para o partido, além de encontrar resistências no PT. Os ministros Aloizio Mercadante (Educação) e Alexandre Padilha (Saúde), além do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, desejam disputar o governo de São Paulo.

Já no PSB o clima é de desconforto com a articulação de Lula, já que tudo o que o partido não quer neste momento é ficar em segundo plano, pois sonha com voos políticos maiores. Aliados de Eduardo Campos afirmam que não foram procurados nem por Dilma nem pelo ex-presidente. Os socialistas estão cautelosos porque percebe que Lula age simplesmente para embolar o jogo, já que a articulação para tirar o PMDB da Vice-Presidência em 2014 é considerada difícil de ser implementada. E se fosse para valer, não teria vazado, pois numa conversa reservada entre Dilma e Lula, só vaza o que se quer que seja vazado.

2 de fev de 2013

Procurador Geral da República denuncia Renan por desvio de dinheiro e falsificação de documentos

BRASIL - Corrupção
Procurador Geral da República denuncia Renan por desvio de dinheiro e falsificação de documentos
Denúncia de Gurgel ao Supremo, revelada pela revista ÉPOCA, diz que o senador forjou notas fiscais para justificar operações com lobista – Renan responderá pelos crimes de peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos; pena pode chegar a 23 anos de prisão.

Foto: Antonio Cruz/ABr

Renan ocupando a cadeira de presidente do Senado, logo após ser eleito

Postado por Toinho de Passira
baseado no texto de Diego Escosteguy, para a Época
Fonte: Época

A reportagem de Diego Escosteguy, para a revista Época, conta de que Renan está sendo acusado pelo Procurador Geral da República, perante o Supremo Tribunal Federal. O post é um resumo da matéria atualizada após a eleição de Renan para a presidência do Senado, na tarde de ontem.

Os 81 senadores da República que elegeram Renan Calheiros, com 56 votos, contra 15 do seu adversário, como presidente da Casa escolheram para o cargo um colega denunciado na última semana pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal pelos crimes de peculato (desvio de dinheiro público, 2 a 12 anos de cadeia), falsidade ideológica (1 a 5 anos de cadeia) e uso de documento falso (2 a 6 anos de cadeia).

A revista ÉPOCA que teve acesso a denúncia do procurador diz que a acusação é devastadora. Roberto Gurgel afirma, na peça acusatória de 17 páginas, que o senador Renan Calheiros, apresentou, ao Senado da República, notas frias e documentos falsificados para justificar a origem dos recursos que o lobista de uma grande empreiteira entregava, em dinheiro vivo, à mãe de sua filha, a título de pensão. Está provado, finalmente, que Renan não tinha condições financeiras de arcar com a pensão – e que não fez, de fato, esses pagamentos à mãe de sua filha. De quebra, descobre-se na denúncia que Renan desviou R$ 44,8 mil do Senado. Nesse caso, também usou notas frias para justificar o desfalque nos cofres públicos.

Se condenado pelos três crimes no STF, o novo presidente do Senado poderá pegar, somente nesse processo, de 5 a 23 anos de cadeia – além de pagar multa aos cofres públicos, a ser estipulada pela corte. (Há, ainda, outros dois inquéritos tramitando contra Renan no STF.) A denúncia de Gurgel está no gabinete do ministro Ricardo Lewandowski desde segunda-feira. Caberá a ele encaminhar, aos demais ministros do STF, voto favorável ou contrário à denúncia. Lewandowski não tem prazo para dar seu voto.

A denúncia de Gurgel, fundamentada em anos de investigação da PGR e da PF, centra-se no episódio que deu início ao calvário de Renan, em 2007, quando ele era presidente do Senado e, após meses de incessantes denúncias, viu-se obrigado a renunciar ao cargo – mas não ao mandato.

Naquele ano, descobriu-se que o lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior, pagava, em dinheiro vivo, R$ 16,5 mil mensais à jornalista Mônica Veloso, com quem o senador tivera uma filha. No mesmo período em que o lobista Gontijo bancava as despesas de Renan, entre 2004 e 2006, a Mendes Júnior recebia R$ 13,2 milhões em emendas parlamentares de Renan destinadas a uma obra no Porto de Maceió – obra tocada pela mesma Mendes Júnior.

Abriu-se um processo no Conselho de Ética no Senado. Renan assegurou aos colegas que bancara a pensão do próprio bolso, e apresentou documentos bancários e fiscais que comprovariam sua versão. O dinheiro seria proveniente de investimentos do senador em gado. A denúncia da PGR derruba por completo a versão bovina de Renan – e mostra que, para se montar a versão fajuta, Renan cometeu muitos crimes.

“Em síntese, apurou-se que Renan Calheiros não possuía recursos disponíveis para custear os pagamentos feitos a Mônica Veloso no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2006, e que inseriu e fez inserir em documentos públicos e particulares informações diversas das que deveriam ser escritas sobre seus ganhos com atividade rural, com o fim de alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante, qual seja, sua capacidade financeira”, diz Gurgel na denúncia.

Para piorar: “Além disso, o denunciado utilizou tais documentos ideologicamente falsos perante o Senado Federal para embasar sua defesa apresentada (ao Conselho de Ética)”. “Assim agindo”, diz Gurgel, “Renan Calheiros praticou os delitos previstos nos artigos 299 (falsidade ideológica) e 304 (uso de documento falso), ambos do Código Penal.” Defesa com documentos falsosO procurador-geral Roberto Gurgel conclui que Renan não tinha como justificar, por meios legais, a renda para pagar pensão à filha que tem com Monica Velloso. Por isso, usou documentos falsos. Gurgel afirma que Renan cometeu os crimes de falsidade ideológica e de uso de documentos falsos.

Como Renan apresentara ao Senado extratos bancários capengas, sem identificação de entradas e saídas de recursos, a PGR conseguiu, com permissão do Supremo, quebrar o sigilo bancário dele. Uma perícia da Polícia Federal nas contas do senador apontou que “os recursos indicados por Renan Calheiros como sacados em dinheiro não poderiam amparar os supostos pagamentos a Mônica Veloso no mesmo período, seja porque não foi mencionada a destinação a Mônica, seja porque os valores destinados ao denunciado não seriam suficientes para suportar os pagamentos”. Em português claro: Renan não tinha saldo em conta para pagar a pensão, ao contrário do que alegara.

Nesse caso, os peritos da PF não deixaram margem à dúvida. Em 2009, esmiuçaram detidamente os documentos bancários e fiscais. Dos 118 cheques relacionados por Renan como fontes dos pagamentos da pensão, 66 foram destinados a outras pessoas e empresas, e outros 39 tinham como beneficiários o próprio senador.

“No verso de alguns destes cheques destinados ao próprio Renan, havia manuscritos que indicam o provável destino do dinheiro, tais como ‘mão de obra reforma da casa’, ‘reforma Barra’ e ‘folha de pagamento’, o que diminui ainda mais sua capacidade de pagamento”, escreve Gurgel.

Renan garantira ao Senado que sua “capacidade de pagamento” advinha de seus investimentos em gado. A investigação da PGR demonstra que a versão de Renan é um disparate fiscal, bancário e até mesmo matemático. Há discrepâncias na quantidade de animais vendidos, assim como nos destinos deles. Em 2006, por exemplo, as notas de Renan registram a venda de 765 animais, mas as chamadas guias de trânsito animal – um documento adicional a esse tipo de transação – informam que 908 foram transportados.

Ao confrontar datas e quantidades, peritos da PF descobriram que as informações de venda e entrega coincidem apenas no caso de 220 animais. Há mais irregularidades. Algumas guias de trânsito de animal apresentadas por Renan nem eram dele, mas de outros vendedores de gado. As notas fiscais apresentam falhas, como falta de selos fiscais de autenticidade, campos deixados em branco e informações rasuradas. Duas empresas que, segundo os documentos, teriam comprado gado de Renan, nem estavam habilitadas para isso – e estavam envolvidas em fraudes tributárias.

José Leodácio de Souza, que teria comprado 45 bois, negou, em depoimento, ter tido qualquer negócio com Renan – o que “confirma a falsidade ideológica dos documentos apresentados”, nas palavras de Gurgel.

Segundo a investigação da PGR, Renan não registrou quaisquer despesas com o custeio de suas atividades como pecuarista. É como se os 1.950 bois de Renan, por mágica, pastassem durante anos sozinhos, abandonados – sem precisar, por exemplo, do trabalho de peões ou veterinários.

“A ausência de registro de despesas de custeio (…) implica resultado fictício da atividade rural, o que explica a espantosa ‘lucratividade’ obtida pelo denunciado entre 2002 e 2006”, diz Gurgel.

Em 2002, Renan declarou lucros de 85% com os bois; em 2006, 80%. Era, presume-se, o rei do gado.

A PGR descobriu inconsistências semelhantes na evolução do patrimônio declarado oficialmente por Renan. A se acreditar nas declarações de Imposto de Renda do senador, diz a PGR, Renan viveria em regime espartano para os padrões de um senador. Mal teria dinheiro para “sua subsistência e de sua família”, diz a PGR. Em 2002, por exemplo, a família de Renan teria apenas R$ 2,3 mil mensais para viver. Em 2004, um pouco mais: R$ 8,5 mil mensais.

Renan não usou apenas bois para tentar justificar de onde tirava dinheiro para pagar a pensão da filha. Usou também uma empresa que pertence ao primo – e que recebia do gabinete de Renan por “serviços”. Trata-se da Costa Dourada, uma locadora de carros de Alagoas que está em nome de Tito Uchôa – este não apenas primo, mas também laranja de Renan em rádios e TVs. Renan, ainda para justificar como pagara a pensão da filha, disse ter recebido R$ 687 mil da empresa, por meio de supostos empréstimos.

A PGR descobriu, porém, que os empréstimos não foram declarados à Receita e que o dinheiro supostamente proveniente deles “não transitou pelas contas apresentadas”. No papel, Renan recebia mais dinheiro da Costa Dourada do que o lucro que a empresa tinha.

Em 2005, por exemplo, Renan recebeu R$ 99,3 mil da Costa Dourada – mesmo ano em que a empresa declarou lucro de R$ 71,4 mil. E quanto aos supostos empréstimos da Costa Dourada a Renan, contraídos em 2005? Não foram pagos pelo senador. “Passados mais de três anos desde o início dos empréstimos, não houve registros de pagamentos ou amortizações parciais dos recursos”, diz Gurgel.

A PGR descobriu muito mais, após quebrar os sigilos bancários dos envolvidos: havia saques, em espécie, das contas da Costa Dourada, enquanto a empresa supostamente prestava serviços ao gabinete do senador. O dinheiro saído da conta do Senado ia para a conta da empresa do laranja de Renan, era sacado em espécie – e sumia. As gambiarras entre Renan e a empresa do primo-laranja levaram a PGR a descobrir outro crime cometido pelo senador: peculato, ou desvio de dinheiro público.

“No curso deste inquérito, também ficou comprovado que, no período de janeiro a julho de 2005, Renan Calheiros desviou, em proveito próprio e alheio, recursos públicos do Senado Federal da chamada verba indenizatória, destinada ao pagamento de despesas relacionadas ao exercício do mandato parlamentar”, diz Gurgel na denúncia.

Era um esquema prosaico. O gabinete de Renan desviava recursos da verba indenizatória e apresentava ao Senado notas fiscais da Costa Dourada. No total, R$ 44,8 mil. Ao analisar as contas bancárias da Costa Dourada e de Renan, porém, a PGR nada encontrou.

“Não há registro de pagamento e recebimento dos valores expressos nas referidas notas fiscais, o que demonstra que a prestação de serviços não ocorreu (…) servindo apenas para desviar os recursos da verba indenizatória paga pelo Senado Federal”, diz Gurgel. E onde foi parar o dinheiro do Senado?

A PGR não conseguiu descobrir ainda. Por quê? Porque o Senado recusou-se a fornecer os documentos que comprovariam o destino dos recursos. Para a PGR, “o denunciado (Renan) praticou o delito previsto no artigo 312 (peculato), do Código Penal”.

O Senado não se recusou apenas a encaminhar ao Supremo as provas sobre o destino da verba indenizatória de Renan. Sequer encaminhou a íntegra da papelada fornecida por Renan ao Conselho de Ética para justificar o patrimônio, conforme pedira a PGR. Diante da postura do Senado, Gurgel pede na denúncia que o Supremo ordene à Casa que envie a documentação necessária ao avanço das investigações.

Desde que as primeiras acusações sobre seu patrimônio vieram a público, Renan mantém sua inocência. Mesmo com o acúmulo de evidências contrárias à versão dele, Renan insiste que o dinheiro para pagar a pensão de sua filha não viera da Mendes Júnior – e, sim, dos tais rendimentos que ele teria obtido com a venda de gado. Entre 2003 e 2006, esses investimentos teriam lhe rendido R$ 1,9 milhão.

Na semana passada, após se descobrir que Gurgel apresentara a denúncia à qual agora ÉPOCA tem acesso, Renan afirmou em nota:

“Ela (a denúncia) padece de suspeição e possui natureza nitidamente política. A denúncia foi protocolada exatamente na sexta-feira anterior à eleição para a presidência do Senado Federal. Trata-se de atitude incompatível com o habitual cuidado do Ministério Público no exercício de suas nobres funções”.

Renan disse ainda que foi ele quem solicitou as investigações ao Ministério Público e à Receita Federal, e que forneceu os documentos (“todos verdadeiros”), além de sigilos bancário, fiscal e telefônico. “O senador Renan Calheiros lamenta a injustificável demora e agora a acusação, já julgada pelo Senado Federal, também será apreciada pelo Supremo Tribunal Federal, num ambiente de imparcialidade”, diz a nota.
*Acrescentamos subtítulo, foto e legenda a publicação original, resumimos e atualizamos parte do texto

Sem argumentos, de Merval Pereira, para O Globo

BRASIL - Opinião
Sem argumentos
“Até ser denunciado pelo Procurador-Geral da República, Renan Calheiros tinha um discurso bem montado...”

Foto: Antonio Cruz/ABr

Renan Calheiros comemorando a sua vitória para presidente do Senado

Postado por Toinho de Passira
Texto de Merval Pereira, para O Globo
Fonte:

O melhor argumento do senador Renan Calheiros para o retorno à presidência do Senado, sete anos depois do escândalo que o apeou do mesmo cargo, era que já havia sido absolvido pelo Conselho de Ética e que nenhuma denúncia da época havia prosperado, por falta de base. Era inocente, portanto, e tinha o caminho livre para reassumir o cargo que lhe fora tirado indevidamente.

Essa conversa ainda poderia prosperar até que o Procurador-Geral da República o denunciasse criminalmente, poucos dias atrás, justamente pelas provas que apresentou para justificar a capacidade de pagamento de uma pensão alimentícia de um filho fora do casamento.

Com essas notas de vendas de gado, que estão sendo apontadas como frias, Calheiros queria provar que não precisava pedir a um lobista amigo ligado à empreiteira Mendes Junior para pagar a pensão de seu filho, conforme a acusação original.

Estamos, portanto, de volta à estaca zero. As mesmas denúncias que levaram o senador alagoano a renunciar à presidência do Senado poderão transformá-lo em réu de uma ação criminal, o que virtualmente o impediria de continuar presidindo a Casa. Pelo menos nunca houve um caso desses para se contar.

Até ser denunciado pelo Procurador-Geral da República, Renan Calheiros tinha um discurso bem montado, que previa superar as desconfianças generalizadas fazendo uma administração “transparente” no Senado. No entanto, com as acusações contra ele retornando ao centro do cenário político, o mais difícil para ele será ser “transparente”.

Tanto que até hoje, dia da votação, não anunciou oficialmente que é candidato, embora tenha negociado com os partidos, por baixo dos panos, a composição da Mesa Diretora. E teve que recorrer a um expediente restritivo para impedir que seus pares se pronunciassem na hora da votação. Apenas os candidatos poderão fazer discursos, e os senadores dissidentes pretendem se anunciar candidatos para terem possibilidade de registrar seus protestos. Na internet, no entanto, já são quase 300 mil assinaturas contra sua indicação.

Mesmo que aleguem que o regimento interno determina que a eleição ocorra desta maneira, não é tradição do Senado impedir que qualquer de seus membros se pronuncie, o que prenuncia uma administração que começa tendo que se utilizar de métodos autoritários para poder se impor. Dificilmente o senador Renan Calheiros terminará seu mandato novamente, pois no decorrer das investigações – se o STF aceitar a denúncia do Procurador-Geral – surgirão fatos novos que o colocarão permanentemente em primeiro plano, e não por motivos nobres.

Ao mesmo tempo, sua candidatura deu à oposição a oportunidade de exercer sua função, mesmo que aparentemente a contragosto. O PSDB viu-se acuado pela opinião pública a se mover em direção oposta à candidatura oficial, apoiando a dissidente do senador Pedro Taques, do PDT. Mas o fez principalmente para se igualar ao PSB, que saiu da candidatura oficial da base como mais um passo para criar um espaço próprio de atuação.

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, passou a fazer críticas diretas à preponderância do PMDB na coligação oficial, dando a impressão de que disputa com ele essa posição, realçada pela vice-presidência da República. Mas o governador deixa claro com quem conversa que não está em busca de um cargo, mas de uma posição política mais independente.

Da mesma maneira trata a candidatura dissidente na Câmara do socialista Júlio Delgado, que não tem chance de vencer, mas serve para marcar uma posição também na Câmara. Os primeiros movimentos para a sucessão presidencial foram feitos pela presidente Dilma Rousseff, que se adiantou não apenas para controlar os que, dentro do PT, querem a volta de Lula, como para constranger seus aliados, especialmente o PSB.

Mas o efeito foi contrário, e Campos sentiu-se desimpedido para colocar-se em campo, sem ainda ter oficializado sua candidatura, mas cada vez construindo-a com mais afinco. Atribui-se ao ex-presidente Lula uma manobra que colocaria Eduardo Campos na vice da chapa de Dilma, e daria ao PMDB a chance de concorrer ao governo de São Paulo com o PT na vice. É uma armação política engenhosa, que testará a real intenção do governador de Pernambuco.

A rendição do Congresso ao chiqueiro da política

BRASIL – Escândalo - Corrupção
A rendição do Congresso ao chiqueiro da política
Com um terço de seus parlamentares acusados criminalmente, o Congresso de Renan e Henrique dá sinais de preferir a imundície ao asseio das normas impostas pela moralidade pública – diz o indignado editorial do site Congresso em Foco nas vésperas das eleições da mesa diretora da Câmara e de Senado
“chiqueiro (sentido figurado) – casa ou lugar imundo”

Foto: O Globo

O Movimento Brasil Contra a Corrupção, fincou no pátio do congresso, centenas de vassouras e material de limpeza sugerindo a necessidade de uma faxina no parlamento. O site Congresso em foco, comenta que “no Congresso, cidadãos sob suspeita abusam da paciência de um povo tolerante demais com políticos bandidos.”

Postado por Toinho de Passira
Editorial do Site Congresso em Foco
Fonte: Congresso em Foco

Sintomático que o presidente do Senado, José Sarney, tenha proibido a manifestação contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), convocada por várias entidades.

Os manifestantes pretendiam fazer, na véspera da eleição da mesa diretora, a lavagem simbólica da rampa do Senado para expressar a indignação que levou, mais de 250 mil brasileiros a subscrever o abaixo-assinado contra a volta de Renan à presidência do Senado.

O problema é que limpeza é algo que não combina muito com o Congresso. Nas últimas duas décadas, ele proporcionou seguidas demonstrações de afronta aos cidadãos que custeiam suas bilionárias despesas (perto de R$ 8 bilhões no ano passado): escândalo do orçamento em 1993, compra de votos para aprovar a emenda da reeleição em 1997, violação do painel em 2001, mensalão em 2005, sanguessugas em 2006, farra das passagens e atos secretos em 2009… a lista é infindável.

Mas sempre pode ser enriquecida, aumentando o tamanho dos golpes contra a cidadania, prova agora o processo em curso de eleição das Mesas do Senado e da Câmara. Estamos diante de uma daquelas tristes situações que nos levam a constatar que, em se tratando do Congresso brasileiro, sempre é possível piorar.

Exemplar é o caso de Renan. Na iminência de receber a maioria folgada de votos dos seus pares, foi até agora incapaz de esclarecer as denúncias que, seis anos atrás, o obrigaram a renunciar à presidência do Senado para preservar o mandato de senador.

Reconduzir Renan ao posto, antes de eliminar todas as dúvidas quanto à sua conduta, põe sob suspeita todo o Legislativo. Um poder que já apresenta um gigantesco passivo no que se refere ao “controle interno” dos seus integrantes e das suas ações. E daí? O Congresso, que tem um terço de seus parlamentares às voltas com acusações criminais, continua a dar sinais de preferir a imundície dos chiqueiros ao asseio das normas impostas por aquilo que, algo pomposamente, poderíamos chamar de moralidade pública.

Com menos pompa, poderíamos dizer que se espera atenção a pelo menos duas normas básicas: não roubar o dinheiro dos contribuintes e investigar ou colaborar com a investigação de crimes contra a administração pública, sobretudo quando os acusados forem deputados e senadores.

Oposta é a regra que prevalece no Congresso. Ali, cidadãos sob suspeita gozam de proteção oficial, tapinhas solidários nas costas, carro e despesas pagas pelo erário, e abusam da paciência de um povo que demonstra excessiva complacência em relação a políticos bandidos.

Desfilam pelos corredores do Legislativo desde políticos condenados a prisão até a espantosa figura de Paulo Maluf, alvo de um mandado da Interpol que lhe impede de pisar em qualquer outro país do mundo, sem ir imediatamente para a cadeia, mas que pode, legalmente, ser deputado no Brasil.

A precária mobilização popular, muito aquém do tamanho dos desaforos que o Parlamento tem metido pela goela abaixo da sociedade, contribui para o escárnio não ter fim.

Apoiado por todos os grandes partidos, inclusive da oposição, é dado como favorito na disputa da presidência da Câmara outro político sob fortes suspeitas, o atual líder peemedebista, Henrique Eduardo Alves (RN).

Questionados sobre possíveis desvios de conduta, ele e Renan reagem de modo semelhante. Ignoram a denúncia, ao mesmo tempo em que instruem adversários a atribuir os graves questionamentos que lhes são feitos a meros preconceitos contra nordestinos.

Esta, aliás, é uma das imbecilidades preferidas da meia dúzia de militantes pró-Renan que nos últimos dias tenta infestar este Congresso em Foco com centenas de comentários, invariavelmente usando nomes falsos e termos ofensivos.

Como não há limites para o abismo moral, o PMDB, outrora valente combatente da ditadura e hoje confortável abrigo para novos e velhos suspeitos, prepara-se para eleger como líder outro parlamentar sob investigação, Eduardo Cunha (RJ). Também deve explicações à Justiça seu rival na disputa, Sandro Mabel (GO).

Em comum a Renan, Henrique, Eduardo Cunha e Mabel, a facilidade com que se aliam aos governos de plantão, sempre multiplicando os instrumentos a serviço de um tipo de política que, definitivamente, não cheira bem.

O Congresso em Foco sente-se no dever de manifestar perplexidade diante de tudo isso e se colocar à disposição dos brasileiros que pretendem ver um Congresso radicalmente diferente. Afinal, fazemos jornalismo na esperança de contribuir para as coisas mudarem para melhor – não para pior.